20º Dia

4ª Feira
15:45 horas.
A promessa de telefonema não se cumpriu ainda. Já decorreu metade do dia. Teria sido promessa? Ou apenas o remexer dos sentidos, com o objectivo determinante de a desconcertar e fazer ansiar pela repetição da possessão desenfreada, quase a raiar a obsessão?
A verdade é que se era essa a sua intenção, conseguira.
Ainda deitada na cama, pegou num livro e tentou ler. Mudou a página sem recordar se havia lido alguma linha. Folheou de novo. Não. Nem a crónica de Mário zambujal, normalmente apreciada, a fazia perder a noção do tempo e da espera pelo telefonema do Sr. Q. Pousou o livro e pegou no comando da televisão. Um pouco de zapping e o resultado foi igual. Desporto, história, música ou cinema. Nada a distraía. Até que parou ali, naquele canal onde as imagens que se sucediam pareciam indiciar paixão, sexo. Deixou-se prender pelo desenrolar da acção. Filme ou reportagem? Não conseguira ainda descobrir pelas cenas que se sucediam. Mas agradava-lhe. Recostou-se melhor nas almofadas e embrenhou-se na ficção. A cena actual parecia decorrer num casarão quase abandonado, onde ainda se viam alguns móveis cobertos por lençóis, com pouca luz, excepto aquela que passava pelas frinchas das janelas encerradas por portadas de madeira, criando um ambiente entre o assustador e o apaixonante. Uma mulher procurava algo pelos cómodos da casa, subindo as escadas e caminhando de divisão em divisão até entrar num quarto onde apenas se encontrava um maple e um baú. Ajoelhou-se junto deste último e abriu-o. De lá começou a retirar roupas, livros, até se deparar com uma pequena caixa vermelha com tampa de veludo. No momento em que a abriu, foi puxada para trás por uma mão forte, de dedos ultrajados que a atiraram ao chão enquanto um rugido enfurecido sussurrava: ‘que queres daqui?’ E, sem lhe dar tempo para responder, ergueu-a com facilidade e atirou-a para cima do maple ao centro do quarto, acompanhando o movimento com o próprio corpo.
Shiva perdeu a noção do tempo naquele momento, expectante da continuação do que se iria passar entre a mulher de olhar assustado e o homem de rosto encoberto pela escuridão. O Sr. Q ficara esquecido na excitação que se avizinhava.
Escuro, movimento, acção, remexer de roupas e um som abafado de uma voz feminina: ‘tu?’ Um beijo agressivo calou a continuação do que ela poderia ainda dizer, enquanto o corpo masculino se encaixava entre as coxas semiabertas de uma mulher espantada e excitada. Dedos firmes fizeram subir a saia, e pressionaram o sexo feminino, iniciando uma carícia forte, invasora, possessiva. A língua continuava a invadir a boca feminina, interrompendo apenas para lhe dizer em voz forte: ‘quero foder-te agora’. Desapertar de calças, pénis descoberto, pequeno pedaço de renda afastado. Sexo dentro de sexo. Forte. Excitado. Penetrante. Invasor.
Shiva deixou-se seduzir pelas imagens e deslizou os dedos entre as coxas, enquanto outra mão se apertava de encontro a um seio, acariciando o mamilo. Estava sedenta. A ansiedade de sexo, da repetição do dia anterior, aliada às imagens que via criaram uma mistura explosiva que a fazia procurar a satisfação. Sentiu escorrer humidade entre dedos, o pulsar apressado do coração na aproximação do orgasmo. A explosão de sentidos. A respiração ofegante. O toque da campainha.
Como?
Toque de campainha? Não esperava ninguém. Levantou-se apressadamente, vestiu um robe por cima da lingerie e correu para a porta. Espreitou pelo olho-de-boi, mas estava escuro. Possivelmente o visitante impedia-a de ver quem tocava.
- Quem é?
– Abre, Shiva.

O corpo pareceu paralisar-se. Um suor frio desceu-lhe pelas costas.
O Sr. Q.

