Caminhos Traçados – O último Acto

Posted by Sutra under Caminhos Traçados on Wednesday Apr 5, 2006

Acto X

Sentada no banco de pedra em frente do pequeno parque infantil do jardim, Mariana observava duas crianças que brincavam nos três baloiços, ali colocados para agradar aos mais pequenos que por lá passavam de vez em quando. Não era um lugar muito frequentado por crianças, mas adequado quando a situação se impunha. Como naquele momento.
Os seus olhos encheram-se de lágrimas que, a custo, conseguiu suster. Não era o momento para chorar. Não ainda. Continuaria a guardar as suas lágrimas como o fazia desde o início de todo o processo doloroso pelo qual passava desde há dois anos. Quando terminasse, poderia chorar tudo o que guardava no peito, agora era tempo de continuar a ser forte por ela e pelos outros.
A sua vida dera uma reviravolta impensável desde que ela e Jorge haviam aprendido aquela grande lição sobre o relacionamento de duas pessoas que se amam, fazia agora seis anos. E o facto de apostarem fortemente em reconstruir a sua relação, ajudou-os a passar por outra dura prova que surgiu um mês depois daqueles acontecimentos, quando Mariana descobriu que estava grávida. A dúvida sobre quem seria o pai da criança foi mais um espinho venenoso que se entranhou na pele de ambos e que, dolorosamente, se havia alojado na carne. Quando completou dois meses e meio de gravidez, tiraram uma semana de férias e foram para o Norte do país, descansar numa daquelas quintas de turismo rural. Necessitavam daquele tempo juntos, para continuarem a tentar reconstruir os alicerces da sua relação, agora bastante frágeis com a vinda do bebé.
E foi quase no final dessa semana, que Jorge teve uma atitude que a deixara enternecida, fazendo com que o seu amor transbordasse do seu peito. Abraçara-a e dissera:
- Haja o que houver, Mariana, eu acredito que esta criança é nossa, minha e tua. De mais ninguém. Não quero fazer qualquer teste, quando ela nascer, não me interessa, porque ela terá o nosso sangue e o nosso amor. De nós dois. – Jorge, eu… – e começara a chorar, sem conseguir falar.
- Nada importa, Mariana, a não ser nós três. – Sim, a nossa família – respondeu-lhe, por entre lágrimas.
Desde esse dia, o ambiente do lar enchera-se de sorrisos, de alegria, de planos para o futuro e para o bebé que nasceria daí a alguns meses.
Planos que foram abruptamente interrompidos na noite em que Mariana se sentiu mal, correndo para a casa de banho. – Mariana? Que tens? – a aflição de Jorge era notória.
- Dores, Jorge, muitas dores – e gemia agarrada à barriga e ao baixo-ventre – Eu não sei o que é, e não pára de doer – e massajava suavemente a barriga proeminente nos seus quatro meses, tentando encontrar alívio.
- Vou chamar uma ambulância já – disse Jorge, correndo para o telefone.
O INEM chegara poucos minutos depois, levando-a de imediato para o hospital. Pelo caminho, Jorge contactara a obstreta de Mariana, relatando o que se passava. Quando a ambulância parou no átrio das urgências, a Drª Ana Lourenço já lá se encontrava.
Fora uma noite terrível aquela, mas nada pudera ser feito. Perdera o bebé. Ficara internada ainda mais três dias, devido a complicações que surgiram na sequência do aborto espontâneo e a pior notícia viera depois.
Mariana estremeceu ao recordar o momento em que a sua médica lhe dissera que não poderia mais ter filhos. A intervenção cirúrgica a que fora submetida, salvara-lhe a vida, mas deixara-a estéril, porque não havia outra saída.
E, nem sabe como sobrevivera nos meses seguintes, com a dor não só de ter perdido o seu bebé, mas por ter perdido qualquer possibilidade de vir a gerar outra criança. Passara aquela que julgara ser a pior fase da sua vida. Mas o amor, carinho e compreensão de Jorge, haviam ajudado a que começasse a encarar outras possibilidades. – Mamã, mamã – a voz que lhe interrompeu as recordações, pertencia a uma menina de seis anos que viera a correr para o seu colo, sorrindo, enquanto a ama a olhava de longe. – Ainda não estás cansada, Filipa? – Não, mamã. Viste como eu quase tocava o céu, mamã? Viste? – e pulava, excitada, fazendo cair a fita amarela do cabelo loiro. – Vi, sim, amor. Voaste alto – sorriu Mariana, um sorriso triste. – Mas agora está na hora de irem para casa. A mamã vai mais logo. – Vais ver o papá outra vez? – cabeça inclinada para um lado, Filipa olhava a sua mãe, esperando pela resposta. – Sim, mas não demoro muito, para podermos jantar juntas. Prometo. – Está bem, mamã. – Paula… – Sim, D. Mariana. – Leve a Filipa e dê-lhe um iogurte quando chegarem a casa. Eu chegarei a tempo de preparar o jantar para as três e voltarei para aqui depois do jantar. – Muito bem, mas posso dar-lhe logo banho e assim quando a senhora chegar, a Filipa já estará preparada para o jantar. – Sim, faça isso, Paula. E obrigada por tudo. – De nada, D. Mariana. Pode sempre contar comigo. Até logo. – Até logo, mamã – despediu-se Filipa, abraçando Mariana e depositando-lhe um beijo na face. – Até logo, querida – e ficou a vê-las afastarem-se, não demorando mais que alguns segundos para mergulhar de novo no passado.
Durante o período em que se recuperava do aborto, a sua psicóloga questionara-a várias vezes porque não optavam por adoptar uma criança, já que existiam tantas a necessitarem de um lar. E, essa ideia foi tomando forma, o entusiasmo foi invadindo tanto a ela como Jorge e começaram a pesquisar na Internet e a fazer alguns contactos, para saber mais pormenorizadamente, como proceder para adoptar uma criança.
Ao fim de seis meses após o aborto, estavam decididos a avançar com um processo de adopção, apesar de todas as dificuldades burocráticas que iriam encontrar. Infelizmente, a morosidade de todo o processo e as dificuldades erguidas, faziam desistir muitos casais de adoptarem crianças que apenas necessitam de amor, carinho, compreensão, educação, um lar, uma família. Mas Mariana e Jorge decidiram-se a levar aquele processo até ao final e, a cada dia que passava, mais vontade tinham de levar por diante aquele desejo.
O pior veio depois.
Quando pensavam que nada mais poderia aparecer como entrave à sua felicidade, veio a notícia mais dolorosa, a pior de todas elas, aquela que a fazia estar agora ali e, relativamente à qual não havia enganos, nem retornos, mas apenas conformação.
Um ano após terem iniciado o processo de adopção, e quando já tinham escolhido Filipa como a filha que queriam ter, o impensável entrou nas suas vidas. Jorge, depois de se queixar durante semanas com dores no estômago, decidira-se a consultar um médico e a fazer alguns exames necessários para apurar a origem das dores. Tinha adiado sempre com a desculpa de que não seria nada importante, mas apenas algo que comera, no entanto, os resultados dos exames apontavam para cancro do estômago. Fez uma endoscopia, biopsia, consultou outros médicos, fez novos exames, mas foram unânimes: tinha um adenocarcinoma, um tumor maligno do tecido epitelial e, talvez a cirurgia pudesse curá-lo, ou permitir que não evoluísse e mantivesse uma certa qualidade de vida. Teria de complementar depois com a quimioterapia.
Foi submetido à intervenção cirúrgica, e depois à quimioterapia, deixando-o abatido, e emocionalmente esgotados a ambos.
Mas, a vontade de terem Filipa era superior e, ao mesmo tempo o processo foi avançando, enquanto os meses decorriam. Jorge passava umas semanas pior, outras melhor, mas depois de fazer mais exames, os médicos informaram-no que o tumor alojado havia criado ramificações e nada haveria a fazer a não ser tentar viver da melhor forma, o tempo que lhe restava que poderia ser um ano, dois ou três. Tudo dependeria dos cuidados que fosse tendo, e da quimioterapia que fosse mantendo.
Daí a dois dias, faria oito meses que Filipa viera morar com eles, definitivamente. O processo de adopção estava completo, e eram legalmente os pais de da pequenina que os encantara desde o primeiro dia em que a viram naquela instituição.
Mas, não poderiam comemorar em casa.
Jorge estava internado naquela clínica há quase um mês, e não havia esperança de que saísse de lá. Mariana ía todos os dias para a clínica, depois de almoço, hora a que saía do banco, facilidade que lhe havia sido concedida devido à sua situação, e permanecia por lá até à hora de jantar.
Paula, a ama que contratara para Filipa, levava-a até à clínica para ela ver rapidamente o pai e depois ficava a brincar nos baloiços do pequeno jardim da clínica.
E assim tinham passado as últimas semanas, tentando manter a sua postura de mulher forte, buscando forças onde nem imaginava que existiam, sem se permitir chorar.
Pensava várias vezes na ironia das suas vidas.
Seis anos antes, Jorge pensara que não poderia ter filhos e por isso, fizera exames que, por erro de análise de um médico, indicavam que tinha cancro. Por toda essa situação, o seu casamento passar por traições, por uma crise que foi suplantada. Depois disso, havia sido ela que passara a não poder ter filhos, e a Jorge acabara por lhe ser diagnosticado um cancro, agora em fase terminal.
A vida era tão madrasta, por vezes.
Era uma ironia.
Mas eram aqueles os caminhos que estavam traçados.
Ergueu-se e encaminhou-se para a entrada daquele edifício, onde se encontrava Jorge que, ansiosamente, a esperava.

F I M

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Notas sobre o conto

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Wednesday Apr 5, 2006

Antes de publicar o último Acto do Conto, quero apenas deixar aqui algumas notas, de forma a salientar algumas ideias sobre o que tenho lido dos vossos comentários.


Quando referem que um final em que a Mariana e o Jorge ficavam juntos, perdoando-se os erros, era previsível, provavelmente não terão reparado que eu não escolhi o final. Existiam quatro possibilidades para o destino das personagens e dei a escolher. A maioria optou por esta. Como autora do conto, e já o disse num dos comentários, eu não escolheria este, porque sabendo de antemão o que reservava para cada um deles, consoante o final que escolhessem, eu optaria por aquele final que mais me divertiria ao escrever. Este final é o menos divertido deles todos. Posso dizer mesmo que é o mais dramático.
Por isso, eu não fui pelo caminho mais fácil, fui por aquele que vocês preferiram – os que participaram na escolha.


A questão principal suscitada em todo o conto, não era a questão de perdoar os erros de parte a parte – era salientar a necessidade de um diálogo aberto numa relação, pois como disse a Felina no seu comentário, com amor e diálogo, consegue-se ultrapassar barreiras. E, por vezes, em casamentos com poucos anos, como era o caso – dois anos de casamento e cerca de oito de apenas namoro – as crises que surgem não são ultrapassadas com a maturidade suficiente e optam por aquela via que permite que nenhum dos dois ceda – a separação.


E, como poderão ver daqui a breves minutos, este não será um final cor de rosa. Pelo contrário, este será o final mais dramático dos quatro que tinha preparado.

Quero ainda acrescentar que, a minha ausência nas visitas aos vossos blogues e a falta de textos mais eróticos deveu-se apenas a este conto que me absorveu todo o tempo disponível que, ainda por cima, já tem sido pouco. Mas retomarei as visitas a partir de amanhã Smile

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Caminhos traçados – Acto IX

Posted by Sutra under Caminhos Traçados on Tuesday Apr 4, 2006

Desenganem-se os que pensam que o conto acabou aqui.
É que a parte final, ainda vai ter outro Acto. O verdadeiro Final não é apenas este que vão poder ler agora.
É aquele que irão poder ler a seguir a este e, desta vez, prometo que não vai haver compasso de espera, porque já está escrito.

