História de Ana – Diálogos

Posted by Sutra under História de Ana on Friday Oct 30, 2009


Diálogo entre Anna e o meu eu [Ana]


- ( ocorrido em inícios de 2009, muito tempo depois de ter abandonado «o lugar» ) –



- Importas-te de parar com isso?

- Porquê? Incomodo-te?

- Já cá faltava o discurso habitual e a palavrinha do costume. Porque não sais de mim?

- Tu és a Anna.

- Não, estás enganada. Tu és a Anna, eu apenas fui a Anna durante um tempo. Mas não tinhas o direito de permanecer.

- Sim tinha todo o direito, porque em tempos gostaste de ser eu. Agora, sou eu quem te domina.

- Não quero que o faças! Não te apercebes que por me fazeres ser tu levas a que esteja a perder um dos amigos mais importantes para mim nos últimos tempos?

- Eu? Achas mesmo que fui eu? Ou foste tu com todos os teus medos?

- A Anna és tu, não eu.

- A Anna era quem tu querias que ela fosse. A personagem que criaste há pouco mais de um ano deixou de ser tua propriedade. Desprezaste-a durante muito tempo, achando que ela já não te faria falta.

- E não faz.

- Então porque a foste buscar de novo? Porque me acordaste novamente e me fizeste entrar em ti? Para agora quereres fugir?

- Não posso agir de outra forma. Tu assustas-me quando te tornas nessa figura que desconheço. Eu não te fiz assim.

- Fizeste, quando me criaste, mesmo sem te dares conta. Agora és minha. Tu és a minha marioneta.

- Não, Anna.

-Sim… Anna.

- Não quero!!

- Então, luta contra mim! Mostra o que realmente queres.

- Não posso…

- Porquê?

- A tua face estragou tudo, o teu feitio, essa personalidade estranha que me atormenta e deixa os outros sem saber quem sou ou…

- Mas eu sou como me moldaste. Na altura convinha-te, não te recordas?

- Mas não devias ter invadido a minha vida nesta altura. Vieste estragar tudo!

- Eu? Ahahahah!! Estragar o que já estava estragado? O que nunca existiu?

- Pára! Pára!

- És patética…

- Mas sou sincera!

- És mesmo? Então porque me usaste? Porque usaste a Anna? Porque te convinha seres a Anna?

- Por dentro nunca fui a Anna, sempre fui eu mesma.

- E quem sou eu afinal? O monstro que tu criaste?

- …

- Sabes o que acho mais engraçado e me faz sorrir mais no meio de tudo isto? O facto de que quem teve o [des]prazer de te conhecer, ou a Anna, a personagem que criaste, eu, poder pensar que és bipolar! Ahahah! Ou ainda: que és louca! Onde já se viu alguém conversar com a sua personagem? Ou complexa!

- Eu sei que podem pensar isso… por isso, sai de mim, por favor. O que fizeste hoje foi demasiado. Ultrapassaste todos os limites da sanidade.

- Eu não, minha querida. Foste tu. Não esqueças que tu és a Anna. Ahahah!

- Só o sou porque tu não me deixas em paz! Por favor… desaparece! Deixa-me viver.

- Hum… vou pensar! Talvez te ofereça um presente de… Carnaval?

- Por favor…

- Mas deixa-me fazer-te uma pergunta: se eu te deixar, vais assumir-te como tu mesma? Vais deixar a Anna desaparecer de vez? Não me vais chamar novamente?

- Não o quero. Não tenho gostado nada de me ver reflectida no espelho nos últimos dias. E isso é porque te vejo a ti, Anna.

- Vou pensar.

- Então, pensa, reflecte. E faz a melhor escolha, deixando-me ser feliz, sem o tormento de te ter dentro de mim. Agora acho melhor sairmos daqui, Anna, porque nós já estamos em 2009 e esta história ainda vai em Dezembro de 2007.

- Está bem, Anna.

- Não, Anna, não.

- Ok, TU.

A.