Sutra 2010

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19º Dia

4ª Feira
00:50 horas.
Aproximava-se a hora do show e a habitual mesa destinada ao desconhecido, mantinha-se vazia. Como se aguardasse a sua chegada. Estaria reservada? Não queria perguntar ao empregado do bar. Já chegava ter demonstrado a sua curiosidade da última vez que lhe perguntara algo sobre aquele homem. Não iria sujeitar-se à curiosidade e mordacidade do rapaz.
Por trás da cortina, relanceou o olhar pela sala mais uma vez e não pôde deixar de sentir um pouco de desilusão. Ele intrigava-a. O silêncio. A distância. O facto de a sua presença se fazer sentir exclusivamente na hora dos seus shows.
Faltavam 5m para começar. Esgueirou-se para o camarim e despiu o robe, para terminar de se preparar.
A música começou a tocar e ela avançou. No pensamento mantinha-se a presença do desconhecido. Ausente da sala. Fechou os olhos e entregou-se como sempre o fazia. Como se fizesse amor com as ondas da melodia que tocava. Com a mesma intensidade. O mesmo calor. A mesma chama.
Olhou a mesa. O vulto vestido de escuro, chapéu. Cigarrilha.
Chegara.
Enquanto decorria o show, tentava manter a concentração. Mas não lhe saía do pensamento que gostaria de o cumprimentar nessa noite. Chegaria a tempo?
Os últimos acordes da melodia soavam. O seu corpo desnudo deslizou pelo pequeno palco e estacou. Terminara. Sorriu e olhou firmemente para o canto onde apenas notava o contorno do corpo masculino.
Saiu rapidamente, vestiu a roupa do show e saiu para a sala. Ele ainda lá permanecia. Na mesma mesa. No canto escuro, notando-se apenas a ponta da cigarrilha acesa.
Shiva! – a voz por cima do ombro fê-la estacar repentinamente. Não contava que ele estivesse ali naquela noite.
Sim, Sr. Q?
Temos um cliente quer uma table e um show privado. Um bom cliente. É coisa para demorares uma hora ou mais com ele, lá na sala.
– Está bem, vou já, preciso só de beber qualquer coisa
– respondeu, enquanto pensava que, mais uma vez, não iria descobrir nada sobre o misterioso homem da cigarrilha – não demoro mais que dois minutos.
– Já, Shiva
– ordenou, ao mesmo tempo que lhe apertava um braço e lhe devorava com um olhar a profundidade dos pensamentos.
Tenho a garganta seca – teimosa, queria apenas contrariá-lo, como se com isso, pudesse despir a frieza da voz com que ele a brindava, o metálico dos olhos que a faziam recordar a noite anterior.
- Terás lá algo para beber.
Sem mais resposta, Shiva soltou-se da sua mão e deu um passo na direcção da sala onde o cliente a aguardava. Mas, mais uma vez o Sr. Q a segurou pelo cotovelo apenas para lhe sussurrar ao ouvido:
- Ainda sinto o teu sabor. Não ficámos por ali – deixando-a prosseguir o caminho.
Shiva estremeceu. O desejo invadiu-a, ao lembrar também do sabor masculino. Do toque do seus dedos e dos gemidos de prazer. Encaminhou-se finalmente para a sala reservada, não sem antes olhar uma última vez por cima do ombro, para a mesa do canto. Ele já lá não estava. Isso desconcertou-a.
O cliente que a aguardava pretendia uma table demorada. Longa. Um despir de vestes sensual. Mas o pensamento de Shiva dividia-se entre o Sr. Q e o homem misterioso da cigarrilha. Pouco concentrada, sentiu que o cliente, o Sr. Z, se apercebia dos seus gestos mecanizados. Sem alma. Sem entrega.
- Shiva, eu quero algo mais que isto. Quero possuir-te. Há alguma possibilidade disso?
Não era hábito misturar clientes da casa, com os seus próprios clientes que recebia no apartamento. Mas, sem pensar, respondeu-lhe:
- Sim. Há, mas não aqui .
– Diz-me onde.

