Ela protestou. Agora, tratem de lá ir, tá lindos? © Sutra 2007
Ela estrebuchou.
Mas concedeu.
E, finalmente criou o seu blog. Manteve-o escondido até que o vi há algumas semanas.
Pedi-lhe para anunciar o link aqui e disse que não.
Mas lá foi actualizando e hoje recebi um mail que dizia:
‘Pronto, já te fiz a vontade e agora já podes falar dele’.
Mas não deixou de acrescentar ‘já deves é estar farta de me teres por lá’.
Parva. Já lhe disse que vou querer continuar a publicar coisas dela aqui.
E aqui estou para o fazer – anunciar [imitadora teve de fazer em vermelho também – logo comigo que detesto imitações!! – calma, Carmen, estou a brincar!].
E falo de quê?
Do Blog da Carmen! – Carmen, o outro lado de uma mulher da actualidade.
XII – Vai-te…
Posted by Carmen under Carmen on Monday Sep 24, 2007Veio. Sim. Tal como eu imaginava que viria. Não como eu desejaria que ele [não] viesse [se].
Entrou, fechou a porta com um pontapé, esparramou-se no sofá sujo do tempo perdido e puxou do charro que trazia na orelha quase coberta pelo cabelo despenteado. – Tens aí uma merda de um isqueiro?
Apenas isto. Nem um «olá como estás?» ou «tens passado bem?». Muito menos algo como «tive saudades tuas», há muito que perdi essa ilusão, se é que alguma vez a tive.
Olhei-o, indecisa entre estender o isqueiro azul que dançava entre os meus dedos translúcidos e dizer-lhe «que se fodesse».
Sem uma palavra também, fui à cozinha buscar a caixa de fósforos e mandei-lha para cima do peito. Olhou-me de viés e arreganhou os dentes: – Nem tens uma merda de um isqueiro.
Não lhe respondo e, de cigarro cruzado nos lábios, sigo para a cozinha onde a cafeteira já estremece no fogão e o café quase sai fora. Sirvo duas chávenas e levo para sala, colocando uma à frente dele. – Não tens nada mais forte? Whisky?
Procuro pela sala e, atrás da televisão, encontro uma garrafa de gin que coloco na mesa à sua frente, juntamente com um copo. – Serve.
A minha resposta mantém-se: o silêncio.
Deito-me no sofá ao lado do maple em que ele está sentado, procuro o comando da tv e vejo que está pousado na coxa de Martìn. Estico-me para lhe chegar mas ele agarra-me no pulso. – Deixa a televisão, agora quero outra coisa.
Levanta-se, desce as calças até aos tornozelos junto com os boxers e, pegando no caralho ainda mole, enfia-mo pela boca adentro, enquanto leva aos lábios o copo com a segunda dose de gin que emborca.
Chupo-o, mais pela pressa de o despachar, do que pelo prazer de o sentir. «Já gostei deste gajo, foda-se» penso eu, enquanto a cabeça segue o movimento da boca num sobe e desce na carne que cresce entre os meus lábios. Emite sons que nem são suspiros, nem gemidos, mas tão somente uma mistura animal. Grotesca.
Isto não é sexo. É podridão. Estou farta dele, caraças.
Tira-o da minha boca, puxa-me pelas pernas, tira-me as calças, afasta-me as coxas, e quando vai para se lançar, estendo-lhe o preservativo. – Foda-se! – responde ele ao meu gesto.
Mete-o com pressa e entra no meu corpo em três ou quatro impulsos.
Olho o tecto enquanto ele se movimenta dentro do meu corpo. Um. Dois. Três. Quatro. Os segundos passam.
Quando chego a 122 ele vem-se. Finalmente tudo acabou. Venho-me mais logo com o vibrador.
Levanta-se, tira o preservativo, dá-lhe um nó e larga-o no chão. Porco. Veste-se. – Assim não há paciência, pah, não disseste uma palavra desde que cheguei. Vais continuar calada? – pergunta enquanto se encaminha para a porta. – Digo agora – finalmente quebro o silêncio – deixa a chave em cima da mesa quando saires. – … quê?!
Olha-me estupefacto, enquanto me entretenho a fazer zapping. Agora sim, já tenho o comando na minha mão. – Tens a certeza? – ainda pergunta. – Tenho. Vai-te foder!
E sai.
