Entrelaçares – VIII

Posted by Sutra under Entrelaçares on Friday Jul 10, 2009

Capítulo VIII


Londres


– Why do you have to go, now? – My wife is in Portugal, my house, i must see her. It’s been a long time here. – And what about us? What about me? – Lindsay, I love you, but… my life is on Portugal. – No! Your life is here! Your job and your house. I’m here. – … – Let me go with you. – Please, Lindsay… – Will you come back? – Yes… I don’t know when… but i’ll come back.
Era difícil deixar Lindsay, Londres e regressar a Portugal. Por mais saudades que tivesse de Eliane e do seu país, havia entregue os últimos dois anos da sua vida a essa terra, a essa gente.
Mas queria aproveitar aquelas férias para decidir o que fazer daí em diante. Sentia necessidade de voltar a ver Eliane, saber se o fogo, a amizade, a cumplicidade que os unia, ainda estava presente. Duvidava.
Quando lhe ligara na semana anterior, notara-lhe a voz estranha. Como se se sentisse tímida, contida. Intuitivamente sentia que era como se ela não sentisse mais a mesma vontade em vê-lo. Teria alguém? Não a podia criticar, na verdade, ele fizera o mesmo. Mas sentia um ardor no peito, como se as entranhas estivessem a ser corroídas pelo fogo.
Nessa noite partiria rumo a Portugal.
O futuro decidir-se-ia a partir daí.
Agora era tempo de amar Lindsay e aproveitar as últimas horas com ela.
Lindsay chorava em silêncio. As lágrimas corriam pelo seu rosto e, sem que Fábio se desse conta, passou a mão levemente pelo ventre. Não iria revelar-lhe o segredo. Se ele voltasse, teria de ser por ela. Só por ela.
Fábio abraçou-a e beijou-a por todo o rosto, limpando as lágrimas com os seus lábios. O carinho deu lugar à paixão e caíram sobre o leito ainda descomposto do amor que haviam feito nessa manhã.
A noite chegaria em breve e, com ela, a despedida.


Lisboa



Estava nervosa.
Já ligara quatro vezes para Gonçalo desde que acordara.
O romance de ambos evoluíra bastante nessa semana. Era raro o dia em que não se haviam encontrado e amado.
Umas vezes no apartamento dela. Outras no dele. Qualquer ambiente os fazia mergulhava num mundo de prazer, fazendo-os viajar nas asas da luxúria. Exploravam-se corpos. Conheciam-se mentes. Ultrapassavam-se limites anteriormente impostos. Nada os fazia vacilar na busca da concretização de desejos. – Céus, como adoro sentir-te dentro de mim!
... – Como adoro comer-te assim, por trás.
... – Gosto quando me apertas o rabo e me mordes o pescoço.
... – Sabes que uma das minhas fantasias sempre foi estar com duas mulheres? – Não sei se gostaria de te dividir com outra. Nunca quis isso. – Não gostavas tu de experimentar com dois homens? Eu e outro? – Nãoooo! – Hum… eu não me importava, se o quisesses. – Pára com a conversa e não tira a boca daí – e empurrava-lhe a cabeça entre as suas coxas, para continuar a lambê-la daquele modo que a levava à loucura.
... – Desejo-te! – Fode-me!
...
Amor feito de dia, celebrado de noite. Selvagem. Terno.
Eliane olhou o relógio mais uma vez, afastando aqueles pensamentos que originavam logo aquela humidade no vértice íntimo e a deixavam de pernas moles.
Nessa noite chegaria Fábio.
Não sabia como iria reagir. Depois desses últimos anos à espera desse regresso, agora não sabia se o queria ainda.
Como iria decorrer esse encontro?
Esperá-lo-ia em casa.