Só nesse momento, ela tomou consciência do passo que estava a dar, e observou-o antes de responder. Aparentava ter cerca de 45 anos, era calvo, de olhos verdes, e notava-se a marca recente de aliança no dedo. Ou a tirara nessa noite, ou não teria sido há muito mais tempo. Mas o olhar evidenciava alguma solidão.
- No meu apartamento. É onde recebo. Eu digo-lhe a morada.
– Escreve-a aqui
– e tirou de dentro do bolso uma pequena agenda que lhe estendeu, juntamente com uma caneta de prata.
- Quando me podes receber?
– Amanhã, pelas 21 horas, pode ser?
– Combinado.

O cliente saiu de sorriso no rosto. Não tão satisfeito com a table dance como com o acordado para a noite seguinte.
Shiva vestiu-se e saiu também, na direcção do balcão em busca de outra bebida.
- António, dá-me algo bem forte. Hoje estou a precisar.
– Gin? Vodka?
– Dá-me um gin com uma gota de cola.
– Tenho algo para ti que me entregaram
– disse o empregado do bar, com um sorriso irónico.
O quê? – o coração de Shiva deu um salto, despertando-a da desilusão de não ter ainda conseguido alcançar o seu intento naquela noite.
Isto – respondeu António, entregando-lhe um cartão – quem o deixou, disse que se tinha esquecido de to entregar.
Shiva, pensando que era um cartão do Sr. Z, pegou nele e guardou-o na cintura dos calções curtos. Mas, algo a fez pegar de novo no cartão. Um simples cartão branco, parecia improvisado, com algo escrito numa letra quase inteligível: Sr. H, ao seu dispor, e por baixo um número de telemóvel.
Não, este não era o Sr. Z. Seria ‘ele’? O homem-mistério?
Dirigiu-se para o camarim para se vestir. A noite estava a terminar e sentia-se inquieta. Passou pelo Sr. Q, dizendo apenas:
- Vou vestir-me. Por hoje chega, amanhã haverá mais.
– Podes ir
– e, aproveitando que não estava mais ninguém, continuou – amanhã telefono-te. Virou-lhe as costas, sem esperar resposta.
A cabeça de Shiva andava a mil. O coração pulava, o corpo estremecia, entre o que o Sr. Q a fazia sentir, e a possibilidade de o dono do cartão ser o misterioso homem de chapéu e cigarrilha.
O dia seguinte poderia trazer-lhe respostas.


Sutra 2010

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19º Dia

4ª Feira
00:50 horas.
Aproximava-se a hora do show e a habitual mesa destinada ao desconhecido, mantinha-se vazia. Como se aguardasse a sua chegada. Estaria reservada? Não queria perguntar ao empregado do bar. Já chegava ter demonstrado a sua curiosidade da última vez que lhe perguntara algo sobre aquele homem. Não iria sujeitar-se à curiosidade e mordacidade do rapaz.
Por trás da cortina, relanceou o olhar pela sala mais uma vez e não pôde deixar de sentir um pouco de desilusão. Ele intrigava-a. O silêncio. A distância. O facto de a sua presença se fazer sentir exclusivamente na hora dos seus shows.
Faltavam 5m para começar. Esgueirou-se para o camarim e despiu o robe, para terminar de se preparar.
A música começou a tocar e ela avançou. No pensamento mantinha-se a presença do desconhecido. Ausente da sala. Fechou os olhos e entregou-se como sempre o fazia. Como se fizesse amor com as ondas da melodia que tocava. Com a mesma intensidade. O mesmo calor. A mesma chama.
Olhou a mesa. O vulto vestido de escuro, chapéu. Cigarrilha.
Chegara.
Enquanto decorria o show, tentava manter a concentração. Mas não lhe saía do pensamento que gostaria de o cumprimentar nessa noite. Chegaria a tempo?
Os últimos acordes da melodia soavam. O seu corpo desnudo deslizou pelo pequeno palco e estacou. Terminara. Sorriu e olhou firmemente para o canto onde apenas notava o contorno do corpo masculino.
Saiu rapidamente, vestiu a roupa do show e saiu para a sala. Ele ainda lá permanecia. Na mesma mesa. No canto escuro, notando-se apenas a ponta da cigarrilha acesa. – Shiva! – a voz por cima do ombro fê-la estacar repentinamente. Não contava que ele estivesse ali naquela noite. – Sim, Sr. Q?