Acto IX

Olhou-o, perdida, sem saber por onde começar a contar-lhe aquilo que considerara a sua maior loucura. Não via de que forma poderia tentá-lo fazer entender o modo como se sentira traída, receosa, e que tudo não passara de um engano. Mas, sabia que não tivera a noite com o Francisco apenas por despeito, fora muito mais do que isso, fora aquele desejo, aquela vontade de sentir novamente como era estar nos seus braços. Tinha de lhe contar, fosse de que maneira fosse. Pior seria mentir, esconder.
Jorge, ao sentir os passos de Mariana virou-se e observou-a enquanto ela se dirigia para perto da janela, olhando o exterior como se buscasse na copa das árvores a força que necessitava para lhe contar.
- Mariana?... – ... sim…- a voz apenas num sussurro. – Ias para falar quando fomos interrompidos pelo telefone - continuou Jorge. – E não me perguntas quem queria falar comigo? – Desconfio que esteja relacionado com a noite passada. Prefiro que me digas o que tenhas a dizer, de forma livre e espontânea. – Ah, Jorge… nem sei por onde começar. – Eu já faço uma ideia do que tenhas para me contar e, acredita, Mariana, espero tudo. Mas, acho que este é o momento ideal para falarmos tudo o que temos a dizer um ao outro. As revelações que tivermos a fazer, os medos, as dúvidas e a vontade sobre que caminho seguir. – Tens razão. E é melhor começar pelo que foi o início de tudo. Jorge, tu sabias as tentativas que eu fazia para conversarmos, para me contares o que se passava contigo, e às quais tu fugias sempre. Tentei várias vezes, fiquei tantas horas sem dormir a pensar no que se passaria contigo, no que estaria a correr mal entre nós e desde quando tínhamos deixado de dialogar. Não entendia como se cavava um fosso no nosso relacionamento. E comecei a desconfiar que tinhas alguém, e esta dúvida martirizava-me. Eu imaginava mulheres sem rosto com as quais te encontravas, jantares românticos nas noites em que te atrasavas e… – Mariana, antes de prosseguires, deixa-me dizer-te uma coisa, agora que falas nas horas tardias a que eu comecei a chegar a casa. Eu evitava estar em casa, estar junto de ti, com medo de me deixar abater e contar-te de forma abrupta o que se passava comigo, o meu medo. Queria encontrar a melhor forma de to dizer e não sabia como. Então, refugiava-me na empresa, no meu gabinete, a trabalhar, a pensar e nada mais. Não existia ninguém. – Mas eu não sabia de nada, Jorge. Não podia adivinhar. Mas, ainda assim, tentei afastar esses pensamentos, pensando que tudo não passava de uma fase e que as coisas se endireitariam entre nós. – Eu sei Mariana, tens razão, mas… eu andava tão desnorteado… Desculpa a interrupção, continua. – Então, há dois dias atrás, na noite do nosso aniversário, quando tu telefonaste a dizer para não esperar por ti que tinhas reunião – Mariana fez uma pausa, para recuperar a voz que se havia embargado, enquanto Jorge fechava os olhos para esconder a dor que sentia ao ver a mágoa da mulher – eu fui até um bar. Não consegui permanecer em casa, estava atordoada, dorida. Queria sair, tomar qualquer coisa, apanhar ar e voltar a casa. No bar, reencontrei alguém que não via há muito tempo, desde antes do nosso casamento, há mais de três anos. Alguém que foi muito importante para mim numa determinada época. – O homem que te ligou agora. – Sim. Não via o Francisco desde que a altura em que ele estava em fase de divórcio e com ideias de partir para Nova Iorque. O que fez uns meses depois de deixarmos de nos ver. – Eram amigos? Não me recordo de teres falado alguma vez dele, mesmo antes de casarmos. – Jorge, eu…- Mariana torcia nervosamente um pequeno lenço nas mãos. Como contar a Jorge que já o traíra com o Francisco ainda quando eram namorados? – Diz, Mariana – pediu Jorge, virando-se de costas para Mariana, temendo o que ela ainda tinha por lhe revelar. – Eu e o Francisco tivemos um caso que durou uma semana, um ano antes de eu e tu casarmos.
Assim. De chofre! Como um remédio que tem de ser tomado rapidamente para nem se tomar o gosto.
O silêncio na sala era denunciador do drama que se desenrolava no coração e na mente de ambos.
- Continua, Mariana. Já te disse que tem de ser tudo dito hoje, agora. – Desculpa, Jorge, mas eu não sei como me envolvi, só que me senti de tal forma seduzida, acarinhada que… bem… eu senti vontade mesmo de estar com ele. Não sei que poder ele tem para me deixar sem controlo das minhas acções. – Ora, Mariana, nem precisas explicar agora o porquê. Termina o que tens para me contar mas do presente. – Então, conversámos naquela noite no bar, sobre o passado, sobre a mudança nas nossas vidas, o meu casamento, o sucesso dele nos EUA e combinámos encontrar no dia seguinte para almoçar, em nome dos velhos tempos, e apenas como amigos que se reencontram ao fim destes anos. Quando cheguei a casa, tu nem deste conta, já havias adormecido. Como se nem importasse o facto de eu ainda não estar em casa. Dormias calmo e sereno. – Não dormia, Mariana. Eu estava acordado a pensar por onde tinhas andado, mas não me sentia em condições, conscientemente, para te cobrar fosse o que fosse. – Mas… tu estavas a dormir… – Fingia, apenas… Mas, diz-me. Almoçaram juntos ontem? – Sim, fomos almoçar juntos e foi um almoço excelente, divertido, no qual falámos de tudo um pouco. – Incluindo sobre as tuas dúvidas no nosso casamento? – Jorge virou o rosto para Mariana, olhando-a firmemente, obrigando-a a baixar os seus. – Não posso negar, Jorge. Sim, acabei por lhe contar um pouco das minhas dúvidas, e do receio que tivesses alguém e… acabámos por trocar um beijo que pareceu acender a chama de outrora – aqui, Mariana fez uma pausa e aproximou-se de Jorge, encarando-o – eu fugi dele nesse momento, Jorge. Porque tu estavas em primeiro lugar, como sempre estiveste. – E a noite passada, Mariana? – Pois… o meu grande erro… Quando saí de junto do Francisco vim para casa e estava disposta a resolver tudo entre nós ontem à noite. Resolvi descansar um pouco, tomar um banho, preparar-me de forma caprichada, com a roupa que tu gostas de me ver, a lingerie que tu adoras ver-me vestida, e saí para ir ter contigo, fazer-te uma surpresa. O plano seria levar-te a jantar, num local romântico e levar-te a contar a verdade sobre o que se passava. Quando acabava de estacionar o carro, na rua lateral da empresa, vi-te no passeio com outra mulher. Ela chegou junto de ti, tu estavas alegre, cumprimentaste-a, agarraste-lhe num braço e seguiram pelo passeio. O teu ar tão feliz deixou-me arrasada. – Mariana, eu tinha acabado de saber que… – Eu sei, Jorge, agora já sei, mas ontem não sabia disso, entendes? – Mas, se ao menos tivesses ido ter connosco, se tivesses chamado… – Jorge, pensa bem, depois de tudo o que se passava na nossa relação, achas que eu seria capaz? O mais lógico foi pensar que ela era a razão de tu andares diferente comigo. Afinal, estavas alegre como eu não te via há muito tempo. – Eu sei… ah, Mariana, tantos mal entendidos… Conta o resto, vá… eu já sei o que me vais contar. Adivinho-o. – Furiosa, liguei para o Francisco e convidei-o para jantar. Não vou entrar em pormenores, Jorge, mas depois de jantarmos, fomos até um bar, no hotel dele, e acabei por passar a noite com ele. Saí de manhã, antes de ele acordar e fui andar de carro por aí, até que parei para lá do Guincho, no Cabo da Roca. – Meu Deus, Mariana… que te hei-de dizer?... Já desconfiava que isso havia acontecido, mas dói demais sabê-lo. – Desculpa, Jorge… – Parece que temos ambos de nos pedir desculpa. Erros baseados em más interpretações. – E na falta de diálogo, Jorge. Se tivéssemos conversado sempre. Tu quando tinhas as tuas dúvidas sobre a saúde e eu… – … e tu com as tuas dúvidas sobre a minha fidelidade. E acabei por te ser infiel, com a noite que passei com a Cristina, claro que sim. Embora, não tenha passado de umas horas de sexo, puro sexo. – Comigo também, Jorge. – Diz-me apenas uma coisa. O que sentes pelo Francisco? – Jorge, sei que sinto uma grande atracção, mas principalmente sei que não sinto amor por ele. Não o amor que sinto por ti e que me fez sempre ficar do teu lado. – Mas, espera. Depois disseste que almoçaste com uma amiga em Cascais! Alguém conhecido? – Nem imaginas quem. Parecia que o passado escolheu estes dias para me aparecer ao virar da esquina. – Então? – Encontrei a Teresa no Cabo da Roca. – Teresa?! – Sim, Jorge, do tempo de Faculdade. – Já sei. Encontraste-a? Não me digas que sentiste alguma coisa também… – Não, nada disso. Tudo passou relativamente a ela. Pelo menos da minha parte. Conversámos imenso, e depois de lhe contar como me sentia. – Também lhe contaste a ela? – Não foi preciso, ela viu como eu não estava nada bem. Sabes que eu não consigo esconder as emoções. E acabei por lhe revelar um pouco do que se passava e confessei-lhe que não sabia qual seria o futuro do meu casamento. – E não sabes? – Jorge baixou o rosto na expectativa. – Sei… bem… mas, ela fez-me uma proposta para ir trabalhar para ela em Paris. – Em quê? – perguntou o marido, olhando-a com ar incrédulo. – Como gerente dos negócios dela em Paris, Roma e Lisboa. Disse-me que se eu quisesse sair de Portugal, neste momento, que seria a oportunidade ideal. – E tu? – questionou ansioso. – Eu amo-te, Jorge. E quero lutar por nós e pelo nosso casamento. Isto diz-te tudo, não achas? – Também te amo, Mariana, e parece-me que esta foi uma lição dolorosa demais, mas que nos ajuda a amadurecer e entender o que realmente vale a pena.
Entre lágrimas, abraçaram-se, desejando que dali em diante todos os seus problemas fossem ultrapassados pelo diálogo, pelo amor e carinho que os unia.
Enquanto trocavam um beijo, Mariana lembrou-se que precisava responder a Teresa e a Francisco, comunicando-lhes que ficaria aportada naquele seu porto seguro – o casamento com o homem que amava.

Fim do Acto IX

(continua)

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O Final!

Posted by Sutra under Caminhos Traçados on Tuesday Mar 28, 2006

E está na hora de eu fazer a contagem das vossas escolhas, não é?
Pois é disso que vou tratar agora mesmo! Vou ver qual o final que escolheram a ver se me surpreenderam ou não. Confesso que ainda não sei qual foi a hipótese vencedora!

De regresso!! Razz


E aqui ficam os resultados:


1 – Mafarrico, FC, Penetrador, André, Fernando, Uma;


2 – Rui, António, Haribattan, Atchenka, AAA S - enviado por mail


3 – Marco, Tipp, Knight Monk, Vandergraaf,


4 – Musicmike, Painandpleasure, Trolha1,


E o final escolhido foi o da hipótese 1 – Mariana fica com Jorge! Smile

Dentro de dois dias aproximadamente, colocarei o final Wink

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Escolham o final do conto!

Posted by Sutra under Caminhos Traçados on Monday Mar 27, 2006

Vamos então, escolher o final!


Entretanto, não deixem de dar a vossa opinião na conversa que decorre nos comentários do artigo anterior – por enquanto entre mim e o Penetrador, mas onde gostaria de ver mais opiniões expressas.