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Posted by Sutra under Entrelaçares on Thursday Jun 25, 2009

Capítulo I

A acção decorre em Lisboa, mas aparecerão interrupções para descrever o que se passa em Londres, onde se encontram duas das personagens centrais deste conto.
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Lisboa


Eliane olhava distraída pela janela do comboio, enquanto este se afastava da estação de Algés, na direcção de Cascais. Tinha chegado a Portugal há seis anos com Fábio, o marido que a deixara dois anos depois para ir trabalhar para Inglaterra. Essa era a sua meta quando tinham decidido vir para junto da família portuguesa dela, que viviam no Estoril. Filha de pai português e mãe brasileira, Eliane nascera no Rio de Janeiro onde sempre vivera, embora tivesse vindo a Portugal diversas vezes ao longo dos seus 28 anos de vida. Fora também essa a razão que a fizera concordar em vir com Fábio para tão longe do seu lar: para estar perto de seus familiares e poder conviver com eles durante algum tempo.
Mergulhada nestes pensamentos não se apercebeu do revisor que, insistentemente, a chamava para verificar o título de transporte. Até que um toque suave no ombro a fez dar um salto e olhar para o homem moreno que sorriu perante o seu sobressalto. – O seu bilhete, por favor. – Desculpe – e corou perante o olhar perscrutador dele que demonstrava um interesse que ia além do simples gesto profissional de picar um bilhete ou verificar um passe – aqui está – disse, estendendo-lhe o ticket e cruzando o seu olhar com o dele.
Quando ele lhe devolveu o bilhete, sentiu que prolongava o momento por alguns segundos, o que a fez estremecer com um arrepio de excitação. O revisor moreno seguiu o seu caminho e, antes de passar à carruagem seguinte, os seus olhos tornaram a cruzar-se, enquanto nos lábios de ambos um sorriso se desenhava.
Estavam a chegar à paragem de Oeiras. Ainda iria demorar alguns minutos até ao seu destino na estação de S.João do Estoril.


Londres


Nada como uma cerveja fresca numa tarde soalheira destas, especialmente rara em Londres. Uma Pilsner, o mais próximo que encontrara da sua favorita Brahma. Continuava a achar a Guiness demasiado amarga e o vinho, que frequentemente lhe serviam ao jantar nos seus anos do Estoril, não lhe matava a sede. Estranho lembrar-se agora desse tempo, emocionalmente tão distante, de Eliane, do jeito como o seu cabelo escuro se moldava pelos ombros até lhe acariciar o peito pouco coberto pelos seus tops provocantes. Viu-o ali, na sua frente, como na noite que passaram juntos antes da aguardada partida de Portugal, ainda torneado pela juventude, exultando uma feminilidade transbordando sexualidade. Nessa noite não fizeram amor, apenas se deitaram lado a lado, banhados pela lua que lhes inundava o quarto e pelo som do mar ali mais abaixo. As suas mãos passearam-se pelos seus corpos nus, dizendo o adeus que os seus lábios negavam. Fábio segurou-lhe o púbis, como gostava de fazer, sentido os seus cabelos curtos e cuidados. A sua respiração quente circulava-lhe pelo corpo num prolongado arrepio e ele senti-a por baixo dos seus dedos. Era tarde quando adormeceram e o voo revelou-se extenuante, como se para trás tivesse ficado muito mais do que uma noite mal dormida. Mais um trago e seria hora de vestir o fato de barman para ir servir gostosas caipirinhas e abundantes sorrisos a almas em busca dum aconchego. E como era aconchegante a sua cama.