[PALPITES – O QUE ACHAM QUE VAI ACONTECER A SEGUIR?]



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18º Dia



3ª Feira.
04:25 horas.
Desconhecia a razão para sentir aquela ansiedade, um formigueiro que lhe subia pelo corpo e a mantinha como que em suspense de algum acontecimento imprevisível.
Pouco dormira desde que ele saíra, ainda não era meia-noite. Era a sua noite de folga do clube, nem clientes quisera atender, desligando o telemóvel para não ser incomodada. Valeu-lhe o facto de não ter agendado com nenhum para aquela noite.
Mais uma volta na cama, amarfanhando lençóis. Ainda sentia o seu cheiro. Inebriava-a. Aquele calor húmido que caia sobre a capital também não ajudava a dissipar a sensação de estranheza. Transpirava um ambiente inóspito em cada canto do seu duplex de luxo.
Ergueu-se da cama, e posicionou-se à janela, observando as luzes dos veículos que circulavam em vários sentidos. Foi nesse lugar que deixou o pensamento recuar umas horas atrás, quando estava ainda nos braços de Q.
- Não me canso de te tocar. Agora entendo a luxúria nos olhos deles quando te vêem.
– Os clientes do clube não são meus clientes particulares, são-no apenas do clube e assistem apenas aos shows.
– Nunca trouxeste nenhum para aqui?
– Um ou outro, mas raramente.
– Os outros nem sabem o que perdem. O teu corpo cumpre tudo o que o fogo dos teus olhos promete. Já volto – continua, enquanto caminha até à cozinha, regressando com uma cigarrilha para e um isqueiro. – Desculpa, Q., mas isso não. Ninguém fuma neste quarto que não o permito. Nem eu quando fumo um cigarro esporadicamente.
– És de manias tu, não?
– Não sou de manias, apenas não o permito. Queres fumar, vai para a sala.
– Só se vieres comigo
– retrucou com um sorriso irónico.
Levantou-se da cama enrolada num lençol e foi atrás dele, cujo corpo nu se movia à sua frente, mostrando as nádegas rijas de muito exercício físico. Ele tinha um corpo magnífico e uma habilidade extrema para o usar para dar prazer a uma mulher.
Viu-o sentar-se no sofá e fazer sinal para se sentar ao lado dele. Contrariamente ao esperado, aproximou-se dele, ergueu o lençol, enquanto afastava as coxas e se sentava no seu colo, os seios contra o seu peito.
Levou os dedos ao sexo dele, quente, e tocou-o. O olhar firmado no dele, os lábios entreabertos e os dedos que afagavam a carne. Começava a evidenciar de novo a excitação, pulsando entre os dedos femininos.
Shiva adorava sentir a carne latejante na palma da mão, o prazer nos olhos masculinos, o gemido entre os lábios rendidos. Mas aquele homem não se rendia com tanta facilidade, mantendo sempre o mesmo sorriso, sem soltar um só som. Apenas o corpo não lhe obedecia, dominado pelas carícias dela.
O fumo saía por entre os lábios, o olhar dele deslizava pelo rosto dela, pescoço, baixava até aos seios que descobria com a mão livre, empurrando o lençol para baixo até repousar nos movimentos da mão dela. Tocou-lhe nas nádegas empurrando-a contra si e Shiva entendeu o sinal, esticando o corpo para chegar à gaveta da mesinha, tirar um preservativo. Prevenção a sua tê-los sempre guardados em vários sítios do apartamento. Ergueu o corpo e deixou que ele a invadisse por inteiro, iniciando um ritmo cadenciado de subida e descida no corpo dele, enquanto a cigarrilha ia diminuindo a cada tragada. Se não fosse pelo bater do coração e pelo pulsar do pénis dentro de si, duro e erecto, diria que ele estava completamente indiferente ao acto sexual.
A cigarrilha terminou. Q, de mãos livres, puxou Shiva com força contra si, fazendo-a gemer com a intrusão até ao limite. De seios esmagados contra o tórax masculino, de nádegas apertadas pelas mãos fortes, ela movimentava-se cada vez mais rápido, deixando que os gemidos penetrassem no ar quente da sala. Um fio de suor descia-lhe pelo pescoço, de imediato lambido pela língua dele.
Entre gemidos em uníssono e orgasmos que se aproximavam, veio a pausa. Shiva foi empurrada para o sofá e inclinada sobre o encosto, coxas semi-abertas. Sentiu os dedos dele apertarem-se em redor das suas ancas e a entrada no corpo em golpadas fortes e decididas, fazendo-a gritar de surpresa e prazer. Poucos segundos depois, veio o orgasmo. Intenso. Forte. Louco. E enquanto ainda sentia as ondas de prazer, veio o dele, deixando-o a tremer inclinado sobre o corpo dela.
Tinha sido assim, hora após hora, numa resistência implacável que a deixara sem forças e naquela ansiedade estranha que lhe tirava o sono, apesar de todo o cansaço.
Saiu da janela e dirigiu-se para a cozinha; iria beber um copo de leite na tentativa de vir o sono que necessitava.
Como seria encarar Q na noite seguinte, no clube?
E estaria o homem misterioso presente em mais uma noite de show?

