Tal como disse no artigo anterior, vou de férias uns dias.
Passarei por um cyber de vez em quando nesses dias pois, desta vez, recuso-me a levar portátil, senão caio na tentação do meu wireless.
Deixo-vos com mais um artigo com a fotografia do Autor secreto.

Fotografia de Autor Secreto
Percorre caminhos aquele que busca o além, por trás de um sonho horizontalmente disperso. Não sabe ao que vai, mas procura-o sem que se detenha mais do que alguns breves segundos, de olhar sobre o ombro. Guarda no pensamento o que fica para trás, esperando que o regresso seja em glória, perante a vida sem esperança na terra que o viu nascer.
Mais um passo na caminhada de voltear duvidoso. Na mão aperta o saco com o pouco que pode transportar, ao invés dos pequenos dedos da criança a que deu o ser. Uma lágrima escapa-se-lhe do lago que turva a vista. Descai sobre o rosto coberto de dor e aloja-se no canto dos lábios apertados da saudade que já lhe fere o peito.
O embarque. O apito da partida. A lágrima fugidia foi substituída pelo pranto silencioso do homem que sente o peso do mundo nos ombros curvados.’Um homem não chora’ entoa a voz do avô, vinda das profundezas da memória. Um homem chora sempre que a dor é insuportável. Como a que é originada pela distância dos que lhe são queridos. Distância que aumenta a cada minuto que o navio se afasta do cais.
Rosto esculpido de mágoa. Olhos semi-fechados na tentativa de descortinar mais do que o ponto distante em que se transformou o pedaço de terra que o mantinha ainda ligado ao que é seu.
Obrigado a procurar em terras distantes a vida que não encontrou no seu país, leva a coragem nos dedos para dar à família que anseia o seu regresso, o desafogo que outrora sonharam.
Regressará. De sorriso nos lábios, coração pleno de amor e saudade.
A esperança será a sua companheira nos dias e noites apartado do que faz parte do seu.
A esperança fá-lo-á regressar de mãos cheias de sonhos para, finalmente, concretizar.
Olha o horizonte e sorri pela primeira vez desde que deu o último abraço à mulher e ao filho. É ela que o faz sorrir. A esperança.
© Sutra 2008
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Antes de continuar a publicar aqui alguns dos trabalhos que fazem parte deste projecto ‘Imagem-Texto’ impõe-se apresentar o autor das fotografias, como nasceu este projecto e de que se trata.
Quanto ao autor - Autor Secreto - não posso falar muito pois ele deseja manter o secretismo que envolve os seus trabalhos. Trata-se de um fotógrafo profissional, de nacionalidade italiana, a residir e a trabalhar em Portugal há bastantes anos. É tão misterioso que eu mesma apenas sei aquilo que vou lendo nas entrelinhas, também porque ele mesmo o deixa escapar. Alguns desses pormenores que conheço, não os vou revelar aqui, até porque se tratam de questões que não estão relacionadas com o projecto em si.
O seu carácter latino foi atraído pelo erotismo dos Contos Secretos e após algumas trocas de e-mails, ele surgiu com esta proposta-desafio de criarmos os dois algo diferente.
A escolha da fotografia é sempre do seu critério. A interpretação das palavras é o meu. Curioso é tentar ver se a minha interpretação vai de encontro ao que ele mesmo imaginou ao criar a fotografia. Ele capta a imagem e na sua imaginação guarda o que ela o faz sentir. Eu olho a imagem e escrevo o que ela me faz sentir, no que ela me faz pensar.
Espero que gostem deste desafio que nos propusémos os dois, tanto como o prazer que me está a dar fazer parte dele.
Não esperem que seja sempre de teor erótico. Nem sempre o será.
© Sutra 2008
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Fotografia de Autor Secreto
O ritual da fémea. A mulher que se olha no espelho, sorri e sabe que efeito causar no amante. Ele espera-a. Ela fá-lo esperar.
A lingerie foi escolhida com prazer. Com a mesma paixão com que a irá vestir. A mesma com que ele lha irá despir. Vermelha. Veste a primeira peça, suave como a sua pele.
Pousa um pé na beira do cadeirão de veludo negro que se encontra a um canto do quarto, junto da varanda. Unhas rubras brilham num pé delicado que se irá perder nas costas do amante. Pés fincados nas suas nádegas quando o seu corpo forte a dominar, invadindo todas as suas emoções, penetrando fundo na sua alma.
As meias de liga com encaixe em renda, sobem pela pele acetinada das pernas longas, cobrindo-as de negro.
Cada gesto aparentemente estudado ao mais ínfimo pormenor é, na verdade, o reflexo insinuante daquele hábito feminino enraizado nos caminhos curvilíneos que nasceram para torturar o homem. O macho. Aquele que pensando seduzir é, na verdade, o seduzido.
Os seios redondos, de mamilos erectos, são cobertos pelo vermelho que faz conjunto com o tecido dois palmos descendentes.
Pelo pensamento passam como uma fita de cinema, as imagens do olhar dele quando a vir a envergar a cor que lhe pediu. Rubro. Apaixonado. Veemente.
No piso inferior adivinha o nervoso dos passos masculinos enquanto a aguarda. O sentar no sofá. O cruzar da perna. Copo de whisky nos lábios. Em estado puro desce, escorrega na língua, invade a boca e desliza pela garganta, queimando-o. Não tanto como o ardor da luxúria que o domina quando pensa nela. A sua fémea. Amante.
A saia preta. Justa. Pelo meio do joelho. Falsamente discreta, de carne exposta pela abertura profunda lateral.
Sorri e recorda outras tantas noites em que, amantes, rebolavam em camas de hotéis, encontrando-se nas sobras de tempo preenchidas na plenitude pela volúpia que os detinha nas esquinas do tempo. Amantes. Desde sempre.
