Caminharam lado a lado, ora fugindo às ondas ora deixando que estas lhes banhassem os pés. Conversavam banalidades sobre Lisboa e o Rio de Janeiro, numa cumplicidade que raramente sentiam com outras pessoas.
Londres estava cada vez mais distante e nem uma só vez ela se lembrou do que essa cidade retinha, de quem lá residia e trabalhava, de quem amara durante anos (amara?!).
Quando entraram no bar, a música que tocava era a que mais furor fazia no momento nas rádios portuguesas:
“Eu não sei o que me aconteceu…
Foi feitiço!
O que é que me deu?”
O coração de Eliane parecia que queria saltar pela boca, aquela música que ela tanto gostava, a mão de Gonçalo ligeiramente lateral no finalzinho do pescoço com o ombro, que a empurrava delicada e firmemente para o interior do bar, a mesa que escolheu num canto de frente para o mar e o som daquele violão e do homem que não parava…
“Eu gostava que olhasses para mim
E sentisses que sou o teu mar
Mergulhasses sem medo, um olhar em segredo,
só para eu te abraçar…
O primeiro impulso é sempre mais justo, é mais verdadeiro…
E o primeiro susto dá voltas e voltas na volta redonda de um beijo profundo…”
Feitiço era a mão dele no seu braço, o joelho a roçar no dela ao seu lado, a saia de tecido fino que deslizava e lhe inebriava os sentidos.
Eliane tinha a sensação que o seu coração fazia eco nas paredes do seu corpo e não conseguia resistir ao apelo que vinha daquele corpo másculo e moreno ao seu lado.
Gonçalo segura-lhe o queixo e rouba-lhe um beijo do canto do lábio enquanto lhe sussurra: – É feitiço, tu deixas-me assim, Eliane.
De repente o seu nome nos lábios dele teve uma sonoridade que a fez desejar ainda mais esquecer quem era. A mão dela pousada na coxa masculina, apertando-a, indicava-lhe o quanto o desejava e, inclinando a cabeça no ombro dele, oferecia-lhe os lábios para que ele provasse o calor do seu desejo e a humidade da sua boca.
Beijaram-se com tesão e urgência e, entre línguas e lábios, ele sussurrou-lhe: – Vamos jantar a minha casa.
Com um pigarrear o empregado deixa os dois gins tónicos e os aperitivos que tinham pedido ao entrar.
Gonçalo prende os dedos de Eliane na sua mão e ficam assim a olhar-se, a saborear o momento e a antever as horas mais próximas…
Enquanto o sol dourado do fim de tarde se juntava a uma brisa suave e aos dedos de Gonçalo para juntos brincarem com o seu cabelo, Eliane meditava sobre o precipitado desenrolar de acontecimentos dos últimos momentos. Este homem atrevido exercia sobre ela uma forte atracção, uma enorme vontade de o despir e de sentir a sua virilidade. De, literalmente, lhe ferrar o dente no ombro e sentir a abrir-se para ele ao se sentar no seu colo. A sua respiração quente e pesada não lhe deixara dúvidas que era o seu corpo que a conduzira inexoravelmente à beira dum coito que se revelaria apenas revestido de sexo, sem outras emoções envolvidas. Nem outra coisa esperaria deste encontro inesperado, mesmo que fantasiado em prazeres solitários. De Gonçalo nem a idade, nem mesmo o apelido sabia – “Gonçalo Tavares e tenho 32 anos”, veio ela a saber mais tarde – mas os lábios macios que nos seus se demoraram antes de se atreverem pelo pescoço desnudo, ameaçando seriamente continuarem pelo seu peito pleno de fertilidade, esses conhecia ela bem. Fora então que o telemóvel, inoportunamente, tocara.
“Alô…”
A voz melodiosa que tão bem conhecia, fê-la ficar sem palavras.
“Eliane?”
“Fábio?! E aí, tudo jóia?” – o silêncio deu lugar a um desabafo de surpresa.
Só pode ser telepatia, pensava Eliane, todos estes anos sem uma palavra e não é que o cara liga agora mesmo?
“Você vem para a semana para Lisboa?! Nossa, parece que estou ouvindo uma voz do Além!”
Gonçalo sentiu que se quebrara um pouco o clímax que se adivinhava mas não se aborreceu por isso. A persuasão das suas palavras daria a volta à situação, como até agora sempre acontecera. Mas isso não seria para já, agora era tempo de deixar o silêncio contar a história à sua maneira. Voltados para o crepúsculo que sobrava do sol poente, abraçou-a pelas costas com carinho, mas consciente do desejo que dentro de si ansiava por ser liberto.
Enquanto se sentia abraçada pelo corpo de Gonçalo, Eliane lembrava a voz de Fábio dizendo que estaria de volta na próxima semana …mas ao mesmo tempo, o seu desejo falava mais alto, e Gonçalo estava mesmo ali, atrás de si…
Assim abraçada por ele, sentia o seu perfume que a brisa teimava em trazer, e o calor que o corpo de Gonçalo transmitia para o seu estava a deixá-la louca de desejo. Fantasias povoavam o seu pensamento. E como aquele abraço a fazia sentir-se protegida, desejada…
As dúvidas começavam a invadir-lhe a mente e entre um sorriso e um abraço, Eliane pensava se seria correcto.
Assim, abraçados, contemplando o horizonte e o mar… Gonçalo soprou-lhe ao ouvido em jeito de brincadeira provocatória.
Eliane não reagiu. – Eliane, daria tudo em troca do que vai no teu pensamento neste momento
– sussurrou Gonçalo no seu ouvido. – Ora, nada ..! Apenas contemplo o cenário, é sempre tão bom ver o mar. – tentou a todo o custo, disfarçar Eliane.
Na verdade, pensava ela, não era justo dar asas ao desejo que ela e Gonçalo estavam a sentir… mas também não era justo Fábio ter partido por tanto tempo, deixando-a sozinha. E, sabendo como ele era, não acreditava que ele não tivesse tido vários casos e flirts.
Espero por mais sugestões de título para depois escolher.
© Sutra & Friends 2007
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