O conto está no fim e vocês escolherão o destino de Mariana… até certo ponto. Não esqueçam que eu ainda vos posso surpreender, independentemente do final que escolherem, pois a acção será imaginada por mim.


Mas, deixo-vos estas quatro possibilidades, as quais não devem constituir qualquer surpresa para vocês:


1 – Mariana fica com Jorge


2- Mariana fica com Francisco


3 – Mariana aceita proposta de Teresa


4 – Mariana fica sozinha


O resto… decidirei eu!!

E só vos peço uma coisa:


S U R P R E E N D A M - M E… M A SE S C O L H A M… S Ó... U M A! !

O final escolhido pela maioria será escrito por mim e publicado esta semana. Smile

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Caminhos Traçados – VIII

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Monday Mar 27, 2006

E ele aqui está – o maior de todos os Actos, mas também o último antes da vossa decisão!
Lamento pela extensão, mas um diálogo não se corta a meio e este não poderia mesmo ser cortado. Aconselho a que dividam a leitura pelo dia, se não puderem ler o texto todo seguido. À noite, cá estarei para lhes dizer quais as possibilidades de escolha de um final.

Acto VIII

O silêncio da casa quando abriu a porta parecia gritar-lhe que aquele acabaria por ser o pior dia da sua vida. Despiu o casaco, deixou a mala na mesa do hall e encaminhou-se para a sala, admirando-se de Jorge não ter aparecido ainda. Ao entrar naquela divisão viu-o sentado no sofá, de pijama vestido, cabeça inclinada para trás e olhos fechados. Dormia. Aproximou-se, indecisa se o deveria acordar quando ao tocar na mesa baixa, Jorge acordou sobressaltado.
- Mariana? Já chegaste. – Olá Jorge. – Até que enfim, Já não sabia que pensar. Desculpa estar a dormir. Eu… – Adormeceste, eu entendi – adiantou-se Mariana, enquanto se sentava na cadeira de baloiço em frente dele.
- Por onde andaste? Estiveste sozinha? – perguntou de forma ansiosa.
- Andei por aí de carro, passeei, pensei, fui a Cascais, almocei por lá e estou aqui. E não estive sempre sozinha, não. Isso é preocupação pela minha segurança ou é desconfiança? – Nunca tive razão para desconfiar de ti, fosse do que fosse, Mariana – disse Jorge, fazendo com que Mariana fosse percorrida por aquele sentimento de culpa, de traição – ou será que tenho? – acabou por perguntar, depois de uma leve hesitação.
- Não se trata disso, mas… – Mas…? – Precisamos conversar mesmo Jorge. Há muito que deveríamos ter tido esta conversa e, nunca o permitiste. Céus, Jorge, o que eu tentei ao longo destas semanas ao notar como tens andado diferente. Sempre evitaste dizer-me o que se passa, mas eu sei que algo está diferente. Tu mudaste comigo, em casa, com os amigos. O teu semblante perdeu aquela suavidade que tinha, como se algo te preocupasse. Eu… – Mariana… – Têm passado algumas ideias pela minha cabeça, mas sempre as afastei, e… – Mariana… – Sim? – Deixa-me explicar-te agora. Sei que o deveria ter feito antes, mas nem eu sabia como enfrentar. – Enfrentar o quê, Jorge? – Aquilo que eu imaginava ser a pior coisa que me poderia acontecer. – Estás a assustar-me… – Do princípio, Mariana. Sabes que há sete meses atrás decidimos ter um filho e tu deixaste de tomar a pílula. Temos tentado ao longo deste meses e não temos conseguido de forma alguma. Podia ser devido ao stress do trabalho, ao cansaço, a preocupações, mas sabemos que não foi nada disso. Eu sabia que não era por isso, pois nunca estivemos tão bem como desde há meia dúzia de meses para cá, a esse nível. Não concordas comigo? – Sim… Mas que tem isso a ver? – Shiuu… espera, deixa-me terminar. – Está bem.
Jorge inclinou-se para a frente no sofá e fixou o olhar em Mariana, continuando:
- Comecei a pensar se o problema poderia ser meu, mas nem tinha coragem de pensar que eu poderia não ser fértil e resolvi fazer uns exames. Fui ao consultório de médicos que fazem parte da assistência da empresa e iniciei uma série de exames, pedidos por um dos médicos, o Dr. Cunha Sousa. Um dos exames tinha qualquer coisa com a qual ele não estava muito satisfeito e pediu para o repetir e, foi nessa altura que comecei a ficar preocupado. – Mas, Jorge… – Não, ouve-me até ao fim. Repeti o exame, mas demorou a sair o resultado e, quando o fui levantar o Dr. Cunha Sousa estava num simpósio em Londres e só regressaria daí a uma semana. Não podia aguentar mais e telefonei-lhe a pedir urgência e se não havia forma de eu saber o significado daquele exame mais cedo. Então, ele disse-me para passar pelo consultório a fim de ser atendido pelo seu assistente estagiário, pois dar-lhe-ia instruções nesse sentido. E eu fui consultar-me com o assistente. E esse foi um dia terrível para mim, Mariana, com aquilo que o Dr. Paulo Cariz, um doutorzinho de meia tigela, me disse. – Jorge… – Mandou-me sentar, disse que eu tinha de ser forte, e que nem devia ser ele a dar-me aquela notícia, mas que o Dr. Cunha Sousa tinha insistido para ele me atender, e estoirou a bomba bem na minha cara – chegado a este ponto do relato, Jorge ficou com a voz embargada pela emoção. – O que foi que ele te disse? – Mariana não aguentava de nervosismo, adivinhando já a resposta de Jorge.
- Que eu nunca poderia ser pai e, mais do que isso… que tinha cancro em fase muito avançada – e interrompeu-se, as lágrimas assomando os olhos masculinos. – Meu Deus, Jorge… meu Deus… – sussurrou Mariana, erguendo-se, ajoelhando-se junto de Jorge, enquanto o envolvia nos seus braços.
- Acrescentou ainda – continuou Jorge – que eu não poderia esperar mais do que dois ou três anos de vida e que já teria muita sorte se assim fosse. Foi cruel, uma verdadeira besta… – Esse homem nem devia ser médico, a falar assim com os doentes!! – retrucou Mariana, indignada.
- Andei uma semana desesperado sem saber o que fazer. Foi naquela semana que eu estive uns dias em Madrid. Aproveitei a viagem da empresa para me afastar de ti, tentando que não te desses conta do que se passava, enquanto eu pensava na melhor forma de to dizer. – E eu que pensei que tu tinhas outra mulher, Jorge… Perdoa-me, perdoa-me… – Espera, Mariana. Ainda não terminei. Esses quatro dias em Madrid sucederam há duas semanas e quando lá estava, na véspera de regressar, fui tomar uns copos com os colegas a um bar. Aí conhecemos um grupo mulheres que estavam lá para um congresso de medicina. Uma delas soube nessa noite que pertencia ao mesmo consultório onde estava o Dr. Cunha Sousa. Mais ainda, ela era sua sobrinha. Conversámos bastante e, sem me dar conta comecei a contar-lhe do meu problema. Ela ouviu e aconselhou-me a repetir todos os exames. Eu sabia que ela tinha razão e que não deveria ter aceite assim o diagnóstico, sem ter voltado ao consultório e conversado com o seu tio, o meu médico desde o início, mas fiquei tão… tão sem rumo… e sem razão para isso, afinal. – E depois, Jorge? – Mariana sentia que Jorge estava prestes a revelar-lhe algo mais e que hesitava, talvez na procura da forma de lho dizer.
- Estava desesperado, Mariana e ela estava ali tão preocupada comigo, tão atenciosa, meiga, amiga, conversadora, que eu…. Depois, eu tinha bebido mais do que devia, e… – Se estou a entender, Jorge, dormiste com ela!... Não, espera, não dormiste! Fizeste sexo com a jovem médica que tinhas acabado de conhecer – dizendo isto, levantou-se da cadeira, sentindo um misto de indignação e de alívio ao mesmo tempo.
- Sim… Saímos juntos do bar, as amigas já haviam ido embora e os meus colegas também. Ofereci-lhe boleia até ao hotel, pois tínhamos descoberto que estávamos hospedados no mesmo hotel… – Que conveniente… – … e, quando íamos no elevador abracei-a e… beijei-a. A partir dali, esqueci de onde estava e… até esqueci de quem era. – E que eras casado comigo, também. E que deveria ter sido comigo que devias ter desabafado, contado o teu problema. Unidos na saúde e na doença, lembras? – Eu sei, Mariana, eu sei. E só eu sei o quanto me torturei por isso. – Mas e quanto aos exames, afinal? Isso é mais importante que a tua queca inconsequente. – Quando regressei no dia seguinte, já tinha decidido que voltaria ao consultório do Dr. Cunha Sousa e repetiria os exames. Fui lá logo no dia a seguir, mas ele ainda não tinha regressado de Londres, pois resolvera estender a estadia por mais um tempo dias e só daí a dois dias é que regressaria. Entretanto, encontrei-me com a Cristina e falámos do que tinha acontecido entre nós e que não tinha sido mais do que uma noite intensa de duas pessoas que estavam sozinhas e buscavam companhia e conforto. Tornámo-nos amigos e ela apoiou-me naqueles dois dias de espera. – O apoio que eu gostaria de te ter dado – Mariana abanava a cabeça, ao sentir que esses últimos dias não tinham sido mais do que sucessivos enganos.
- Estive com o Dr. Cunha Sousa ontem e, ao analisar o tal exame disse-me que eu estava de perfeita saúde, apesar de alguns indicadores mais invulgares nos exames, mas que isso não passava de algo benigno que não causava qualquer problema, nem a nível de saúde geral, nem me impedia de ser pai. Tudo não tinha passado de má interpretação do exame por parte do estagiário, que se tratava de um incompetente ao qual havia suspendido o estágio e que se pretendia fazer algo em relação a ele, que não se poderia opor. Naquele momento de raiva ainda pensei fazer uma participação à Ordem dos Médicos, mas o alívio que ao mesmo tempo sentia, era tão grande que eu resolvi não fazer nada. Saí do consultório tão feliz que te liguei, mas tinhas o telemóvel desligado. Ainda liguei para o banco, mas disseram-me que tinhas saído para um almoço e não tinhas regressado de tarde. Entretanto, apareceu a Cristina e fomos tomar alguma coisa antes de eu vir para casa. Quando aqui cheguei não estavas.
Mariana pensou na tarde de véspera e em Jorge no passeio, desligando o telemóvel depois de fazer uma chamada, e cumprimentando a mulher que chegara. Que engano… – E todo este sofrimento viveste-lo sozinho… deixando-me a mim sem saber o que se passava
– disse, enquanto ainda pensava nos enganos em que se tinham visto envolvidos.
- Desculpa-me Mariana… – Eu… nem sei que te dizer… além de que estou tão aliviada por tudo não ter passado de um engano. – E que se passou contigo, Mariana? Chegaste tarde na outra noite, passaste a noite passada fora, não sei em que lugar. Onde estiveste?... – perguntou, erguendo-se do sofá e, aproximando-se de onde estava Mariana, virada para a janela.
- Eu?... – Conta-me, Mariana… seja o que for… – Eu senti-me mal, Jorge, tão mal – e as lágrimas começaram a cair-lhe pela cara.
Nisto, o telefone tocou no hall e Jorge foi atender. Passados alguns segundos regressou:
- É para ti, Mariana. Um homem – disse, olhando-a com estranheza.
Mariana sentiu-se estremecer e, nervosa dirigiu-se para o telefone. «Não – pensava – não podia ser, ele não sabia o seu número de casa». – Sim? – Mari? – Como soubeste o meu número de casa? – sussurrou.
- Tinha de descobrir, é tão tarde e não me disseste nada. Estava preocupado contigo, saíste sem dizer nada. – Expliquei-te na mensagem. – Eu sei, mas só te queria dizer uma coisa, Mari. – Diz. – Sei hoje que te amo e que sempre te amei. Nunca deveria ter ido para Nova Iorque e deixado que te casasses com esse homem e não te quero perder, agora que te reencontrei. Não fujas de mim, Mari, vem comigo para Nova Iorque. Sei que tu também não consegues esquecer-me e que me queres demasiado. Senti isso nesta noite. – Pára! Pára! Não posso falar agora. Depois ligo-te! – Amo-te, Mari!
E, Mariana desligou, pensando no quanto a vida podia ser injusta, por vezes.
Regressou à sala, sem saber ainda o que deveria dizer a Jorge.