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A História de Ana – IV

Posted by Sutra under História de Ana on Monday Oct 26, 2009

Capítulo IV

Pensei em escrever esta história cerca de um ano depois dos primeiros factos, um ano após o meu nascimento como Anna. Mas fui adiando dia após dia, até que resolvi fazê-lo em definitivo agora, cerca de um ano e poucos meses depois desse mesmo início. Porque tenho necessidade de o fazer. Algo definitivo acontecerá depois de a escrever e não quero, nem vou, vacilar perante decisões que já tomei a esta altura da minha vida.

Devido a ter decorrido todo este tempo, tenho alguma dificuldade, por vezes, em descrever de modo correcto e sequencial, todos os acontecimentos. Nem sempre é fácil situar-me no tempo. Acontecia tudo tão rapidamente naquele lugar que me perco, por vezes, andando para diante e recuando, tentando interligar os factos e as datas em que ocorreram, sem contudo conseguir sempre com o êxito que gostaria. Na verdade, o facto de ter mantido um contacto regular com alguns dos personagens, ajuda a que me confunda nas datas. Além do mais, as palavras vão sendo escritas à medida que saem aos borbotões da minha memória. Não as contenho nem tampouco as analiso.

Por isso, recuando um pouco, deixem que me recorde dos acontecimentos até ao fim da relação com Alex.

A noite com OPeter foi combinada com um ou dois dias de antecedência. Disse-lho abertamente que não queria virar as costas sem estar com ele durante algumas horas e ‘saborear’ aquilo que fazia com que algumas mulheres corressem para ele e o considerassem um ‘deus’. De pés de barro, acreditem, eu disse logo no início que eram meras aparências. Abria a boca e, por mais que se espremesse não saía nada que despertasse interesse para uma boa conversa. Sexo e nada mais. Nisso ele era bom, ou razoável, no resto, bem, era melhor manter a boca fechada.
Não há dúvida que foi uma noite extraordinária, principalmente o facto de sentir a sua voz quente a roçar o meu ouvido. Sabia como conduzir ao prazer, sabia como tocar em cada nervo, como suscitar mais interesse, mais vontade. O meu corpo foi um instrumento nas suas mãos, onde se regalou a dar-me um prazer alucinante. Eu, deixei-me conduzir pelos seus dedos, pelo seu prazer e toquei cada pedaço da sua pele; a minha boca provou o seu gosto, os meus sentidos dançaram ao seu ritmo e atingi picos de prazer extraordinários. Mas o tesão que sentimos não se ficou por ali e no dia seguinte, a vontade em repetir era imensa.

Alex ficou a saber com quem tinha sido e chateámo-nos naquela noite. No entanto, para mim, já tudo tinha passado. Na altura em que ele me deixava plantada e seguia em busca dos abraços das amigas, ou da amiga em especial, não se incomodava com o facto de desaparecer e deixar-me só. Essa sua atitude foi matando silenciosamente qualquer sentimento que existia em mim. É essa a minha forma de reagir. O que me magoa, mata o sentimento e, silenciosamente, vou retraindo o que sinto, vou-me afastando mesmo que não fisicamente, mas sinto que me vou distanciando. Para não permitir a continuidade da mágoa. A Anna é assim. Eu também. É uma das muitas coisas que temos em comum.

A atitude de Alex, demonstrando a sua raiva, fez-me afastar ainda mais e aproximar de OPeter. Porque o que queria eram risos e não discussões ou amuos. Era muito mais que machismo, era raiva e ódio, porque ele não podia suportar que tivesse sido OPeter aquele com quem eu queria estar. Detestei essa atitude, principalmente porque, na aparência, davam-se bem. Homens!!
O certo é que me pediu um tempo para pensar. E, para variar, eu não dou ‘tempos’. As coisas que têm de se resolver têm de o ser de imediato, pela via do diálogo. Não de outra forma. Não com a distância, em que cada um fica a pensar e a interpretar a seu modo. A Anna nem sempre concorda comigo neste aspecto. Mas eu sou assim. Mesmo sendo eu a Anna.
Esse foi o fim do relacionamento com Alex e, quando lhe disse que não havia volta a dar e que era melhor ficarmos assim como amigos, pediu para não me precipitar e que ele apenas tinha ficado magoado, mas que lhe passaria. Para mim era já tarde demais. Além disso, estava a saborear o prazer da liberdade.