© Carmen 2007
XI – Vazios
Posted by Carmen under Carmen on Friday Nov 17, 2006Martín fere-me com atitudes. Não quero dar-lhe mais importância do que aquela que ele realmente vale. Nada. Um vazio repleto de nada, num corpo oco, feito marioneta nas esquinas da vida.
Mas que falo eu?
Não serei também um boneco articulado que se deixa conduzir por fios invisíveis conduzidos por hábeis mãos de destino feito às mãos da sociedade?
Não. Sou mais que isso.
Sou o próprio vazio que se tenta preencher engolindo rotinas que me cansam e me alimentam de frutos encarquilhados de dor e amargura, mas que não deixam de manter um corpo que balouça de um lado para outro, equilibrado em saltos frágeis que marcam o empedrado que piso e desfaço.
Telefonou-me. Quem diria que ele o faria alguma vez. Precisa de mim. Claro. Somente o próprio umbigo o leva a procurar-me. Logo eu que nada tenho, a não ser o que ele não pode alcançar – uma alma livre.
E deixarei que ele agrida o corpo com o seu olhar enevoado pelo poder da cannabis que lhe percorre o ser. Mas não deixarei que me atinja a alma. Mas ele sabe isso tão bem quanto eu. É o meu poder sobre ele. O único.
Entrará pela porta do apartamento de cheiro a mofo onde me encerro todos os dias, e faremos sexo.
Sexo. Selvagem. Duro. Sem emoções. Sem beijos. Sem a doçura que já esqueci numa outra vida, quando mataram a adolescente sonhadora que habitava o meu corpo.
Não serei sua, mas a sua carne enterrar-se-á na minha uma e outra vez.
E, no fim, o vazio. O nada. Que somos nós.
Vou esperá-lo esta noite.
© Carmen 2006
X – Pesadelos
Posted by Carmen under Carmen on Tuesday Sep 5, 2006O grito.
O estalido de um cinto no ar, e o som do tom violento na pele já marcada por gestos intermináveis da mesma tortura a que é submetido o corpo de mulher.
O grito.
Mãos que apertam as carnes do ventre seco, definhado sem que o saiba, e deixam marcas da lava que queima as entranhas sem dó.
O grito.
Suor que desliza em rios de sangue que se acumula num útero que deixa de abrigar uma vida, para esconder o terror de um carcereiro não-humano.
O grito.
A raiva surda que encerra as pernas na vã tentativa de segurar o feto estrangulado, buscando o ar em golpadas e cruzando os dedos numa prece em que já não se acredita.
O grito.
Pernas que correm de forma tresloucada, enquanto um fio de seiva vermelha desce, marcando o chão por onde passa, na necessidade de encontrar salvação naquela noite de Outono.
O grito.
Corpos de branco que rodeiam o corpo quase inanimado, sofrido, dorido, de vida esventrada, o líquido amortecedor a percorrer veias, os dedos que tacteiam, abrem coxas, buscam a carne, limpam a pele.
O grito.
O sono.
As palavras que confirmam o que o coração da já-não-mãe adivinhou.
O grito.
O desespero em silêncio, sem lágrimas.
A apatia.
O grito.
Acordo banhada em suor, gotas rasgando sulcos na pele, dissolvendo nos lábios.
Grito.
O pesadelo voltou.
© Carmen 2006
IX – Paulo e Cajó
Posted by Carmen under Carmen on Friday Aug 25, 2006O espaço exíguo do elevador serviu para mais apalpões e linguados.
Sem palavras desnecessárias.
Para foder não são precisas palavras, apenas corpos, vontades e luxúria, tudo em quantidade suficiente.
Ainda Paulo não tinha fechado a porta do apartamento e já Cajó me agarrava, de mãos abertas apertando-me o rabo, a boca no meu pescoço, descendo pelo decote. Levei as mãos às minhas calças, abri-as e despi-as, assistindo ao mesmo gesto por parte de Cajó, que ficou nu à minha frente.
As nossas roupas espalhadas pelo chão da sala, onde se amontoavam caixas de pizza vazias e livros aqui e além, mostravam a urgência. Senti como a cona escorria sucos, com vontade de abrigar aquele caralho duro.
Paulo saiu da cozinha de garrafa de cerveja na mão, começando a despir-se também. Foi a última coisa a que prestei atenção, antes de montar Cajó que estava sentado no sofá. Não me sentia eu ali. Provavelmente outra no meu lugar. Ou eu mesma, mostrando mais uma vez como podia ficar desprovida de qualquer preconceito incómodo, imposto pela sociedade decrépita e volátil.