Fim do Acto VIII

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Caminhos Traçados – VII

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Friday Mar 24, 2006

E finalmente encontrei o número final de Actos, sem possibilidade de alteração. Serão nove no total. Amanhã publicarei o VIII e depois caberá a vocês decidirem qual o final que darei às personagens, para que eu possa escrever o IX e último Acto.

Acto VII

O restaurante escolhido ficava numa das ruas estreitas perto da estação de Cascais, pequeno e sossegado. A inibição inicial foi-se desfazendo à medida que foram falando do que tinham feito naqueles últimos anos, dos sonhos que haviam realizado, das metas que haviam atingido e de tudo que ainda pretendiam alcançar.
- Vais instalar-te mesmo em Paris? – perguntou Mariana, quando falavam da abertura do novo atelier de Teresa.
- Não sei bem ainda. Numa fase inicial, sim. Até porque o Jean-Paul e a Michelle pouco entendem de gestão de um negócio e a ideia seria abrir duas lojas em Paris e depois tentar expandir para Itália. – Para Itália? Mas que sucesso, Teresa. E isso a médio ou longo prazo? – A curto – respondeu Teresa, soltando uma gargalhada – de certa forma, estou a brincar, mas gostaria de ter as duas lojas de Paris e uma em Roma ou Milão no prazo máximo de dois anos. Se o conseguirei? Não sei, por enquanto são sonhos apenas, mas concretizáveis. – Achas que em tão pouco tempo o conseguirás? – Depende de alguns factores. Eu já vendo em Paris há mais de um ano, por intermédio do Jean-Paul e da Michelle, os meus sócios, já tenho algumas clientes que procuram os meus vestidos e recomendam a outras. Ter uma loja em Paris é quase certo que vai ter sucesso, desde que exista uma boa campanha de publicidade e marketing, para chegar a outro tipo de clientes, aqueles que ainda não me conhecem. Além disso, necessito de um bom gestor de empresas, para dar conta da gestão dessa loja, para que eu me possa virar para a abertura da segunda. – Mas porque abres duas em Paris em pouco tempo? Poderias concentrar a tua atenção toda numa única loja, maior. – A ideia é abrir uma espécie de galeria com outro tipo de serviços, além dos meus vestidos, que incluiria «un coiffeur», um pequeno bar, um espaço para criação de modelos e para provas devido a alterações solicitadas por clientes e algumas coisas mais das quais se encarregariam os meus sócios. Eles apenas querem investir capital e dedicarem-se mais aos cabelos das «Madames et Mademoiselles». – Rendo-me à evidência: isso é uma ideia excelente e pode ser mesmo um óptimo negócio. E um verdadeiro desafio, convenhamos – sorriu Mariana.
- Se não fosses casada e com a tua vida estável, convidava-te para seres a minha gestora de lojas. Podias viver entre Lisboa, Paris e Milão ou Roma. Sozinha, claro. Não estou a.. ora, tu sabes a que me refiro – terminou, baixando o olhar.
- A minha vida não está tão estável como parece. Não a familiar, porque profissionalmente estou muito bem neste banco e, quem sabe dentro de um ou dois anos posso passar a gerente de sucursal. – Então que se passa?... - e perante o silêncio de Mariana – Desculpa, se não quiseres falar sobre isso… – Não, tudo bem. Acho que preciso mesmo contar o que se tem passado desde há algum tempo, mas para isso preciso de recuar algum tempo, para que possas entender.
E contou a Teresa como tinha sido o seu namoro com Jorge, a forma como Francisco havia surgido na sua vida um ano antes de casar, como tinha sido o casamento nestes últimos dois anos e, principalmente os problemas das últimas semanas e o reaparecimento de Francisco que mexera com todas as suas emoções.
- Mas em que embrulhada de sentimentos tu estás metida – sussurrou Teresa, depois de ouvir o relato – mas sempre tiveste uma certa atracção por envolvimentos complicados. – Ou são as complicações que se sentem atraídas por mim, só pode – sorriu ironicamente Mariana.
- Mas se ainda nem conversaste com o Jorge para apurar o que se passou. Já pensaste que pode não passar de um tremendo engano teu? – Já sim, já pensei. Mas… fico a pensar se ele me contará a verdade. – Já alguma vez tiveste razão para não confiar nele? – Não, nunca. – Estás a ver?... Então, porque não lhe dás o benefício da dúvida? – Eu dou. Assim que sair daqui vou para casa, porque sei que ele me espera para conversarmos. Deixou-me uma mensagem no telemóvel a dizer que sabia que tínhamos de conversar. – Mais razão me dás. Mariana… – Sim? – E o que sentes pelo Francisco? Diz a verdade. Ou melhor: não precisas de me dizer a mim. Pensa bem em tudo o que me contaste, naquilo que sentes e no que pretendes do teu futuro. – Apenas sei que o Francisco mexe muito comigo. Sempre teve esse condão: de me deixar de pernas bambas e a tremer. Depois… o prazer que sinto com ele é… diferente, é descomunal. Não sei como explicar, mas nunca senti nada assim com o Jorge. – Mas tu sabes que… – Já sei o que vais dizer e sim, o sexo não é tudo numa relação. Olha, não sei… vou conversar com o Jorge e… depois se vê. – Tens sempre a possibilidade de… vires para Paris, a capital do amor – gracejou Teresa – viver sozinha, num belo apartamento perto de «les Champs Elysées». – Não me fales em amor que nem quero pensar nisso. – Dizes tu agora – disse Teresa, soltando uma gargalhada.
E, com aquele desanuviar de conversa, saíram do restaurante e desceram a rua estreita até chegarem à avenida principal.
- Bem, lá vou eu saber do meu futuro. – Céus, rapariga, parece que vais para a forca. – Não sei, Teresa, isso é o que vou ver. O meu problema é a reacção de Jorge quando lhe contar sobre o Francisco, pois acho que não vou poder esconder, não me sentiria bem. – Diz-me depois alguma coisa, para eu saber se estás bem. – Prometido. Ligo-te logo à noite ou amanhã. – Até logo, Mariana. – Até mais ver, Teresa.
E afastaram-se, cada uma na direcção do seu carro, estacionados a alguns minutos dali.
Chegando ao carro, Mariana tirou o telemóvel da mala e ligou-o. Mal tinha colocado o carro a trabalhar, quando ouviu o sinal de que tinha mensagens de voz. Ouviu a primeira de Jorge:
«- Mariana, por onde andas? Estou a ficar louco de preocupação. Não me chega dizeres que estás bem, diz-me onde estás e o que se está a passar. Liga-me, por favor. Amo-te muito»
A outra era de Francisco:
«- Mari, porque saíste sem me acordar e sem nada dizer? Já tentei ligar várias vezes e tens sempre o telemóvel desligado. Diz-me alguma coisa. Queres jantar hoje? Vou confessar-te uma coisa: não consigo parar de pensar na nossa noite. Sabes o que sinto? Como se tivesse regressado finalmente a casa. És tu quem me faz sentir assim. Por isso nunca te esqueci. Logo que oiças a mensagem, liga-me. Adoro-te, querida. Beijos.»
Jogou o telemóvel para o assento do lado com vontade de dar um grito brutal. Mas, porque raios estava metida neste problema? O que é que poderia fazer? Como resolver esta situação?
Cascais já ficara para trás, quando, já de auricular colocado, resolveu ligar para Jorge que atendeu ao primeiro toque, como se tivesse o telemóvel na mão.
- Mariana? – Olá Jorge. – Onde estás, amor? Por favor, vem para casa. Estou doido de preocupação, sem nem saber o que fazer. – Não te preocupes, eu já estou a caminho, chego a casa daqui a uns vinte minutos. – Mas estás em que sítio? – Cascais. Almocei aqui com uma amiga. A sério, eu não demoro a chegar. – Está bem, estou à tua espera. Um beijo – Beijo e até já.
E, agora deveria ligar para Francisco, mas hesitou. Não sabia se o deveria fazer.
Resolveu que ligaria para ele mais tarde, preferindo optar por lhe enviar uma sms: «Francisco, precisei sair e estar um pouco sozinha com os meus pensamentos. A noite passada foi uma loucura e eu não sei ainda o que pensar. Foi bom demais, mas não me sinto bem por causa do Jorge. Vou para casa descansar. Ligo-te mais logo. Beijo.»
E desligou o telemóvel.
O importante agora seria o diálogo com Jorge, o seu marido.

Fim do Acto VII

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Caminhos Traçados – VI

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Thursday Mar 23, 2006

Desisti de dizer alguma coisa sobre o número de Actos. Mas está quase no fim. E este é grandinho para o fim chegar mais rapidamente.