Capítulo II


Lisboa


Eliane regressava a casa, no final de cada dia, sempre no comboio das 20H30. Eram 27 longos minutos que lhe permitiam libertar os seus mais íntimos pensamentos. Enquanto o seu corpo ia sendo baloiçado numa cadência constante, pelos movimentos ondulantes do comboio, os seus desejos transportavam-na em aventuras sôfregas de paixão e êxtase, até ser literalmente despejada em São João do Estoril, para o final da sua aventura diária.
Depois de Oeiras, são três paragens antes de S. João.
Em 10 minutos, teria mais uma oportunidade de cruzar o seu olhar com aquela personagem, fardada a rigor, que subitamente interrompeu os seus pensamentos. Alto e ainda jovem. Rosto impecavelmente barbeado. Longos cabelos caídos sobre as costas. Corpo ostensivamente masculino. Gestos delicados e voz suave.
A intensidade do seu ritmo cardíaco ia aumentando à medida que os segundos passavam e o comboio avançava determinado. Carcavelos tinha ficado para trás. A Parede também. O comboio esvaziava-se de gente a cada paragem.
Era agora possível ver mais longe dentro daquela composição. Mas os seus olhos não lhe permitiam ver.
Aquele homem, objecto da sua curiosidade, fardado de revisor tinha-se esfumado entre as várias centenas de passageiros, agora reduzidos a algumas dezenas.
São João do Estoril estava a apenas alguns segundos de distância. O seu olhar permanecia determinado em encontrar aquele pedaço de pecado que o seu corpo já dava sinais de desejar, mais que a sua própria mente.
Subitamente, sente um forte impulso. O comboio diminuía de forma abrupta a sua velocidade, até se imobilizar a escassas centenas de metros da paragem habitual em São João do Estoril.
Esta paragem súbita do comboio começava a tornar-se habitual. Parava por alguns instantes e rapidamente retomava a sua marcha. Os passageiros em silêncio, trocavam olhares de resignação. Felizmente era uma paragem breve.
Olhou para o bilhete, na tentativa de distrair ideias.
Um flash inesperado fê-la fixar o olhar naquele pedaço de papel. Havia algo novo nele. Números manuscritos a tinta preta. Intrigada afastou o polegar que cobria grande parte do bilhete. O seu pensamento regressou a Oeiras e ao momento que recebeu o bilhete de volta da mão do revisor. Tinha sentido como que uma hesitação, um reter por instantes do bilhete. Agora percebia. Era uma chamada de atenção como que a dizer estou aqui, aqui está o seu bilhete. Escrevi nele o número do meu telemóvel.
Como podia não ter percebido? Que tola fora.
Inspirou profundamente aquele ar viciado do comboio. O seu coração batia a um ritmo descontrolado. Tinha nas mãos a possibilidade de reencontrar aquele pedaço de pecado.
São João do Estoril.
As portas do comboio abriam-se, devolvendo à liberdade anónima, algumas dezenas de passageiros que apressadamente fugiam dali, como quem foge voluntariamente de algo que não nos persegue.
Saiu também ela mecanicamente, como todos os outros, como todos os dias, em direcção a casa. Na mão um pedaço de papel com o telemóvel de um desconhecido.

Londres


Fazia nesse dia exactamente quatro anos que deixara Eliane em Portugal e viera para Inglaterra. Muita coisa se passara desde então, como por exemplo ter conhecido Lindsey, uma jovenzinha inglesa que vivia perto da comunidade portuguesa onde ele alugara um quarto. Mas, o corpo quente de Eliane não lhe saía do pensamento, quando sozinho à noite na sua cama de quarto de pensão, rebolava entre os lençóis desejando um pouco do calor daquela mulher que mantinha uma aura de ingenuidade mas que se soltava diabolicamente nos seus braços, mostrando a fogosidade que a possuía, sem qualquer pudor.
Lindsey era completamente diferente, mais tímida, inibida. A verdade é que ele fora o primeiro homem que tivera e o que sabia, fora ele quem lhe ensinara. Namoravam há seis meses e pouco mais tinham avançado sexualmente do que as posições de missionário ou com ela deitada sobre o seu corpo e, quanto a sexo oral, nem sempre ela se encontrava suficientemente à-vontade para lho fazer ou sequer para permitir que ele lho fizesse. Sabia que levaria o seu tempo, até porque só haviam iniciado a vida sexual há pouco mais de um mês.

