Alguém – A história

Posted by Sutra under Contos on Friday Aug 13, 2010

A história de Alguém

Encontrámo-nos a meio do dia numa loucura que me acometeu. Sem pensar, virando costas a qualquer prudência, decidi encontrar-me com o desconhecido. Apenas sabia o seu nome e um nick, a idade aproximada e palavras. Recordo com demasiada nitidez as sensações que me invadiam sempre que notava a sua presença. A sensação de ter borboletas na barriga. Não, não me digam que isto é estar apaixonado, porque isso tenho a certeza de que não se tratava. Mas podia acontecer. Certo é que nunca me deu tanta vontade em encontrar-me com alguém para descobrir o significado destas sensações tão estranhas quanto ele. Sempre fui receosa, sempre me protegi, mesmo conhecendo melhor as pessoas com quem falava habitualmente. Com ele não consegui.
Mas naquele dia, sem qualquer hesitação, quando me desafiou a encontrar-me com ele, fui. Indecisão sobre o local, preferi escolher um terreno neutro: Belém. Mais tarde acabaria por me arrepender dessa decisão. Não a de me encontrar com ele. Mas do sítio que escolhi para esse encontro. Demasiado público.
14:45 horas. Estava adiantada. Mas não conseguia controlar a ansiedade, meti-me no carro e fui até lá: Vela Latina. Um local que ele conhecia e uma das minhas esplanadas preferidas de Belém e onde me sentava a comer gelado deixando que as horas passassem por mim, no prazer de relaxar e deixar o pensamento vaguear. Mas não naquela tarde. Com receio de parecer demasiado ansiosa, resolvi ficar dentro do carro até serem exactamente 15:00 horas, a hora que havíamos combinado.
Mesmo agora, quando penso nisso, decorridos que são sete meses, quase posso sentir o mesmo nervoso, o pulsar do coração, as batidas aceleradas.
Saí do carro, subi os degraus e atravessei a esplanada mas não vi nenhum homem sozinho que parecesse esperar por alguém. Não contei com o homem de cabelos grisalhos e de óculos na ponta do nariz. Bastou-me observar o que lia: o jornal The Sun. Não quis ficar na esplanada e entrei, dirigindo ao balcão para ceder ao capricho habitual: o gelado. Era uma boa forma de manter as mãos ocupadas para não entrelaçar e desentrelaçar os dedos , vezes sem fim.
Quando estava a pagar, senti o toque no ombro e a pergunta em tom baixo:
- Su?
Estremeci e virei-me. Ali estava ele.
- Sim, sou eu – respondi, desnecessariamente, com um sorriso. Claro que era eu. Ele sabia-o. E eu sabia que ele tinha a certeza disso.
Atrapalhação. Olhares fixos nos olhos um do outro. Beijos a medo na face. Dificuldade em falar. Tentativa de brincar, na certeza, um e outro, de que disfarçávamos muito mal o impacto daquele encontro. Acabou por ser ele a salvar a situação, ao indicar a esplanada para nos sentarmos, enquanto brincava bem ao estilo do pouco que eu tinha conhecido. No entanto diferente. Ao invés da pessoa faladora, nervosa, extrovertida que pensava encontrar, deparei-me com alguém mais calmo, com um sorriso travesso e um olhar profundo e meigo.
Apeteceu-me beijá-lo. Mas quando me passou tal ideia tive de baixar os olhos com medo de revelar a vontade que me invadia tão fortemente.
Conversámos sem que me apercebesse do tempo que passava. A dada altura tudo mudou. Ele chegou a cadeira para junto de mim e disse:
- Apetece-me beijar-te.
Limitei-me a olhar para ele, para os seus lábios, imaginando o beijo.
- Há tanto tempo que imagino como será o teu gosto.
Inclinei-me para ele e aproximei os lábios dos seus, sem uma palavra. Não consegui dizer nada. Apenas mostrar que a minha vontade era igual à dele. Foi naquele momento, quando a sua boca se apertou na minha e a sua língua me invadiu que maldisse a escolha do lugar. O beijo era uma invasão não apenas da boca, mas dos sentidos. A sua mão apertou-me a coxa, coberta pelo tecido fino das calças. Ofeguei. Só desejava não ter de parar por ali. Gemi entre os seus lábios e senti-o estremecer. Interrompeu o beijo e encostou a testa na minha, os olhos fechados. Passou o braço sobre os meus ombros e abraçou-me. – Vamos sair daqui? – sussurrei-lhe ao ouvido.
Afastou o rosto, olhou-me como que para confirmar a veracidade das minhas palavras.
- Tens a certeza?
– Absoluta. E tu?
– Não há nada que queira mais. Só não sei se será o melhor para nós. Tenho algum receio das consequências depois.

Não consegui responder-lhe. Olhei-o, simplesmente.
Sabes que mais? – disse. Pressionou os meus lábios com os seus, com força e continuou – que se lixe a cautela. Que se lixe o depois. Vamos. Pegou-me na mão e saímos do Vela Latina.
No estacionamento, e depois de combinarmos que ele viria no carro dele, atrás de mim, levou-me até ao carro e depois de o destrancar, virou-me para ele e encostou o seu corpo ao meu. Sentir como estava excitado só me fez gemer interiormente. Desejava-o tanto. Abracei-o e pressionei-me contra ele, fazendo com que se encaixasse no meu corpo. Se estivessemos num local isolado, não esperaria até chegar ao apartamento. Teria sido ali que lhe pediria para me possuir. Para entrar em mim e dar-me prazer. Suspirei e afastei-me.
Daqui a pouco não vou conseguir conduzir… – disse-lhe.
Sorriu em resposta.
Rapidamente chegámos à zona de Alcântara. Mais alguns minutos e estava já perto de casa. Estacionámos os carros e seguimos apressadamente até ao prédio antigo, onde fica o meu apartamento. Sentia-me tão nervosa, ansiosa, desejosa dele, de o sentir, de o ter, de me entregar, de sentir a sua boca outra vez. Sentir as suas mãos, o seu corpo, a sua excitação. Mil loucuras passavam-me pela mente enquanto subíamos as escadas.
Entre o fechar da porta e o abraço desenfreado não passou mais que um segundo. Rapidamente as roupas caíram, e foi no corredor que me deitei para o receber. Não conseguia esperar mais tempo. A vontade era incontrolável. Eu não queria pensar, somente sentir. Senti a sua boca pelo meu corpo, as suas mãos que afastaram coxas, a pressão do seu corpo de encontro ao meu ventre. A sua excitação. O beijo. A penetração. O prazer de o sentir. Duro, grande, quente, húmido. Dentro de mim. Insistentemente. Profundamente. Os movimentos alucinados, os gemidos. Ainda hoje os recordo. Ainda hoje os sinto. O orgasmo que veio rápido. Avassalador. Mas que não esgotou o nosso prazer. Não chegou para nos satisfazer.
Pausa. Respirações entrecortadas. Corações a bater acelerados, em uníssono. Trocámos um beijo, rindo.
Somos loucos – disse ele.
- Que bom que o somos.
Levantámo-nos, pegou-me ao colo e levou-me para a sala.
- Sofá? – Não – respondi-lhe e continuei, maliciosamente – vamos para o banho.
Onde é? – perguntou com uma gargalhada.
Enchi a banheira e deitei-me entre as suas pernas, de costas encostadas ao seu peito. Sentia a sua excitação de encontro às minhas nádegas. Em mim, a vontade de o sentir de novo dentro do meu corpo. Virei-me e ajoelhei-me entre as suas pernas. Toquei-lhe. Senti a rigidez entre os meus dedos. Mas era com a boca que lhe queria tocar. Que o queria fazer gemer. Baixei o rosto, entreabri os lábios e senti-o. Que sensação extraordinária a de ouvir o seu gemido. Saber que lhe dava prazer. Continuei, movimentando a boca, os lábios, a língua, convidando à maior volúpia. Sentindo como o pénis endurecia mais, latejando do entre os meus lábios, de encontro aos dedos que auxiliavam os movimentos. Extraordinária a sensação de sentir os seus dedos enrolados nos meus cabelos, agarrando, incitando a que não parasse de o chupar, de o lamber.
- Pára, que não aguento mais… se continuas, eu venho-me.
– Eu quero que te venhas. Agora e aqui.

O seu grito entoou pelas paredes, o rosto denotava o prazer que o envolvia. O orgasmo. Deitei-me sobre o seu corpo, abraçou-me e ficámos na água morna mais um tempo.
O resto da noite foi passado entre beijos, carinhos, abraços, diálogo. Algumas horas de sono e muito prazer. Explorámos os nossos corpos de todas as formas. Com toda a intensidade. Com toda a vontade insana que comandava os nossos movimentos. A luxúria plena.
A manhã trouxe a despedida. Naquele momento, sem saber se uma despedida por horas, dias, meses… ou definitiva.
Recebi uma mensagem dele horas depois. Despedida. Não porque quisesse, mas porque tinha de ser. Não perguntei as suas razões, limitei-me a aceitar e a guardar aquela noite como recordação.
Como uma das mais belas recordações que guardo.

Sutra

[escrito há muito tempo…]

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Alguém

Posted by Sutra under Contos on Tuesday Aug 10, 2010

Chegou e desorientou-me. O que dele conhecia eram as palavras. Rebeldes. Descontroladas. Humor negro. Estranho. Divertiu-me e deixou-me presa pela forma hábil como jogava com as letras, torcendo-as, misturando e obtendo resultados espantosos que sempre me divertiam.
O meu divertimento arrastou a curiosidade. A sua-minha curiosidade despoletou a atenção constante.
Depois veio a atracção. A estranheza. O convívio e o formigueiro.
Depois?
Veio o tempo. O tempo que aproximou. Uniu. Acalentou o desejo que impregnava as palavras. Alimentou o fogo que elas escondiam.
Veio o destempo. Que afastou. Desuniu.

