Caminhos Traçados – O último Acto
Posted by Sutra under Caminhos Traçados on Wednesday Apr 5, 2006Acto X
Sentada no banco de pedra em frente do pequeno parque infantil do jardim, Mariana observava duas crianças que brincavam nos três baloiços, ali colocados para agradar aos mais pequenos que por lá passavam de vez em quando. Não era um lugar muito frequentado por crianças, mas adequado quando a situação se impunha. Como naquele momento.
Os seus olhos encheram-se de lágrimas que, a custo, conseguiu suster. Não era o momento para chorar. Não ainda. Continuaria a guardar as suas lágrimas como o fazia desde o início de todo o processo doloroso pelo qual passava desde há dois anos. Quando terminasse, poderia chorar tudo o que guardava no peito, agora era tempo de continuar a ser forte por ela e pelos outros.
A sua vida dera uma reviravolta impensável desde que ela e Jorge haviam aprendido aquela grande lição sobre o relacionamento de duas pessoas que se amam, fazia agora seis anos. E o facto de apostarem fortemente em reconstruir a sua relação, ajudou-os a passar por outra dura prova que surgiu um mês depois daqueles acontecimentos, quando Mariana descobriu que estava grávida. A dúvida sobre quem seria o pai da criança foi mais um espinho venenoso que se entranhou na pele de ambos e que, dolorosamente, se havia alojado na carne. Quando completou dois meses e meio de gravidez, tiraram uma semana de férias e foram para o Norte do país, descansar numa daquelas quintas de turismo rural. Necessitavam daquele tempo juntos, para continuarem a tentar reconstruir os alicerces da sua relação, agora bastante frágeis com a vinda do bebé.
E foi quase no final dessa semana, que Jorge teve uma atitude que a deixara enternecida, fazendo com que o seu amor transbordasse do seu peito. Abraçara-a e dissera:
- Haja o que houver, Mariana, eu acredito que esta criança é nossa, minha e tua. De mais ninguém. Não quero fazer qualquer teste, quando ela nascer, não me interessa, porque ela terá o nosso sangue e o nosso amor. De nós dois. – Jorge, eu… – e começara a chorar, sem conseguir falar.
- Nada importa, Mariana, a não ser nós três. – Sim, a nossa família – respondeu-lhe, por entre lágrimas.
Desde esse dia, o ambiente do lar enchera-se de sorrisos, de alegria, de planos para o futuro e para o bebé que nasceria daí a alguns meses.
Planos que foram abruptamente interrompidos na noite em que Mariana se sentiu mal, correndo para a casa de banho. – Mariana? Que tens? – a aflição de Jorge era notória.
- Dores, Jorge, muitas dores – e gemia agarrada à barriga e ao baixo-ventre – Eu não sei o que é, e não pára de doer – e massajava suavemente a barriga proeminente nos seus quatro meses, tentando encontrar alívio.
- Vou chamar uma ambulância já – disse Jorge, correndo para o telefone.
O INEM chegara poucos minutos depois, levando-a de imediato para o hospital. Pelo caminho, Jorge contactara a obstreta de Mariana, relatando o que se passava. Quando a ambulância parou no átrio das urgências, a Drª Ana Lourenço já lá se encontrava.
Fora uma noite terrível aquela, mas nada pudera ser feito. Perdera o bebé. Ficara internada ainda mais três dias, devido a complicações que surgiram na sequência do aborto espontâneo e a pior notícia viera depois.
Mariana estremeceu ao recordar o momento em que a sua médica lhe dissera que não poderia mais ter filhos. A intervenção cirúrgica a que fora submetida, salvara-lhe a vida, mas deixara-a estéril, porque não havia outra saída.
E, nem sabe como sobrevivera nos meses seguintes, com a dor não só de ter perdido o seu bebé, mas por ter perdido qualquer possibilidade de vir a gerar outra criança. Passara aquela que julgara ser a pior fase da sua vida. Mas o amor, carinho e compreensão de Jorge, haviam ajudado a que começasse a encarar outras possibilidades. – Mamã, mamã – a voz que lhe interrompeu as recordações, pertencia a uma menina de seis anos que viera a correr para o seu colo, sorrindo, enquanto a ama a olhava de longe. – Ainda não estás cansada, Filipa? – Não, mamã. Viste como eu quase tocava o céu, mamã? Viste? – e pulava, excitada, fazendo cair a fita amarela do cabelo loiro. – Vi, sim, amor. Voaste alto – sorriu Mariana, um sorriso triste. – Mas agora está na hora de irem para casa. A mamã vai mais logo. – Vais ver o papá outra vez? – cabeça inclinada para um lado, Filipa olhava a sua mãe, esperando pela resposta. – Sim, mas não demoro muito, para podermos jantar juntas. Prometo. – Está bem, mamã. – Paula… – Sim, D. Mariana. – Leve a Filipa e dê-lhe um iogurte quando chegarem a casa. Eu chegarei a tempo de preparar o jantar para as três e voltarei para aqui depois do jantar. – Muito bem, mas posso dar-lhe logo banho e assim quando a senhora chegar, a Filipa já estará preparada para o jantar. – Sim, faça isso, Paula. E obrigada por tudo. – De nada, D. Mariana. Pode sempre contar comigo. Até logo. – Até logo, mamã – despediu-se Filipa, abraçando Mariana e depositando-lhe um beijo na face. – Até logo, querida – e ficou a vê-las afastarem-se, não demorando mais que alguns segundos para mergulhar de novo no passado.