Capítulo III


Lisboa


Os dias foram passando e Eliane não tinha a coragem necessária para ligar para aquele número escrito no bilhete de comboio. Perguntava-se a si mesma se alguma vez seria capaz de dar aquele passo, pensando no quanto já perdera na vida por não ser mais ousada. E aquela era mais uma oportunidade que tinha para saber se teria coragem de dar um primeiro passo quando alguém lhe interessava. Secretamente, tinha a esperança de se cruzar com ele mais uma vez, mas não o tinha visto mais. Poderia ter mudado de turno, ou ter ido de férias, não sabia. A única certeza que tinha era a de que queria muito conhecê-lo.
Mas foi adiando, dia após dia. Passou uma semana, depois outra e o bilhete de comboio continuava pousado em cima da mesa-de-cabeceira, à espera que ela se decidisse a marcar os números daquele homem moreno.
Depois de mais uma semana de trabalho, e sempre com aquele homem no pensamento, as horas durante o dia parecia que galopavam na direcção do horário do comboio onde Eliane, quase sempre antes de entrar na composição, olhava apressadamente para o interior do máximo de carruagens para ver se conseguia descortinar o motivo do seu desejo.
Inesperadamente, num fim-de-semana, depois de muitas viagens, sem nada vislumbrar, eis que sucede o inesperado:
-Olá, vejo que gosta de passear na praia!
Eliane ouviu esta voz e ficou petrificada ao virar-se na direcção do som e verificar, que, quem se lhe dirigira, não era outro senão o seu revisor moreno, que tanto prazer lhe tinha provocado, pois quase todas as noites os seus dedos delicados acariciavam a sua púbis, numa masturbação constante, pensando e sonhando com ele… Mas retorquiu, não sem que antes passasse a mão pela cara ruborizada:
-Sim, por vezes venho passear e gosto de me deitar na areia, se estiver um dia de Sol como o de hoje!
-Desculpe, o meu nome é Gonçalo e penso que já me cruzei consigo!!??
-Eliane, muito prazer…Sim, no comboio da linha, faz mais ou menos três semanas!
O desejo que sentia por Gonçalo, vinha ao de cima na sua mente cada vez que o jovem moreno falava e o seu pensamento viajava.
Eliane sentia-se excitadíssima com a presença de Gonçalo e isso notava-se na sua face e nos seus gestos nervosos. – Posso sentar-me aqui ao seu lado? – perguntou Gonçalo. – Claro que sim !! – exclamou Eliane com um sorriso de orelha a orelha.
Sentados, lado a lado, Gonçalo também quase não conseguia disfarçar a excitação que Eliane lhe provocava, e desta vez com o perfume dela tão acentuado, misturando-se com os cheiros da praia deixando-o doido de tesão …
Gonçalo tenta disfarçar os sentimentos tão intensos, olhando o mar enquanto tira um cigarro e o acende em silêncio, dando um longo trago. Olha-a enquanto o fumo vai saindo lentamente dos seus lábios carnudos deixando-a como que hipnotizada apreciando aquele homem tão diferente do homem fardado e compenetrado que havia conhecido.
Instintivamente leva a mão esquerda aos cabelos e fá-los correr por entre os dedos numa forma de pentear o ondulado selvagem e muito próprio com que fica o seu cabelo seco ao natural e curtido pelo vento e pela maresia, deixando-o preso a esse movimento sem que o brilho da aliança quebrasse o encantamento.
Ele sorriu-lhe mostrando os dentes brancos (sem aquele irritante sorriso imensamente branco e falso que as clínicas dentárias nos vendem). Um sorriso de dentes certos e alinhados e, por micro segundos, ela imagina aqueles dentes a percorrerem-lhe a pele, a prenderem o bico e a rodá-lo… e estes pensamentos fazem-na estremecer de prazer e desejo eriçando-lhe os pêlos dos braços. Gonçalo não se apercebe que o motivo do frio repentino é ele, ou o desejo carnal que transpira entre os dois. – Eliane, o sol está a fugir de nós. Queres andar ao longo da praia enquanto procuramos um barzinho para nos abrigar e conversar? – pergunta-lhe ele, estendendo a mão num convite irrecusável. – Claro que sim, eu costumo caminhar por aqui nas minhas tardes livres e perco-me num bar de madeira no paredão. E de repente, quando desviou o olhar para o dele, sentiu uma timidez fora do vulgar que prontamente foi substituída com a risada sonora masculina e uma carícia com o polegar na face, pela vontade de se deixar levar.