Por mais importante que Alex tenha sido para mim, o relacionamento além da amizade era impossível ser reatado. Guardo até hoje, com imenso carinho, todas as lembranças que ele me deixou, porque é uma pessoa extraordinária. Levá-las-ei comigo para onde eu for, quando for.


A.

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História de Ana – III

Posted by Sutra under História de Ana on Thursday Oct 22, 2009

Capítulo III

As escapadelas com Alex, até à praia mais isolada não eram raras. Num ápice chegávamos, dávamos uns mergulhos, nadávamos lado a lado, entre beijos, abraços e muito carinho. Depois corríamos pela areia, estendíamo-nos na nossa cama e dávamos início à viagem pelos contornos dos nossos corpos. O meu prazer na sua boca, o seu na minha pele, latejante, voluptuoso. As palavras dançantes entre bocas que se devoravam. A experiência dele – casado, professor, pai – a minha, imaginariamente, recém-saída de uma relação difícil e traumática. As suas mãos nos meus seios, a boca que me mordia, o pénis que me invadia, a forma como me agarrava e me fazia enrolar as pernas na sua cintura, a sua rigidez dentro do meu corpo, insistente, tudo me fazia delirar e querer cada vez mais do que ele me oferecia. No fim as conversas, abraçados carinhosamente.
Assim seguia Anna – eu – pelos caminhos da paixão, da insanidade pecadora; traições, fantasias, luxúria, actos cometidos ao abrigo da escuridão das madrugadas. Todos traíam alguém, nem que fosse a si mesmos. Cada vez estendendo-se por mais horas. O início do mergulho no vício, aquele que eu dizia que nunca iria atingir mas que começava a tomar conta de mim.
Os sons das vozes arfantes, os gritos de orgasmos, femininos e masculinos. Os meus e os dele. Até aí intervenientes apenas nas relações a dois, mais tarde também como voyeurs em salas aglomeradas de gente que assistia a sessões de sexo ao vivo.
Anna e Alex.
Não me leves a mal se vieres aqui e te reconheceres nestas palavras, poucos ou nenhuns saberão que és tu aqui retratado. Mas esta é a minha história e apenas eu a posso contar, porque só eu a conheço assim. Real. Verdadeira. Única.

É tão curioso ver como cerca de ano e meio de vida muda tanta coisa. Neste momento, Alex já nem faz parte da minha vida. Da Anna. Para ele sair não demorou mais do que apenas alguns meses. Talvez porque a forma como se vivem algumas relações é tão intensa que se torna fugaz. Demasiado fugaz.
Naquele tempo era a loucura que inundava o corpo e a mente. O corpo primeiro, pela luxúria, pelo percorrer dos dedos na pele, o desejo que brilhava nos olhos imaginados de cada um de nós.
Mas o relacionamento alterou-se com a sua demonstração de ciúme. A sua possessividade.
Se no início me incomodava sempre que buscava as suas amigas e me deixava plantada sozinha à sua espera, no final, era-me totalmente indiferente o que dizia ou fazia.
- Volto já, deixa-me só ir cumprimentar a fulana X, Y, Z, não saias daqui!
Era o que me dizia. E lá partia de modo rápido, enquanto eu esperava placidamente, como uma boa menina. Normalmente a amiga era sempre a mesma: a sua anterior paixão, a que o marcara como tendo sido o seu primeiro amor ali. Tal como ele era o meu.
Mas cansei-me de todas estas suas atitudes e, em pouco tempo, deixaram de me irritar, de me incomodar. O culminar desta situação foi no dia em que me comunicou que gostaria ainda de passar uma noite com a dita ‘amiga-ex-amor’. Decidi que seria essa a última vez que me atingiria. Se fiquei indiferente? Não. Apenas passei a silenciar o sentimento e a retirar o máximo proveito do que mais importava: o desejo e a paixão.
Amor? Não existia. Somente a relação de duas pessoas que se davam muito bem como amigas, entre as quais existia paixão e desejo. Anna apaixonada? Seria de rir. A Anna não foi feita para se apaixonar. Apenas para existir, viver, usufruir.
Implacavelmente, a mudança ocorreu em ambos, mas em sentidos opostos. À medida que me desligava mais do que ele fazia ou não nas suas horas vagas com as amigas, mais ele se prendia a mim, tornando-se mais possessivo, mais ciumento. As minhas palavras passaram a sair da sua boca e não da minha. Os meus gestos passaram a ser os seus.
Era o princípio do fim e nenhum de nós tinha consciência disso.

