Um novo caminho
Posted by Sutra under Diário on Tuesday Oct 13, 2009Caminhava sozinha pela passeio que rodeava a praia. Sozinha. Como pensava que teria de ser naquele momento. Fugia a qualquer relacionamento por sentir que esse era o caminho certo a seguir naquela fase da sua vivência. Por mais que se cruzassem homens na sua vida, desejosos de a conhecer, de a apertar entre os seus braços, não era isso o que pretendia para si naquela difícil encruzilhada. Muito menos para eles. Por saber que não lhes poderia dar mais do que um corpo. Não aquilo que alguns mereciam. Outros, nem sequer o corpo ou um digno pensamento. Só havia uma razão: não buscava sexo. Nem tampouco qualquer sentimento que a prendesse como na última relação que havia tido, na qual entregara corpo, alma, coração e vida. Queria amizade. Conviver, conhecer e ir o mais longe que pudesse alcançar, sem que qualquer amarra a prendesse. Mas queria ser entendida. De forma profunda. Única. Sem qualquer interesse que não fosse o de um ser humano.
Pensou em Filipe. Um conhecido de apenas há poucos meses. No modo como do simples cruzar de olhares num dos bares mais badalados de Lisboa, passaram ao conhecimento, saindo sozinhos do bar nessa noite e caminhando pelas docas numa conversa que durou até de madrugada. Na despedida, mais do que ver, sentiu no seu olhar a vontade querer ir mais longe. Não pôde. Não conseguiu. E o simples beijo que mal lhe roçou os lábios, não se transformou na ânsia incontida que tantas vezes a dominara, em inúmeras ocasiões.
Recordou António. Dias, semanas, meses de conversa amena e divertida pelo msn, apesar da insistência dele em conhecê-la. Até ao momento em que começou a pressioná-la para se conhecerem e concretizarem o sonho dele. Dele. Sem sequer se perguntar se ela o desejava da mesma forma. Se ela pretendia esse tipo de relacionamento. Acabou por a perder sem se dar conta. Nunca chegara a conhecê-la. A musa que dizia inspirá-lo soltara-se da insustentável asfixia a que a sujeitava ingenuamente.
Paulo? Poderia ter sido mais do que uma bela amizade se o tivesse conhecido noutra época. Quando ainda era crédula no sentimento masculino, na sinceridade. Não agora transformada num ser desconfiado da real existência daquilo que imaginava existir na espécie masculina. Paulo tinha tudo o que desejava num homem. Sabia-o. Transmitia confiança, carinho, paixão, amizade. Mas era tarde demais. Quem sabe noutra reencarnação. Existiria?
Manuel, aquele que inventava mil estratagemas para ter a atenção dela concentrada apenas em si mesmo. Apesar de terem deixado de resultar quando ela se apercebeu das suas maquinações. Confundiu-a o facto de se saber alvo desse tipo de engenhos. Não era necessário. As pessoas valem pelo que são e pelo que fazem. Pelas suas acções. Não pelo que dizem ser ou dizem fazer.
Pedro, João, Carlos, Fernando, Xico, Ricardo, Nuno, José, Diogo, Rui. Nomes. Pessoas. Um desfilar de rostos que iam desde o simples conhecimento, passando pela amizade, chegando ao affair, terminando em namoro, e até… Sim! Porque não admiti-lo? Quase casamento.
Olhou o mar e tentou sorrir. Mas o sorriso não lhe chegou aos olhos. Era apenas um esgar num rosto marcado pelo sulco de lágrimas. Descalçou as sandálias e caminhou pela areia até chegar às ondas que lhe beijavam os pés.
Enrolada numa onda veio bater-lhe nos dedos uma concha em tons de rosa. Baixou-se, pegou nela e rodou-a entre os dedos. Brilhava com os raios fracos, daquele que já se despedia no horizonte em tons de fogo. Apertou-a com força na palma da mão. Olhou de novo o mar. Ergueu um braço e atirou-a com força, vendo-a mergulhar nas águas agitadas daquele final de Setembro.
Permaneceu de olhar perdido no horizonte até o sol desaparecer.
Depois…
Virou-se, ergueu os ombros e caminhou, decidida, costas direitas, até sair da praia. Quando terminou de se calçar, já no passeio, olhou o mar uma última vez, por cima do ombro e despediu-se da praia.
Tal como fizera com a concha, também ali deixara a sua vida, atirando-a com força às ondas do mar revolto.
Iniciou a nova caminhada.
© Sutra 2009