Entre o tempo e o destempo, que se viveu?
Conto? Guardo? Revelo? Escondo?

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Uma história por escrever (fim)

Posted by Sutra under Contos, Fotografia on Tuesday Jun 23, 2009

Parte I
Parte II

Após o jantar, passearam por aquele passadiço de madeira até que, chegados ao fundo, junto do último bar-restaurante, já encerrado, ficaram encostados na balaustrada, virados para a praia. Em silêncio.
Quando o diálogo foi retomado, o tom de voz tornara-se mais íntimo, mais baixo. As mãos tocaram-se e os olhares cruzaram-se.
Foi inevitável o aproximar das bocas, o toque dos lábios. Iniciativa dela. O beijo. O toque tímido e carregado de desejo.
Frases do passado soavam na memória dela.
‘Fazer-te sentir o meu corpo a roçar no teu!’
‘De te acariciar a ponta das tuas orelhas e pescoço com os meus lábios’


Apesar de ter tomado a iniciativa do beijo, ela tremia por dentro. De antecipação, de vontade de estar cada vez mais perto dele. As trocas de olhares tinham dado o incentivo para avançar com uma coragem que não sabia onde tinha ido buscar. Mas notava-o a ele ainda mais tímido que ela. Seria? Nunca lhe parecera assim nas várias vezes que haviam contactado.
‘Olha para mim’ – pediu-lhe baixinho.
Encostaram corpos. Deslizaram mãos.
Tocaram peles. Satisfizeram vontades.


E as memórias dela de novo.


‘Tive um sonho contigo durante breves minutos em que adormeci, atravessado na cama. Apesar do vento, nesse dia estava com um sorriso de orelha a orelha.’
‘Apetecia-me experimentar essas algemas’.



Saíram da praia e entraram no carro dela, rumo a um espaço só deles, onde poderiam dar continuidade ao que as suas imaginações haviam percorrido durante aqueles meses.
Desejos, fantasias. Pontos fracos.
‘A tua voz que sussurra no meu ouvido arrepia-me’
‘Se me queres deixar maluco é falares em… mãos na parede… e…’




O fim, apenas a eles coube decidir.
Ou a mim.
Uma história. Um conto. Imaginação. Inspiração.


Não cheguei a dizer a praia, pois não?
Foz do Lizandro, perto da Ericeira. Naquele dia que ele chamara de ‘ideal’.


Ficção ou realidade?
‘Uma história por escrever’ poderia ser uma história real. Alguns de vocês poderão ter-se questionado se o foi ou não. É apenas ficção.
Ter catalogado na Categoria ‘Contos’ foi propositado.
O nome dela é Anna. O dele posso inventar o que quiser.
Porque não D. de Domingos? Ou de Daniel? Ou ainda de Diogo? Dário?

© Sutra 2009

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Uma história por escrever (cont.)

Posted by Sutra under Contos on Friday Jun 19, 2009

Já havia perdido a conta às vezes que esfregara a palma das mãos nas calças de ganga. Esperava-o um pouco afastada do local que tinham combinado. Ele pouco conhecia daquela zona e ela prometera levá-lo a conhecer, como tantas vezes lhe havia sido pedido. Possivelmente ele já teria chegado. Colocou o carro a trabalhar e fê-lo deslizar pelo alcatrão. Não sem antes tornar a passar as mãos nas calças.
Cinco minutos depois estava a chegar ao parque de estacionamento no centro da vila. Ao aproximar-se olhou rapidamente em redor e viu-o ao fundo, no carro do qual lhe falara inúmeras vezes. Reconheceu-o e estacionou junto dele. Os óculos escuros encobriam-lhe o olhar, para não revelar o turbilhão de sensações em que se encontrava. Perguntou-se se esse não seria também o motivo para ele usar os dele. Rayban.
Viu-o sorrir. Aquele sorriso maravilhoso que sempre a encantara. E as covinhas nas faces.
Pegou no telemóvel e enviou uma sms.
‘Já cá estou’
Ouviu a gargalhada.
Veio a resposta.
‘Eu sei’.
Saíram do carro e hesitaram no momento de se cumprimentarem. Os beijos na face pareciam pouco para tanto que já se conheciam. Algo mais também parecia desajustado. Demasiado. Não havia intermédios.
‘Finalmente’.
‘É verdade’.
‘Porque demoraste tanto tempo para aceitar em encontrarmo-nos?’
– a pergunta era dele.
‘Porque sou assim’ – a resposta era dela.
‘Eu sei que és. O importante é que estamos aqui.’
‘Sim.’
‘Como preferes fazer? Vamos num só carro? Ou preferes ir na segurança do teu?’
– o riso contido na voz dele demonstrava a brincadeira, como era seu hábito.
‘Confio em ti. Acho que fico bem entregue nas tuas mãos. Também se não confiar em ti, não confio em muito mais gente…’ - respondeu, fazendo-o dar outra gargalhada divertida.
‘Vamos no meu, então? Ou no teu?’
‘No meu. Serei a tua guia.’
– sorriu ela.
Entraram no carro e seguiram rumo… à praia. Aquela que lhe tinha falado onde gostava de ir, com alguns bares/restaurantes, de onde podia observar o mar, sentir o cheiro e, placidamente, conversar. Conhecerem-se de olhos nos olhos, depois de tantas conversas ao telemóvel, de tantas trocas de sentires, emoções.
A viagem não demorou mais que meia hora.
O jantar na esplanada, esse, durou até ao cair da noite.
A cumplicidade agudizava-se a cada instante. A confirmação do que tinham vivido aqueles meses revela-se a cada minuto.
A noite… havia chegado…
E a seguir?...

© Sutra 2009

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Uma história por escrever

Posted by Sutra under Contos on Monday Jun 15, 2009

Pegou no telemóvel mais uma vez e respondeu-lhe à sms. De há uma semana para cá ele não parava de a provocar com insinuações que a faziam arrepiar. Ele tentava-a e ela sabia que aquele homem era demasiado perigoso para a sua sanidade mental. Mesmo com essa certeza, não conseguia deixar de lhe responder ao mesmo nível das suas provocações. Tentando-o num jogo de sedução que se sabia experiente.
No final, qual dos dois seria o seduzido?
Hesitava encontrar-se com ele. Sabia que conhecê-lo pessoalmente, encontrar-se perante o seu olhar, seria a capitulação do desejo que a consumia há semanas e que se agudizara nos últimos dias.
A insistência masculina para se encontrarem começava a dar frutos e a resistência ia-se perdendo a cada mensagem, ou de cada vez que lhe escutava a voz. Temia não ser capaz de resistir àquela atracção que ele lhe fazia sentir. Quase que se imaginava a vê-lo e a colar-se ao seu corpo, beijando-o sem lhe dar tempo a falar.
Que tinha este homem para a deixar nesta tremura de desejo?
‘Esta noite é a ideal, deixa-me ir ter contigo. Vou onde quiseres que vá’.
Leu aquela sms dezenas de vezes. Já a havia recebido há uma hora e não lhe tinha dado resposta. Poderia ser na noite seguinte em que iria para Lisboa. Seria a noite de Santo António. Mas não. Ele queria naquela noite. Num impulso carregou nas teclas e seguiu a opção responder:
‘Sim, vem’
Estava feito. Não voltaria atrás.
Largou o telemóvel e foi tomar um banho. Vestiu-se de modo simples: calças de ganga e um camiseiro branco. Caprichou na lingerie: preta, porque sabia que era a cor que ele adorava. Sandálias de salto alto, relógio e uma pulseira completaram o visual. Os cabelos? Soltos, como ele apreciava.
Curioso o facto de saberem tanto um do outro sem nunca se terem visto a não ser em fotografias.
Como seria o encontro?

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Mistura de Sabores – IV e último

