Esperança

Posted by Sutra under Imagem-Texto on Tuesday Aug 19, 2008

Tal como disse no artigo anterior, vou de férias uns dias.
Passarei por um cyber de vez em quando nesses dias pois, desta vez, recuso-me a levar portátil, senão caio na tentação do meu wireless.
Deixo-vos com mais um artigo com a fotografia do Autor secreto.



Fotografia de Autor Secreto


Percorre caminhos aquele que busca o além, por trás de um sonho horizontalmente disperso. Não sabe ao que vai, mas procura-o sem que se detenha mais do que alguns breves segundos, de olhar sobre o ombro. Guarda no pensamento o que fica para trás, esperando que o regresso seja em glória, perante a vida sem esperança na terra que o viu nascer.
Mais um passo na caminhada de voltear duvidoso. Na mão aperta o saco com o pouco que pode transportar, ao invés dos pequenos dedos da criança a que deu o ser. Uma lágrima escapa-se-lhe do lago que turva a vista. Descai sobre o rosto coberto de dor e aloja-se no canto dos lábios apertados da saudade que já lhe fere o peito.
O embarque. O apito da partida. A lágrima fugidia foi substituída pelo pranto silencioso do homem que sente o peso do mundo nos ombros curvados.’Um homem não chora’ entoa a voz do avô, vinda das profundezas da memória. Um homem chora sempre que a dor é insuportável. Como a que é originada pela distância dos que lhe são queridos. Distância que aumenta a cada minuto que o navio se afasta do cais.
Rosto esculpido de mágoa. Olhos semi-fechados na tentativa de descortinar mais do que o ponto distante em que se transformou o pedaço de terra que o mantinha ainda ligado ao que é seu.
Obrigado a procurar em terras distantes a vida que não encontrou no seu país, leva a coragem nos dedos para dar à família que anseia o seu regresso, o desafogo que outrora sonharam.
Regressará. De sorriso nos lábios, coração pleno de amor e saudade.
A esperança será a sua companheira nos dias e noites apartado do que faz parte do seu.
A esperança fá-lo-á regressar de mãos cheias de sonhos para, finalmente, concretizar.
Olha o horizonte e sorri pela primeira vez desde que deu o último abraço à mulher e ao filho. É ela que o faz sorrir. A esperança.

© Sutra 2008

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Imagem-Texto – Autor Secreto

Posted by Sutra under Imagem-Texto on Sunday Jul 13, 2008

Antes de continuar a publicar aqui alguns dos trabalhos que fazem parte deste projecto ‘Imagem-Texto’ impõe-se apresentar o autor das fotografias, como nasceu este projecto e de que se trata.
Quanto ao autor - Autor Secreto - não posso falar muito pois ele deseja manter o secretismo que envolve os seus trabalhos. Trata-se de um fotógrafo profissional, de nacionalidade italiana, a residir e a trabalhar em Portugal há bastantes anos. É tão misterioso que eu mesma apenas sei aquilo que vou lendo nas entrelinhas, também porque ele mesmo o deixa escapar. Alguns desses pormenores que conheço, não os vou revelar aqui, até porque se tratam de questões que não estão relacionadas com o projecto em si.
O seu carácter latino foi atraído pelo erotismo dos Contos Secretos e após algumas trocas de e-mails, ele surgiu com esta proposta-desafio de criarmos os dois algo diferente.
A escolha da fotografia é sempre do seu critério. A interpretação das palavras é o meu. Curioso é tentar ver se a minha interpretação vai de encontro ao que ele mesmo imaginou ao criar a fotografia. Ele capta a imagem e na sua imaginação guarda o que ela o faz sentir. Eu olho a imagem e escrevo o que ela me faz sentir, no que ela me faz pensar.
Espero que gostem deste desafio que nos propusémos os dois, tanto como o prazer que me está a dar fazer parte dele.
Não esperem que seja sempre de teor erótico. Nem sempre o será.