Capítulo IV


Caminharam lado a lado, ora fugindo às ondas ora deixando que estas lhes banhassem os pés. Conversavam banalidades sobre Lisboa e o Rio de Janeiro, numa cumplicidade que raramente sentiam com outras pessoas.
Londres estava cada vez mais distante e nem uma só vez ela se lembrou do que essa cidade retinha, de quem lá residia e trabalhava, de quem amara durante anos (amara?!).
Quando entraram no bar, a música que tocava era a que mais furor fazia no momento nas rádios portuguesas:
“Eu não sei o que me aconteceu…
Foi feitiço!
O que é que me deu?”

O coração de Eliane parecia que queria saltar pela boca, aquela música que ela tanto gostava, a mão de Gonçalo ligeiramente lateral no finalzinho do pescoço com o ombro, que a empurrava delicada e firmemente para o interior do bar, a mesa que escolheu num canto de frente para o mar e o som daquele violão e do homem que não parava…
“Eu gostava que olhasses para mim
E sentisses que sou o teu mar
Mergulhasses sem medo, um olhar em segredo,
só para eu te abraçar…
O primeiro impulso é sempre mais justo, é mais verdadeiro…
E o primeiro susto dá voltas e voltas na volta redonda de um beijo profundo…”

Feitiço era a mão dele no seu braço, o joelho a roçar no dela ao seu lado, a saia de tecido fino que deslizava e lhe inebriava os sentidos.
Eliane tinha a sensação que o seu coração fazia eco nas paredes do seu corpo e não conseguia resistir ao apelo que vinha daquele corpo másculo e moreno ao seu lado.
Gonçalo segura-lhe o queixo e rouba-lhe um beijo do canto do lábio enquanto lhe sussurra: – É feitiço, tu deixas-me assim, Eliane.
De repente o seu nome nos lábios dele teve uma sonoridade que a fez desejar ainda mais esquecer quem era. A mão dela pousada na coxa masculina, apertando-a, indicava-lhe o quanto o desejava e, inclinando a cabeça no ombro dele, oferecia-lhe os lábios para que ele provasse o calor do seu desejo e a humidade da sua boca.
Beijaram-se com tesão e urgência e, entre línguas e lábios, ele sussurrou-lhe: – Vamos jantar a minha casa.
Com um pigarrear o empregado deixa os dois gins tónicos e os aperitivos que tinham pedido ao entrar.
Gonçalo prende os dedos de Eliane na sua mão e ficam assim a olhar-se, a saborear o momento e a antever as horas mais próximas…


Enquanto o sol dourado do fim de tarde se juntava a uma brisa suave e aos dedos de Gonçalo para juntos brincarem com o seu cabelo, Eliane meditava sobre o precipitado desenrolar de acontecimentos dos últimos momentos. Este homem atrevido exercia sobre ela uma forte atracção, uma enorme vontade de o despir e de sentir a sua virilidade. De, literalmente, lhe ferrar o dente no ombro e sentir a abrir-se para ele ao se sentar no seu colo. A sua respiração quente e pesada não lhe deixara dúvidas que era o seu corpo que a conduzira inexoravelmente à beira dum coito que se revelaria apenas revestido de sexo, sem outras emoções envolvidas. Nem outra coisa esperaria deste encontro inesperado, mesmo que fantasiado em prazeres solitários. De Gonçalo nem a idade, nem mesmo o apelido sabia – “Gonçalo Tavares e tenho 32 anos”, veio ela a saber mais tarde – mas os lábios macios que nos seus se demoraram antes de se atreverem pelo pescoço desnudo, ameaçando seriamente continuarem pelo seu peito pleno de fertilidade, esses conhecia ela bem. Fora então que o telemóvel, inoportunamente, tocara.
“Alô…”
A voz melodiosa que tão bem conhecia, fê-la ficar sem palavras.
“Eliane?”
“Fábio?! E aí, tudo jóia?”
– o silêncio deu lugar a um desabafo de surpresa.
Só pode ser telepatia, pensava Eliane, todos estes anos sem uma palavra e não é que o cara liga agora mesmo?
“Você vem para a semana para Lisboa?! Nossa, parece que estou ouvindo uma voz do Além!”
Gonçalo sentiu que se quebrara um pouco o clímax que se adivinhava mas não se aborreceu por isso. A persuasão das suas palavras daria a volta à situação, como até agora sempre acontecera. Mas isso não seria para já, agora era tempo de deixar o silêncio contar a história à sua maneira. Voltados para o crepúsculo que sobrava do sol poente, abraçou-a pelas costas com carinho, mas consciente do desejo que dentro de si ansiava por ser liberto.
Enquanto se sentia abraçada pelo corpo de Gonçalo, Eliane lembrava a voz de Fábio dizendo que estaria de volta na próxima semana …mas ao mesmo tempo, o seu desejo falava mais alto, e Gonçalo estava mesmo ali, atrás de si…
Assim abraçada por ele, sentia o seu perfume que a brisa teimava em trazer, e o calor que o corpo de Gonçalo transmitia para o seu estava a deixá-la louca de desejo. Fantasias povoavam o seu pensamento. E como aquele abraço a fazia sentir-se protegida, desejada…
As dúvidas começavam a invadir-lhe a mente e entre um sorriso e um abraço, Eliane pensava se seria correcto.
Assim, abraçados, contemplando o horizonte e o mar… Gonçalo soprou-lhe ao ouvido em jeito de brincadeira provocatória.
Eliane não reagiu. – Eliane, daria tudo em troca do que vai no teu pensamento neste momento – sussurrou Gonçalo no seu ouvido. – Ora, nada ..! Apenas contemplo o cenário, é sempre tão bom ver o mar. – tentou a todo o custo, disfarçar Eliane.
Na verdade, pensava ela, não era justo dar asas ao desejo que ela e Gonçalo estavam a sentir… mas também não era justo Fábio ter partido por tanto tempo, deixando-a sozinha. E, sabendo como ele era, não acreditava que ele não tivesse tido vários casos e flirts.