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17º Dia

2ª Feira.
16:30 horas.
Impaciente. Ansiosa. Raiava já o ponto da irritação. O telemóvel permanecia mudo em cima da mesa de cabeceira. O toque da campainha não soara em todo o dia. Mas a ordem com perfume de promessa permanecia na memória.
Não gosto do poder que ele tem sobre mim.
Por mais de uma vez pegara na mala para sair de casa e regressar bem tarde. Sabia que não o conseguiria fazer. A vontade de saber se ele sempre viria e o que sentiria entre os seus braços, era mais forte que o orgulho de o deixar pendurado.
Necessitava da cafeína habitual a essa hora do dia. Forçou-se a dar o passo que hesitara antes. E saiu.
Já na rua lembrou-se que deixara o telemóvel no mesmo local.
Mesmo que me telefone, será bom que não me encontre disponível como pensa.
Mas estava. Não marcara nada para essa noite a pensar nele. Q.
Regressou ao apartamento uma hora depois e mal fechou a porta, já estava a encaminhar-se para o telemóvel que não apresentava no visor nenhuma tentativa de contacto.
Não o espero mais. Mas há-de aprender que não brinca comigo e amanhã…
O toque da campainha interrompeu o curso dos pensamentos. Estremeceu. O olhar preso na vidraça onde batiam os últimos raios de sol buscava a segurança habitual e o esplendor do poder feminino que sempre a dominava. Era ela a dona do seu corpo e da sua vontade. Não um qualquer desejo masculino. Ergueu os ombros, desenhou o mesmo sorriso de sempre, sob o qual se escondia o desejo ansioso e estendeu o corpo na distância entre ela e a porta. Abriu-a.
Estava a ver que não me querias abrir a porta – o semblante masculino meio irónico, denotava a certeza de saber que ela o esperava, corpo displicentemente encostado no umbral.
Não colocaste a possibilidade de eu não estar?
– Sabia que estavas. Não me convidas a entrar?
– Não
– disse aparentando maior firmeza do que aquela que efectivamente sentia – Também não necessitaste de convite para vires até aqui.
Riso.
- O teu olhar convida-me há muito tempo – e o olhar descia pelo corpo curvilíneo que caminhava sensualmente à sua frente.
Por entre as dobras do vestido, podia adivinhar cada curva daquela mulher que ansiava possuir. As nádegas firmes revelavam que sobre elas apenas repousava o tecido de tonalidade azulada que dançava em redor de suas coxas.
Pretendes alguma coisa em especial? – perguntou-lhe com o seu melhor ar profissional de Cortesã.
Matar a sede.
Silêncio.
Trazes-me um copo com água? – continuou a voz masculina, cujo dono já tinha tirado o blazer que atirara para cima do sofá, e desapertado a gravata.
Shiva encaminhou-se para a cozinha, dominando o sorriso admirado pelo pedido inusitado. Ele seguiu-a.
Tirou o copo de vidro do armário, abriu a torneira e encheu-o de água. Quando se virou para lho entregar, ficou com o corpo praticamente colado ao dele, que se tinha aproximado mais do que se dera conta. Olhava-a profundamente. Pegou no copo e deu um gole. Outro. Mais um. E o último. De um copo meio de água. Permaneceram suspensos pelo olhar. Respiração acelerada dela. Sedução nos lábios dele. Sentiu mais do que viu, a água fria cair-lhe pelo pescoço, descendo por entre os seios. O grito que se soltou dos lábios foi de imediato abafado pela boca faminta que a devorava. Copo largado no lava loiça. Mãos que subiram para lhe agarrar os seios com força, prendendo-os, sentindo o estremecimento feminino através do tecido molhado do vestido. Não tinha sutiã vestido e os bicos dos seios espetavam-se contra as palmas das mãos dele.
Moviam-se fervorosamente, não de forma lenta nem precisa. Desenfreadamente. Sem esconder a luxúria que os dominava.
Shiva esqueceu que era Cortesã. Q esqueceu que era seu patrão. Um homem e uma mulher. Desejo. Ânsia. Vontade de posse. Um do outro.
Agarrou-a pelas nádegas e puxou-a contra o volume acentuado do baixo ventre. Ela lançou os braços por cima dos seus ombros, agarrou-lhe os cabelos e puxou-o mais para entre os seus braços. Sentiu vontade de o abraçar também com as pernas e gemeu. Ele ergueu-a e deitou-a sobre a mesa. Subiu-lhe o vestido pelas coxas acima e viu o pequeno triângulo branco que tapava a humidade que queria devorar. Afastou o tecido com os dedos e mergulhou a boca na vulva quente que o chamava.
- És um tesão, mulher. Quero comer-te.
– E eu a ti.