A par da instabilidade da relação com Alex, surge Mare que me arrasta pela aprendizagem do seu idioma quente. O castelhano penetrou-me a alma e fez-me querer aprender mais e mais. Gostava de saborear cada palavra que, com ele, aprendia. Recordo a primeira vez que me dirigiu a palavra. A música tocava alto e eu dançava à beira da pista, numa dança que interiorizava muito do que sentia na altura. De olhos semi-fechados, deixava-me embalar pelos sons que saíam de cada canto e movia o corpo ao seu ritmo. Não recordo o que me perguntou, apenas que trocámos algumas palavras, poucas, sem que eu saísse de onde me encontrava.
No dia seguinte encontrámo-nos de novo. E nos outros a seguir. Surgiu como uma pequena amizade que se foi estendendo ainda durante o relacionamento com Alex, transformando-se mais tarde em atracção, desejo, sexo. Mas muito mais tarde. Todo aquele ambiente era propício a isso.
Mas na altura em que estava com o Alex, sempre existiu apenas amizade entre mim e Mare. Com ele, fui aprendendo o castelhano, falado e escrito, com horas intermináveis em que a sua paciência parecia inesgotável, para me ensinar e corrigir todos os erros que cometia.

O fim do que tínhamos, Alex e eu, surgiu inesperadamente quando a imagem de OPeter como homem sexualmente atraente, regressou à vida de Anna. À minha, portanto.
E o que se passou em certo dia pôs termo à relação que tinha com Alex.
Sentia vontade de abandonar aquele espaço. Sentia uma espécie de cansaço que não sabia determinar e andava indecisa se deveria sair ou não. Por outro lado poderia manter-me apenas como mera observadora e não participante. Decidi, por fim, que seria esta a solução. E, quando o decidi, comuniquei-lhe que iria fazer a minha despedida.
Mas, tal como ele, Alex, queria fazer a minha despedida com alguém sobre o qual tinha ganho alguma curiosidade, dado que a primeira vez nem tinha apreciado bem a sensação e, apenas com o decorrer do tempo me pareceu que poderia ou não ser algo mais erótico, forte, sexual, do que o romance apaixonado que tivera com Alex. Claro que ele se insurgiu com a ideia e ficou amuado. Tipicamente masculino, machista. Limitei-me a ser sincera e a expressar o que sentia vontade, tal como ele fizera pouco mais de um mês antes dessa data. Não gostou, tal como eu não havia gostado. Com a diferença que eu nunca lhe disse para não o fazer, ao contrário do que as suas palavras continham.
– Entendes agora o que senti da outra vez, Alex?
– É a tua vingança?
– Não, não é. É uma vontade, curiosidade. Somente isso, nada de paixão, de coração a bater mais forte.
– Então não me digas com quem o queres fazer.


Não lho disse antes.
Mas ele soube-o mais tarde.
– Era a última pessoa com quem podias ter ido, foste logo com ele: o que tem a mania que é garanhão.
– Sim, fui com ele.

Era por ele que sentia curiosidade: OPeter.
Fui e gostei. Foi divertido, foi erótico. Satisfez-me o corpo, foi uma noite louca até de madrugada. Desejei-o e tive-o. Disse-me que há muito que tinha vontade de estar comigo mas que a minha relação com Alex sempre o tinha impedido de dar o primeiro passo. Provavelmente as mesmas palavras que dizia a qualquer mulher que se atravessava no seu caminho. Mas isso pouco me importava porque não nutria qualquer sentimento amoroso por ele. Era um corpo de homem que me satisfazia. Apenas isso.