© Sutra 2008

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Rubro ritual

Posted by Sutra under Imagem-Texto on Tuesday Jul 8, 2008



Fotografia de Autor Secreto


O ritual da fémea. A mulher que se olha no espelho, sorri e sabe que efeito causar no amante. Ele espera-a. Ela fá-lo esperar.
A lingerie foi escolhida com prazer. Com a mesma paixão com que a irá vestir. A mesma com que ele lha irá despir. Vermelha. Veste a primeira peça, suave como a sua pele.
Pousa um pé na beira do cadeirão de veludo negro que se encontra a um canto do quarto, junto da varanda. Unhas rubras brilham num pé delicado que se irá perder nas costas do amante. Pés fincados nas suas nádegas quando o seu corpo forte a dominar, invadindo todas as suas emoções, penetrando fundo na sua alma.
As meias de liga com encaixe em renda, sobem pela pele acetinada das pernas longas, cobrindo-as de negro.
Cada gesto aparentemente estudado ao mais ínfimo pormenor é, na verdade, o reflexo insinuante daquele hábito feminino enraizado nos caminhos curvilíneos que nasceram para torturar o homem. O macho. Aquele que pensando seduzir é, na verdade, o seduzido.
Os seios redondos, de mamilos erectos, são cobertos pelo vermelho que faz conjunto com o tecido dois palmos descendentes.
Pelo pensamento passam como uma fita de cinema, as imagens do olhar dele quando a vir a envergar a cor que lhe pediu. Rubro. Apaixonado. Veemente.
No piso inferior adivinha o nervoso dos passos masculinos enquanto a aguarda. O sentar no sofá. O cruzar da perna. Copo de whisky nos lábios. Em estado puro desce, escorrega na língua, invade a boca e desliza pela garganta, queimando-o. Não tanto como o ardor da luxúria que o domina quando pensa nela. A sua fémea. Amante.
A saia preta. Justa. Pelo meio do joelho. Falsamente discreta, de carne exposta pela abertura profunda lateral.
Sorri e recorda outras tantas noites em que, amantes, rebolavam em camas de hotéis, encontrando-se nas sobras de tempo preenchidas na plenitude pela volúpia que os detinha nas esquinas do tempo. Amantes. Desde sempre.
Desliza o acetinado da blusa provocadora que se lhe cola aos seios, revelando os mamilos excitados pelo desejo que a domina em cada gesto. Rubra.
Os ponteiros do relógio da sala rodam preguiçosamente, ironia estampada em cada minuto. A ansiedade da espera causa estranhas emoções no homem. Pousa o copo vazio, ergue o braço num gesto que afasta o punho da camisa descobrindo o relógio, na esperança de que esses ponteiros não o olhem jocosamente. Ainda perderiam a reserva que fizera como surpresa.
Os brincos de ouro que ele lhe oferecera fazia nesse dia um ano. O colar com que a presenteara dois anos antes. Nos dedos o mesmo de sempre.
Os sapatos. Negros. Salto fino, alto.
Sentou-se no cadeirão junto da varanda, cruzou a perna e deu início ao último gesto do ritual. Uma a uma, foi cobrindo as unhas de corte perfeito do mesmo acetinado rubro que lhe cobria os dedos dos pés. Por cada uma, a recordação de momentos de prazer. Um ano. Mais uma. Outro ano. Pouco a pouco a torrente rubra que vibrava no seu interior, reflectia-se no corpo que provocaria o seu amante.
Terminara o ritual. Estava pronta para ele.
Exasperado, revirou os olhos no pensamento repetido: mulheres!
O som fê-lo virar-se.
Descia as escadas de sorriso sedutor, na consciência de se saber desejada. Principalmente amada. Não podia pretender melhor amante.
A sua fémea. A sua paixão. A mulher que lhe dominava todos os sentidos.
Comemoravam dez anos de casados nesse dia. Os amantes. O ritual da sedução repetia-se momento após momento nas suas vidas.
Beijaram-se, deram as mãos e saíram no rubro ritual de paixão que se concretizava ano após ano.