Capítulo V


Gonçalo, sentindo Eliane longe, passa para a sua frente e olha-a nos olhos. Eliane estremece. Sem uma única palavra, Gonçalo leva lentamente os seus dedos à face rosada e toca-lhe levemente, como se de uma carícia com uma pena se tratasse… Eliane fecha os olhos, a sua boca sorri … os dedos de Gonçalo, procuram os seus cabelos e atravessam o seu pescoço parando na nuca. As duas bocas colam-se e as mentes viajam num momento mágico.
Este beijo, a língua quente de Gonçalo a explorar a sua num beijo intenso que a fez desejar senti-lo em todo o seu corpo, ateou ainda mais o fogo que a invadia deixando-a sem pensar em mais nada que não fosse os seus corpos nus envoltos um no outro. Cada vez o desejava mais, vontade ainda mais acentuada por ter estado tanto tempo sem ter ninguém que lhe percorresse o corpo levando-a à perdição.
Apesar de ter falado com Fábio e saber que este ia voltar, Eliane sentia-se cada vez mais envolvida por aquela sensação de perigo, de limite. O afastamento e a falta de vontade que sentiu em Fábio da última vez que estivera de férias em Londres, eram um indício de que a relação deles estava em ruptura. Talvez se devesse ao afastamento ou talvez à vida alucinante de Londres e do ambiente do bar e da noite. Ou talvez devido ao facto de ele ter mais alguém como ela desconfiava que tinha.
Ele adorava aquela fogosidade dela, aquelas loucuras e brincadeiras que inventava todos os dias para o deixar louco de vontade de a possuir. Todos esses momentos foram pensados e repensados nas suas viagens de comboio. Aí tinha a possibilidade, não isenta, pois a imagem de Gonçalo não lhe saía do pensamento, de repensar na sua vida, de não se sentir culpada por estar a desejar outro homem.
Com Gonçalo ao seu lado ia brincando com o dedo na borda do copo enquanto ele com um braço pelos ombros a chegava a si e a outra mão pousada na coxa a ia acariciando ora por cima do vestido, ora deslizando como vaga-lume na pele firme e bronzeada. Sentia um calor que cada vez mais se tornava insuportável e a deixava com o sexo completamente húmido.
Gonçalo via-lhe o desejo nos olhos, nos lábios que estavam cheios e apetitosos, no seu peito que se elevava de cada vez que ele lhe tocava na pele e os murmúrios desconexos dela indicavam-lhe que ela estava a arder de desejo como ele estava já duro. Subiu um pouco mais os dedos que tocaram a viscosidade que humedecera o fio dental dela e foi como que um choque eléctrico para Eliane sentir as pontas dos dedos dele a roçar ao de leve nos lábios inchados por cima do parco tecido rendado do fio dental.
Quase em surdina disse-lhe “vamos?” a que ela prontamente acedeu num menear positivo da cabeça já que a voz estava embargada. Aconchegando-a num abraço firme conduziu-a por entre os carros até ao seu. Mal entraram e, antes de colocar a chave e ligar o carro, debruçou-se sobre ela puxando-a pela nuca de encontro aos seus lábios enquanto a mão esquerda subia pelas coxas e lhe roçava os lábios inchados e melados de desejo. Doido de tesão não resistiu a abri-la e a introduzir-lhe a ponta dos dedos sentindo-lhe a vulva quente e palpitante de desejo.
Pararam porque o desejo era muito e não o poderiam fazer ali. Tirando os dedos levo-os ao meio do beijo, lambuzando os lábios de ambos com o sabor dela. Ainda inebriado com o cheiro do sexo dela conduziu rapidamente até ao seu apartamento parando apenas no restaurante chinês perto de casa para levarem algo pronto e rápido para jantarem depois do sexo.

