
Capítulo III
As escapadelas com Alex, até à praia mais isolada não eram raras. Num ápice chegávamos, dávamos uns mergulhos, nadávamos lado a lado, entre beijos, abraços e muito carinho. Depois corríamos pela areia, estendíamo-nos na nossa cama e dávamos início à viagem pelos contornos dos nossos corpos. O meu prazer na sua boca, o seu na minha pele, latejante, voluptuoso. As palavras dançantes entre bocas que se devoravam. A experiência dele – casado, professor, pai – a minha, imaginariamente, recém-saída de uma relação difícil e traumática. As suas mãos nos meus seios, a boca que me mordia, o pénis que me invadia, a forma como me agarrava e me fazia enrolar as pernas na sua cintura, a sua rigidez dentro do meu corpo, insistente, tudo me fazia delirar e querer cada vez mais do que ele me oferecia. No fim as conversas, abraçados carinhosamente.
Assim seguia Anna – eu – pelos caminhos da paixão, da insanidade pecadora; traições, fantasias, luxúria, actos cometidos ao abrigo da escuridão das madrugadas. Todos traíam alguém, nem que fosse a si mesmos. Cada vez estendendo-se por mais horas. O início do mergulho no vício, aquele que eu dizia que nunca iria atingir mas que começava a tomar conta de mim.
Os sons das vozes arfantes, os gritos de orgasmos, femininos e masculinos. Os meus e os dele. Até aí intervenientes apenas nas relações a dois, mais tarde também como voyeurs em salas aglomeradas de gente que assistia a sessões de sexo ao vivo.
Anna e Alex.
Não me leves a mal se vieres aqui e te reconheceres nestas palavras, poucos ou nenhuns saberão que és tu aqui retratado. Mas esta é a minha história e apenas eu a posso contar, porque só eu a conheço assim. Real. Verdadeira. Única.
É tão curioso ver como cerca de ano e meio de vida muda tanta coisa. Neste momento, Alex já nem faz parte da minha vida. Da Anna. Para ele sair não demorou mais do que apenas alguns meses. Talvez porque a forma como se vivem algumas relações é tão intensa que se torna fugaz. Demasiado fugaz.
Naquele tempo era a loucura que inundava o corpo e a mente. O corpo primeiro, pela luxúria, pelo percorrer dos dedos na pele, o desejo que brilhava nos olhos imaginados de cada um de nós.
Mas o relacionamento alterou-se com a sua demonstração de ciúme. A sua possessividade.
Se no início me incomodava sempre que buscava as suas amigas e me deixava plantada sozinha à sua espera, no final, era-me totalmente indiferente o que dizia ou fazia.
- Volto já, deixa-me só ir cumprimentar a fulana X, Y, Z, não saias daqui!
Era o que me dizia. E lá partia de modo rápido, enquanto eu esperava placidamente, como uma boa menina. Normalmente a amiga era sempre a mesma: a sua anterior paixão, a que o marcara como tendo sido o seu primeiro amor ali. Tal como ele era o meu.
Mas cansei-me de todas estas suas atitudes e, em pouco tempo, deixaram de me irritar, de me incomodar. O culminar desta situação foi no dia em que me comunicou que gostaria ainda de passar uma noite com a dita ‘amiga-ex-amor’. Decidi que seria essa a última vez que me atingiria. Se fiquei indiferente? Não. Apenas passei a silenciar o sentimento e a retirar o máximo proveito do que mais importava: o desejo e a paixão.
Amor? Não existia. Somente a relação de duas pessoas que se davam muito bem como amigas, entre as quais existia paixão e desejo. Anna apaixonada? Seria de rir. A Anna não foi feita para se apaixonar. Apenas para existir, viver, usufruir.
Implacavelmente, a mudança ocorreu em ambos, mas em sentidos opostos. À medida que me desligava mais do que ele fazia ou não nas suas horas vagas com as amigas, mais ele se prendia a mim, tornando-se mais possessivo, mais ciumento. As minhas palavras passaram a sair da sua boca e não da minha. Os meus gestos passaram a ser os seus.
