Alguém – A história
Posted by Sutra under Contos on Friday Aug 13, 2010A história de Alguém
Encontrámo-nos a meio do dia numa loucura que me acometeu. Sem pensar, virando costas a qualquer prudência, decidi encontrar-me com o desconhecido. Apenas sabia o seu nome e um nick, a idade aproximada e palavras. Recordo com demasiada nitidez as sensações que me invadiam sempre que notava a sua presença. A sensação de ter borboletas na barriga. Não, não me digam que isto é estar apaixonado, porque isso tenho a certeza de que não se tratava. Mas podia acontecer. Certo é que nunca me deu tanta vontade em encontrar-me com alguém para descobrir o significado destas sensações tão estranhas quanto ele. Sempre fui receosa, sempre me protegi, mesmo conhecendo melhor as pessoas com quem falava habitualmente. Com ele não consegui.
Mas naquele dia, sem qualquer hesitação, quando me desafiou a encontrar-me com ele, fui. Indecisão sobre o local, preferi escolher um terreno neutro: Belém. Mais tarde acabaria por me arrepender dessa decisão. Não a de me encontrar com ele. Mas do sítio que escolhi para esse encontro. Demasiado público.
14:45 horas. Estava adiantada. Mas não conseguia controlar a ansiedade, meti-me no carro e fui até lá: Vela Latina. Um local que ele conhecia e uma das minhas esplanadas preferidas de Belém e onde me sentava a comer gelado deixando que as horas passassem por mim, no prazer de relaxar e deixar o pensamento vaguear. Mas não naquela tarde. Com receio de parecer demasiado ansiosa, resolvi ficar dentro do carro até serem exactamente 15:00 horas, a hora que havíamos combinado.
Mesmo agora, quando penso nisso, decorridos que são sete meses, quase posso sentir o mesmo nervoso, o pulsar do coração, as batidas aceleradas.
Saí do carro, subi os degraus e atravessei a esplanada mas não vi nenhum homem sozinho que parecesse esperar por alguém. Não contei com o homem de cabelos grisalhos e de óculos na ponta do nariz. Bastou-me observar o que lia: o jornal The Sun. Não quis ficar na esplanada e entrei, dirigindo ao balcão para ceder ao capricho habitual: o gelado. Era uma boa forma de manter as mãos ocupadas para não entrelaçar e desentrelaçar os dedos , vezes sem fim.
Quando estava a pagar, senti o toque no ombro e a pergunta em tom baixo:
- Su?
Estremeci e virei-me. Ali estava ele.
- Sim, sou eu – respondi, desnecessariamente, com um sorriso. Claro que era eu. Ele sabia-o. E eu sabia que ele tinha a certeza disso.
Atrapalhação. Olhares fixos nos olhos um do outro. Beijos a medo na face. Dificuldade em falar. Tentativa de brincar, na certeza, um e outro, de que disfarçávamos muito mal o impacto daquele encontro. Acabou por ser ele a salvar a situação, ao indicar a esplanada para nos sentarmos, enquanto brincava bem ao estilo do pouco que eu tinha conhecido. No entanto diferente. Ao invés da pessoa faladora, nervosa, extrovertida que pensava encontrar, deparei-me com alguém mais calmo, com um sorriso travesso e um olhar profundo e meigo.
Apeteceu-me beijá-lo. Mas quando me passou tal ideia tive de baixar os olhos com medo de revelar a vontade que me invadia tão fortemente.
Conversámos sem que me apercebesse do tempo que passava. A dada altura tudo mudou. Ele chegou a cadeira para junto de mim e disse:
- Apetece-me beijar-te.
Limitei-me a olhar para ele, para os seus lábios, imaginando o beijo.
- Há tanto tempo que imagino como será o teu gosto.
Inclinei-me para ele e aproximei os lábios dos seus, sem uma palavra. Não consegui dizer nada. Apenas mostrar que a minha vontade era igual à dele. Foi naquele momento, quando a sua boca se apertou na minha e a sua língua me invadiu que maldisse a escolha do lugar. O beijo era uma invasão não apenas da boca, mas dos sentidos. A sua mão apertou-me a coxa, coberta pelo tecido fino das calças. Ofeguei. Só desejava não ter de parar por ali. Gemi entre os seus lábios e senti-o estremecer. Interrompeu o beijo e encostou a testa na minha, os olhos fechados. Passou o braço sobre os meus ombros e abraçou-me. – Vamos sair daqui? – sussurrei-lhe ao ouvido.
Afastou o rosto, olhou-me como que para confirmar a veracidade das minhas palavras.
- Tens a certeza?
– Absoluta. E tu?