© Sutra 2008

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Dádiva feminina

Posted by Sutra under Imagem-Texto on Sunday Jun 29, 2008



Fotografia de Autor Secreto


- Uma dádiva. – O quê? – Sim. É só o que te peço. O fruto doce. Sumarento. Senti-lo entre os meus lábios. Degustar o seu paladar. Provar como se abre perante o toque suave da minha língua. O seu estremecer espremido na minha boca e poder usufrui-lo, no intenso gemido que te fará capitular. – Serás merecedor? – Apenas tu o podes dizer. Serei? – Depende do que fizeres para o teres entre os teus lábios. Envolvido na tua carne. Penetrado pela tua paixão. – Revela-me como. – Segredar-to-ei.


Brilha na cor da paixão o fruto que se estende no limiar dos dedos que o desejam. Lábios cerrados. Vigiam as pontas curiosas que se aproximam para os tactear. O fruto não se recolhe. Não se retrai. O anseio de se abrir para receber a carícia quase vence a batalha. Ai a luxúria que consome o fruto vermelho. Ai a dor do prazer que se obriga a prolongar. A carne doce que tanto quer derreter-se na boca estendida. Aguarda. Numa espera agridoce. Os dedos avançam. Tacteiam a humidade sumarenta. Terminou o tempo de esperas e os lábios entreabrem-se como que chamando pela sensualidade de um beijo que não se equipara a qualquer outro. Desejo. A curiosidade é mais forte e é preciso conhecer o interior do fruto. Penetram. Sentem o envolvimento quente, fresco dos lábios que os beijam, fechando-se sobre esses dedos perscrutadores. Não há vacilações. Simplesmente avanços. Recuos. Reconhecimento da carne sumarenta e vermelha. Plena de vida. Palpitante. A boca aproxima-se para o toque de mestre no fruto que o aguarda entre suspiros e gemidos. Quer sentir-se derretido entre aqueles lábios que o vão devorar. Apertado na língua que o vai saborear. Deixar escorrer o sumo voluptuoso que sai do seu âmago, enquanto se sente invadido pelos dedos ansiosos que levam à boca o manjar desejado. Geme. Abre-se sem receios para receber todo o prazer com que sonhou. É um corpo separado de toda a eventualidade de um ser. Um fruto vermelho. Doce. Sumarento. De lábios abertos. Entregue na boca que o toma para si. Fruto possuído. Desfeito no prazer de ser degustado. Num trejeito apenas seu, de fruto, os lábios sorriem na luminosidade do néctar que ainda desliza até à boca que recebeu a dádiva.


- Ganharei esse fruto. – Já o tens.

© Sutra 2008

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Contorcionismo de Sentidos

Posted by Sutra under Imagem-Texto on Wednesday Jun 25, 2008



Fotografia de Edward Weston


Parada. Como que abandonada pelo mar e pelo vento.


Sou a concha que se enrola em si mesma e esconde o rosto esculpido pelas emoções de paixão. Deixo uma fresta aberta no ventre. Porque te espero. Encosta o teu ouvido na minha pele e escutarás o silêncio de todas as palavras que tenho por revelar. Nem sei porque o digo ou porque o faço. Apenas sinto este ardor incessante da espera do teu toque arrastado pelo vento.


Abandonada na maré de um sentimento perdido em ondas de espuma. Finco-me firmemente na rectidão de uma linha que só poderá ser ultrapassada pelos dedos que me descobrirem.


Não tenho panos para desfraldar. Somente sonhos por revelar. Torço o pescoço. Enrolo-o um pouco mais como se pudesse com os lábios tocar-me a nuca. Por dentro. Tento alcançar o mais distante de mim para me entender. Quando o conseguir expor-me-ei sem barreiras. Peito desnudo, ventre revelado. Nele te acolherei e encerrarei as portas para que não se esfume o momento. Tu ficarás dentro de mim. Nas ondas de prazer que me permitirei conceder-te. Na paixão com que me olharás por dentro.


Até lá apenas espero.


Parada. Como que abandonada pelo mar e pelo vento.

© Sutra 2008

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