As pernas enlaçando a sua cintura, o caralho a entrar e sair em estocadas vigorosas que me faziam gemer, eram o suficiente para quase perder a noção da realidade. Senti a boca de Paulo na minha nuca e as suas mãos a erguerem os meus seios na direcção da boca de Cajó. Dois homens unidos para me darem todo o prazer. Dois homens numa partilha sem igual, de um corpo que se fazia urgente foder.
E o meu corpo subia e descia, enterrando-se naquele caralho poderoso, enquanto outro, igualmente rijo, se roçava nas minhas costas.
Não imaginava que poderia ser assim o prazer de estar entre dois homens. O prazer de ser o alvo do seu desejo em simultâneo.
Fazia parte das minhas fantasias, ser fodida por dois homens, mas nunca pensara ver realizado tal desejo.
Cajó fodia-me cada vez mais depressa, e Paulo apertava os bicos dos meus seios, enquanto me beijava as costas e roçava o falo erguido nas minhas nádegas.
Sentia-me perto do clímax e Paulo dirigiu os seus dedos, depois de os humedecer na minha boca, para a entrada do meu ânus, pressionando as pregas e penetrando-me com um dedo.
Enlouqueceu-me.
Vim-me entre gemidos e gritos, sentindo as fortes estocadas de Cajó, antes de ele mesmo se vir, o que não demorou cinco segundos.
Preservativo usado no lixo.
Preservativo novo na mão de Paulo.
Era a sua vez.
Fez-me ajoelhar à frente de Cajó e, segurando o caralho, enfiou-mo num só impulso. Magoou-me sentir a carne invadir-me e abrindo-me ainda mais, apesar de estar molhada do meu orgasmo. Sem dó, apenas buscando o próprio orgasmo, Paulo gritava: – Toma, puta! Engole-me o caralho todo! Oh, que bela foda!
Paulo sempre havia gostado de soltar palavrões durante o sexo, o que a mim não me agradava nem desagradava. Era indiferente.
Cajó agarrou-me pelos cabelos e puxou o meu rosto de encontro ao seu membro, que ainda se mantinha excitado. Fez-me lambê-lo, chupá-lo e engoli-lo, quase me fazendo engasgar. Senti o desejo a crescer em ondas, e a sujeição à vontade daqueles dois fazia-me quase entrar em transe. Mergulhei na volúpia e eu mesma queria mais, muito mais.
O culminar da noite foi a dupla penetração, comigo deitada sobre Cajó, com a cona a engolir-lhe o caralho, enquanto Paulo me penetrava nas pregas pouco habituadas a tal intensidade. Foi doloroso no início, mas eu quis experimentar tudo. A dada altura perguntei-me se o desejo ostentado pelo orgulho masculino, encerrava em si carinho também, mas não era hora para filosofias, mas para foder em pleno.
Paulo aproximou-se por trás de mim, apontou a cabeça às pregas do meu ânus e começou a tentar penetrar-me, sentindo certa resistência que me provocou alguma dor. Ergui o corpo, deixando que Cajó saísse de dentro de mim, para que a carne distendida permitisse a entrada do caralho de Paulo que se afundou em movimentos de vaivém que me afastaram o incómodo e deram lugar ao prazer, deixando que aquela verga se enterrasse totalmente e permitindo que Cajó se instalasse de novo na minha cona em brasa.
Estava ali para isso.
Carmen, um corpo-receptáculo de orgasmos, fonte de luxúria.
Impossível descrever a sensação de me sentir invadida por dois falos de carne imponentes e vendo estes dois homens trocarem um linguado ao qual juntei também a minha língua.
Paulo veio-se primeiro, retirando-se da minha entrada anal, tirando o preservativo e derramando o leite quente nas minhas nádegas.
Segundos depois fui eu e o Cajó.
Restaram três corpos cansados e satisfeitos, molhados de suor e orgasmos, com odor a sexo e borracha.
No chão, roupas espalhadas.
Uma experiência a repetir? Não sei.
Fantasia realizada? De quem, afinal?