Posted by Sutra under Contos on Monday Jun 8, 2009

Parte I
Parte II
Parte III

Recomeçou a dança em três compassos diferentes, numa só melodia. A do desejo.
Os gemidos de Sónia soltavam-se do balcão e chegavam até ao outro lado do bar intensificados pela luxúria que se sentia.
Bruno voltou a sentir a boca de Pat no seu pénis, duro de novo com o quadro que se desenhava perante os seus olhos e na sua imaginação.
Bárbara ganhou coragem e, erguendo-se, sentou-se na mesa à frente dos olhos de Luís, enquanto desabotoava o camiseiro que cobria o corpo palpitante de desejo, quente de antecipação.
Um corpo contorcia-se em cima do balcão do bar, perfurado por uma lança de fogo que avançava nas suas entranhas, fazendo-a gritar de prazer.
- Ah, foda-se! Deixas-me louca! – Era isto que querias? – ofegava Dário, entrando sucessivamente na vulva que lhe apertava o pénis – eu bem te via a olhar para mim, cada vez que entrava. Querias experimentá-lo, não era?
- … sim… – Então, toma-o! Sente-o todo a foder-te, cabra!
As palavras soltavam-se. A linguagem transformava-se. O que poderia ser obsceno era puro deleite. Prazer. Tesão que provocava e despertava desejos no mais comum dos mortais. Nos quatro seres do outro lado da sala que se deixavam conduzir entre rugidos de luxúria semelhantes.
Um homem encostado para trás no sofá. Uma mulher ajoelhada entre as suas coxas, agarrando o pénis brilhante, de cuja ponta se soltavam algumas gotas de mel. A boca feminina lambia, gulosa. Chupava o mastro glorioso que se afundava na sua boca. O gemido masculino fazia-a intensificar os movimentos de sucção, a língua serpenteava pela carne pulsante, os dedos subiam e desciam tocando-o, acariciando-o. Pressionando. As mãos de Bruno perdiam-se entre os cabelos de Pat, segurando-a pela nuca, orientando-a no que ela sabia fazer tão bem.
- Isso, chupa-me! Ai a tua boca… – Hum… – Não páres, Pat.
Luis assistia à perda de inibição de Bárbara, deitada em cima da mesa, contorcendo-se sob a carícia dos seus dedos, perdidos entre os lábios brilhantes do mel que escorria de dentro dela. Um dedo insistia no seu interior. Enfiou outro. A entrada e saída fazia-a suspirar. Desejar mais.
Nua. Perfeita. O corpo alvo contra a mesa negra daquele canto de sala. Olhou de lado para Pat, de joelhos, engolindo o pénis de Bruno. Sentiu a pontada incomodativa do desejo na curvatura dos rins. Gostava de sentir a boca de Bárbara no seu mas não se atrevia a pedir-lho. Tirou o dedo de dentro dela, agarrou-lhe nas coxas e afastou-as, puxando-a para a beira da mesa e posicionando-se entre elas. Baixou a mão para o bolso das calças atiradas para o chão e tirou um preservativo que colocou rapidamente. Agarrou-a de novo e esperou pela vontade feminina.
- Vem, Luis. Dá-me… Porque esperas? – Pede-me. – Vem. – Não. Isso é pouco – o esforço para se aguentar sem se enterrar nela era demasiado, se ela demorasse muito, não esperaria e entraria nela ferozmente.
- Vem… entra em mim. Penetra-me. – Isso. – Fode-meee!
Entrou nela com toda a tesão acumulada naqueles últimos dias desejando aquela mulher. Segurava-lhe as pernas afastadas, detendo o olhar no pénis que entrava e saía do sexo feminino. Bárbara gemia. Descontrolava-se perante o seu olhar. Luis fechou os olhos e afundou-se mais no seu corpo, sentindo as coxas apertarem-se em redor da sua cintura.
Quando os reabriu, observou Pat que sentada sobre as coxas de Bruno, subia e descia enquanto soltava palavras desconexas. Olhou para o outro lado do bar. Dário caminhava até eles, puxando Sónia por uma mão. Esta, seguia-o de olhar enevoado pelo desejo. Sorria para Dário de forma cúmplice.
Enquanto Sónia se ajoelhou em cima da mesa, beijando Luis, Dário aproximou-se de Pat e Bruno. Ergueu os cabelos de Pat e beijou-a na nuca, sem pedir autorização. A jovem deu um salto, mas foi de imediato presa pelas mãos de Bruno que se afundaram nas suas nádegas. Ele havia percebido que Dário segredara algo ao ouvido de Sónia, antes de se aproximarem, e adivinhara a sua intenção. O corpo cor de ébano fazia contraste contra as costas brancas de Pat. Dário esfregava o sexo excitado de encontro à pele suada da mulher à sua frente, enquanto as suas mãos a rodeavam, apalpando os bicos espetados de prazer. Pat entregou-se nas mãos dos dois homens, um dentro de si, outro que a apertava, acariciava e cujas carícias a estavam a deixar louca. Perdida nesse mar de desejo, nem se apercebia do que se desenrolava na mesa mesmo junto deles.
Bárbara abrira os olhos e deparara-se com o corpo de Sónia quase debruçado sobre o seu, enquanto Luis lhe chupava as mamas de pele brilhante. A insistência do sexo masculino no seu ventre não lhe permitiu deter-se mais do que breves segundos no choque da imagem à sua frente. Olhou para o outro lado e viu os três elementos entrelaçados noutra dança de prazer.
Não questionou. Não fez qualquer gesto. Deixou-se arrastar pela volúpia do que aquela noite prometia ainda.
Seis pessoas que quando entraram naquele bar nunca imaginaram que viriam a ter uma experiência como aquela.
Os sabores dos corpos misturavam-se numa sintonia perfeita, ao som dos gemidos e gritos de prazer. Homens e mulheres entregavam-se à luxúria de um prazer intenso. De um tesão sem igual.
O que importava o amanhã?
Apenas aquele momento.
Somente aquela mistura de sabores.

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Mistura de Sabores – III

Posted by Sutra under Contos on Friday Mar 27, 2009

O fim de uma melodia dá lugar à seguinte. O homem africano, dono do bar, aproxima-se do balcão, olhando de víes para o canto onde os dois casais pararam no tempo. Pat pega no copo e leva-o aos lábios. Os seus seios elevam-se ritmadamente, revelando a respiração ofegante. A excitação que, nem na presença do estranho diminui. Pelo contrário. Observou o corpo masculino, elegante no caminhar. Predador, insinuante. Dominador. Arrepiou-se e, no seu cérebro, a pergunta: será verdade o que dizem dos homens negros? Olhou para o baixo-ventre masculino e sentiu-se ruborizar com os pensamentos.
Bárbara sentia-se envergonhada como se tivesse sido apanhada em flagrante a fazer o que apenas a sua imaginação praticava.
Bruno deu um gemido entredentes. A excitação que a boca de Pat lhe causara e a repentina intrusão deixaram-no de caralho teso e dorido pela não satisfação. Incapaz de o meter dentro das calças, limitou-se a tapá-lo com a camisa. De soslaio, observou o rosto de Bárbara e pensou: ‘esta está a precisar de perder a timidez’.
Luís remexia-se inquieto na cadeira. O intruso só viera atrapalhar o que já imaginava que poderia acontecer. A sua vontade era aproximar-se mais do outro casal e estava quase a dar esse passo. Para isso bastaria convencer Bárbara a fazer algo idêntico que eles faziam. Seria a partilha de voyeurismo que os aproximaria deles. Luís fantasiava com uma relação a quatro. Com uma troca de casais. Olhou com raiva para o dono do bar e engoliu o resto da bebida que tinha no copo. – Sónia, dá-me uma imperial – esperou que a barmaid se aproximasse, observando-lhe o corpo magro, de pernas altas cobertas pelas calças negras, para lhe perguntar – que se passa ali no canto?Exactamente o que estás a pensar. Antes de entrares estava aqui uma bela cena de sexo.E tu estavas a gostar de ver, já vi – e fez um gesto para os seios de Sónia, de bicos erguidos e nus debaixo da t-shirt. – Impossível ficar indiferente, mas tu vieste estragar tudo. Pararam logo.Ai foi? – e, num só gesto bebeu o resto da imperial, entrando em seguida para dentro do balcão. – Então, vamos dar-lhes uma razão para continuarem o que estavam a fazer.
Agarrou-a por um braço, puxando-a contra si, segurou-lhe o pescoço com a outra mão e beijou-a sofregamente.
- Que te deu?
Num primeiro instante, Sónia ficou sem reacção perante a invasão avassaladora da boca carnuda de Dário, o patrão. Depois, deixou-se apenas conduzir pelo fogo do desejo que se havia acendido no corpo, enquanto permanecia como mera espectadora da cena desenrolada pelos dois casais. Os dedos masculinos cravaram-se na sua cintura e ergueram-na até a sentar no balcão, enquanto as coxas dele a forçavam a abrir as pernas, para se encaixar de encontro ao calor do sexo de Sónia.
Espanto. Dúvida. Confusão. Tudo passava pela mente de Sónia que não conseguia evitar a vontade de o sentir dentro de si. Já mais que uma vez imaginara como seria sentir aquele corpo masculino a invadi-la. Nunca havia feito sexo com nenhum homem de raça negra e pensava se a fogosidade de que tinham fama, corresponderia à verdade ou seria um mito. Enquanto sentia a sua língua deslizar-lhe pelo pescoço, apertava as coxas em redor das pernas de Dário e puxava-o contra si, sentindo o grande volume que a fazia estremecer. Queria sentir aquele pénis entre os dedos, sentir-lhe o calor. Queria prová-lo. Sentir a sua dureza entre os lábios. Queria senti-lo a fodê-la. Perturbada, quase esquecia aqueles que agora tinham tomado o lugar de observadores, enquanto se afastava dele, permitindo que ele a despisse da blusa, fazendo saltar os seios avantajados, nus, soltos e deitava o corpo para trás, no balcão.
Apercebeu-se de onde estava quando ouviu um gemido surdo e um pequeno riso nervoso. Ergueu a cabeça, olhou o espelho por cima do ombro de Dário e o que viu fê-la sorrir, deitar de novo o corpo no balcão e fechar os olhos, entregando-se à luxúria e prazer.
Dário deslizava os dedos compridos pelo corpo que se contorcia com as carícias, descendo-os para as calças que desapertou. A sua meta era aquele sexo húmido que adivinhava rosado, onde pretendia mergulhar o rosto, invadindo-a com a língua, saboreando o gosto de mulher excitada.
O reflexo do espelho mostrava quatro pessoas estáticas que não perdiam um movimento do que se desenrolava no balcão do bar.
A mão de Pat tornou a deslizar para as coxas de Bruno.
Luís olhou o rosto de Bárbara e pediu em silêncio que ela tivesse a coragem de se deixar levar.
O jogo estava prestes a começar para aqueles três pares que se viam, repentinamente, naquela partilha inusitada. Estavam lançados todos os dados para uma experiência que nenhum deles havia experimentado alguma vez.
Hesitações. Receios. Excitação. Febre do desejo. Paixão. Luxúria.
Um. Dois. Três.
Começa a descida vertiginosa ao encontro da volúpia do sexo.
Quem irá dar o próximo passo?