Capítulo VI


No elevador Eliane aproveitou-se do facto de ele ter as mãos ocupadas a segurar as embalagens de comida, para lhe abrir os botões das calças e lhe tirar o membro rijo levando-o aos lábios deixando-o doido não só com a visão dela agachada a passá-lo nos lábios como se fosse um batom, observando como a língua gulosa deslizava pela sua carne, pela glande, envolvendo-a, como também com a possibilidade de o elevador parar noutro qualquer andar, deixando que fossem apanhados por algum vizinho.
Chegaram ao 8º andar sem problemas, aliviando-o assim dessa pressão que o deixava ainda mais doido. Mal fechou a porta pousaram os sacos da comida ali mesmo na entrada e desvairados entre beijos e apalpões despiram-se rapidamente.
Deitando a cabeça ligeiramente para trás, Eliane ofereceu-lhe os bicos espetados dos seios, excitados com todo aquele tesão, roçou-os na boca dele não deixando que ele os aprisionasse. Gonçalo segurou-lhe a carne com as mãos em concha levando-os à boca ávida de desejo e sugou-os sofregamente. Com uma mão orientava-os ora um, ora outro na boca e enquanto os beijava e mordia com tesão ia-lhe introduzindo os dedos no sexo, preparando-a para a penetração do seu sexo daí a minutos.
Aos tropeções conseguiram chegar perto do sofá onde a debruçou empurrando-a firmemente pela nuca, enquanto roçava o seu membro rijo ao longo da junção das nádegas redondas e arrebitadas e colocava uma camisinha, ansioso para poder entrar naquele corpo quente e palpitante que parecia chamar por ele.
Observou por instantes aqueles lábios lisinhos, brilhantes, com uma leve penugem bem aparada, carnudos, inchados e escuros da volúpia que sentia no momento. Perante aquela visão que o descontrolou ainda mais, penetrou-a firmemente de uma só vez enterrando o seu membro até obter resistência. Sentindo-a palpitar e a apertar-lhe o membro como se o estivesse a morder, prendeu-lhe o cabelo com uma mão e forçando-lhe a cabeça para si começou a movimentar-se dentro dela com vigor, deixando-a alucinada, fazendo-a soltar gemidos e pequenos gritos abafados do fundo da garganta que pediam para ir mais rápido.
Como animais no cio, foderam assim até ela gritar num orgasmo que lhe sacudiu o corpo fazendo-a enterrar-se mais nele e fazendo-o vir-se logo de seguida.