© Carmen 2006
VIII – Alma Negra
Posted by Carmen under Carmen on Friday Aug 18, 2006A minha alma é negra, derivada de pecados que saem da boca de matriarcas beatas de uma igreja putrefacta. Pseudo-detentoras da boa moral, denominam-me daquilo que não ouso soletrar agora. Não por achar que me suja os lábios ao pronunciá-la mas porque foram palavras antes pronunciadas por aquelas cujo fogo entre coxas é aplacado por fúrias escondidas em dedos apontados às que gozam em pleno o seu corpo.
A minha gargalhada ecoa nas paredes dessa hipocrisia latente da podridão da sociedade que me rejeita como mulher, para me aclamar como contribuinte e voz activa naquilo que lhes interessa que o seja.
Mas sou um corpo de mulher que ainda vibra.
Os meus seios outrora erguidos, de bicos rosados da juventude, transformaram-se em carne redonda e cheia, tocados por todas as mãos que possuem o meu corpo. Entre elas as minhas que o conquistam em pleno. Até à alma. Mesmo que negra.
As coxas de carnes rijas ainda abraçam virilidades erguidas em falos que gritam desejos. Carnes intumescidas que penetram o meu ventre em investidas duras e plenas. Outrora afastavam-se perante o algoz que as submetia a perversões em nome de um casamento que as aprisionava. Agora livres, elas seduzem em silêncio aqueles onde quer derramar o seu odor a fêmea.
Recorto-me em ondas de ar quente que se espalha nas noites citadinas e busca aquilo que nunca encontrará: a paz de uma vivência livre que traga de volta os dias de infância distante. Não felizes, mas o mais próximo da felicidade que alguma vez senti.
A noite é o meu momento de quase-paz. Não porque durmo, mas porque o álcool e a droga me entorpece a mente e liberta o corpo.
E ela está a chegar.
Vou preparar-me para mais um tempo de liberdade condicional que me concedo todas as noites.
© Carmen 2006
VII – Cajó
Posted by Carmen under Carmen on Friday Aug 11, 2006Cajó apareceu meia hora depois, como se apenas aguardasse aquele telefonema. Veio ter connosco à tasca e dali seguimos para a 24 de Julho, uma variante para aquela noite, quando as nossas paragens habituais incidiam sobre o Bairro Alto, mesmo quando por casas diferentes.
Cajó é um sedutor, jogando todo o seu charme, sem se dar conta que não precisa de se esforçar por me conquistar. Não porque já esteja conquistada, ou porque não tenha poder para isso. Apenas porque, para me foder, não necessita tanta conversa e empenho. Se quero, não tem de gastar as suas artes e perder o tempo de ambos, se não quero, não há arma sedutora que me convença.
De copo de vodka na mão, arrasto-me pelos espaços semi-vazios de bares, na companhia daqueles dois que não se inibem de trocar um ou outro beijo, chegando a perder-se em linguados demorados. Cajó, observa-me por cima do ombro de Paulo.
Ver aqueles dois homens morenos, tão másculos, em perfeita sintonia de tesão, faz-me desejar estar no meio deles. Imaginar o toque simultâneo das suas mãos, faz-me ficar ainda mais molhada. Pressiono o sexo com os dedos de uma mão esguia e trémula pela necessidade de relaxar, num gesto que as calças me permitem.
Cajó repara no meu toque e pisca-me o olho. É o gesto que precisava para me aproximar dos dois e envolver a minha língua na de Cajó, saboreando o gosto do cigarro de Paulo.
Paulo sorri, não sem alguma surpresa, embora não seja mais do que haviam desejado ambos, e quase acertado, antes da minha concordância no jantar e no encontro posterior. Abraça-me por trás, enquanto eu e Cajó nos beijamos sofregamente de bocas semi-abertas, línguas apressadas que se rodeiam e se chupam. Segura-me os seios, apertando-os e encosta o ventre ao meu corpo. Está de caralho duro e pressiona-o contra o meu rabo de formas arredondadas, como se tentasse enfiar-se no meio das nádegas.
Cajó segura-me pelas ancas e, colocando uma perna entre as minhas coxas, empurra-se contra os meus quadris, mostrando também o estado de excitação.
Desejo Cajó que me olha profundamente, enquanto se esfrega em mim.
Nunca experimentei sexo com dois homens, mas o álcool e os charros fumados entre a saída da tasca e aquele momento, levam a que o torpor invada meu raciocínio, não deixando espaço para grandes considerações, mas apenas para a onda de luxúria.