Acto VI

Mariana desceu a pequena rampa na direcção do snack-bar, pediu um café e sentou-se junto à janela virada para a serra, apreciando o verde que se estendia e, ao fundo, num pequeno recorte, o azul do mar.
Viajou no tempo e recordou a sua amizade com Teresa. Mariana havia sido criada por sua avó, já que sua mãe falecera dias após do seu nascimento e o pai, apenas quatro anos depois, num acidente de automóvel. Aos dezanove deixara a vila que a vira crescer, situada no Ribatejo, e viera para Lisboa, a fim de tirar o curso de Gestão de Empresas. No primeiro ano, ficara em casa de D. Luísa, uma senhora que alugava quartos a jovens estudantes, estando limitada ao uso partilhado de uma cozinha e da casa de banho, situação a que se sujeitava, mas que não era muito do seu agrado.
Mas, os seus avós, não podiam suportar uma renda superior e tinha de se aguentar até começar a trabalhar.
Até que surgiu Teresa. Conheceu-a numa tarde de amena cavaqueira num café, com alguns amigos e ela chegou na companhia de uma das suas colegas de turma. Teresa frequentava o curso de línguas e vivia em Lisboa. Tornaram-se amigas e, depois de ouvir as queixas de Mariana sobre o quarto onde residia, Teresa convidou-a para ir morar no seu apartamento, já que vivia sozinha e seria uma forma de partilhar despesas e, em simultâneo, ter companhia. Não era porque necessitasse do dinheiro que Mariana pagaria, mas mais para poder dividir o espaço com alguém e ajudá-la a sair de onde estava. E Mariana aceitara, fazendo a mudança no fim-de-semana seguinte.
A amizade entre as duas tornara-se cada vez mais profunda e quase não andavam uma sem a outra. Começaram a surgir algumas conversas, aqueles «diz-que-disse», olhares de outros colegas, mas a sua amizade parecia inabalável.
No dia em que recebera a notícia do falecimento de sua avó, Teresa levara Mariana à pequena vila, respeitando o seu silêncio, a sua dor. Ajudara-a a tratar de tudo o que dizia respeito ao funeral e trouxera-a de regresso, apoiando-a com a sua presença. O vínculo entre as duas estreitava-se cada vez mais.
Até que um dia, cerca de dois anos e meio depois de se terem conhecido, numa noite em que Mariana desabafava sobre o fim de um namoro de alguns meses, a proximidade das duas, o abraço de Teresa, acabou por terminar num beijo nos lábios, sem que Mariana se tivesse apercebido de como tinha acontecido. Mas gostara de sentir os lábios macios e quentes de Teresa pousados sobre os seus de uma forma tão delicada que quase nem os sentira.
Teresa pedira desculpa, mas perante o olhar sério e interrogativo de Mariana, dissera:
- Há muito que me apetecia fazer isso. Não entendo como te podes prender só a tipos que só te magoam – e aproximara-se de novo para beijar Mariana, ainda em silêncio.
Dessa vez, entreabrira os lábios e deixara que Teresa explorasse os recantos da sua boca com a língua adocicada. E, envolta numa névoa de doçura e carinho, Mariana correspondera, envolvendo a sua língua na de Teresa.
E aquele havia sido o início de tudo.
Apesar de se sentir de alguma forma estranha, Mariana não recuara perante o que o seu corpo pedia e envolvera-se com Teresa de uma forma bela e profunda. Era o culminar da relação que tinham até aí.
Faziam amor com meiguice e carinho, explorando-se mutuamente, esfregando pele com pele, boca na boca, dedos deslizando no encontro da carne feminina, reflexo uma da outra, sabendo em que ponto tocar para proporcionar maior prazer. Lábios que deslizavam pela carne macia de ventres expostos às bocas gulosas e línguas que buscavam o gosto do néctar que se derramava como lava ardente saída do vulcão entre as suas pernas.
E Mariana não procurou mais qualquer envolvimento. Encontrara em Teresa tudo o que necessitava. E Teresa tinha nela uma companheira, amiga, amante.
Apenas um sonho de Mariana marcava a diferença entre o que ambas queriam para o seu futuro pessoal. Mariana sonhava ser mãe e Teresa não gostava de crianças. Esse era o seu ponto de discórdia, mas também sabiam que, mesmo que Teresa quisesse um filho, não seria fácil para ambas realizarem esse sonho, a não ser que uma delas fosse a mãe geradora, pois, se nessa altura, falar em homossexualidade, apesar de já não ser tão tabu, ainda haviam demasiadas reticências, pior seria se se falasse em adopção por homossexuais.
Mas, a verdade é que Mariana nunca se sentira verdadeiramente lésbica, apesar de viver como tal. Teresa havia sido a sua única mulher. Além disso, ela sentia-se muitas vezes atraída por homens, mesmo quando mantinha a relação com Teresa.
A sua paixão não chegara a completar dois anos. E foi por causa de um homem que elas terminaram, mas principalmente devido ao sonho de ser mãe que Mariana sempre acalentara. Foi Jorge que surgiu na sua vida e a fez terminar a relação com Teresa.
Haviam sofrido ambas com a ruptura. Ambas tinham perdido uma amizade, o companheirismo, o apoio que tinham uma na outra. Mas Teresa ficara sozinha e Mariana tivera Jorge.
Foi no final do último ano de curso de Mariana. Teresa interrompera o curso de Línguas e preferira optar por uma carreira de esteticista um ano antes. Mariana mudara-se para um quarto, que já podia suportar devido ao emprego que arranjara e às economias que a sua avó lhe havia deixado. O namoro com Jorge evoluíra, foram viver juntos e uns meses depois casaram.
Nesses últimos oito anos, Mariana nada mais soubera de Teresa. E encontraram-se naquele lugar que tinha sido o palco do princípio do fim e ao qual nunca mais voltara. A vida tem surpresas inimagináveis. E aquela havia sido uma delas.
Mariana olhou o relógio e verificou que já era mais de meio-dia, e, erguendo-se, saiu do café, apressou-se a entrar no carro e seguiu na direcção de Cascais.
Estacionou o carro no centro e foi até à galeria comercial, enquanto Teresa não lhe telefonava. Era preferível esperar que ela chegasse para decidirem onde almoçariam.
Passeou pelas lojas e acabou por fazer algumas compras, enquanto esperava. Seguiu depois na direcção do carro, para as guardar e optou por esperar dentro do carro.
E o seu pensamento fugiu para as recordações que tinha evitado em toda a manhã – Francisco. Sentiu-se estremecer com a recordação daquela noite, de todas as carícias que haviam partilhado, o prazer espelhado no rosto masculino, o brilho nos seus olhos.
Fizeram amor várias vezes, e de cada vez uma sensação diferente, uma emoção arrebatadora.
Sentiu a excitação invadi-la e a carne amolecer, ao recordar como ele a levara ao colo para a casa de banho a fim de tomarem um duche juntos. Haviam entrado na banheira, trocando beijos enquanto a água escorria pelos seus corpos e as mãos ensaboavam a pele, massajando as zonas mais escondidas do corpo de cada um. Os dedos que acompanhavam a água, guiando-a a todos os recantos, retirando a espuma e acariciando em simultâneo.
Até que, ainda na banheira, ele a agarrara pela cintura e a erguera, encostando-a à parede, enquanto ela cruzara as pernas na sua cintura, as bocas encostadas, entregando-se a um beijo voluptuoso, as dedos femininos no membro erguido, as mãos masculinas a pressionar as nádegas femininas de encontro a si, os quadris que balouçavam numa busca frenética de prazer.
- Mari, desejo-te tanto outra vez – a voz rouca fazia malabarismos com os seus sentidos.
- Eu também te quero, Francisco. E como estás excitado… quero-te agora. – Espera – sussurrou ao ouvido feminino enquanto a envolvia e a si num toalhão e levava assim, na sua cintura, para o quarto.
Pousou-a no chão e apanhou de cima da mesa-de-cabeceira o preservativo. Muito havia apreciado Mariana o cuidado de Francisco com a protecção.
Depois pegara nela e fizera com que se debruçasse na cama, de barriga encostada ao colchão e beijara todo o seu corpo, enquanto ía roçando o membro excitado pelas suas coxas, nádegas. Sentira a sua boca deslizar pelas nádegas, lambendo a pele macia, mordendo a carne tenra, e o desejo de o sentir dentro de si era cada vez mais urgente, o que a fazia menear as ancas, suplicando que ele a penetrasse. Mas Francisco pretendia receber o orgasmo feminino na sua boca, antes de a invadir com a sua carne quente, e ajoelhando-se atrás de Mariana, afastou mais as suas coxas e começou a beijá-la nos lábios, no clitóris, afastando a carne macia e húmida, para penetrar a língua e açoitando o clitóris inchado de desejo, até colher o néctar doce que lhe escorria do ventre, enquanto da boca feminina saiam gemidos de prazer orgásmico.
E, enquanto Mariana ainda sentia o corpo vibrar do orgasmo, Francisco penetrou-a de uma só estocada, deslizando pelo seu interior com a facilidade originada pelos fluidos libertados. Agarrara nos seus quadris e puxara-se de encontro a ele, num vaivém alucinante, enquanto os seios roçavam as roupas da cama, excitando-a ainda mais.
Levara uma mão ao seu sexo e massajara o clitóris, enquanto o membro de Francisco a preenchia e a fazia sentia as ondas do prazer num crescendo que culminaria em mais um orgasmo.
- Mari… posso?... – perguntara ele no seu ouvido, enquanto deslizava um dedo pelas suas nádegas, afastando-as – deixa-me… entrar… – Sim, Francisco… sim…
E massajara a sua carne macia, quente, introduzindo um dedo levemente, apenas tacteando, penetrando um pouco e deixando ficar assim, apenas acariciando e pressionando levemente.
O membro que investia dentro do seu corpo, o dedo masculino que a acariciava, a boca de Francisco na sua nuca, e os seus próprios dedos no clitóris, levaram-na a um estado de loucura completo, fazendo com que tivesse obtido um dos maiores orgasmos da sua vida, enquanto ele lançava um grito de prazer que entoara pelo quarto.
- Trimm…
Mariana deu um salto, parecendo acordar de um sonho, e pegou no telemóvel que tocava. Era Teresa que já estava em Cascais. Combinaram encontrar-se num restaurante que ficava a dez minutos de onde estava. Precisava apressar-se.
Saiu do carro e, enquanto caminhava, sorriu ao sentir a humidade entre as pernas.

Fim do Acto VI

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Caminhos Traçados – V

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Wednesday Mar 22, 2006

Este conto está a complicar-se com o número de Actos. Aqui vos deixo… o V… o resto depois se vê...
E este é bem pequenino.

Acto V

Oito anos haviam decorrido desde que se haviam encontrado pela última vez e, não se haviam despedido da melhor forma, pelo contrário. Lágrimas e muita mágoa ficara entre ambas.
- Não estava à espera de te ver aqui, Teresa. Aliás, nem contava ver-te. – Também não esperava encontrar-te agora. Aqui. Mas deixaste-me assustada quando te debruçaste no muro. Só vi uma mulher que parecia querer deixar cair o corpo para lá das pedras que a seguravam – Teresa tremia, notava-se pelas suas mãos cujos dedos seguravam um cigarro a meio.
- Estava apenas a olhar o mar a bater nas rochas, mas não estava a querer atirar-me. A minha vida pode estar uma tremenda confusão, mas não quero deixar de a viver – respondeu Mariana sorrindo.
- Sei que sempre te casaste. Era o que desejavas. Foi com alguém da Faculdade? – Não, conheci-o logo depois de a ter terminado, mas só começámos a namorar uns meses depois. – E filhos, já tens? – perguntou Teresa.
- Ainda não. Eu e o Jorge decidimos só agora ter um filho, este ano. Temos as condições ideais para a chegada de uma criança. Mas, já não sei… – e baixou o rosto, as lágrimas querendo assomar aos olhos. – Estás com problemas? – Alguns, mas prefiro não falar sobre isso agora. Conta-me tu, que tens feito? – Terminei o curso, trabalhei com um ou outro estilista e tenho o meu próprio atelier desde Maio de 2004. Recebi um convite há dois meses para ir para Paris abrir um atelier em sociedade com um casal de franceses que conheci no ano passado. – Mas isso é óptimo para ti! Estás, então, a tornar-te uma estilista de sucesso que vai para Paris e tudo – Mariana sentia-se verdadeiramente feliz por Teresa.
Apesar de tudo o que se passara entre elas, nunca deixara de lhe querer bem. Fora uma das pessoas mais importantes da sua vida. A amiga que a apoiara quando veio para Lisboa, que lhe dera o carinho e força quando a sua avó que a havia criado, falecera. E, depois, todo o relacionamento que se desenvolvera entre elas.
Nisto, Teresa acenou a um casal que se encontrava junto de um carro escuro, perto da casa de turismo.
- Mariana, tenho de ir. O Jean-Paul e a Michelle estão à minha espera e eu fiquei de os levar ao hotel. Vais ficar por aqui? Podemos encontrar-nos mais tarde? – o olhar ansioso de Teresa denunciava a vontade que ela sentia de estar com Mariana.
- Sim, claro que sim. Toma o meu número de telemóvel, liga-me. – e tirou um cartão da bolsinha da mala – Vou ficar mais alguns minutos e depois ir até Cascais e almoçar por lá mesmo. – Posso ir a Lisboa deixá-los e voltar. Podíamos almoçar juntas, se quisesses. Quer dizer, não sei se tens planos para a tarde. E o teu marido? – Não sei… Olha, está bem. Há muito que não nos vemos e acho que ambas precisamos de conversar. Estamos ambas mais maduras, com outras vidas – e sorriu para Teresa.
- Eu ligo-te quando chegar a Cascais, então – e afastou-se sorrindo.
- Teresa? – chamou Mariana num impulso.
- Sim? – Teresa estacou e virou-se.
- Nem te perguntei… Tens alguém? – perguntou Mariana de forma hesitante.
- Não. Continuo só, tirando uma ou outra paixão. Nunca encontrei ninguém como tu, Mariana.
E, acenando, apressou o passo até chegar junto ao casal de franceses.