(continua)

© Sutra 2009

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Mistura de Sabores – II

Posted by Sutra under Contos on Wednesday Feb 4, 2009

Pat e Bruno separaram-se um pouco perante o casal que se aproximava, mas logo ficaram à vontade quando Bárbara e Luís se sentaram, sorrindo-lhes com alguma cumplicidade.
Depois de conversarem um pouco, Luís e Bárbara não se fizeram rogados e começaram a beijar-se também, as mãos passando fervorosamente pelos corpos. Os dedos ultrapassando barreiras, penetrando tecidos, revelando pele, carne rija, suor e desejo. As pernas semi afastadas de Bárbara permitiam a subida dos dedos de Luís, que afastando a tanga, se aninhavam na gruta quente e húmida tremendo de paixão.
Na outra mesa, Pat acariciava o pénis de Bruno que já se encontrava fora dos boxers, protegido da visão do outro casal, pelo tampo da mesa. Até que Bruno disse algo baixinho, só para ela ouvir.
- Não, isso não. Aqui? – Sim, que importa? – Estão a ver-nos. – E achas que eles não gostam de nos ver? Estão a fazer o mesmo. Vá, anda lá. – Não sei… – Quero sentir a tua boca a chupar-me, a tua língua.
E acariciava-a no pescoço, puxando-a levemente.
Pat acedeu e deslizando para baixo da mesa, ajoelhou-se à sua frente, olhando-o nos olhos, enquanto abocanhava aquele pénis duro e macio que adorava.
Na outra mesa, o olhar de Bárbara e Luís colava-se ao movimento de subida e descida da cabeça de Pat. Já não escondiam o desejo que sentiam, nem a volúpia nos olhares que trocavam com Bruno, e este, revelava-se já sem pudores, deixando que vissem o seu membro duro a entrar e sair da boca de Pat.
O que lhes passaria pela cabeça naquele momento?
Desejo. Puro. Luxúria. Poderosa.
Bárbara pensava no quanto lhe apetecia sentir o pénis de Luís na sua boca, deliciar-se no seu sabor e, ao mesmo tempo, curiosidade em saber que gosto teria o de Bruno, dada a sofreguidão com que Pat o devorava.
Luís pensava no quanto a boca de Pat lhe parecia gulosa e mordia o lábio inferior ao imaginar o que seria sentir aqueles lábios rodear-lhe o pénis e dividi-lo com a boca de Bárbara: ambas deliciando-se na sua dureza.
Bruno vibrava com os movimentos da boca de Pat, com a forma como ela o chupava, enquanto observava os olhares de Bárbara, pensando que aconteceria se a convidasse a partilhar aquele momento com Pat.
Pat deliciava-se com aquele pénis que adorava apertar entre os lábios. Despreocupada com o que se passava em seu redor, apenas imaginava-se deitada de barriga naquela pequena mesa a ser comida por trás por Bruno, enquanto a sua boca seria penetrada por aquele desconhecido que a olhava convidativamente.
A partilha era incomum para qualquer um deles. Mas o lado voyeur estava perfeitamente desperto e as suas imaginações estendiam-se como uma armadilha que os conduzia a um mar de prazer.
Do outro lado da sala, uma mão fingia limpar a bancada das garrafas, a sua dona de costas voltadas para o balcão. Os olhos penetrantes perfuravam o espelho que reflectia as cenas de profundo erotismo de quatro desconhecidos despidos de pudores. O bar permanecia vazio à excepção dos cinco intervenientes e a barmaid devorava cada movimento, enquanto sentia o desejo pulsar entre coxas, deixando humedecer as calças que se apertavam na pele nua.
Termina a 17ª música do CD que toca no equipamento de som e recomeça da 1ª faixa. O mundo parece ter parado, restando apenas o ambiente escuro, quente e o cheiro a sexo. E eles. Movimentando-se. Avançando sem que se apercebessem, para uma aventura sem igual.
Abre-se a porta principal e uma sombra masculina projecta-se no umbral. Os dois casais não se apercebem da sexta presença no local. A barmaid vira-se repentinamente ao som da primeira passada e fixa o olhar no homem de cabelos pretos, pele bastante morena a fazer lembrar terras de África de onde era oriundo. Ela sente que ele se apercebe de algo incomum no bar, naquela noite.
A porta fecha-se não sem algum barulho, despertando os dois casais da bruma da luxúria. Interrompem cada gesto, ficando em suspenso do movimento seguinte.

(afinal ainda vai haver mais… além deste)

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Mistura de Sabores

Posted by Sutra under Contos on Thursday Jan 29, 2009

O bar parecia deserto, à excepção do homem sentado ao balcão que bebericava o que parecia ser um gin ou vodka. Patrícia e Bruno encostavam-se cada vez mais um no outro, sentindo o calor que atravessava os seus corpos, o desejo exalando o seu perfume que os atordoava. Os beijos sucediam-se, enquanto as mãos se cruzavam debaixo da mesa: as dele nas coxas dela, as dela, no volume que a atraía.
Pelo espelho atrás da barmaid, o homem do balcão apreciava os movimentos voluptuosos do casal apaixonado e adivinhava por onde passeavam as suas mãos, desejando ter a seu lado a mulher com quem compartilhava momentos assim. Olhou para o relógio e suspirou: estava atrasada. – Pat, estás muito vestida – sussurrou Bruno no seu ouvido, enquanto passava as costas da mão pelo seio preso na copa do sutiã, demonstrando a que se referia.
Ela sorriu e levou as mãos atrás das costas, por dentro da blusa, desapertando-o. Puxou as alças pelos braços e tirou-o, olhando em redor. ‘A empregada está ocupada e o único cliente está de costas, nem vê’ – pensou, redondamente enganada. Atirou o sutiã para dentro da mala, sentindo o prazer de ter os seios nus. Logo os dedos de Paulo tactearam a sua carne e lhe apertaram um seio, esfregando os bicos duros entre o polegar e o indicador.
Os lábios de Paulo deslizavam pelo seu pescoço, pela nuca, mordiscando o lóbulo da orelha, enfiando a língua em todos os recantos, provocando-a. Apertou o pénis duro entre os dedos, sentindo o seu pulsar através do tecido das calças de ganga. Pediu-lhe para desapertar as calças, ela não estava em posição de o conseguir sem dar demasiado nas vistas. Apesar de o bar se encontrar praticamente vazio. Ele obedeceu. Ao desejo dela. À vontade dele. Endireitou-se e desceu o fecho, revelando o tecido dos boxers que cobria a parte do corpo masculino erecta, palpitante de desejo.
O homem ao balcão apercebia-se de todos os gestos de ambos: o modo como Pat despiu o sutiã, a mão de Bruno que lhe apertou o seio, levando-a a morder o lábio inferior, o momento em que ele desabotoou as calças e o gesto de Pat quando levou os dedos dentro dos boxers do seu companheiro. O semicerrar dos olhos masculinos. O morder de lábios feminino. Não conseguindo controlar, levou a mão ao seu próprio membro que dava já sinais de vida, incomodando-o. Foi nesse momento que o seu olhar se cruzou com o de Pat através do espelho e foi aí que ela se apercebeu que ele tinha visto cada um dos movimentos deles, ao ver como ele se tocava. – Já cá estou – a voz meiga de Bárbara soprou-lhe ao ouvido, fazendo-o dar um salto. – Não reparei que já tinhas chegado – disse atrapalhado. – Isso percebi eu – respondeu ela, insinuante, enquanto alternava o olhar do baixo-ventre masculino para o casal a escassos metros, perdidos em carícias que transmitiam calor de luxúria.
Encostou os lábios carnudos na boca masculina, abrindo-os e entrelaçando a sua língua na dele, enquanto a mão repousava na protuberância das calças, apertando os dedos. – Vamos para uma mesa – disse ele.
Levantou-se do balcão e dirigiu-se para uma mesa mais desviada. – Não – pediu ela – vamos antes para aquela.
‘Aquela’ era uma mesa muito perto do casal, deixando apenas uma vazia entre eles. – Queres? – perguntou ele. – Muito – sorriu ela, maliciosamente.

(haverá continuação? – que me dizem?)

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Alucinação

Posted by Sutra under Contos on Monday Sep 15, 2008


[...]
Uma das suas mãos subiu pela perna feminina, contornou a coxa, e quando agarrou na nádega… descobriu-a nua. A saia erguida até à cintura e o fio dental minúsculo deixavam a carne redonda completamente descoberta e apetecível.
Ele interrompeu o gesto seguinte e olhou-a, soltando uma gargalhada. – Vim preparada para a consulta, doutor.
E as carícias continuaram até que ele a deitou sobre a mesa, depois de empurrar alguns papéis para o lado. Provavelmente alguns terão caído ao chão, ou já lá estariam?
O seu corpo sobre o dela, as mãos nos seus seios de bicos erguidos, a boca entre as suas coxas, provando o seu néctar, lambendo a sua humidade, fazendo-a sua, levando-a ao primeiro orgasmo… derramando na sua boca o seu mel, enquanto uma das suas pernas, repousava no ombro masculino.
Beijaram-se de novo, a língua dele parecia que a devorava, tocando cada recanto. Era de tirar o fôlego o seu beijo, excitando-a sem parar, deslizando os lábios pelo seu pescoço, mordendo e chupando a ponta da sua orelha.
Luísa, escorregava as mãos pelo corpo masculino, desde a nuca, descendo pelas costas, apertando-o contra si, de mãos espalmadas nas nádegas masculinas. Sentia a força do seu membro excitado e desejava senti-lo em pleno. Deslizou uma mão até ao fecho das calças de Filipe, abrindo-o e introduzindo os dedos na abertura, afastando o tecido dos boxers e, finalmente, tocando na carne quente e húmida do pénis túrgido, de ponta aveludada.
Ouviu o gemido dele contra o seu ombro e, deslizando da secretária, ajoelhou-se à sua frente, terminando de lhe despir as calças. Sentia fome daquele corpo masculino, de sexo. Sentia-se louca e só pensava em despir rapidamente o fio dental que trazia, tirar-lhe as calças e pedir – fode-me!
Mas, foi deixando que a sedução se prolongasse lentamente, que fossem conhecendo cada pedaço dos seus corpos, calmamente, beijando, tocando, apalpando, sentindo o prazer a dominar cada poro da pele, cada milímetro do corpo.
[...]