Ou não passará o álcool e a droga de vis desculpas?
É Cajó que me diz ao ouvido em voz melosa: – Vamos os três para o meu apartamento?
E eu fiz um esgar que pretendia ser um sorriso.
Paulo assentiu e Cajó levou-me pela mão.
© Carmen 2006
VI – Paulo
Posted by Carmen under Carmen on Friday Aug 4, 2006Toca o telemóvel.
É Paulo. Após a conversa da praxe, pergunta-me se reparei nele e no Cajó há umas noites atrás num dos nossos bares habituais. Na verdade, não me recordo a qual delas ele se referia, pois tinha-os visto juntos algumas vezes nas últimas semanas. Além disso, pensará ele que ando a tomar atenção a quem beija e se enrola?
Referia-se à noite em que estive com Martín, o que significa mais de três semanas. Constato agora que esse filho da puta nada me diz desde essa noite, tomando nota mental de que tratarei de lhe enviar uma mensagem quando desligar. Volto a prestar atenção no falatório de Paulo. Interrompo as suas descrições do que se havia passado naquele noite entre ele e Cajó, com um simples “estava mais preocupada com a minha foda do que com a companhia no corredor”.
Ri-se simplesmente.
E convida-me para jantar numa tasca barata perto do apartamento dele.
Não esqueço que tivemos duas ou três noites em que nos enrolámos em meio de bebedeiras e haxixe.
Paulo é bissexual. Para ele só interessa o gozo, o prazer que obtém do sexo, seja com mulheres ou homens. E eu aprendi isso com ele.
Aceitei o convite para essa mesma noite. Encontrar-nos-íamos depois que eu saísse do escritório e do ninho de víboras em que me vejo mergulhada dia após dia.
A tasca, já quase no Bairro Alto, as conversas que correm soltas, o ruído de copos, as gargalhadas dos frequentadores da noite como nós, quantas vezes arremedos de alegria, e Paulo e eu, conversando sobre a sociedade em que estamos inseridos, sobre as relações, sobre hipocrisia, preconceito e sexo.
Paulo conta-me sobre Cajó, bissexual como ele, a forma como se conheceram e o caso que vivem, apesar de manterem outras relações em simultâneo. Só conhecia Cajó de vista, da noite, dos bares que frequentamos e do relancear de olhos, como quem não vê a dimensão do que observa, por enevoamento da mente.
Conta-me que Cajó havia reparado em mim no episódio com os alemães e depois no broche a Martín. Ficara encantado com a minha entrega e desejara-me, apesar de nunca antes termos tido qualquer indício de proximidade.
Paulo conta-me ainda que ele estava por perto e que lhe ligaria se eu quisesse.
Porque não?
Não sabia de Martín desde essa foda feita à pressa e a previsão para aquela noite era a mesma que para tantas outras: sozinha.
Disse-lho.
E ele ligou-lhe.
© Carmen 2006
V – Pensamentos
Posted by Carmen under Carmen on Friday Jun 16, 2006Tenho uma vida feita de nada. Cacos estilhaçados num chão sujo com cheiro a carne em decomposição. Sou eu que me desfaço em cada pensamento que estico até ao outro lado de mim.
Percorro o cubículo a que chamo casa e onde me confino no final de cada dia rotineiro. Evito a solidão mesmo sabendo que é no meio de gente que me sinto mais só. São como eu, solidões procurando parceiros que atenuem a exaustão de viver, apenas por alguns minutos fugazes de ilusório prazer.
Olho pela janela e observo crianças de roupas escuras de pó e terra que brincam no que foi outrora um jardim. Levo a mão ao ventre seco, onde em tempos se abrigou um feto que não vingou por culpa de mãos assassinas que o açoitaram, no ventre da mãe pecadora. Não sei se foi ele que fez da minha vida esta merda de vazio, mas foi quem me deixou as marcas de tareias infindáveis, lágrimas derramadas que fizeram secar a fonte até hoje.
O meu corpo já não alberga o riso de uma criança, nem espera o prazer de ser mãe. O cabrão retirou-me essa possibilidade, como quem arranca uma flor pela raiz e a destrói para sempre. Foi o que me disse o médico que me socorreu. Vale-me o facto de ter conseguido fugir-lhe há cinco anos, ainda com um fio de sangue escorrendo pelas coxas, denunciando o feto perdido e a amargura de um fim desde sempre anunciado.