Fim do Acto V

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Caminhos Traçados – IV

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Monday Mar 20, 2006

Bem, o Acto III foi mais curto em relação aos dois anteriores, este é o maior deles. Dividam a leitura pelo dia todo, mas não podia encurtar, já sabem que eu me estendo a escrever.
Desculpem o tamanho, mas teve mesmo de ser. E, não se admirem de ter algum erro, ou troca de palavras, confesso que não revi o texto e acabei de o escrever agora mesmo.

Acto IV

Apenas quando Francisco estacionou o carro no parque do hotel é que, Mariana se apercebeu de onde estavam. – Francisco, no hotel? – e fez uma careta, um pouco incomodada com o lugar.
- Disseste que confiarias em mim e podes confiar. O bar é sossegado, como queremos, e assim que quiseres, eu levo-te ao carro de novo. Uma bebida? – Está bem, mas… – Não! Nada de “mas”. A não ser que não confies é em ti mesma perto de mim, Mari – e antes que ela respondesse – calma, calma, estou só a brincar contigo. A tentar fazer-te sorrir e descontrair como estavas durante o jantar.
- Está bem – e Mariana acabou por lhe oferecer um dos seus sorrisos que o deixava embevecido.
Entraram no hotel e dirigiram-se para o bar, situado ao fundo do corredor do lado direito do átrio. Ainda não eram 23:00 horas e estava bastante sossegado. Tal como ele havia prometido era um local acolhedor, de pequenos cadeirões em redor de mesas baixas e um quase silêncio apenas perturbado pela suave melodia que se desprendia das teclas de um piano a um canto do bar, tocado por um jovem com ar de adolescente. Sentaram-se numa mesa mais próxima do piano e ali ficaram durante quase duas horas em amena conversa, pela qual soube do que tinha sido a vida de Francisco desde que saíra de Portugal. Vivia sozinho em Nova Iorque, tendo apenas um ou outro caso, mantendo a sua liberdade masculina que havia conquistado com o divórcio.
A atracção entre ambos, essa, ía aumentando a cada minuto passado, revelando-se em pequenos toques de mãos, sorrisos, insinuações por parte de Francisco, não rejeitadas por Mariana, antes pelo contrário.
- Porque disseste ao teu marido que não ias dormir a casa? – perguntou ele de repente.
- Porque não tinha mesmo intenção de ir. Aliás, não tenho – e continuou perante o sorriso de Francisco – passei por um hotel e fiz uma reserva, antes de vir ter contigo. Não o quero ver hoje. Temo que possa dizer ou fazer algo que me arrependa mais tarde. – Porque não ficas aqui neste hotel?
- Porque já reservei no outro e fica perto do banco. Tenho de passar por lá amanhã de manhã para ir buscar uma pasta com documentos. – Mas amanhã é Sábado, Mari – recordou Francisco.
- Eu sei, mas preciso de estudar algumas questões para uma reunião na 2ª feira. – Tu é que sabes, querida Mari – e sorriu.
- E, por falar nisso, Francisco. Tenho de ir. Já passa da uma da manhã, faz-se tarde e ainda tens de me ir levar ao meu carro. Se soubesse que acabaríamos por nos esquecer das horas, teria trazido o meu carro.
- Acabamos sempre por nos esquecer do tempo, quando estamos juntos, não é querida?
Ergueram-se e encaminharam-se para a saída do hotel, depois de um gesto de Francisco para o barman, para lhe colocar a despesa na conta.
Depois de entrarem no carro, Francisco ficou por momentos a olhar Mariana, sem ligar o motor. Ela, não conseguindo desviar os olhos dos dele, sentiu que o seu corpo sentia um frémito estranho, como se houvesse uma corrente eléctrica a passar entre eles. E, sobrepondo-se à razão, os corpos aproximaram-se, as bocas encostaram-se e as línguas iniciaram uma dança de paixão e loucura, onde os lábios eram meras pontes entre dois pólos de desejo que se incendiavam. – Sobe comigo – sussurrou Francisco entre dentes.
- Não posso, Fran… – tentou negar, mas foi interrompida pelos lábios dele que a martirizavam, demonstrando que não valia a pena conter a torrente de paixão que havia entre eles. – Podes, sim – disse Francisco, descolando os lábios dos dela, para descer pelo seu pescoço – tu queres tanto como eu, desde que nos vimos ontem, Mari.
- Francisco… – Não digas nada, vem – e saindo do carro, deu a volta, abriu-lhe a porta, puxando-a suavemente para fora e, fechando o carro, encaminharam-se para o hotel novamente. Desta vez, atravessaram o átrio do hotel e entraram o elevador que os conduziria ao piso onde se situava o quarto 623, o dele.
No elevador, quase não podiam conter a vontade de se agarrar e apenas a companhia de outro casal os segurou, não impedindo, no entanto, que Francisco, atrás de Mariana, roçasse o seu corpo nas nádegas femininas, para fazê-la sentir o quanto estava excitado.
Já no quarto, foi uma Mariana nervosa que se aproximou da janela. A palavra traição não saía do seu pensamento, mas o desejo não lhe abandonava o corpo. O que fazer? Procurou na noite que via pela janela, a resposta à sua pergunta, mas o vento na copa das árvores nada lhe respondeu e a noite manteve o seu silêncio. A decisão era dela. Ou do seu corpo que estremeceu ao sentir outro corpo colar-se-lhe, excitado, insinuante, possuidor de uma voz quente que, soprando no seu ouvido, a fez tomar uma decisão.
Virou-se para Francisco e, abraçando pelo pescoço beijou-o como desejava. Durante esses últimos três anos, não tinha conta as vezes que pensara nele, nas noites tórridas vividas a dois, no sexo desenfreado que partilharam, na satisfação plena que sentia quando ele a subjugava com a sua louca paixão.
Na verdade, Mariana nunca esquecera Francisco e, apesar do amor que sentia por Jorge e do bom sexo que partilhavam, não se comparava à paixão que Francisco a fazia sentir. Era algo carnal, selvagem, mas que nunca outro homem a havia feito sentir. Prova disso era o facto de não o ter esquecido e estar ali agora, entregue nos seus braços, desejando-o.
- Pensei tantas vezes nisto, Mari… – Eu também, Francisco…
De corpos despidos, rebolando na cama larga do quarto de hotel, Francisco e Mariana davam vazão à luxúria que os atordoava. O toque dos dedos era mais intenso, a ânsia da satisfação mútua era mais acesa, o perfume dos corpos mais alucinante, apenas eles eram os mesmos. Bocas deslizavam pela pele, dedos penetravam nos recônditos de corpos e a excitação era superior a qualquer força.
Francisco fez uma pausa, esticando um braço para a gaveta da mesa de cabeceira de onde retirou um pacotinho. Colocou a protecção e de olhos nos olhos, entrou no corpo dela, sentindo o calor feminino rodeá-lo, fazendo com que se aprofundasse uma e outra vez naquela carne macia, húmida e ansiosa. Ajoelhando-se na cama, segurou-lhe nas pernas, colocando os pés nos seus ombros, enterrando-se ainda mais profundamente e obtendo um gemido solto pelos lábios femininos. Adorava tê-la assim, sentindo-se completamente no interior do corpo feminino, investindo e olhando nos olhos de Mariana, observando o efeito das ondas de prazer nas suas feições.
O movimento dos corpos tornou-se mais rápido, mais frenético, até que num grito rouco, Mariana atingiu o orgasmo, sentindo o calor nas entranhas, o coração que batia desenfreado como se fosse saltar do seu peito, a respiração ofegante e Francisco que se movia ainda dentro dela em busca do orgasmo que chegou em seguida, num estremecimento. Deitou-se sobre o corpo feminino ainda ofegante, tentando recuperar o fôlego.
- Que saudades, Mari… que saudades… – Francisco…
A noite continuou plena de sexo, prazeres, luxúria, orgasmos e gemidos de prazer.
Dormitavam um pouco e acordavam de novo, transformando a cama num leito pleno de sensações, de satisfação de corpos e gozo infinito.
Eram 8:15 horas quando Mariana acordou e olhou para Francisco que dormia profundamente a seu lado.
Levantou-se e foi até à janela olhar o movimento da rua. Sentia o peso de ter feito o que não devia, mas ao mesmo tempo não conseguia arrepender-se de todo aquele prazer que sentira. Há muito tempo que não se sentia assim. Talvez há três anos, desde que estivera a última vez com Francisco.
Mas então, o que seria agora da sua relação com Jorge? Por um lado, não sabia se ele tinha outra. Por outro, e independentemente de ele a ter traído ou não, a verdade é que tinha sido ela a traí-lo. E já não sabia se o impulso ao telefonar a Francisco fora apenas vingança, ou o secreto desejo em estar com ele e que terminassem a noite juntos.
Pegou no telemóvel e ligou-o. Tinha três sms de Jorge em resposta à sua, enviadas todas de seguida, a primeira às 19h04m: «Onde estás, Mariana?», «Mariana, para onde foste? Responde-me. Porque não vens para casa hoje?», «Espero que estejas bem. Sei que precisamos de conversar. Perdoa-me. Amo-te muito».
Ao ler as mensagens, Mariana pegou na roupa, vestiu-se tentando não fazer barulho e pegou na mala, deixando cair o telemóvel. Um movimento na cama fê-la suster a respiração. Não queria que Francisco desse conta que ela ía embora. Viu que ele se virava para o outro lado, e com os sapatos na mão, saiu do quarto 623. Caminhou pelo corredor apressadamente, entrou no elevador e rapidamente se viu na rua, onde apanhou um táxi que a levou ao seu carro.
Tomou o rumo de casa, mas quando não tinha percorrido ainda nem 500m, abrandou e mudou repentinamente de direcção. Não queria ainda ir para casa, não podia. Precisava de repor as ideias, reflectir, decidir o que faria e como contaria a Jorge o que tinha feito nessa noite. Estava dividida entre contar a verdade ou simplesmente dizer que tinha ficado sozinha num hotel. Não queria mentir-lhe, não se sentiria bem consigo mesma, mas tinha medo de o perder.
E, com estes pensamentos repletos de dúvidas, foi percorrendo estradas. Saiu do centro de Lisboa, percorrendo a marginal, passando por Oeiras na direcção do Estoril, Cascais e continuou, quase sem se dar conta para onde ía.
Uma hora depois, saiu da estrada principal e, percorrendo mais alguns quilómetros, parou finalmente o carro, naquele lugar ermo, onde o vento fustigava os mais aventureiros, desafiando-os a enfrentá-lo.
Estava no Cabo da Roca, um lugar ao qual já não vinha há oito anos, desde que havia terminado a Faculdade de Gestão. Também essa fora uma época conturbada da sua vida sentimental.
E ali estava ela de novo.
Aproximou-se do muro, sentindo o cheiro a maresia invadi-la. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, o vento açoitava-lhe os cabelos.
Debruçou-se no muro para olhar o mar.
- Não faça isso – gritou uma voz feminina, mas Mariana não ouviu com o vento – não, não seja louca – insistiu – Espere!! – agora num grito.
Mariana virou-se de repente ao ouvir aquele grito.
- Mas eu não ía atirar-me! – disse Mariana, admirada, quando a outra mulher chegou mais perto.
- Desculpe, mas pensei que… – e parou, olhando para Mariana, com olhar de espanto.
- Teresa…? És mesmo tu?... – Mariana?!

Fim do Acto IV

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Caminhos Traçados – III

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Saturday Mar 18, 2006

Não sei como lhes dizer isto, mas… é que, eu vou confessar – não consigo reduzir a história, e pelo desenrolar, diálogos, descrições e tudo o mais que é necessário, acabei por aumentar mais um Acto. Espero ser a última vez que acrescento. Mas a História vai passar a ter… seis Actos – eu juro que não será tipo telenovela. É que, para manter os 5 Actos teria de alongar cada um deles mais ainda, e isso não quero. Mas, talvez entre hoje e amanhã surja o próximo Acto, para encurtar no tempo, pelo menos.