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Encontro virtual

Posted by Sutra under Contos on Friday Jan 11, 2008

Falavam há algum tempo num chat público e a corrente eléctrica que passava entre os dois parecia atravessar a linha invisível da internet, acendendo um rastilho de desejo que se revelava nas palavras trocadas. O convite velado em cada frase escrita, a sedução quente em cada revelação dos sentidos. O conjunto ideal que elevou o desejo a tal ponto que, não resistindo mais, ficaram uma noite a sós até de madrugada, em perfeita harmonia de volúpia. As palavras escritas abriram espaço também para o som, e o calor das vozes cruzaram-se, incendiando ainda mais os corpos dos dois desconhecidos que se entendiam, se desejavam e se amavam através das palavras.
As mãos tocavam os próprios corpos, tocando-se um ao outro na sua imaginação. Os suspiros e gemidos entrelaçavam-se em sintonia, acelerando o ritmo das batidas dos corações. As humidades e durezas que tocavam não eram as suas, mas as do outro. As trocas. A volúpia. O desejo. A explosão final e o grito. A sensação de bem-estar do corpo e a necessidade de ter mais. Sempre mais.
A doçura da voz nas palavras ditas depois.
Outra noite. Mais outra. E o fogo abrasivo. A lava dentro dos corpos que apenas se tocavam pela imaginação. A vontade do toque real.
Um dia as palavras não chegaram mais. – Quero ter-te agora. Não posso esperar mais. – Vem.
E ele foi. Encontraram-se a poucos minutos do apartamento dela, num sítio mais isolado. Viram-se e não puderam conter a força do beijo, o calor dos lábios, a sofreguidão das línguas. O deslizar das mãos tacteando corpos.
Meteram-se nos carros e seguiram até à rua dela, estacionaram os carros e entraram no elevador, numa urgência de chegar ao 4º andar. O relógio marcava as 2:10 horas da madrugada. No tesão do beijo, ainda se iniciava o dia. Botão de Stop para dentro e ela ajoelhou-se à sua frente, desabotoou-lhe as calças e, agarrando no pénis já erecto com as mãos a tremer, meteu-no na boca, chupando-o com sofreguidão. – Aiiii! Isso. A tua boca é ainda melhor do que eu imaginava.
E os lábios insistiam sobre a masculinidade, a língua chicoteava a glande. Levantou-se rapidamente, carregou de novo no botão e beijou-o, os lábios abertos, a língua irrequieta.
Entraram em casa e, mal ela acendeu a luz, ele empurrou-a na direcção do sofá, inclinou-se sobre o encosto, subiu-lhe a saia, afastou o fio dental, colocou o preservativo que tirou apressadamente do bolso de trás das calças e penetrou-a devagar, saboreando o aconchego da carne húmida e quente da vulva em redor do seu pénis.
Mais uma estocada e sentiu-se profundamente dentro daquele corpo. Movimentou-se. Saiu, entrou. Mexeu-se. Enterrou de novo o pulsar do desejo. Ouviu-a gemer e sentiu o suor escorrer pelo peito e cair-lhe nas nádegas desnudas, pela saia enrolada na cintura. – Nunca pensei que fosse assim… bom… ahhh… sim… mete… isso… – o sussurro feminino.
Suspiros. Gemidos. Orgasmos.
Mal haviam ainda começado.
Antes do sol nascer o último pedido… – Dá-me aquilo que me davas lá… – Queres? – Muito, muito. Vê como fico logo duro só de pensar nisso. – Então, vem.
E ofereceu-lhe o corpo mais uma vez. De uma forma que não oferecia muitas vezes. Mas a ele tudo lhe concedia na maré de luxúria, na vontade do desejo.
O sol já ia alto quando ele a deixou a dormir e saiu de casa para percorrer as dezenas de quilómetros que os separavam.
Um encontro que ultrapassou todas as expectativas. Seria de repetir? Quem sabe…

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Sem título

Posted by Sutra under Contos on Monday Dec 4, 2006


(...)
A boca deslizava pelo tornozelo descoberto, descendo até ao peito do pé e subindo de novo até beijar suavemente o joelho, mordendo a carne com suavidade. Uma mão acariciava a coxa, aproximando os dedos das virilhas, enquanto a respiração quente continuava a fustigar a pele da mulher suspirante que, acariciava os seios, mordendo o lábio inferior. A cama era um leito de sensações, de lençóis amarrotados, cobertor largado no chão, junto com as roupas dele e dela. A boca aproximava-se do centro do prazer feminino, ansiosa por devorar a carne húmida e terna que aguardava carícias. Tocou-lhe primeiro com os dedos, fazendo-a gemer. – Sim… isso… sim…
Acariciou o clítoris, apertando-o entre dois dedos, fazendo-o rodar entre eles. A língua açoitava-lhe as coxas semi-afastadas e erguidas, uma sobre o ombro masculino. Até que lhe tocou o clítoris, titilando-o e chupando-o sofregamente, enquanto os gemidos dela ecoavam nas paredes do quarto. Um dos dedos introduziu-se entre os lábios da vulva ardente, penetrando profundamente e iniciando um movimento de vaivém como se fosse o membro masculino a investir no seu íntimo. Ela delirava querendo mãos, pedindo que ele a penetrasse, ansiando pelo momento em que o corpo masculino a possuísse em pleno. – Vem… por favor… quero-te!
Mas ele insistia com a boca no seu sexo, de forma ritmada, enquanto apreciava as expressões do rosto feminino sob o domínio do desejo. Fê-la vir assim, sentindo os espasmos na boca que não parava de a acariciar, absorvendo o néctar adocicado do prazer feminino.
Deixou que ela acalmasse, enquanto a acariciava com dedos suaves por todo o corpo. Depois, ergueu-se, fê-la ficar de joelhos e apoiar as mãos no espaldar da cama, ficando de costas para si, doce e submissa, à disposição da sua volúpia e desejo. Ajoelhou-se atrás dela, posicionando-se para a possuir. Encostou o membro duro na entrada do sexo feminino e, agarrando-a pelos quadris, penetrou-a de uma só estocada, fazendo-a soltar um pequeno grito rouco, de prazer. Investindo uma e outra vez, deslizava as mãos desde os ombros dela até à sua cintura, perdendo-se nos seios que apertava, sem parar de se aprofundar cada vez mais na gruta que escorria prazeres. Curvou-se, beijando as costas húmidas de suor, enquanto apressava os movimentos de entrada e saída do corpo feminino. – Estou quase… quase… – sussurrava ela, de respiração entrecortada.
Acelerou o ritmo das investidas, até que, em delírio, se enterrou profundamente naquela carne tenra que o envolvia, derramando nela o sémen quente que saía em golfadas, e sentindo como ela o apertava, vindo-se também num estertor de prazer, enquanto gritava.
Abraçou-a ainda de sexo dentro do dela, beijando-a na nuca.
Saiu do seu corpo, virando-se e, depositando beijos por todo o seu rosto, terminando nos lábios que beijou várias vezes.
Ela não ouviu a sua voz em momento algum, além dos arquejos de desejo e do prazer alcançado.

(...)

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Sem título

Posted by Sutra under Contos on Sunday Nov 12, 2006


(...)
Ao fim de uma hora, Hannah ainda não dormia. Levantou-se para ir buscar um livro à biblioteca no piso inferior e, quando passava em frente à porta do quarto do casal amigo, ouviu um gemido, reparando que a porta estava entreaberta. Hesitou e, quando ia para prosseguir o seu caminho, ouviu outro gemido e o barulho do colchão. Não resistiu e olhou para dentro do quarto pela nesga da porta que deixava ver um cenário de luxúria. Os gemidos e suspiros sucediam-se, misturados com palavras que não conseguia decifrar mas que imaginava, enquanto Lena, sentada sobre Fernando, o cavalgava. O corpo subia e descia sobre as coxas masculinas, enquanto ele lhe agarrava os quadris, cravando os dedos nas nádegas e puxando-a com força de encontro a si, para se enterrar nela profundamente.
Hannah não pôde deixar de admirar a sintonia dos corpos e sentiu um tremor de desejo invadi-la. Escorregou uma mão para as suas coxas, introduzindo-se entre elas, mesmo por cima da camisa de noite, e apertando os dedos contra o seu sexo com força. Estava húmida de desejo e queria muito mais que aquilo.
Enquanto via Fernando ajoelhar-se em frente a Lena e erguer as suas pernas, colocando-as em cima dos ombros, para enterrar de novo o membro no sexo feminino, Hannah introduziu os dedos dentro da cuequinha e tocou a sua carne completamente molhada de tesão. Acariciou-se, sufocando o seu gemido, ouvindo as vozes elevarem-se no quarto. – Fode-me, isso… – Fodo, toma-o todo, toma…
Até que se ouviu o grito em uníssono, que abafou o seu gemido enquanto também se vinha num estertor delicioso. O orgasmo havia chegado em simultâneo para os três.
Já não desceu à biblioteca e regressou ao quarto, de respiração ainda ofegante.
Adormeceu rapidamente.
(...)