Agora sou apenas um corpo de mulher largado no quotidiano, de espírito envelhecido, apesar dos vinte e nove anos vividos. As mãos tremem-me ao recordar a dor que só uma mulher pode sentir, quando se cravam na carne as facadas de uma perda como a minha.
Preciso de tomar mais um valium.
Regresso à sala e olho as paredes vazias, com rasgos de humidade. Raios! Estou farta de viver no meio desta podridão, de ter o mesmo reles emprego, de frequentar os mesmos locais, ver os mesmos rostos de gente perdida em corpos que já não lhes pertencem.
Sexo, drogas e álcool. Uma mistura explosiva. Mas é o que me alimenta a cada dia que passa por este corpo moribundo.
Daqui a umas horas anoitece e é mais um Sábado passado. Como eu detesto os fins-de-semana, sentindo-me prisioneira destas quatro paredes. Mas a noite espera-me, na rotina da busca do som de vozes que se misturam com músicas decadentes.
Mais um gole de vodka. Mais um compasso de espera.
© Carmen 2006
IV – Masturbação
Posted by Carmen under Carmen on Saturday Jun 3, 2006Quase hora de jantar e ainda enfiada num carro que há muito deveria ter sido transformado em chapa retorcida, mas que vai andando a custo de alguns arranjos e empurrões. O estômago queixa-se, demonstrando o enfado de mais uma sexta-feira de ar pestilento onde se mistura o dióxido de carbono e o cansaço poluente esparramado nos rostos de indivíduos sem rumo.
Deixei para trás o lar de idosos, onde a preocupação dá lugar à indiferença e ao desprezo de familiares de memória curta e longos afazeres. Como eu. A visita quinzenal à minha avó é mais obrigação que carinho ou alguma espécie de querer bem. Perdida no seu mundo de cinquenta anos atrás, não me reconhece, e até prefiro que assim seja, para não perceber no que se transformou a sua neta. Para uma mulher com quase 95 anos, seria exigir muito que a sua memória ainda fosse a de trinta anos antes. Mas, porra! Podia, ao menos, lembrar-se de mim. Sou a sua neta. A única e a mais desgarrada de todas as netas. Se lhe tivesse oferecido um charro, será que ela teria gostado? Provavelmente, se não soubesse do que se tratava. Talvez conseguisse ver o meu avô e iniciar mais uma das deploráveis discussões com o velho. Das que o levou mais cedo à morte.
Sinto vontade de dar uma gargalhada irónica, mas não me apetece mexer o maxilar para a soltar.
Finalmente o carro estacionado a mais de duzentos metros do prédio, negro da humidade, com a mistura das cores das pinturas de adolescentes que nada mais têm para fazer, nem quem olhe por eles. Subo os quatro lances de escada ao lado do elevador avariado mais uma vez. Pouso a chave e a mala em cima da mesa, descalço-me, sirvo uma boa dose de vodka e sento-me no sofá a ver a correspondência. Contas, contas e mais contas para pagar. Foda-se! Nunca mais me sai o totoloto, aquele em que nunca jogo.
Tenho de ir fazer alguma coisa para comer, mas não me apetece levantar do sofá.
Ligo a televisão e estiro-me ao comprido, enquanto faço zapping, parando no canal Vénus. Que merda de posição é aquela? Lá percebo que são duas gajas e um gajo, rebolando numa cama, numa posição que acabei por não descortinar. Acendo um cigarro, solto a baforada e, enquanto bebo mais um gole de vodka, aprecio a cena que me começa a excitar. As gajas comem-se uma à outra num sessenta e nove, enquanto o tipo coloca um preservativo e se coloca atrás da ruiva, enfiando o caralho até às bolas. Não dá para perceber bem se lho enfia na cona ou no cu.
Pouso o copo e dou mais uma chupadela no cigarro, enquanto que, com a mão livre, desaperto as calças e enfio os dedos por baixo do tecido das cuecas. Estou com vontade de um orgasmo e não hesito em esfregar o clítoris e meter os dedos na cona, um, dois, três, forçando, penetrando e sentindo os dedos a ficarem encharcados. Pouso o cigarro no cinzeiro da mesa ao lado e apalpo as mamas, apertando os bicos.
Fecho os olhos e faço movimentos de tira e mete, com os dedos que deslizam facilmente na cona alagada. Meto um quarto dedo, indo ao limite e sentindo-me completamente aberta.