O tempo do relacionamento com Alex foi o mês de Novembro e pouco se estendeu por Dezembro. Foi nesse último mês de 2007 que terminou o relacionamento com Alex, já depois de lhe comunicar que iria viver e trabalhar em Lagos. Falso. Foi uma forma de evitar o aprofundamento de um relacionamento que ele desejava e eu não. Com a situação causada pela noite com OPeter, estava ditado o fim definitivo.


A.

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Men’s Brain Women’s Brain

Posted by Sutra under Diário on Wednesday Oct 21, 2009

Não resisto a colocar isto, é bom demais!!

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História de Ana – II

Posted by Sutra under História de Ana on Monday Oct 19, 2009

Capítulo II

Conheci o OPeter naquela primeira noite. Foi o meu primeiro contacto, o meu guia. O meu professor. Com ele descobri alguns dos encantos do lugar, mas não me seduziu. No dia seguinte já nem recordava o seu nome.
Convenhamos, o seu nome não era OPeter. Nem sempre direi os nomes reais, aqueles pelos quais conheci as pessoas com quem me cruzei. Mas andarei tão próximo, como talvez a inicial do nome, quem sabe até poderei enganar propositadamente com a verdade. Não é de me reconhecerem a mim que tenho receio, nem o de se reconhecerem a si mesmos, caso algum dia se cruzem com estas linhas e as leiam na sua totalidade. É o de serem reconhecidos por outros que por aqui passem. Ver-nos reflectidos pelas palavras, pelos sentidos dos outros pode ser o céu ou o inferno. E confesso que nem sempre terei boas palavras para falar de cada um daqueles que se cruzaram no meu caminho, ao longo deste tempo em que tenho sido eu, a Anna.

O OPeter era o típico homem habituado a seduzir, criando uma imagem de cavalheiro amável, atencioso, espirituoso, alegre, simpático. Não que não o fosse. Era-o. Mas com a singularidade de pretender evidenciar ainda mais essa sua faceta.
Amavelmente dispunha-se a acompanhar cada corpo feminino virginal nas deambulações por ruas desconhecidas. Jovens que se entusiasmavam com guia tão sedutor, viril e de conversa aparentemente interessante. Mas aparência apenas. Lá está, nunca nos devemos guiar pelo que apenas o olhar fugidio capta. O que realmente interessa só com um olhar observador se atinge.
Neste caso, a sua conversa interessante era, infelizmente, de curta duração, com vocabulário limitado e nível de diálogo ainda mais reduzido. As conversas não podiam ser muito duradouras, devido ao risco de repetição de tema, das mesmas frases, das mesmas palavras. Mas pelo menos em sexo, ainda escapava. Do tipo conversador, provocador, incitante. Era o que lhe valia.
Mas, como disse, após o primeiro encontro, a primeira noite, até do seu nome esqueci. Viria a recordá-lo mais tarde. O OPeter teve um papel preponderante durante algum tempo, mas não desde logo.

Nessa primeira noite, senti mais o prazer da curiosidade satisfeita do que o do conhecimento daquele que me havia guiado.
Iniciava-se a descoberta. Iniciava-se o tempo. O meu tempo.
Estava a dar os primeiros passos da minha existência ali, num lugar.
Após a primeira experiência com o OPeter, logo surgiram as buscas por novos focos de interesse. Entradas e saídas de edifícios, jogos de palavras, nomes soltos, lugares, idades.
‘De onde és?’ ‘E tu?’ Passeios pelas ruas, encontros nas esquinas, seduções e um deambular por todos os cantos possíveis e imaginários. Estava a descobrir um novo mundo que, até então, não imaginava existir. Ria-me para mim mesma ao pensar o quanto estava em atraso relativamente a algumas tecnologias, a alguns espaços por onde se descobriam centenas de pessoas de várias nacionalidades. Não que não tivesse ouvido falar já de outro idêntico, muito mais conhecido, mas era naquele que tinha entrado e era aquele que estava a explorar.
Fui tímida a início, mantendo-me mais reservada no que tocava a fantasias, a desejos, a curiosidades. Mas fui sendo enredada na mesma teia que a todos envolvia: luxúria, volúpia, desejo e sexo. Muito sexo. Um sexo diferente, mas que importava isso ali, se todos procuravam o mesmo? A descoberta!