– Não há nada que queira mais. Só não sei se será o melhor para nós. Tenho algum receio das consequências depois.
Não consegui responder-lhe. Olhei-o, simplesmente.
– Sabes que mais? – disse. Pressionou os meus lábios com os seus, com força e continuou – que se lixe a cautela. Que se lixe o depois. Vamos. Pegou-me na mão e saímos do Vela Latina.
No estacionamento, e depois de combinarmos que ele viria no carro dele, atrás de mim, levou-me até ao carro e depois de o destrancar, virou-me para ele e encostou o seu corpo ao meu. Sentir como estava excitado só me fez gemer interiormente. Desejava-o tanto. Abracei-o e pressionei-me contra ele, fazendo com que se encaixasse no meu corpo. Se estivessemos num local isolado, não esperaria até chegar ao apartamento. Teria sido ali que lhe pediria para me possuir. Para entrar em mim e dar-me prazer. Suspirei e afastei-me.
– Daqui a pouco não vou conseguir conduzir… – disse-lhe.
Sorriu em resposta.
Rapidamente chegámos à zona de Alcântara. Mais alguns minutos e estava já perto de casa. Estacionámos os carros e seguimos apressadamente até ao prédio antigo, onde fica o meu apartamento. Sentia-me tão nervosa, ansiosa, desejosa dele, de o sentir, de o ter, de me entregar, de sentir a sua boca outra vez. Sentir as suas mãos, o seu corpo, a sua excitação. Mil loucuras passavam-me pela mente enquanto subíamos as escadas.
Entre o fechar da porta e o abraço desenfreado não passou mais que um segundo. Rapidamente as roupas caíram, e foi no corredor que me deitei para o receber. Não conseguia esperar mais tempo. A vontade era incontrolável. Eu não queria pensar, somente sentir. Senti a sua boca pelo meu corpo, as suas mãos que afastaram coxas, a pressão do seu corpo de encontro ao meu ventre. A sua excitação. O beijo. A penetração. O prazer de o sentir. Duro, grande, quente, húmido. Dentro de mim. Insistentemente. Profundamente. Os movimentos alucinados, os gemidos. Ainda hoje os recordo. Ainda hoje os sinto. O orgasmo que veio rápido. Avassalador. Mas que não esgotou o nosso prazer. Não chegou para nos satisfazer.
Pausa. Respirações entrecortadas. Corações a bater acelerados, em uníssono. Trocámos um beijo, rindo.
– Somos loucos – disse ele.
- Que bom que o somos.
Levantámo-nos, pegou-me ao colo e levou-me para a sala.
- Sofá? – Não – respondi-lhe e continuei, maliciosamente – vamos para o banho.
– Onde é? – perguntou com uma gargalhada.
Enchi a banheira e deitei-me entre as suas pernas, de costas encostadas ao seu peito. Sentia a sua excitação de encontro às minhas nádegas. Em mim, a vontade de o sentir de novo dentro do meu corpo. Virei-me e ajoelhei-me entre as suas pernas. Toquei-lhe. Senti a rigidez entre os meus dedos. Mas era com a boca que lhe queria tocar. Que o queria fazer gemer. Baixei o rosto, entreabri os lábios e senti-o. Que sensação extraordinária a de ouvir o seu gemido. Saber que lhe dava prazer. Continuei, movimentando a boca, os lábios, a língua, convidando à maior volúpia. Sentindo como o pénis endurecia mais, latejando do entre os meus lábios, de encontro aos dedos que auxiliavam os movimentos. Extraordinária a sensação de sentir os seus dedos enrolados nos meus cabelos, agarrando, incitando a que não parasse de o chupar, de o lamber.
- Pára, que não aguento mais… se continuas, eu venho-me.
– Eu quero que te venhas. Agora e aqui.
O seu grito entoou pelas paredes, o rosto denotava o prazer que o envolvia. O orgasmo. Deitei-me sobre o seu corpo, abraçou-me e ficámos na água morna mais um tempo.
O resto da noite foi passado entre beijos, carinhos, abraços, diálogo. Algumas horas de sono e muito prazer. Explorámos os nossos corpos de todas as formas. Com toda a intensidade. Com toda a vontade insana que comandava os nossos movimentos. A luxúria plena.
A manhã trouxe a despedida. Naquele momento, sem saber se uma despedida por horas, dias, meses… ou definitiva.
Recebi uma mensagem dele horas depois. Despedida. Não porque quisesse, mas porque tinha de ser. Não perguntei as suas razões, limitei-me a aceitar e a guardar aquela noite como recordação.
Como uma das mais belas recordações que guardo.
Sutra
[escrito há muito tempo…]