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Sem título

Posted by Sutra under Contos on Sunday Nov 5, 2006


(...)
Deixou-se levar de novo nas ondas de prazer, buscando uma satisfação que sabia ter um gosto a pouco. Como gostaria de sentir junto a si um corpo masculino, acariciando-a como um homem sabe tão bem fazer. Imersa nas ondas de prazer foi concentrando a sua atenção no toque dos dedos entre as suas coxas, escorregando na humidade do desejo.
Até que começou a sentir outros dedos junto aos seus, massajando um seio, mais um toque no pescoço, uma respiração quente no seu rosto, o peso de um corpo junto ao seu. Já não sabia se era sonho, se partidas da sua imaginação desperta, só sabia que não queria parar de sentir aquele prazer. E deixou-se levar, acreditando que tudo não passava de uma partida do seu desejo antes expresso em pensamentos.
O aroma masculino inebriava-a, cortando-lhe qualquer raciocínio que pudesse ter. Mas para que queria ela raciocinar naquele momento? Apenas sentir. Era tempo de regozijar-se com o prazer de ter aquele corpo junto ao seu, levando-a pelos inimagináveis caminhos do prazer.
Sentiu a sua camisa de dormir ser-lhe retirada pela cabeça e um peito quente e másculo encostar-se nos seus seios, arrepiando a sua pele, os lábios quentes e macios roçavam a sua boca e uma língua húmida penetrava entre seus lábios, procurando a sua. Apeteceu-lhe devorar aquela língua que fazia malabarismos em seu cérebro e apertou-a entre os lábios, chupando-a. Umas coxas fortes apartaram as suas para lhe mostrar a imponência de um membro excitado que queria entrar no seu corpo, mas que apenas o roçava, onde todos os fogosos prazeres se concentravam. Levando uma mão à carne túrgida daquele homem-fantasma, sentiu o poder do desejo transpirar entre seus dedos enquanto o acariciava. Não ouviu o grito rouco que se soltou da sua própria garganta. Sentiu-o.
E, subindo as suas pernas que se enlaçaram na cintura masculina, apertou-o num convite a uma invasão que tardava em chegar, para sua tortura. Mas que chegou num só impulso, como duas peças que finalmente se encaixavam, profundamente, à medida da carne expectante.
E os dedos entrelaçaram-se enquanto olhos se cruzaram. O dela, da cor de um prado verdejante, o dele profundo como a noite sem luar. E o corpo masculino investia uma e outra vez no corpo de Hannah, como se a quisesse trespassar com a sua arma de fogo. Os gemidos eram cânticos que entoavam entre as paredes frias daquele quarto antigo. Hannah não pensava, apenas sentia as ondas que subiam pelo seu corpo, a vontade de gritar, de querer agarrar o mundo, como se tudo pudesse naqueles minutos em que um corpo insistia dentro do seu, levando-a ao cume do prazer.
Sentiu um estremecimento intenso, o suor que escorria pelo seu rosto, seios e se concentrava em toda a extensão da pele, formando gotículas que se entrelaçavam com as que caíam do corpo dele. E agora mais rápido o movimento de corpos, quase no auge, quase a tocar a estrela mais longínqua do universo. E deixou-se levar na cauda daquele cometa de volúpia, soltando finalmente aquele grito que prendia, enquanto ele investia mais profundamente no seu corpo e derramava a lava ardente no depósito de prazeres que era o seu corpo. Ouviu-o arquejar de boca contra o seu ombro, sentindo a dentada forte na sua carne que denunciava o quanto aquele orgasmo intensa também o afectara a ele. Sentiu as gotas de suor escorrendo por sua face. Não, não eram de suor. Eram lágrimas. Chorara com o prazer que sentira, o que nunca lhe havia acontecido. Suspirou e abriu os olhos para encarar aquele que a fizera chorar de prazer. Estava sozinha.
(...)

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Noite de Inverno

Posted by Sutra under Contos on Friday Oct 13, 2006


(…Wink
A conversa amena naquele início de serão, trazia um perfume diferente no ar. E não, não se tratava do incenso que queimava no balcão ao fundo da sala, nem da lenha que queimava na lareira acesa para fazer esquecer o frio da rigorosa noite de Inverno.
Era algo atractivamente palpável pelos sentidos e que inebriava quem se deixava arrastar por eles. Na verdade, um a um, todos se deixavam arrastar para um tumulto que se concentrava, para já, no tema de conversa: experiências sexuais, fantasias eróticas, troca de parceiros e sexo em grupo.
As mulheres, mais acanhadas, sorriam e lançavam um ou outro comentário, mas iam acompanhando o desenrolar do tema, envolvendo-se no mesmo ambiente de excitação que já dominava a mente e o corpo de cada um dos actores naquele palco, inevitavelmente montado de uma forma natural e ofuscante. Começavam a permitir-se libertar de qualquer receio de falar abertamente sobre questões que, habitualmente, reservavam para o espaço íntimo das quatro paredes de um quarto.
Os homens, aparentemente mais liberais e, contudo, nem sempre o sendo, falavam fluentemente, derrubando obstáculos, saltando por cima da timidez feminina e mostrando que, entre aquele círculo fechado tudo seria permitido naquele debate, naquela noite.
Acima de tudo, naquela noite.
Em que, quatro jovens casais, haviam deixado as suas vidas passadas, do lado de fora da casa de campo, à mercê da fúria do vento, para se concentrarem em si mesmos, na sua liberdade de corpo e espírito.
Entre eles, Sandra e Nuno, os mais jovens, curiosos nos seus cerca de vinte e cinco anos, e os que mais ansiavam por novas experiências.
(…Wink

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Uma tarde em Cascais

Posted by Sutra under Contos on Wednesday Oct 11, 2006

(...)
Levou-a até ao Hotel em que estava hospedado, o Albatroz a escassos metros da pequena esplanada, virado para a baía de Cascais. O sol de Outono, demasiado quente para a época, acompanhava-os no curto trajecto, como que guiando os dois corpos para além do que seria uma tarde alucinante. Eram dois desconhecidos que de si, pouco mais sabiam que um nome falso, inventado no momento, conscientes de que não era mais do que um conjunto de letras que os distinguiria de outros caminhantes das suas vidas.
E que era um nome, afinal? Nada mais que isso – um grupo de letras, maior ou menor, que distinguiam este daquele, aquela da outra – mas tinham o condão de transmitir a errónea ideia de que se conhecia o seu dono.
Os corpos seguiam juntos, dedos que se tocavam subtilmente a cada passada no caminho para a satisfação de um desejo urgente, animal, que invadia a portuguesa e o italiano. Duas línguas diferentes que se entrelaçariam e falariam num só idioma: o da paixão alucinada, desejo, tesão. Sexo. Puro sexo.
(...)