Suspiros. Gemidos. E aquela língua que absorve o néctar que ela derrama entre orgasmos.
A posse.
Mãos desapertam botões, abrem fecho e o sexo pulsante nas mãos femininas enquanto ele solta um grunhido de prazer por finalmente sentir os dedos dela na sua carne palpitante. A colocação do preservativo tirado do bolso. Segura-a pelos pulsos, prende-os acima da cabeça dela, enquanto entra no seu corpo com vigor, movimentando-se ritmicamente na busca do prazer. Estremecem corpos, o suor escorre pelo pescoço. Bocas quase se tocam, misturando fôlegos, olhos semicerrados que não escondem a volúpia que tomou conta de cada pedaço de si. O grito e o estertor do orgasmo. O compasso de espera de alguns segundos que parecem minutos. Sai de dentro dela ainda a tremer, respiração acelerada. Puxa-a por uma mão e leva-a pela casa.
Ainda mal começaram e há muito para explorarem nos emaranhados da luxúria e do sexo.

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16º Dia


Domingo.
16:50 horas.
Recostada no sofá da sala, as janelas parcialmente cerradas pelos estores eléctricos, impedindo que a luminosidade da tarde penetrasse no ambiente acolhedor, permitiu-se pensar, enquanto se deixava envolver no sono revigorante.
A noite anterior revelara-se cansativa, apesar de bastante produtiva.
No clube tivera de novo a presença masculina, silenciosa. Misteriosa. Sentado na mesma mesa do canto. O mesmo chapéu a encobrir-lhe metade do rosto. A cigarrilha na mão direita. As sombras envolvendo a sua presença, que não passava despercebida à mulher que balançava o corpo sensualmente pelo palco.
Mais uma vez limitara-se a ver o seu show e a sair em seguida. Sem um gesto. Uma palavra.
Aquela curiosidade que a invadia, fazia o sangue correr mais rápido na expectativa do desconhecido. Talvez porque habituada ao poder e ao modo como homens e mulheres lhe caiam rendidos aos pés, estranhasse não obter a mesma reacção.
A noite prosseguira com toda a envolvência que o ambiente erótico cria e recria.