E em sintonia com os gemidos da televisão, venho-me num estremecimento. Abro os olhos e procuro o cigarro já queimado até ao fim.
Acendo outro. A rotina do cigarro depois. Acompanhado da minha vodka.
Volto a pensar na minha avó, a queixar-se que está molhada e a empregada do lar a levá-la para lhe mudar a fralda.
Definitivamente, ia desta para melhor se me visse agora, de pernas abertas, estirada em cima do sofá, os dedos ainda entre as pernas, pegajosos do meu suco vaginal.
Solto a gargalhada que não soltei antes. Estrondosa. Sem a anterior preguiça para o exercício de maxilares.
Tenho de ir fazer o jantar.
© Carmen 2006
III – Martín
Posted by Carmen under Carmen on Sunday May 28, 2006Em poucos minutos estou junto daquele moreno espanhol de olhar perdido e turvo de noites mal dormidas. Já está sozinho e a terminar de acender uma ganza. No meio do barulho ainda consigo que me ouça: – Martín. – Carmencita – detesto que me chame assim.
Sorri-me sem surpresa e observa o charro que oscila entre os seus dedos. Agarra-me pelo pescoço e, sem uma palavra mais, avança com a sua língua para dentro da minha boca. Trocamos um beijo molhado, com gosto de haxixe. Encosto-me ao seu corpo, pressionando-o contra a parede e pouso os dedos no seu caralho coberto pelas calças pretas de ganga.
«Foda-se p’ra merda do álcool» – penso comigo ao sentir que não há reacção – «mas isto não fica assim».
Puxo a sua mão para debaixo da minha saia, fazendo-o sentir a nudez do meu corpo, debaixo do tecido. Olha-me e dá mais uma passa na ganza. Aperto a sua mão com as minhas coxas, enquanto lhe peço o charro que coloca entre os meus lábios secos. Enquanto sustenho a respiração e o fumo dentro de mim, fecho os olhos e desaperto-lhe as calças, tirando o caralho para fora. Caído entre os meus dedos, mole. Observo a sua reacção: cabeça encostada à parede riscada de grafitis, olhos fechados e dedos nervosos que levam a ganza de novo aos lábios.
Puxo-o para o pequeno corredor de acesso restrito à espécie de armazém do bar, levando-o encostado a mim, de forma a esconder a sua quase nudez. Nem sei para quê a preocupação. Ninguém repara em nada por ali. Nem se nos deitássemos no chão em plena foda.
Ajoelho-me à sua frente, depois de verificar que estamos sós naquele espaço e, abocanho-lhe o sexo, lambendo-lhe a pele, chupando, até começar a sentir a sua reacção.
Tenho saudades deste tipo. Da sua voz, boca, dedos. De ser fodida por ele sem pudores, decadentemente.
Ao nosso lado, dois homens, um deles meu amigo, trocam um beijo, apalpando-se – Paulo e Cajó.
Martín geme. O caralho duro, entre os meus lábios, anuncia o fim eminente. Ergo-me rapidamente e enterro-me nele para receber a seiva masculina. – Fode-me! – digo-lhe.
Mas sou eu quem o agarra e o enterra no meu corpo. Sou eu que o fodo. Enquanto ele absorve o fumo da ganza. Dá mais uma passa, engolindo o fumo. Olha a ponta do charro a chegar ao fim, enquanto me movimento no seu corpo. Lança a ponta para o chão, depois de uma última chupadela e agarra-me pelo rabo, dedos vincados com força nas minhas nádegas e, num impulso, enterra-se profundamente, despejando na minha cona, o leite quente que acaba por me escorrer pelas coxas.
Ainda a respiração não voltou ao normal e já as roupas estão no lugar. Martín caminha trôpego na direcção do balcão onde está Peter. Vai beber.
Chego à conclusão que o tempo de uma foda é o tempo de fumar um charro para Martín.
Decadência?
Talvez.
© Carmen 2006
II – No Bar
Posted by Carmen under Carmen on Saturday May 20, 2006Entro no recinto escuro e barulhento, um misto de bar com disco ou boite. O cheiro a álcool mistura-se com outros cheiros, num ambiente a que já estou habituada nas 5ª feiras à noite. Perfumes caros de mulheres que buscam apagar tristezas e desilusões atrás de sorrisos que pretendem conquistar companhia, para que não se sintam tão perdidas na noite. O cheiro do haxixe sente-se no ar, mais intensamente neste ou naquele grupo, imerso em nuvens de fumo de cigarro, pretendendo disfarçar o que já não engana ninguém.