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Vingança – II

Posted by Sutra under Contos on Wednesday Jun 21, 2006

Atormentada pela proposta que ele lhe fizera, Ana rangia os rentes de uma raiva quase impotente. Sabia que casos assim existiam aos milhares por esse mundo fora, mas sempre pensara que não lhe aconteceria a ela. Enganara-se. E não lhe saía da memória o sorriso cínico do bastardo que a queria subjugar. Raiva, ódio, eram os sentimentos que se revoltavam dentro de si e lhe tiravam o sono.
Os dois dias seguintes decorreram normalmente, ou com a aparência disso. Gilberto não voltou a tocar no mesmo assunto e Ana mantinha-se restrita ao trabalho que fazia, enquanto em grande turbilhão pensava no que faria no fim do prazo. Tinha apenas uma certeza – não cederia. Mas isso não lhe chegava e enquanto ia trabalhando, maquinava no que poderia fazer para que não ficasse impune. Homens como ele sempre têm de pagar de alguma forma, já que recorrendo à justiça pouco ou nada conseguiria: seria a palavra dele contra a dela, sem provas, sem testemunhas, sem actos que pudessem ser apreciados por outros e julgados.
A 5ª feira amanheceu tão cinzenta quanto ela se sentia. Encaminhou-se para a empresa como se fosse para o cadafalso. Os saltos entoavam no empedrado enquanto se dirigia para o edifício alto que se recortava no céu, situado na zona nobre empresarial da capital. Hesitou, admirando a imponência do edifício e, decididamente, continuou.
Entrou, picou o cartão e subiu pelo elevador até ao 11º andar onde ficava a sua sala e o gabinete do seu chefe. Uma hora depois de estar a trabalhar entrou ele. Estacou à frente dela, ficando alguns segundos em silêncio. – Bom dia, Ana. Como vai? – Bom dia, Sr. Gilberto. Estou bem obrigada e o senhor? – Tem alguma coisa para mim? – Tenho, sim. A correspondência que trouxe da recepção e que acabei de abrir. Quanto ao relatório que me pediu ontem, já o deixei em cima da sua secretária – respondeu Ana, fazendo-se de desentendida, pois entendeu a que se referia o chefe com aquela pergunta.
Gilberto, após fazer uma pausa silenciosa, como se esperasse algo mais, disse: – Muito bem, Ana. Temos tempo. O dia todo.
E fechou-se no gabinete, onde permaneceu toda a manhã.
À hora de almoço, Ana saiu da empresa e dirigiu-se ao cabeleireiro, olhando o relógio e contando o tempo que ainda teria para ir ao centro comercial e a uma loja que ficava fora. Esta mais específica.
Sorriu com raiva.
Duas horas depois chegou ao seu gabinete, não sem antes ter deixado alguns colegas boquiabertos ao vê-la. Havia trocado o conjunto tailleur de calças e casaquinha de cor azul, discreta, por um tailleur preto, cuja saia justa, lhe batia acima do joelho, deixando ver as pernas bem torneadas cobertas por meias pretas, de costura atrás. Por baixo do casaco justo, via-se algo em vermelho, não se antevendo se seria um top ou apenas sutiã. Os sapatos confortáveis haviam sido substituídos por uns de salto agulha, que não teriam menos de 8 cm. O cabelo, caído sobre os seus ombros em caracóis dourados e o rosto maquilhado com perfeição, de modo discreto, mas sedutor, de lábios cheios e brilhantes.
Na mão, um saco com as restantes compras.
No olhar, a vontade inabalável. O poder. A força. O ser Mulher.
Sentou-se à sua secretária e começou a trabalhar. Minutos depois, Gilberto saiu da sua sala e estacou de olhos arregalados, sem conseguir articular uma palavra:
-… Ana?... – parecia questionar ainda se seria ela e, engolindo em seco, continuou – pode trazer-me a pasta do cliente para a reunião das 16 horas? – Vou já, Sr. Gilberto – respondeu Ana com voz adocicada.
Pegou na pasta e dirigiu-se à sala do chefe.
Depois de lhe entregar a pasta, encaminhou-se para a saída, mas antes virou-se: – Sr. Gilberto? Hoje, se necessitar posso ficar a fazer serão para o ajudar a preparar o trabalho para a conferência deste fim-de-semana. – Pode? Muito bem, Ana. Muito bem – e sorriu, satisfeito, evidenciando o quanto se sentia vitorioso, já que aquele oferecimento só podia ter um significado: ela acederia.
Eram 18:30 horas quando Gilberto apareceu de novo à frente de Ana, já sem gravata e de camisa desabotoada, aproveitando o facto de terem saído todos os funcionários. – Podia tirar um café para nós, Ana. Acho que merecemos uma pausa. – É claro, Sr. Gilberto. – Ana… Gilberto, só Gilberto.
Ana fez um esforço, sorriu e respondeu: – Onde quer tomar o café… Gilberto? – Traga-o ao meu gabinete, é mais confortável. – Não demorarei – e levantou-se para se dirigir à máquina do café e colocá-la a aquecer. – Ana… – chamou Gilberto, segurando-a por um braço – tens uma resposta para mim, hoje, não tens? – perguntou tratando-a por tu. – É claro, Gilberto. E terá – respondeu sorrindo, provocante.
Ligou a máquina, sentindo que ele se dirigia para a sala dele, deixando a porta aberta. Foi à sua secretária, arrumou os poucos documentos que tinha espalhados, dentro de uma pasta que colocou na gaveta. Tirou a carta que tinha acabado de escrever minutos antes e ainda estava na impressora, colocou-a dentro de um envelope e deixou-a em cima do teclado, desligou o computador, olhou uma última vez se a secretária estava arrumada e foi tirar o café para duas chávenas. Preparou um pequeno tabuleiro, colocou a sua mala ao ombro e dirigiu-se para a sala de Gilberto. Ia dar-lhe a resposta, finalmente.
Entrou, pousou o tabuleiro na mesa de apoio perto da janela, espalhando o perfume a café pelo gabinete, virando as costas ao homem que estava sentado à secretária, e deixou a mala em cima de uma cadeira.
Pegou nas duas chávenas e aproximou-se dele, entregando-lhe uma delas, começando a bebericar o seu, enquanto o olhava languidamente por cima da chávena. Relanceou os olhos pela secretária e viu a moldura onde estava a mulher dele e o filho, sorridentes. Cerrou os dentes por breves segundos, mas disfarçou, sorrindo para ele, enquanto terminava de beber o café.
Assim que ele pousou a chávena em cima da mesa, não esperou mais e perguntou: – E então, Ana? O que tens para me dizer? – Calma, Gilberto. Eu gosto de muita calma – respondeu pegando nas duas chávenas e levando-as para a outra mesa. Despiu o casaco, mostrando o corpete em renda, de cor vermelha. Pegou na mala e retirou dela um pequeno saco que continha alguns objectos, colocando-o em cima da secretária. – Não consigo ter calma contigo aqui à minha frente, ainda por cima da forma como estás hoje. Preciso que me digas se…
E foi interrompido pela boca feminina que se fechou sobre a sua, beijando-o lentamente, mordendo-lhe o lábio inferior. Segurou-lhe na cabeça e introduziu a língua na boca feminina, devorando-a ansiosamente. Ana deixou-se beijar e insistiu, provocando-o, esfregando as coxas, nos joelhos masculinos, até que descolou os seus lábios dos dele, ficando a respirar ofegantemente a poucos centímetros do rosto afogueado dele. – Confia em mim, Gilberto? – Sim, claro.
E ela deitou a mão ao saco em cima da secretária e retirou dele um par de algemas pretas de cabedal, com que lhe atou os pulsos a cada um dos braços da cadeira. A primeira reacção masculina foi de hesitação, mas convencido por mais um beijo feminino, deixou-se levar.
Ana subiu a saia, mostrando as coxas semicobertas pelas meias de liga e o fio dental preto de renda e sentou-se no colo de Gilberto. Desabotoando a camisa, beijou-o por todo o rosto, pescoço, descendo pelo peito, sentindo as batidas apressadas do coração dele e a respiração entrecortada. Saiu do colo dele, ajoelhou-se no chão e começou a desapertar-lhe as calças, enquanto o olhava, sorrindo, provocando-o, enquanto deslizava a língua pelos próprios lábios, rubros. Gilberto nem queria acreditar no que lhe estava a acontecer. Nunca imaginou que aquela mulher tivesse tanto fogo dentro dela. Nem nos seus melhores sonhos havia imaginado esta situação.
Ana sorria e pensava – «aproveita agora, porque nem sabes o que te espera».
Puxou-lhe as calças até aos tornozelos, juntamente com os boxers e deslizou as unhas bem aparadas pelas coxas masculinas, fazendo-o arrepiar de excitação. O membro masculino estava erguido, duro, brilhante, clamando pela boca feminina que demorava a aproximar-se. O que fez, beijando-o, passando a língua levemente em toda a sua extensão, enquanto o ouvia gemer. – Despe-te, querida. Quero ver-te as mamas.
Ana parou, com uma mão a segurar o membro pela base, acariciando-o, enquanto que a outra se dirigia para o corpete e o desabotoava, permitindo que ele visse os seios fartos, rijos e de mamilos espetados. – Quero beijá-los. Chega cá. – Chiuu… ainda não.
E, baixando-se de novo, colocou o membro masculino na boca, chupando-o com ânsia. Queria que ele se viesse naquele momento, assim, dando-lhe prazer a ele. Um prazer que seria efémero.
Não demorou muito para começar a sentir que ele estava muito perto do orgasmo. Sabia que tinha de se preparar. – Estou-me a vir, ai querida, toma.
E ela deixou que a seiva masculina caísse nas coxas dele, salpicando o corpo masculino com a sua própria imagem de prazer e luxúria.
Ainda ele gemia e já ela estava de pé na sua frente, de máquina digital em punho, tirando várias fotografias, de vários ângulos.
Não entendendo a intenção dela, ele sorriu e perguntou: – É um fetiche? Gostas de fotografar no fim, querida? – Não, querido. – Então?
Ela nada respondeu e compôs a saia, fechou o corpete e vestiu o casaco. Arrumou as coisas na mala e encaminhou-se para a porta. – Ana? Onde vais? Não me vais deixar aqui, pois não?
Ana abriu a porta do gabinete, voltou-se e atirando com as chaves das algemas para cima da secretária disse-lhe: – Uma cópia destas fotografias será para entregar amanhã à Administração desta empresa. Conhece as regras tão bem quanto eu e pode imaginar qual será o seu futuro aqui. Outra cópia será entregue, em mão, à sua esposa. A minha carta de demissão fica em cima da minha secretária. Felicidades, Sr. Gilberto.
E saiu do gabinete, com o prazer da vingança estampado no rosto.

FIM

Nota – desculpem o tamanho, mas queria publicar o fim hoje Oops!


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Vingança – I

Posted by Sutra under Contos on Wednesday Jun 21, 2006

Irritava-a a atitude machista e megalomaníaca do seu chefe directo. Sempre que entrava no seu gabinete olhava-a de forma luxuriosa numa clara demonstração do que lhe passava pelo pensamento – a vontade de a comer! E sentia nas suas costas aquele olhar que a atravessava, sempre que se encaminhava para a saída daquele espaço que a sufocava.
Não podia negar que se tratava de um homem interessante, cabelo ondulado castanho claro e fino, olhos de uma cor imprecisa, entre o cinza e o azul, nariz fino e lábios que se estendiam numa linha fria e precisa, umas vezes, e se torciam de modo irónico quando a analisava.
Num qualquer lugar, noutra situação, provavelmente sentir-se-ia atraída pelo seu charme, e conseguiria seduzi-la com facilidade. Mas não ali, naquelas circunstâncias. Era seu chefe, um homem casado, e ela queria subir naquela empresa, profissionalmente, mas sem ter de passar pela posição horizontal. Prezava-se demasiado a si mesma e à educação que lhe havia sido incutida pelos seus pais.
Não era nenhuma virgem ingénua, nem tampouco inexperiente nas lides do sexo, mas esse nunca seria o seu caminho para alcançar os seus objectivos.
Mas ele atormentava-a. Insinuantemente, prometia-lhe protecção e tentava aliciá-la com convites para jantar, reuniões a horas tardias. Fez dela sua assistente para a manter próxima de si. Ainda vacilou quando lhe foi proposto o lugar depois de Rita se ter demitido para criar a sua própria empresa. Temia o que poderia vir depois, mas pensou que saberia manter-se à distância necessária.
Erro? Talvez.
Depois das várias insistências do Sr. Gilberto, agilmente repudiadas por si, de forma a não ferir susceptibilidades, inventando algumas desculpas para se furtar às contínuas reuniões tardias e a ceias pós-reunião, veio o ultimato.
Aconteceu exactamente onze meses depois de trabalhar naquela empresa, e dois meses depois de se ter tornado sua assistente pessoal.
Chamou-a à sua sala, fechou a porta e de rosto sério mandou que se sentasse à sua frente. – Ana, quando entrou para esta empresa sabia que teria de se dedicar para chegar longe. Isso significava dispor mais do seu tempo e prescindir de algum do seu tempo fora do horário laboral. – Sim, Sr. Gilberto, eu sempre soube disso. – E também já lhe disse inúmeras vezes que me tratasse apenas por Gilberto e afastar essa formalidade desnecessária. – Eu sei, Sr. Gilberto, mas eu não consigo tratá-lo de outra forma – a verdade é que não queria fazê-lo para ajudar a manter a distância, pensou Ana, sem nada lhe dizer. – Pois é, Ana, mas quando passou a ser minha assistente, pensei que essa formalidade seria afastada mais facilmente e parece que isso não aconteceu. Faz todo o trabalho de forma irrepreensível, mas mantém essa distância que considero completamente inadequada. – Mas, Sr…. – Deixe-me terminar – interrompeu-a ele – A verdade é que não é apenas essa distância, é o facto de ter sempre pouca disponibilidade para trabalhar até tarde, não pode deslocar-se para fora da cidade quando vou a conferências, porque não pode deixar o seu irmão sozinho dois ou três dias, e eu sei que ele já tem 18 anos, portanto, com capacidade para sobreviver durante alguns dias. Recusa tudo o que lhe ofereço, o que lhe proponho e isto tem de mudar, Ana. Assim, não podemos continuar. – Sr. Gilberto, eu tentarei ter um pouco mais de disponibilidade, mas realmente tenho alguns limites. Além disso, estou noiva e tenho de começar os preparativos para o casamento, só o podendo fazer depois do horário de trabalho. Por isso é que não me é possível fazer serões na empresa. – Está noiva? Não me tinha dito. – Foi no Sábado passado que marcámos da data do casamento. – E é para quando? – Daqui a quatro meses, em Setembro. – Hum… que rápido. Ora mas alguma coisa vai ter de mudar aqui, Ana. – Não sei que mais possa fazer. – …
O olhar dele atravessou-a como um punhal, fazendo-a sentir um arrepio que traduzia o seu receio. O que confirmou a seguir. – Ana, vou falar com toda a franqueza. Você sabe perfeitamente que me interessa e que tenho tentado ser complacente consigo, pensando que estava com algum medo da sua posição dentro da empresa. Disse-lhe mais que uma vez que teria um grande futuro aqui dentro, quem sabe dirigir um dos departamentos de maior destaque. Mas, para isso, terá de ter maior… disponibilidade e… boa vontade. A vários níveis. Acho que entende o que lhe quero dizer. Você é uma mulher bonita, Ana. Muito bonita. E eu quero-a ver na minha cama a perder toda essa compostura de menina certinha. E também sei que é inteligente. Por isso, sabe o que pode perder se me recusar. – Isso é uma ameaça, Sr. Gilberto? – perguntou Ana, lívida e de boca seca. – Digamos antes que… se trata de um conselho. E tem até 5ª feira próxima para se decidir. 6ª feira tenho uma conferência no Porto e ficarei lá até 3ª feira. Preciso que vá comigo. Pensei nisso e, agora, pode ir.
Ana saiu da sala sem saber se havia de gritar, arrumar as coisas e fugir, regressar ao gabinete e dizer-lhe tudo o que pensava dele ou se, simplesmente calar e pensar o que haveria de fazer.
Tinha três dias para decidir.