Era o princípio do fim e nenhum de nós tinha consciência disso.
A par da instabilidade da relação com Alex, surge Mare que me arrasta pela aprendizagem do seu idioma quente. O castelhano penetrou-me a alma e fez-me querer aprender mais e mais. Gostava de saborear cada palavra que, com ele, aprendia. Recordo a primeira vez que me dirigiu a palavra. A música tocava alto e eu dançava à beira da pista, numa dança que interiorizava muito do que sentia na altura. De olhos semi-fechados, deixava-me embalar pelos sons que saíam de cada canto e movia o corpo ao seu ritmo. Não recordo o que me perguntou, apenas que trocámos algumas palavras, poucas, sem que eu saísse de onde me encontrava.
No dia seguinte encontrámo-nos de novo. E nos outros a seguir. Surgiu como uma pequena amizade que se foi estendendo ainda durante o relacionamento com Alex, transformando-se mais tarde em atracção, desejo, sexo. Mas muito mais tarde. Todo aquele ambiente era propício a isso.
Mas na altura em que estava com o Alex, sempre existiu apenas amizade entre mim e Mare. Com ele, fui aprendendo o castelhano, falado e escrito, com horas intermináveis em que a sua paciência parecia inesgotável, para me ensinar e corrigir todos os erros que cometia.
O fim do que tínhamos, Alex e eu, surgiu inesperadamente quando a imagem de OPeter como homem sexualmente atraente, regressou à vida de Anna. À minha, portanto.
E o que se passou em certo dia pôs termo à relação que tinha com Alex.
Sentia vontade de abandonar aquele espaço. Sentia uma espécie de cansaço que não sabia determinar e andava indecisa se deveria sair ou não. Por outro lado poderia manter-me apenas como mera observadora e não participante. Decidi, por fim, que seria esta a solução. E, quando o decidi, comuniquei-lhe que iria fazer a minha despedida.
Mas, tal como ele, Alex, queria fazer a minha despedida com alguém sobre o qual tinha ganho alguma curiosidade, dado que a primeira vez nem tinha apreciado bem a sensação e, apenas com o decorrer do tempo me pareceu que poderia ou não ser algo mais erótico, forte, sexual, do que o romance apaixonado que tivera com Alex. Claro que ele se insurgiu com a ideia e ficou amuado. Tipicamente masculino, machista. Limitei-me a ser sincera e a expressar o que sentia vontade, tal como ele fizera pouco mais de um mês antes dessa data. Não gostou, tal como eu não havia gostado. Com a diferença que eu nunca lhe disse para não o fazer, ao contrário do que as suas palavras continham.
– Entendes agora o que senti da outra vez, Alex?
– É a tua vingança?
– Não, não é. É uma vontade, curiosidade. Somente isso, nada de paixão, de coração a bater mais forte.
– Então não me digas com quem o queres fazer.
Não lho disse antes.
Mas ele soube-o mais tarde.
– Era a última pessoa com quem podias ter ido, foste logo com ele: o que tem a mania que é garanhão.
– Sim, fui com ele.
Era por ele que sentia curiosidade: OPeter.
Fui e gostei. Foi divertido, foi erótico. Satisfez-me o corpo, foi uma noite louca até de madrugada. Desejei-o e tive-o. Disse-me que há muito que tinha vontade de estar comigo mas que a minha relação com Alex sempre o tinha impedido de dar o primeiro passo. Provavelmente as mesmas palavras que dizia a qualquer mulher que se atravessava no seu caminho. Mas isso pouco me importava porque não nutria qualquer sentimento amoroso por ele. Era um corpo de homem que me satisfazia. Apenas isso.
O tempo do relacionamento com Alex foi o mês de Novembro e pouco se estendeu por Dezembro. Foi nesse último mês de 2007 que terminou o relacionamento com Alex, já depois de lhe comunicar que iria viver e trabalhar em Lagos. Falso. Foi uma forma de evitar o aprofundamento de um relacionamento que ele desejava e eu não. Com a situação causada pela noite com OPeter, estava ditado o fim definitivo.
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