Desliza o acetinado da blusa provocadora que se lhe cola aos seios, revelando os mamilos excitados pelo desejo que a domina em cada gesto. Rubra.
Os ponteiros do relógio da sala rodam preguiçosamente, ironia estampada em cada minuto. A ansiedade da espera causa estranhas emoções no homem. Pousa o copo vazio, ergue o braço num gesto que afasta o punho da camisa descobrindo o relógio, na esperança de que esses ponteiros não o olhem jocosamente. Ainda perderiam a reserva que fizera como surpresa.
Os brincos de ouro que ele lhe oferecera fazia nesse dia um ano. O colar com que a presenteara dois anos antes. Nos dedos o mesmo de sempre.
Os sapatos. Negros. Salto fino, alto.
Sentou-se no cadeirão junto da varanda, cruzou a perna e deu início ao último gesto do ritual. Uma a uma, foi cobrindo as unhas de corte perfeito do mesmo acetinado rubro que lhe cobria os dedos dos pés. Por cada uma, a recordação de momentos de prazer. Um ano. Mais uma. Outro ano. Pouco a pouco a torrente rubra que vibrava no seu interior, reflectia-se no corpo que provocaria o seu amante.
Terminara o ritual. Estava pronta para ele.
Exasperado, revirou os olhos no pensamento repetido: mulheres!
O som fê-lo virar-se.
Descia as escadas de sorriso sedutor, na consciência de se saber desejada. Principalmente amada. Não podia pretender melhor amante.
A sua fémea. A sua paixão. A mulher que lhe dominava todos os sentidos.
Comemoravam dez anos de casados nesse dia. Os amantes. O ritual da sedução repetia-se momento após momento nas suas vidas.
Beijaram-se, deram as mãos e saíram no rubro ritual de paixão que se concretizava ano após ano.
© Sutra 2008
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Fotografia de Autor Secreto
- Uma dádiva. – O quê? – Sim. É só o que te peço. O fruto doce. Sumarento. Senti-lo entre os meus lábios. Degustar o seu paladar. Provar como se abre perante o toque suave da minha língua. O seu estremecer espremido na minha boca e poder usufrui-lo, no intenso gemido que te fará capitular. – Serás merecedor? – Apenas tu o podes dizer. Serei? – Depende do que fizeres para o teres entre os teus lábios. Envolvido na tua carne. Penetrado pela tua paixão. – Revela-me como. – Segredar-to-ei.
Brilha na cor da paixão o fruto que se estende no limiar dos dedos que o desejam. Lábios cerrados. Vigiam as pontas curiosas que se aproximam para os tactear. O fruto não se recolhe. Não se retrai. O anseio de se abrir para receber a carícia quase vence a batalha. Ai a luxúria que consome o fruto vermelho. Ai a dor do prazer que se obriga a prolongar. A carne doce que tanto quer derreter-se na boca estendida. Aguarda. Numa espera agridoce. Os dedos avançam. Tacteiam a humidade sumarenta. Terminou o tempo de esperas e os lábios entreabrem-se como que chamando pela sensualidade de um beijo que não se equipara a qualquer outro. Desejo. A curiosidade é mais forte e é preciso conhecer o interior do fruto. Penetram. Sentem o envolvimento quente, fresco dos lábios que os beijam, fechando-se sobre esses dedos perscrutadores. Não há vacilações. Simplesmente avanços. Recuos. Reconhecimento da carne sumarenta e vermelha. Plena de vida. Palpitante. A boca aproxima-se para o toque de mestre no fruto que o aguarda entre suspiros e gemidos. Quer sentir-se derretido entre aqueles lábios que o vão devorar. Apertado na língua que o vai saborear. Deixar escorrer o sumo voluptuoso que sai do seu âmago, enquanto se sente invadido pelos dedos ansiosos que levam à boca o manjar desejado. Geme. Abre-se sem receios para receber todo o prazer com que sonhou. É um corpo separado de toda a eventualidade de um ser. Um fruto vermelho. Doce. Sumarento. De lábios abertos. Entregue na boca que o toma para si. Fruto possuído. Desfeito no prazer de ser degustado. Num trejeito apenas seu, de fruto, os lábios sorriem na luminosidade do néctar que ainda desliza até à boca que recebeu a dádiva.
- Ganharei esse fruto. – Já o tens.
© Sutra 2008
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Posted by Sutra under Imagem-Texto on Wednesday Jun 25, 2008

Fotografia de Edward Weston
Parada. Como que abandonada pelo mar e pelo vento.
Sou a concha que se enrola em si mesma e esconde o rosto esculpido pelas emoções de paixão. Deixo uma fresta aberta no ventre. Porque te espero. Encosta o teu ouvido na minha pele e escutarás o silêncio de todas as palavras que tenho por revelar. Nem sei porque o digo ou porque o faço. Apenas sinto este ardor incessante da espera do teu toque arrastado pelo vento.
Abandonada na maré de um sentimento perdido em ondas de espuma. Finco-me firmemente na rectidão de uma linha que só poderá ser ultrapassada pelos dedos que me descobrirem.
Não tenho panos para desfraldar. Somente sonhos por revelar. Torço o pescoço. Enrolo-o um pouco mais como se pudesse com os lábios tocar-me a nuca. Por dentro. Tento alcançar o mais distante de mim para me entender. Quando o conseguir expor-me-ei sem barreiras. Peito desnudo, ventre revelado. Nele te acolherei e encerrarei as portas para que não se esfume o momento. Tu ficarás dentro de mim. Nas ondas de prazer que me permitirei conceder-te. Na paixão com que me olharás por dentro.
Até lá apenas espero.
Parada. Como que abandonada pelo mar e pelo vento.
© Sutra 2008
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