Conheci o Alex, na altura ainda apaixonado por uma mulher que o deixara doido, mas com a qual mantinha apenas uma amizade actual. Envolvemo-nos uma primeira vez. Gostei de estar com ele. Mais carinhoso, atencioso, conversador, preocupado pela busca do meu prazer. Na verdade, o homem que todos nós desejamos: bom de cama, bom de conversa e, para finalizar, um homem protector e que me rodeava de mil atenções.
Começámos a seguir juntos todos os caminhos, a experimentar algumas loucuras mas sempre e só a dois. Atraiu-me, envolvi-me e não me imaginava já naqueles lugares, sem a sua presença, sem o seu corpo, o beijo, o toque e o abraço quente.
Até que o ciúme começou a dominar-me a pouco e pouco, como uma erva daninha. Essa sou eu mesma. Dizia-me que não havia razões para tal, quando eu sabia que existiam verdadeiramente. A sua antiga paixão era uma presença constante nos nossos dias, nas nossas conversas, nos mesmos caminhos que trilhávamos. Incomodava-me de um modo que nem eu mesma conseguia controlar. Surgiram algumas discussões, curtas, rápidas de resolver. Nunca fui de ressentimentos. Nunca fui de amuos demorados. Os meus duram breves minutos e desaparecem com carinho e beijos.
Alex era o preenchimento dos meus dias. A minha paixão.
Até ao dia em que algo mudou.

A.


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História de Ana – I

Posted by Sutra under História de Ana on Thursday Oct 15, 2009


Nota Inicial da Autora:
Ao contar a minha história não quero ferir susceptibilidades de quem conheceu o que eu conheci, ou viveu algo idêntico ao que vivi. Tenho consciência que vou mencionar nomes que se podem cruzar com o lugar onde pedi para esta história ser contada. Poderia ter sido eu mesma a contá-la e comecei a fazê-lo noutro lugar, mas acabei por a interromper por motivos de saúde e depois, outras situações se desenrolaram que me levaram a interrompê-la. Agora sei que a tenho de terminar, porque não posso partir sem a deixar escrita e contada. Por isso pedi para que ela fosse publicada assim que os Contos Secretos reabrissem. Posso cá estar ainda quando ela começar a aparecer aos vossos olhos, não sei se ainda estarei quando ela chegar ao último capítulo.
Se daqueles que tiverem oportunidade de ler, alguém se identificar com o que falo, seja homem ou mulher, não esqueçam que alguns pormenores aqui e ali não fazem uma história completa e esta é apenas a minha, a vossa somente se cruza com ela em alguns pontos.

Sou Ana. Ou Anna.
Quem sou eu?
De onde vim?
Para onde vou?
Real ou imaginação?
Vida ou personagem?
Que história terei para contar?
Quererei contá-la?
Que segredos se escondem?

O que é a minha história? Serei capaz de voltar quase dois anos atrás e recordar como nasci e vivi durante esse período?
Por que metamorfoses passei?
Em quem me transformei ou que personagens vivi estes dezoito meses?
E as pessoas que foram passando pela minha vida e foram conhecendo a ‘Anna’, que terão elas pensado, conhecido, sentido?
Há perguntas para as quais nunca terei resposta.
Nem sei porque sinto esta necessidade de a ver reflectida no papel, divulgada, falada, contada. Uma forma de exorcizar a ‘Anna’?
Talvez o início desta história seja o fim. Não o meu fim, mas o ‘dela’, ou o meu também, já nem sei.