Sinto-me cansada desta podridão. Mas navego no meio dela como uma viciada.
Caminho até ao balcão onde o Peter serve um grupo de alemães barulhentos. Faço-lhe um sinal para me preparar a bebida do costume: vodka limão com gelo. Em dose reforçada.
Encosto-me ao balcão e relanceio os olhos pela sala, à procura de Martín. Vejo-o a um canto com uma garota de cabelos arruivados curtos. Pego no copo cheio de vodka, e dirijo-me para ele, passando por entre o grupo de seis alemães que se encontram agora a dançar, ou o que quer que chamem a este dançarolar de saltos e meneios de corpos volumosos e meio cheios de cerveja.
Afastam-se para eu passar, mas logo fecham o cerco, deixando-me entre eles. Nada digo ou faço, a não ser passar os olhos por aqueles corpos suados que me enojam. Um deles toca-me os cabelos. Outro, mais atrevido apalpa-me o rabo, apertando as nádegas firmes, notando que estou sem roupa interior por baixo da saia e soltando um uivo de lobo esfaimado. Olho-o de alto a baixo como quem manda retirar as mãos nojentas. Ri-se. E o riso contagia os outros cinco, dando coragem a outro para aproximar os dedos húmidos de suor do meu decote acentuado.
Roça os dedos pelos meus mamilos, mas não deixo que chegue mais longe e dou-lhe um safanão na mão. É o sinal para que outro deles, o mais alto, me agarre pelo pescoço e me espete um beijo com força.
Quando me solta giro o corpo e faço um sinal a Peter com o copo. Sei que me entendeu. E, quando o mais calado deles se atreve a aproximar-se, descarrego a vodka pelo peito de camisa solta e desabotoada, fazendo-o dar um salto.
E, antes de recuperarem da surpresa, esgueiro-me e vou ter com Peter que me aguarda com outra vodka. – Estavas a ser assediada, miúda? – Meninos de coro. Só me apalpa quem merece e só me fode quem eu quero.
Pegando no copo, penso se será desta que chego até Martín.
© Carmen 2006
I – Carmen
Posted by Carmen under Carmen on Saturday May 13, 2006Meu nome é escrito a gotas de sangue orvalhado de corpos que me desejam e me têm. Lanço pétalas de rosas vermelhas em lençóis de cetim, para neles te esperar.
Sou um veludo vermelho de sexo
Carmen
Caminho em passadas firmes. Arrogância ou irreverência.
Ou apenas desejo, ânsia, fome de sexo.
Sou um grão de areia levado pelo vento e que se acolhe na boca do primeiro homem que por mim passa. Desejo-o. A ele ou a qualquer outro do qual sinta este perfume intenso que me inebria. O perfume do sexo revolto e sem nomes ou telefones num pedaço de toalha de papel, rasgado de uma mesa de restaurante. Acolhe-me na boca, prova-me e leva-me com ele, derramando o seu olhar voluptuoso no sangue que corre desenfreado nas minhas veias.
Metemo-nos numa rua deserta e, entre dois automóveis, leva duas mãos morenas à barra da minha saia que ergue, enrolando-a na cintura. Desejo esta foda feita à pressa entre dois animais que se devoram. Sinto a cona molhada a transbordar calor e os dedos que se lhe enterram. Não procura preliminares, apenas apalpar a carne quente que se lhe oferece num relance, num fim de tarde rotineira. Não é rotina o caralho que se encosta, força e penetra no meu corpo. Nem o semicerrar de olhos para esconder o rosto que não será recordado no dia seguinte.
Um caralho. Uma foda.
É esse o significado destes minutos encostada na parede fria de uma casa estranha. De um lado um carro azul, do outro um preto. Apercebo-me disto, mas não da cor dos olhos do dono do caralho que me fode.
Que interessa?
Vem o orgasmo. O meu.
O dele escorre-me pelas pernas, enquanto lhe viro as costas e desço apressada até ao meu carro estacionado na esquina a seguir.
Parto em busca de um banho relaxante onde dilua o cansaço do dia e reencontre as forças para a noite que me espera.
Terá Martín regressado de Madrid?
© Carmen 2006