Capítulo VII


Caíram exaustos no sofá e, abraçados, continuaram a explorarem-se um ao outro. Gonçalo foi descendo pelo corpo dela aos beijos aninhando-se na junção das pernas de onde escorriam os sucos. Abriu-as e começou a lambê-la lentamente, rodando a língua pelo clítoris inchado e sensível. Encaixou a sua boca na feminilidade e esteve ali deliciado a saborear o gosto daquela mulher, a sentir o seu prazer. E ele sabia-o pela viscosidade que já se lhe ia acumulando de novo ao redor do sexo quente que o deixava de novo com o membro rijo e a querer penetrar mais uma vez aquele corpo feminino.
Como que adivinhando, Eliane deslizou para o tapete para assim também usufruir do prazer que era ter a carne masculina na sua boca. Segurou-o firmemente deslizando por ele com uma mão em movimentos lentos, de baixo até lhe cobrir a glande e depois, muito lentamente, ia descobrindo de novo bem junto aos seus lábios. A visão do pénis quente, latejante, encimado pela glande como um cogumelo perfeito deixava-a doida. De repente, sem que Gonçalo contasse acolheu entre os lábios o pénis túrgido e deixou que lhe penetrasse a boca, alojando-o no interior quente. Ele quase que se veio ao sentir-se de repente envolto naquela boca quente e sedosa a acariciá-lo sofregamente. Mas Eliane ainda queria mais prazer e não deixou que ele se viesse, facilmente o controlou e continuou a lamber ao longo do pénis, deixando-o louco com tal tortura.
Não aguentavam mais de tanta tesão e desejo, rebolando de corpos entrelaçados. Ele continua a tocar-lhe e a beijá-la, acariciá-la onde sabia que a deixava em ponto de rebentar numa explosão de prazer. O orgasmo aproximava-se e as ondas que invadiam os seus corpos cresciam alucinadamente, até os fazer cair num grito e estertor de prazer, os fluidos de cada um derramados sobre o outro.
Ao vê-la com as mãos, a boca e as faces lambuzadas veio beijá-la, misturando assim os seus sabores através das bocas que tanto desejo provocaram. Estavam exaustos, mas ele pegou nela ao colo e levou-a para a cama. Precisavam ambos de encontrar forças para mais tarde continuarem pois não tinham vontade de parar.


Eram 7h da manhã quando Eliane fechou a porta do apartamento de Gonçalo e se encaminhou para uma paragem de táxi. No corpo levava as marcas da paixão daquela noite, no pensamento o turbilhão em que se encontrava imersa. Por um lado, a vontade de continuar o que começara com Gonçalo, como ele mesmo dissera, antes de sair da cama quente: “quero ver-te logo”; por outro lado, o facto de saber que Fábio chegaria nessa semana a Lisboa. O que viria fazer? Há quatro anos que não se viam, fizera na véspera. O pouco contacto que tinham tido nos últimos seis meses levara-a a pensar que não haveria volta a dar na sua relação. E agora a voz quente, melodiosa, a proximidade do dia em que se veriam de novo. O regresso dele… que surpresas lhe traria?

© Sutra 2009

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Entrelaçares

Posted by Sutra under Conto em Conjunto, Entrelaçares on Thursday Jun 25, 2009

Aquele conto que começou como sendo em conjunto com alguns participantes, o qual ficou interrompido; que voltou a ter alguma continuidade, apenas da minha parte, ao qual chamei de ‘Sem Título’, porque ainda andava em busca desse título, já o tem.
Chama-se ‘Entrelaçares’ e vai ter continuidade a partir de hoje.
Não terá muitos capítulos, para poder deixar este terminado que é mais curto, seguir para ‘Sessão de Cinema’ e finalmente, dar continuidade a ‘Shiva – 100 dias da Vida de Uma Cortesã’ – o mais longo dos Contos.


E sim, desta vez é a sério!
Deixo aqui um agradecimento a quem colaborou nos primeiros capítulos.
Os artigos desses capítulos ficarão intactos para deixar a marca de quem fez parte dele.

Aqui inicia-se uma nova Categoria, exclusiva para este Conto.


Entrelaçares


Vou já de seguida, publicar todo o texto até agora escrito, num único artigo.
Segunda-feira entrará o capítulo seguinte – para terem tempo de [re]ler.

© Sutra 2009

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