Capítulo I

Nasci no dia 18 de Outubro de 2007.
Com 27 anos.
Morena, meio citadina, alegre, trabalhadora por conta de outrem, a viver na zona de Cascais, lugar conhecido como Pai do Vento, calmo e modesto, sozinha num pequeno apartamento, palco de histórias escondidas, recordações imaginadas.
Nasci nesse dia, porque foi quando entrei num mundo até então desconhecido para mim. Esta era eu, com o habitual receio de me revelar na totalidade, adoptando a imagem real-ficcionada de Anna. Estava dado o primeiro passo.
A curiosidade deste mundo era enorme. Mas a necessidade de manter a identidade secreta, maior ainda. E assim fui seguindo, no meio de imagens a três dimensões, sons, música, risos, diálogos. Acima de tudo fui conhecendo cada canto, cada pessoa, ainda um pouco naif para o meio em que estava.
Logo no primeiro dia quis descobrir mais, quis ver o que havia para oferecer naquele universo até então desconhecido. Ávida de aprender mais e mais, deixei-me guiar por quem me levaria mais tarde a caminhos mais profundos do prazer.
Esse primeiro dia/noite foi estranho, mas trouxe como que uma lufada de ar fresco para as noites que se haviam tornado nos últimos meses, sempre iguais. Tal como gostei, fiquei, regressando nos dias seguintes. Todos os dias, a cada momento que me era possível.
Fui criando a minha imagem, entrando mais dentro da personagem e, ao mesmo tempo, sendo cada vez mais ‘eu mesma’.
Contraditório? De modo nenhum. Somos o que queremos ser, mas por mais que interpretemos personagens imaginadas por nós mesmos, sempre serão compostas pelo que somos, vivemos e sentimos, nunca poderemos ser tão diferentes assim da realidade.
O mundo alargou-se e os conhecimentos também. O início da loucura que me fazia mergulhar noite após noite estava à espreita. Ignorei-o, pensando que nunca seria mais forte que eu. Tão tola que eu fui.
Se me enganei? Agora rio ironicamente da minha ingenuidade.


A.

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História de Ana

Posted by Sutra under História de Ana on Thursday Oct 15, 2009


Esta história foi escrita este ano e terminada no dia 5 de Setembro último. Chegou até mim no dia 8. Quem a escreveu já aqui não está. Desapareceu nesse dia para não regressar mais. Não sou a autora da história. Sou apenas aquela que a transmite porque assumiu o compromisso de o fazer.

Porque é a forma de alguém, que não eu, exorcizar fantasmas, quebrar elos, desatar amarras, separar vidas e percorrer caminhos que se modificaram com o tempo. Porque alguém planeou morrer nesse entretanto e não há retorno na morte. Apenas uma paz, cálida e serena. Na verdade, esta é também parte da sua mensagem como um último adeus.

Como possuidora do canal que será usado para o que a autora da história tem a contar, desejo que o seu adeus não alcance um nível mais avançado e se fique apenas pelo que as palavras revelam numa interpretação textual e não extensiva.

Ao longo do relato irão assistir a palavras dela e minhas, entrelaçadas numa composição que tentei, acima de tudo compreender, para poder transmitir, baseada a certa altura, em meros rabiscos apontados em folhas que denotavam uma escrita apressada para chegar ao fim. No entanto, na sua maior parte estará como originalmente foi escrita pela autora.

O alcance é muito maior do que eu conseguiria explicar ou vocês compreenderem. Não tentem fazê-lo e limitem-se a ler e a conhecer apenas mais uma história como qualquer outra.