Durante o período em que se recuperava do aborto, a sua psicóloga questionara-a várias vezes porque não optavam por adoptar uma criança, já que existiam tantas a necessitarem de um lar. E, essa ideia foi tomando forma, o entusiasmo foi invadindo tanto a ela como Jorge e começaram a pesquisar na Internet e a fazer alguns contactos, para saber mais pormenorizadamente, como proceder para adoptar uma criança.
Ao fim de seis meses após o aborto, estavam decididos a avançar com um processo de adopção, apesar de todas as dificuldades burocráticas que iriam encontrar. Infelizmente, a morosidade de todo o processo e as dificuldades erguidas, faziam desistir muitos casais de adoptarem crianças que apenas necessitam de amor, carinho, compreensão, educação, um lar, uma família. Mas Mariana e Jorge decidiram-se a levar aquele processo até ao final e, a cada dia que passava, mais vontade tinham de levar por diante aquele desejo.
O pior veio depois.
Quando pensavam que nada mais poderia aparecer como entrave à sua felicidade, veio a notícia mais dolorosa, a pior de todas elas, aquela que a fazia estar agora ali e, relativamente à qual não havia enganos, nem retornos, mas apenas conformação.
Um ano após terem iniciado o processo de adopção, e quando já tinham escolhido Filipa como a filha que queriam ter, o impensável entrou nas suas vidas. Jorge, depois de se queixar durante semanas com dores no estômago, decidira-se a consultar um médico e a fazer alguns exames necessários para apurar a origem das dores. Tinha adiado sempre com a desculpa de que não seria nada importante, mas apenas algo que comera, no entanto, os resultados dos exames apontavam para cancro do estômago. Fez uma endoscopia, biopsia, consultou outros médicos, fez novos exames, mas foram unânimes: tinha um adenocarcinoma, um tumor maligno do tecido epitelial e, talvez a cirurgia pudesse curá-lo, ou permitir que não evoluísse e mantivesse uma certa qualidade de vida. Teria de complementar depois com a quimioterapia.
Foi submetido à intervenção cirúrgica, e depois à quimioterapia, deixando-o abatido, e emocionalmente esgotados a ambos.
Mas, a vontade de terem Filipa era superior e, ao mesmo tempo o processo foi avançando, enquanto os meses decorriam. Jorge passava umas semanas pior, outras melhor, mas depois de fazer mais exames, os médicos informaram-no que o tumor alojado havia criado ramificações e nada haveria a fazer a não ser tentar viver da melhor forma, o tempo que lhe restava que poderia ser um ano, dois ou três. Tudo dependeria dos cuidados que fosse tendo, e da quimioterapia que fosse mantendo.
Daí a dois dias, faria oito meses que Filipa viera morar com eles, definitivamente. O processo de adopção estava completo, e eram legalmente os pais de da pequenina que os encantara desde o primeiro dia em que a viram naquela instituição.
Mas, não poderiam comemorar em casa.
Jorge estava internado naquela clínica há quase um mês, e não havia esperança de que saísse de lá. Mariana ía todos os dias para a clínica, depois de almoço, hora a que saía do banco, facilidade que lhe havia sido concedida devido à sua situação, e permanecia por lá até à hora de jantar.
Paula, a ama que contratara para Filipa, levava-a até à clínica para ela ver rapidamente o pai e depois ficava a brincar nos baloiços do pequeno jardim da clínica.
E assim tinham passado as últimas semanas, tentando manter a sua postura de mulher forte, buscando forças onde nem imaginava que existiam, sem se permitir chorar.
Pensava várias vezes na ironia das suas vidas.
Seis anos antes, Jorge pensara que não poderia ter filhos e por isso, fizera exames que, por erro de análise de um médico, indicavam que tinha cancro. Por toda essa situação, o seu casamento passar por traições, por uma crise que foi suplantada. Depois disso, havia sido ela que passara a não poder ter filhos, e a Jorge acabara por lhe ser diagnosticado um cancro, agora em fase terminal.
A vida era tão madrasta, por vezes.
Era uma ironia.
Mas eram aqueles os caminhos que estavam traçados.
Ergueu-se e encaminhou-se para a entrada daquele edifício, onde se encontrava Jorge que, ansiosamente, a esperava.
F I M
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