Acto III

O ponteiro do relógio colocado na parede alva da sala do restaurante marcava as 20:13 horas. Mariana e Francisco, sentados numa mesa junto à janela, eram quase os únicos clientes do D. Corlinni. Bebericavam um Martini branco, enquanto aguardavam pela comida que já haviam escolhido.
Enquanto observava Mariana, Francisco pensava na surpresa que havia sentido ao receber o seu telefonema e, mais ainda, o convite para jantar. Poderia imaginar que ela lhe telefonaria – mesmo assim, nunca antes de terem decorrido dois ou três dias – mas esta não parecia a mulher que ele conhecera três anos antes. Já o tinha notado na véspera, e nesse mesmo dia ao almoço, mas a confirmação viera com aquela chamada inesperada.
Mariana, nervosa, sentia que a dor no peito não desaparecia. Sentindo-se desconfortável com o silêncio de Francisco e o seu olhar quente e perscrutador, não conseguia tirar da sua mente a imagem de Jorge e da outra mulher. Tentava acreditar que tudo poderia ter uma explicação, e o seu coração dividia-se entre a vontade de dar o benefício da dúvida ao seu marido, num acto de esperança e, a desilusão de vir a descobrir que os seus piores receios se confirmassem. Decidiu pensar apenas em si naquele momento e, no homem que, sentado à sua frente, não entendia o que se estava a passar. – Vi o Jorge com outra – disse assim de sopetão.
- Hoje? – Sim, há menos de duas horas atrás. – Alguma colega de trabalho ou amiga, provavelmente. Não falaste com ele? – Não. Vi-o a sorrir para ela, como há muito não sorri para mim – confessou Mariana. – Isso não quer dizer nada, Mari – respondeu Francisco, tratando-a pelo diminutivo que gostava de usar – se nem falaste com ele, como sabes que é “outra”? Só porque sorria?
- Uma mulher sente quando há algo de diferente, estranho. E eu conheço bem o Jorge. Ou conhecia. E, como já te contei, ele tem andado muito estranho já há várias semanas, triste, macambúzio, preocupado. Mas, hoje não. Parecia feliz. E ela não é uma colega dele. Vi-os junto a um prédio de consultórios médicos, de onde ela saiu. Fica na rua junto à empresa onde ele trabalha. – Mesmo assim, Mari, tens de esclarecer isso com ele, não achas? Se tu não lhe perguntares, não o confrontares com o que viste, ficarás sempre na dúvida. – E ele inventa alguma história para me tentar convencer do contrário. – Então, não lhe digas que o viste e tenta saber onde ele esteve. Assim, saberás se ele te mente ou não – e, esticando um braço, agarrou-lhe nos dedos delicados daquela mão que tremia e levou-os aos lábios, beijando-os suavemente. – Não sei – sussurrou Mariana – já não sei nada, nem sei se quero viver assim, sempre na dúvida.Nunca o saberás se não tentares – e retinha a mão feminina entre as suas. – Prefiro não pensar agora sobre isso, e falar de coisas mais alegres. Não te convidei para jantar para ficarmos a falar sobre o meu casamento – disse Mariana, tentando sorrir.
- Então, porque me convidaste? Fiquei surpreso, sabias? – sorriu. – Queria pedir-te desculpa pela forma abrupta como fugi hoje. Não havia razão para isso, afinal, era só um beijo de duas pessoas que não se viam há muito tempo. – Gosto de te ouvir falar assim, Mari – riu Francisco – mas foi mesmo só isso? – provocou.
- Claro, que sim, que mais poderia ter sido? – tentou disfarçar Mariana, o rubor colorindo o seu rosto.
- Porque eu acho que sentiste a mesma excitação que eu… – disse, fazendo uma pausa e continuando – sejamos adultos, Mari. Tu estavas a gostar tanto como eu e ponto final. Isso não podes negar. E, se não fosse num jardim, mas num quarto qualquer, a coisa não teria ficado por ali e em poucos minutos estaríamos a rebolar num colchão, de corpos nús e suados – terminou em voz baixa.
Mariana retirou a mão das dele e tentou balbuciar uma resposta, mas não conseguiu. Era verdade o que ele dizia. Ela sentira algo que não sentia há algum tempo. Nem das últimas vezes que ela e Jorge fizeram amor. – Não nego, mas não é isso que procuro, Francisco. – Não disse isso, Mari. Mas, porque não recebes simplesmente o que a vida tiver para te oferecer? – Sempre esse teu modo simplista de viver, Francisco – respondeu Mariana sorrindo, enquanto encolhia os ombros.
O empregado chegou com a comida, interrompendo o diálogo entre ambos.
A conversa continuou, de forma suave, solta e Mariana foi descomprimindo, apreciando a companhia e, acabando por esquecer o que mais a preocupava naquela noite. Queria aproveitar o facto de ter ali um dos homens mais sedutores que havia conhecido. Aquele que a levara a cometer aquele delírio durante uma semana, em que se entregara à luxúria, navegando naquele corpo masculino que a fizera gemer de prazer e sentir sensações inimagináveis. Fizera coisas com Francisco que nunca havia experimentado com Jorge antes de casarem, embora mantivessem uma relação sexual normal, durante o namoro. Mas, Francisco era… um louco na cama, dominador, erótico, de uma experiência sexual impressionante.
E, agora que voltava a pensar nisso, sentia de novo aquele arrepio e um calor que a invadia.
- Mari… – Desculpa, que estavas a dizer? – Estavas distraída. Em que pensavas? – Nada, Francisco, nada importante. – Onde queres ir agora?... Se é que queres ir a mais algum lado… – perguntou Francisco.
- Vamos a um bar que seja calmo, acolhedor. Não me apetece nada de confusões. – Avisaste o Jorge que ias chegar mais tarde? – Enviei-lhe uma sms a dizer que não ía ficar a casa hoje. E desliguei o telemóvel. Não quero falar com ele esta noite. – Está bem. Confias na minha escolha? – sussurrou Francisco no ouvido feminino, enquanto a ajudou a vestir o casaco.
- Confio. Onde vamos? – Não deves conhecer, mas acredito que vás gostar. Vamos no meu carro, eu depois trago-te.
E seguiram no carro dele até ao bar.
O bar ficava no hotel onde ele ficaria hospedado durante aqueles três meses.

Fim do Acto III

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Caminhos Traçados – II

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Thursday Mar 16, 2006

Acto II

O despertador tocou às 8:00 horas em ponto e Mariana esticou um braço para o desligar. Olhou para o lugar vazio a seu lado e escutou o silêncio da casa – Jorge já havia saído para trabalhar. Sentiu de novo aquela dor no peito e uma lágrima espreitou no canto do olho, querendo soltar-se. Esfregou os olhos e saiu rapidamente da cama. Tinha um dia cheio pela frente, com uma reunião no banco às 10:00 horas, com um dos seus clientes e não podia atrasar-se. Depois, teria o almoço combinado com Francisco.
Tomou um duche rapidamente, escolheu um dos seus melhores vestidos, maquilhou-se, apanhou os cabelos loiros no alto da cabeça, deixando algumas pontas caindo em redor do rosto, colocou os brincos de brilhantes, calçou as sandálias de salto alto, pegou no casaco e desceu à cozinha. Preparou um sumo de laranja rapidamente, agarrou a mala e saiu na direcção do carro. Levaria cerca de meia hora a chegar ao banco, pelo que teria ainda algum tempo para preparar algumas propostas que tinha para fazer ao seu cliente e beber um café quente, antes da hora marcada para a reunião.
A reunião durou-lhe quase toda a manhã, restando apenas alguns minutos para fazer uns telefonemas, antes de sair para ir ter com Francisco, que havia telefonado e deixado mensagem, a dizer que a esperava no D. Corlinni, o restaurante italiano onde se haviam encontrado algumas vezes para jantar.
De Jorge não havia tido qualquer telefonema, nenhum sinal. Tentou manter-se fria, mas a mágoa era cada vez mais profunda. E o seu maior problema é que ele nem havia sequer querido conversar, de todas as vezes que tentara, como se não houvesse qualquer problema.
Mariana pensava em tudo isto enquanto conduzia a caminho do restaurante.
Francisco já a esperava numa mesa ao fundo da sala, numa zona mais resguardada, erguendo-se quando ela se aproximou e beijando-a no rosto. Um beijo que pareceu durar mais do que um cumprimento normal entre amigos. Mariana sentiu um arrepio na espinha e, por momentos, passou-lhe pelo pensamento a recordação de dois corpos enroscados, rebolando selvaticamente no chão de um apartamento. Afastou tal pensamento, não conseguindo disfarçar o rubor que lhe tingiu as faces.
O almoço decorreu com tranquilidade, risos, cumplicidade, e no mesmo clima com que se haviam despedido na noite anterior. A atracção que existira entre ambos, não desaparecera e parecia agora aumentar de uma forma estranha.
Mariana tentou controlar, pois já não era a jovem inconsequente, solteira, embora com noivo e de casamento quase marcado, mas sim uma mulher casada, com uma vida estável… Estável? Nem sabia como poderia chamar a sua relação com o marido actualmente, mas tinha esperança que tudo se resolvesse.
Estava assim mergulhada nestes pensamentos quando Francisco lhe tocou na mão que repousava em cima da toalha. Sentiu o aperto dos seus dedos e estremeceu. Ele olhava-a profundamente, como se recordava de há três anos atrás. Mas, parecia ter algo mais no olhar. Maturidade, talvez. Certezas. – Tenho de ir, Francisco – falou nervosa. – Vou pedir a conta – respondeu, fazendo um sinal ao empregado de mesa – Não podes ficar mais um pouco? Podíamos ir até ao jardim ali em cima. Lembras como costumávamos ir até lá? – Sim, lembro, mas acho melhor não, Francisco. – Porque não? Estás assim com tanto trabalho no banco esta tarde que não possas tirar um descanso? – insistiu Francisco.
- Não é isso, é que… nós dois… – E que mal pode haver? Somos conhecidos de longa data, ou não? – perguntou, enquanto recebia o troco e o guardava.
- Francisco, eu… – hesitou Mariana.
- Vá, vamos lá – e, levantando-se, agarrou no braço feminino com ternura, caminhando para a saída.
Já na rua, Mariana deixou-se conduzir por Francisco até ao jardim, circundado por pequenos canteiros de flores coloridas e um relvado bem tratado.
- Sempre mantiveram este jardim bem tratado – dizia ele – e é talvez dos jardins menos frequentados de Lisboa. – Já é mais conhecido hoje em dia, abriu um centro de estudos aqui perto e muitos jovens passeiam por aqui. – Lembras-te que o elegemos como o nosso jardim, precisamente por quase não se ver ninguém? – perguntou Francisco, estacando de frente para Mariana e tocando-lhe na face com as costas da mão, deslizando até ao seu pescoço.
- Lembro… – respondeu ela num sussurro.
Ele segurou-lhe no rosto com ambas as mãos e, descendo o rosto, beijou-a. Primeiro delicadamente, apenas num sussurrar de lábios. Depois, de modo sôfrego como se quisesse aspirar a vida num único beijo.
Mariana, desprevenida, não resistiu e, acabou por o beijar também, permitindo que a língua masculina penetrasse entre os seus lábios e se enrolasse na sua. O gosto do whisky da boca dele, misturado com o gosto a café da dela. Os corpos encostaram-se numa revelação contida da excitação que os assolava, com aquele reencontro. Parecia que nunca se haviam deixado de encontrar.
- Não! – gemeu Mariana, separando a boca da dele e afastando-se – Isto não pode ser, Francisco… o Jorge… eu… – e de lágrimas escorrendo pelo rosto e punho fechado contra a boca, começou a correr, na direcção do lugar onde tinha deixado o carro estacionado.
Procurou a chave de forma desenfreada e abriu o fecho centralizado, entrando no carro, ligando a ignição e arrancando daquele sítio apressadamente. Queria fugir dali, daquele beijo, das sensações que lhe haviam invadido o corpo, de Francisco.
Ele, ficou estático no jardim até a ver entrar no carro e partir. Depois, meteu as mãos nos bolsos das calças, e de cabeça baixa, caminhou para o seu próprio carro.
Mariana ligou para o banco e avisou que não iria trabalhar naquela tarde, dando a desculpa que estava com dor de cabeça e não se sentia em condições, pedindo a um dos colegas que lhe anotasse os recados, caso algum cliente telefonasse. Dirigiu-se para casa, e as lágrimas não paravam de deslizar pelo seu rosto.
Não entendia os seus sentimentos, não se entendia a ela mesma. O amor que sentia por Jorge parecia inabalável, mas a dor que havia aumentado ao longo das últimas semanas, e o reencontro com Francisco haviam-na abalado de tal forma, que deixara que as hormonas falassem mais alto. Mas tinha de se controlar. O telemóvel havia tocado cinco vezes – era Francisco – mas Mariana recusava-se a falar com ele. Talvez no dia seguinte, tivesse coragem de ela mesma lhe ligar e esclarecer o que havia acontecido nessa tarde.
Sabia o que faria nessa mesma noite. Não iria deixar passar nem mais um dia sem esclarecer tudo com Jorge. Para isso, iria ter com ele, jantariam num restaurante e tentaria que ele lhe contasse o que o abalava.
Depois de tomar esta decisão, pensou que algum repouso não lhe faria mal e deitou-se no sofá a descansar, desligando o telemóvel. Pelas 17:00 horas, levantar-se-ia, tomaria um banho de imersão perfumado, vestiria aquela saia preta com a abertura lateral que Jorge tanto gostava e o top branco.
Às 18:00 horas, Mariana saía de casa, com um sorriso nos lábios, num misto de esperança e temor, dirigindo-se para o centro da cidade, até ao edifício onde ficava a firma para a qual Jorge trabalhava.
O estacionamento em frente ao prédio estava lotado e, Mariana, procurou na rua lateral, numa zona de consultórios médicos, onde a essa hora, já deveriam existir alguns lugares vagos.
Tinha acabado de estacionar quando, à porta de um dos prédios estava Jorge, de casaco preso por um dedo, displicentemente jogado num ombro, conversando ao telemóvel, o qual desligou logo depois. Mariana sorriu e quando abre a porta do carro para o chamar, vê uma jovem sair da porta do edifício e cumprimentar Jorge com um beijo na face, retribuído por ele da mesma forma. O sorriso entre ambos, de forma cúmplice e as palavras trocadas, que Mariana não poderia entender, mostravam a existência de alguma intimidade entre ambos.
Mariana ficou estática, sentindo um calafrio pelo seu corpo,enquanto via Jorge pegar no cotovelo da jovem sorridente e seguirem pelo passeio fora. Não sabia que pensar, que fazer.
- Sacana!! Então, sempre tens outra!! Estúpido! Era por isso!! – a raiva soltava-se na forma de breves palavras que demonstravam a fúria que sentia.
Agarrou no telemóvel, ligou-o, procurou na agenda e marcou um número, esperando pela voz do outro lado.
- Francisco? – Sim, Mariana. – Acho que exagerei hoje. Estou em Lisboa. Queres vir jantar comigo?

