2001.
Miguel.
Paixão de pleno Inverno, prolongado até quase finais da Primavera. Foi uma relação meio conturbada, repleta de altos e baixos. Tinha tanto de paixão e desejo, como de ciúme, brusquidão e algumas discussões mais exaltadas. Miguel sempre foi do género de ferver em pouca água. E eu… bem, eu sei que tenho um feitio um pouco difícil, por vezes.
Se houve alguma vez em que tenha tido uma relação mais intensa, com certos laivos mais agressivos, foi com o Miguel.
Era terrivelmente ciumento e ficava meio louco por coisas de nada que qualquer pessoa entenderia como normais. Irritava-se por tudo e por nada e, qualquer telefonema ou mensagem sms deixava-o alerta. Só se sentia à vontade quando estávamos no seio do seu grupo de amigos, como se eles fossem de total confiança, enquanto que aos meus era sempre colocado o estigma de serem mal intencionados, de que queriam mais do que demonstravam. Ou seja, todos me queriam ‘comer’. Ora bolas!
Já falei sobre ele aqui. A festa de BDSM que me deixou meio ‘passada’. Aqui fica ela de novo, para recordar.
Foi na noite em que, com uns amigos, decidimos ir a uma festa para a qual um dos casais do grupo tinha sido convidado. Eu torci logo o nariz porque nunca tinha estado em nada semelhante e a minha opinião sobre estas práticas não é lá muito favorável às mesmas.
Lá por gostar de usar algemas – nota-se pela foto abaixo, não é? – não significa que que goste de submissões, bondage e sadomasoquismo. E, sinceramente, estava com um pouco de receio.
Mas, o Miguel lá me convenceu com aquele seu jeito meigo que fazia sempre que me pedia algo e eu, derretida pelo seu pedido, acedi, até porque me disseram que era algo muito particular, apenas com um grupo restrito de pessoas que já se conheciam – mas eu não os conhecia e esse era o problema, pois não sabia do que seriam capazes.
No coração da cidade de Lisboa, um edifício antigo, uma sala que foi outrora um restaurante de luxo, foi o local escolhido para a tal festa e lá enveredámos por ruas estreitas até chegar ao destino, onde entregámos o convite que o João e a Carla tinham recebido da amiga.
Quando entrámos, havia um forte aroma no ar, resultado de incensos e velas, não existia demasiada claridade, sem no entanto estar demasiado escuro. O ambiente estava atractivo, música exótica a fazer lembrar tribos africanas, com algumas mesas pequenas e baixinhas e, em vez de bancos ou cadeiras, existiam almofadões. Havia ainda um pequeno estrado redondo ao centro da sala principal, que eu não sabia para que servia, mas fez-me arrepiar ao ver correias pousadas em cima dele, bem como outras iguais que partiam do tecto. Comecei logo a imaginar para que servia aquilo e comentei com o Miguel, que riu e disse que eu já estava a fazer grandes filmes. Sentámo-nos em redor de uma mesa, num dos cantos de uma sala mais pequena. A maior parte das pessoas estava vestida de preto, em cabedal, couro ou latex, havendo outros como nós, vestidos de forma normal, como no dia a dia, embora a cor predominante fosse o preto. Talvez curiosos como nós, e não praticantes de BDSM. Olhei para cada um dos seis que compunha o nosso grupo e não destoávamos muito na roupa que levávamos. Agora entendia a razão de a Carla ter dito para nos vestirmos de preto nessa noite. E eu sem entender porque razão ir jantar e ao cinema tinha de ser vestida de negro, mas acedi e o Miguel também. O João e a Carla já conheciam estas festas e já tinham vindo a duas. O Carlos e a Isabel, estavam ali pela primeira vez, tal como nós, mas andavam interessados nestas práticas, até já haviam comprado alguns livros e filmes sobre isso.
A rapariga que havia convidado o tal casal nosso amigo – a Luísa – veio ter connosco ajoelhando-se junto de nós. Estava vestida com um fato todo inteiro, tipo fato macaco, preto, em látex, e aberto na frente deixando antever os seios cheios, usando umas botas de salto alto cujo cano lhe chegava ao joelho. Ao ouvir os meus receios, porque o Miguel não parava de rir e de gozar comigo, sorriu e explicou que era tudo muito simples nestas festas e que, das pessoas que frequentavam estas festas, existiam apenas aqueles que apreciavam ver o que se passava e tinham prazer apenas em ser meros assistentes e existiam aqueles que já tinham alguma prática e gostavam de fazer algumas demonstrações. Mas, o objectivo principal da festa era mesmo conversar sobre BDSM, trocar experiências, e existiam alguns espaços privados para quem quisesse dar largas às suas fantasias e fetiches.
Estava até ser bastante interessante, na medida em que fomos sabendo mais um pouco sobre estas práticas que davam prazer a tanta gente e que vinham sendo cada vez mais praticadas pelos casais. Mas, confesso que eu continuava a afirmar que isto me ultrapassava e que não seria capaz de o fazer. Devo dizer que mantenho algo da opinião de há oito anos atrás, embora tenha mudado alguns pontos de vista nos últimos dois anos.
A dada altura disseram que iria começar uma prática de submissão e que, os que se haviam inscrito como ‘escravos’ deveriam dirigir-se à sala principal. Lembram-se? Era aquela que tinha o tal estrado.
Curiosa como sou lá fui tentar espreitar à outra sala, mas não me deixaram entrar de imediato, explicando em seguida o que se iria tratar ali. Cada ‘escravo’ – ele ou ela – seria preso pelas correias nos tornozelos e pulsos, e usando de um chicote em cabedal com uma tira trançada, o/a Mestre aplicaria algumas chicotadas no corpo à sua disposição.
Vocês podem imaginar a minha cara quando ouvi isto – fiz uma careta tal que, até o rapaz que me explicou isto, deu um sorriso irónico e abanou a cabeça.
E, decidi que estava na hora de ir embora e que, para mim, chegava de festas destas – particular ou não, de gente conhecida ou não. O certo é que cheguei junto da mesa, agarrei na mochila e disse:
- Já vi o suficiente e vou indo. Até amanhã.
Ficaram estáticos, mas sabendo como eu sou decidida, encolheram os ombros e lá ficaram. O Miguel levantou-se e veio sem dizer uma palavra, apenas mantendo aquele seu sorriso de gozo, apanhando-me já na rua, dado que tinha saído disparada sem esperar por ninguém. Eu sabia que para ele ficar não tinha qualquer importância, mas não necessitava ter vindo.
O pior foi quando ele me deixou em casa. Subiu, como sempre, sentou-se no sofá e, minutos depois, já ríamos e brincávamos com o que tinha acontecido. Até que o riso deu lugar aos beijos, aos carinhos, às carícias. Pegou em mim ao colo e levou-me para o quarto, deitando-me na cama. Enquanto me beijava, fomo-nos despindo numa ânsia louca, de antecipação do prazer. Até ao momento em que agarrou a fita que me prendia o cabelo e resolveu prender-me os pulsos, um no outro – já o havíamos feito uma vez – mas nessa noite não correu nada bem. Dei um salto, e perdi todo o desejo naquele momento. Só de me lembrar do que havia ouvido falar naquela festa, já me dava arrepios e não eram de prazer.
A nossa noite acabou ali, tendo ele ido para casa. Namorávamos há sensivelmente três meses quando isto sucedeu.
O fim da relação deu-se ao fim de 5 meses e meio de namoro. Um dos últimos acontecimentos relato… da próxima vez.
© Sutra 2009
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