(continua)

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Esperem por amanhã para saber qual será a atitude da Ana.
Apostas? LOL

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O Pintor

Posted by Sutra under Contos on Saturday Apr 1, 2006

A manhã clara veio encontrá-lo, uma vez mais, a mirar aquele quadro inacabado, pincel girando entre os dedos de uma mão, palete de tintas na outra.
Não fazia mais do que um ano que Bernardo traçara as primeiras linhas da figura central da tela. A imagem de uma mulher deitada de lado e costas voltadas para si, ocultando o rosto. Até hoje não havia conseguido entender o que o havia conduzido a pintar tal quadro. A sua obra inacabada – uma Vénus de rosto virado para o céu escuro da noite.
Acordara uma noite com a sensação que lhe haviam tocado o rosto como se de asas de borboleta se tratassem. Ao acordar, apenas reparara na janela do quarto aberta e nas cortinas que esvoaçavam. Aproximara-se do parapeito da janela, olhara aquele céu azul onde as estrelas brilhavam com um fulgor estranho e a lua em quarto minguante parecia sorrir-lhe. Saiu do quarto e galgou o lance de escadas que o levaria ao sótão onde tinha o seu atelier. E começou a delinear as formas daquele quadro: uma mulher deitada num pequeno sofá de um veludo tão azul como a noite, semicoberta apenas por um pedaço de tecido azul claro, e tendo por paisagem apenas o recorte de uma janela e a profundeza de uma noite estrelada e uma lua em quarto minguante.
Demorara dois dias para que a pintura ficasse assim como a via agora e desde aí nunca mais conseguira terminá-lo. Já havia passado cerca de um ano e continuava sem conseguir fazer os acabamentos finais e concluí-lo de forma a poder expô-lo na galeria, junto com os demais.
Não conseguia entender aquela incapacidade. Ou adivinhava o motivo mas não se conseguia convencer disso. Sempre havia tido musas que lhe serviam de inspiração, mulheres que posavam para ele e de onde retirava formas curvilíneas, belos rostos, de linhas quase perfeitas, de olhar profundo e boca sedutora. Paixões, casos, romances. E agora, de tudo isso se sentia cansado.
Mas aquelas formas de linhas suaves, sensuais, de cabelo longo e claro, haviam saído apenas de sua imaginação.
Seria?
Não entendia, mas aquele sonho não lhe saía do pensamento. Principalmente agora, que havia sido atormentado por ele nas duas noites anteriores, tirando-lhe o sono.
Naquela noite não foi para o seu quarto, deixando-se ficar no divã da sua água furtada onde o quadro repousava sobre o cavalete.
A noite já ía avançada e ele permanecia perante o quadro, de olhar perdido entre a pequena clarabóia redonda e o quadro. O olhar revelava fadiga, o corpo repousava quase deitado, o sono tomando conta de Bernardo. E o sonho regressou, com um beijo na fonte, uma carícia no rosto e uma sensação de conforto e de paz.
Acordou.
E, para seu grande espanto, ajoelhada junto ao divã em que permanecia deitado, estava ela. A mulher do quadro. Olhou para o quadro e a imagem feminina havia desaparecido.
Esfregou os olhos, sentou-se assustado e olhou de novo para o quadro onde se via um fundo azul e… nada mais.
Ela, a mulher da tela estava ali, ao seu lado, ajoelhada, observando-o enquanto o brindava com o mais belo sorriso que alguma vez vira. Tentou falar, mas ela ergueu-se, silenciando-o com um dedo contra a sua boca. E, apoiando-se nas suas coxas, esticou o corpo e depositou um beijo nos seus lábios semiabertos de incredulidade. Ficou estático, sem querer acreditar no que lhe estava a acontecer.
As mãos dela percorreram-lhe o rosto, em carícias doces e suaves, acarinhando-o e fazendo com que se sentisse a mergulhar numa névoa estranha e mística. Sentia as suas mãos de fada que lhe desapertaram a camisa, abrindo-a, e tocaram no seu peito em carícias tão leves que quase não as sentia. Segurou nos braços femininos e fê-la erguer-se e sentar-se no seu colo. As mãos de Bernardo começaram, então, a acariciar as pernas femininas, desde o tornozelo às coxas, enquanto a boca buscava os segredos escondidos no seu pescoço, soprando na pele feminina, fazendo com que se arrepiasse. Os lábios aproximaram-se e trocaram um longo beijo recheado de promessas de prazer, paixão. Com a maior ternura, ele foi despindo aquele corpo celestial, de pele branca acetinada, feita para ser amada.
Deitou-a no divã, terminou de a despir e a si mesmo e ajoelhou-se junto dela, começando a beijar cada pedaço do corpo daquela Vénus que se lhe oferecia como um manjar de deuses. Tocou em cada ponto daquele corpo que se contorcia de prazer, arquejando, suspirando, enquanto sentia nos seus cabelos as mãos femininas como que a pedir por mais. Ouviu o gemido rouco dela e, sem pronunciar uma palavra, ergueu-se do chão e deitou-se sobre o corpo dela, aberto em oferenda ao seu, dominador, imponente. Segurou nas suas ancas e beijando-a nos lábios, fê-la sua, num grito rouco de prazer. Ondas gigantescas tomaram conta do seu ser, enquanto investia no corpo da deusa que tinha sob si, sentindo como os corpos se fundiam num só, atingindo o cume do prazer.
E, de repente, uma calmia, como um mar sereno após uma tempestade. Abraçou-a, trocaram um beijo – o mais doce de todos os beijos – e adormeceram.
Quando Bernardo acordou, ainda noite escura, estava sozinho. Será que tudo não passara de mais um dos seus sonhos atormentadores? Mas este havia sido diferente. Os lábios ainda queimavam dos beijos de fogo dela, o seu sexo ainda sentia o efeito da humidade do corpo feminino. Mesmo agora, ao pensar nisso, sentia a excitação a invadi-lo.
Teria sido sonho ou realidade?
Ergueu-se do sofá e, viu cair no chão um pano azul claro que cobria o seu corpo nú. Bernardo sentiu um arrepio na espinha. Olhou o quadro e viu a sua Vénus mais preciosa deitada de lado, de costas para si, tapada com um pedaço de tecido azul da cor do céu em dia de sol.
Vestiu a roupa que estava no chão, pegou no pincel e na palete de cores.
O dia veio encontrá-lo de sorriso no rosto enquanto admirava a sua obra terminada.
Na semana seguinte o quadro foi exibido ao público como a obra central da sua nova exposição. Não se encontrava à venda. Ainda o incomodava o sonho que lhe parecera tão real. Ou fantasia. Permaneceria consigo enquanto sentisse necessidade de o olhar todos os dias.
Todos os quadros foram um sucesso, mas era aquele que prendia os admiradores. Diziam os críticos que era, de longe, a sua melhor obra – uma Vénus que parecia pretender erguer-se a qualquer momento e caminhar pela sala.
Pouco antes de saírem os últimos visitantes, olhou de novo a figura feminina que se encontrava junto ao quadro há mais de meia hora, observando-o, enquanto na mão mantinha aberto o pequeno catálogo dos seus quadros. Trajava de azul.
Conversou com a sua secretária que acompanhou o último casal à saída e aproximou-se daquela desconhecida. Sentindo a presença masculina atrás de si, antes que ele tivesse tempo de dizer «boa noite», ela virou-se, sorrindo e acariciando-o com os seus olhos negros, enormes, profundos.
Era ela.
A sua Vénus.
Olhou o quadro como que para se certificar que ela ainda lá estava.
Estava.
E ao seu lado também, sorrindo daquela forma que lhe apertava o coração. Estendeu-lhe a mão, e ela deixou que os seus dedos se entrelaçassem nos de Bernardo.
E a figura feminina, como se tivesse saído da tela, caminhou pelo corredor ao lado dele, o seu criador.
O pintor e a sua musa.


Este Conto foi publicado originalmente no site Quiosque no qual participo mensalmente, na rúbrica Letras Soltas.

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