Fim do Acto II

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Caminhos Traçados – I

Posted by Sutra under Caminhos Traçados, Diário on Wednesday Mar 15, 2006

Este é o início de uma história contada em seis Actos.
Eu irei escrever o enredo da história, vocês escolherão o destino das personagens – ou seja, o final do conto – dar-vos-ei depois alternativas.
Mas estejam atentos, pois no fim desta semana terão de decidir qual o final que preferem, já que será escrito um Acto por dia e o último três dias depois.

Acto I

Dois anos passados desde a data mais feliz da sua vida – o dia em que Mariana havia unido a sua vida a Jorge. Dois anos de felicidade, alegrias, encontros e desencontros, compreensão, carinho, confiança, amor e uma paixão intensa.
Contudo, desde há alguma semanas que sentia Jorge mais distante, como que insatisfeito com algo, fugindo ao seu olhar perscrutador, às suas perguntas, com um simples «cansaço» como desculpa. Mariana achava que algo de muito grave se poderia passar, pois nunca sentira Jorge tão tenso, ansioso.
Questionara-o sobre se no seu emprego estaria tudo bem, respondeu-lhe que sim, apenas muito trabalho, grandes negócios em causa na firma onde trabalhava como contabilista e que isso o deixava de nervos em franja. Mas, quando a noite chegava, sentados no sofá lado a lado, ela já não sentia aquela ternura tão característica nele.
Tinham feito amor a última vez há tanto tempo – uma semana.
Não. Amor, não! Sexo! Uma satisfação do corpo, sem um gesto de carinho, um beijo mais caloroso, o abraço aconchegante no final. Seria verdade o que diziam que as mulheres eram lamechas demais? Ela não se sentia assim, gostava de um bom sexo, mais lento, ou mais rápido, da procura do prazer, da satisfação dos corpos. Mas gostava também de encostar o seu corpo ao de Jorge e ficar assim enroscada, adormecendo de corpos enrolados.
Não havia sido assim naquela noite. Ele saíra de cima dela e virara as costas, deixando-a sem uma palavra, e adormecendo em seguida, ou fingindo que dormia.
Teria Jorge alguma outra mulher? Haveria problemas na firma que ele não queria contar para não a preocupar?
Não sabia e não queria desconfiar daquele em quem depositara a sua confiança, embora aquele pensamento não saísse da sua mente. Mas ele nada lhe dizia e ela decidira não tornar a questioná-lo por enquanto. Deixaria passar mais algum tempo, poderia ser apenas uma fase.
Naquele dia, completavam dois anos de vida em comum e acordara com um beijo meigo dele, antes de sair para o trabalho. Agora ela preparara um jantar especial, com velas, flores, incenso e uma lingerie vermelha, como sabia que ele iria adorar, composta de sutiã, fio dental, meias de liga vermelhas e cinto de ligas em renda. Em cima da cama deixara um negligé de cor vermelha e robe a condizer, para vestir após o jantar.
Preparou as iguarias – uma mistura de pequenos pratos afrodisíacos, de sabor oriental, um pouco de sushi que encomendara, umas frutas e um vinho de safra especial.
Às 20:00 horas ele ainda não havia chegado. Não era hábito, mas poderia ter sofrido algum atraso na firma, no trânsito, ou ainda – e Mariana sorriu – teria passado por algum lado para adquirir algo para ela, mostrando que não havia esquecido a data. As 20:30 horas chegaram e nada de Jorge aparecer.
Tocou o telemóvel.
Era ele.
«- Lamento… Estamos aqui em reunião e não sei a que horas vou chegar. – Logo hoje, amor? – Não posso fazer nada… err… tenho de ir… – Mas eu preparei um jantar especial para nós. – Come tu e guarda para mim no forno. Como mais tarde. E… Mariana… – ... sim? – responde ela de voz embargada. – ... Não esperes por mim. – ... esqueceste que dia é hoje? – ... – ele já havia desligado.»
Ficou desorientada.
Quis gritar, chorar, mas apenas um grito mudo saiu por entre os lábios, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto.
Não quis ficar ali. Deixou tudo como estava, pegou nas chaves do carro, no casaco e saiu.
Percorreu quilómetros pela noite, até que deu por si no centro de Lisboa. Nem se tinha dado conta das voltas que dera, mas estava algures perto de Entrecampos. Sentia sede e sabia que existia um bar algures por ali. Lembrava-se de quando o frequentava ainda no tempo de namoro com o Jorge. Só lá haviam ido uma vez depois de casarem.
Estacionou o carro e foi à procura a ver se ainda existia. Sim, ele ali estava – Noite Azul, o seu nome. Entrou e deparou-se com apenas duas ou três mesas ocupadas. Um casal numa delas, três raparigas noutra e um grupo de seis pessoas de ambos os sexos noutra. Não admirava que tivesse poucos clientes, afinal era início da semana – 3ª feira.
Procurou uma mesa mais afastada e sentou-se, pedindo uma Marguerita ao barman que rapidamente chegou junto de si.
A música tocava de forma a não entender o que se conversava nas outras duas mesas, e ainda bem que assim, queria estar completamente abstraída do que a rodeava, ouvindo simplesmente a música e pensando na sua vida, no seu casamento e naquela dor que lhe queimava o peito.
A porta do bar abriu-se e entrou um homem moreno, alto que se chegou ao balcão, sentando-se num dos bancos altos. Pediu um Gin Tónico e relanceou o olhar pelas mesas ocupadas, detendo-se naquela onde uma mulher de olhar triste terminava de beber uma Marguerita. Franziu o sobrolho, parecendo reconhecer aquelas feições, aquele cabelo. Se era «ela» nada havia mudado desde que tinham tido um caso, antes de ele passar pela perturbação do seu divórcio.
Pediu uma Marguerita, outro Gin Tónico e com os dois copos, aproximou-se da mesa de Mariana.
«- Posso? – perguntou, pousando a Marguerita à frente dela.
- Não, por favor, preferia que… Francisco? – Então és mesmo tu, rosa selvagem – sorriu.
- Francisco, eu hoje… eu não estou bem, prefiro ficar sozinha. – Não te posso deixar sozinha nessa tristeza, Mariana. Muito menos, depdois de te encontrar passados… quantos? Três anos? – Sim. Mas não tinhas partido para Nova Iorque? – Sim e não. – Ou foste ou não foste, Francisco. – Eu explico-te. Mas… permites que me sente ou não? – Está bem, senta-te, então. – Sabias que o meu casamento já tinha terminado. Separei-me duas semanas depois do nosso… enfim…
-... do nosso caso. Continua
– cortou ela.
- Sim. E a viagem que tinha planeado aconteceu mas não nessa altura. Não te procurei, porque tu tinhas os teus planos, estavas noiva, feliz e arrependida daquele nosso desvario. Divorciei-me e parti oito meses depois. Regressei na semana passada. – Voltaste de vez? - perguntou ela.
- Não sei ainda. Tirei um período de férias de três meses, depois verei se volto ou não para os Estados Unidos. – Deste-te bem por lá, estou a ver – disse ela sorrindo.
- Sim, não me posso queixar. E tu? Estás feliz? Vejo que sempre casaste – disse apontando para a aliança no dedo dela. – Sim, casei e sou feliz. Acho… – hesitou, fazendo rodar a aliança entre os dedos.
A conversa entre Mariana e Francisco prolongou-se, recordando lugares, episódios, falando de desabafos, de alegrias e tristezas, de mágoas.
Era perto da uma da manhã quando se despediram, com a promessa de almoçarem no dia seguinte e, Mariana regressou a casa. O carro de Jorge já estava na garagem. Entrou em casa e sentiu o silêncio, olhando o escuro. No quarto o vulto do corpo do marido jazia sobre a cama. Mariana despiu-se, vestiu a camisa de dormir que estava no roupeiro e deitou-se. Sentiu a respiração de Jorge que parecia dormir profundamente.
Em cima da cadeira o negligé vermelho cuidadosamente dobrado em cima da camisa de dormir igual. Havia sido Jorge quem o colocara ali.
Mariana demorou a adormecer, pensando em todos os acontecimentos daquela noite – a dor da falta do seu marido ao seu lado no dia de aniversário de casamento e o reaparecimento de Francisco na sua vida.
Jorge abriu os olhos ao sentir a respiração profunda e pausada de Mariana, sinal que adormecera.
Já não necessitava fingir que dormia.

Fim do Acto I

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