© Sutra 2009

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Um novo caminho

Posted by Sutra under Diário on Tuesday Oct 13, 2009

Caminhava sozinha pela passeio que rodeava a praia. Sozinha. Como pensava que teria de ser naquele momento. Fugia a qualquer relacionamento por sentir que esse era o caminho certo a seguir naquela fase da sua vivência. Por mais que se cruzassem homens na sua vida, desejosos de a conhecer, de a apertar entre os seus braços, não era isso o que pretendia para si naquela difícil encruzilhada. Muito menos para eles. Por saber que não lhes poderia dar mais do que um corpo. Não aquilo que alguns mereciam. Outros, nem sequer o corpo ou um digno pensamento. Só havia uma razão: não buscava sexo. Nem tampouco qualquer sentimento que a prendesse como na última relação que havia tido, na qual entregara corpo, alma, coração e vida. Queria amizade. Conviver, conhecer e ir o mais longe que pudesse alcançar, sem que qualquer amarra a prendesse. Mas queria ser entendida. De forma profunda. Única. Sem qualquer interesse que não fosse o de um ser humano.

Pensou em Filipe. Um conhecido de apenas há poucos meses. No modo como do simples cruzar de olhares num dos bares mais badalados de Lisboa, passaram ao conhecimento, saindo sozinhos do bar nessa noite e caminhando pelas docas numa conversa que durou até de madrugada. Na despedida, mais do que ver, sentiu no seu olhar a vontade querer ir mais longe. Não pôde. Não conseguiu. E o simples beijo que mal lhe roçou os lábios, não se transformou na ânsia incontida que tantas vezes a dominara, em inúmeras ocasiões.

Recordou António. Dias, semanas, meses de conversa amena e divertida pelo msn, apesar da insistência dele em conhecê-la. Até ao momento em que começou a pressioná-la para se conhecerem e concretizarem o sonho dele. Dele. Sem sequer se perguntar se ela o desejava da mesma forma. Se ela pretendia esse tipo de relacionamento. Acabou por a perder sem se dar conta. Nunca chegara a conhecê-la. A musa que dizia inspirá-lo soltara-se da insustentável asfixia a que a sujeitava ingenuamente.

Paulo? Poderia ter sido mais do que uma bela amizade se o tivesse conhecido noutra época. Quando ainda era crédula no sentimento masculino, na sinceridade. Não agora transformada num ser desconfiado da real existência daquilo que imaginava existir na espécie masculina. Paulo tinha tudo o que desejava num homem. Sabia-o. Transmitia confiança, carinho, paixão, amizade. Mas era tarde demais. Quem sabe noutra reencarnação. Existiria?

Manuel, aquele que inventava mil estratagemas para ter a atenção dela concentrada apenas em si mesmo. Apesar de terem deixado de resultar quando ela se apercebeu das suas maquinações. Confundiu-a o facto de se saber alvo desse tipo de engenhos. Não era necessário. As pessoas valem pelo que são e pelo que fazem. Pelas suas acções. Não pelo que dizem ser ou dizem fazer.

Pedro, João, Carlos, Fernando, Xico, Ricardo, Nuno, José, Diogo, Rui. Nomes. Pessoas. Um desfilar de rostos que iam desde o simples conhecimento, passando pela amizade, chegando ao affair, terminando em namoro, e até… Sim! Porque não admiti-lo? Quase casamento.

Olhou o mar e tentou sorrir. Mas o sorriso não lhe chegou aos olhos. Era apenas um esgar num rosto marcado pelo sulco de lágrimas. Descalçou as sandálias e caminhou pela areia até chegar às ondas que lhe beijavam os pés.
Enrolada numa onda veio bater-lhe nos dedos uma concha em tons de rosa. Baixou-se, pegou nela e rodou-a entre os dedos. Brilhava com os raios fracos, daquele que já se despedia no horizonte em tons de fogo. Apertou-a com força na palma da mão. Olhou de novo o mar. Ergueu um braço e atirou-a com força, vendo-a mergulhar nas águas agitadas daquele final de Setembro.
Permaneceu de olhar perdido no horizonte até o sol desaparecer.

Depois…

Virou-se, ergueu os ombros e caminhou, decidida, costas direitas, até sair da praia. Quando terminou de se calçar, já no passeio, olhou o mar uma última vez, por cima do ombro e despediu-se da praia.
Tal como fizera com a concha, também ali deixara a sua vida, atirando-a com força às ondas do mar revolto.

Iniciou a nova caminhada.

© Sutra 2009

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