19:05 horas.
Tinha quatro clientes para essa noite. O das 22:00 era uma marcação da semana anterior e sabia que demoraria apenas uma hora, pelo que intercalou o Sr. P para as 23:30, já que a marcação seguinte seria apenas para as 02:00 horas. O Sr. P era o típico cliente que nunca se podia prever quanto tempo ficaria, ou que surpresas exigiria em cada visita.
Dentro de aproximadamente meia hora, entraria pela porta do seu apartamento uma das poucas mulheres com quem se permitia relacionar sexualmente.
O facto de ser prostituta ou acompanhante não era condição sine qua non para aceitar todo o tipo de cliente. Esse era o pensamento ainda preconceituoso de algumas mentalidades de uma sociedade retrógada que permanecia na ignorância do falso desconhecimento. Não se relacionara com muitas mulheres, apesar de ser bastante requisitada, principalmente por algumas damas da sociedade que escondem a sua identidade e as suas preferências sexuais enquanto abrem as portas de suas casas para rechearem as capas das revistas cor de rosa, espelhando falsa ostentação com roupas e jóias emprestadas.
Essas eram aquelas que mais tentavam regatear o valor que lhes apresentava quando a contactavam. Que irónico!
Mas, ela, Shiva, a Cortesã da capital, não admitia que regateassem os serviços que prestava.
Como Cortesã era única. Original. Por isso nunca se intitulara de prostituta ou acompanhante, apesar de o significado ser todo o mesmo. Cortesã não existia mais nenhuma: apenas a mulher voluptuosa de cabelos ruivos, olhos de fogo e boca sensual que habitava a capital. E a originalidade e qualidade paga-se caro.
Como não era dia de ir para o clube, dera-se ao luxo de dormir até bastante tarde, almoçar fora, dar um passeio e regressar a casa para dormir mais um pouco antes da chegada da Srª C.
Mulher de porte altivo, com cerca de 45 anos, aparência de trinta, cabelos de um dourado sedoso e olhar cinza penetrante. Permanecia sempre bastante tempo de olhar perdido nas curvas sensuais de Shiva, deitada na cama ainda por desfazer, enquanto se tocava, por cima das roupas que seriam retiradas pelos dedos quentes da mulher-prazer que aguardava as suas instruções. O pedido, num olhar, para que Shiva a despojasse de toda e qualquer peça que cobria o seu corpo, vinha em seguida. Satisfeito por entre beijos espalhados pela pele alva e perfumada que se descobria a cada gesto.
Deitava-a sobre a cama, puxando para baixo a colcha para permitir que o corpo da Srª C ficasse em contacto directo com a seda dos lençóis negros – outro dos seus fetiches.
E Shiva? Que sentiria ela?
Gostava de provar o sabor feminino daquela mulher, beijar-lhe os seios e apertar os bicos entesados entre os lábios, chupando-os com fervor, enquanto ouvia o gemido que se soltava por entre os lábios da cliente. Excitava-a sentir os dedos longos que lhe penetravam os cabelos, empurrando-lhe a cabeça para que descesse mais pelo seu corpo, até sentir a humidade nos seus lábios. Gostava de penetrar as pregas macias que se abriam à passagem da língua curiosa e fustigante. E enquanto proporcionava prazer à mulher de coxas afastadas à sua frente, sentia a sua própria vulva latejar de desejo e a vontade de sentir também ela o toque de uns dedos, uma boca, língua.
Nessas alturas não sabia precisar se preferia um homem a tocá-la ou uma mulher. Envolvida pelo prazer achava que só uma mulher lhe poderia proporcionar o prazer que sabia ser único, num gesto vindo de quem conhece e reconhece outro corpo igual ao seu. Mas lembrar-se de um pénis erecto a penetrá-la com vigor, fazia-a estremecer e ficava naquela limbo de luxúria, perdida entre o querer e o ter.
O sexo entre as duas mulheres era demorado, repleto de suspiros, orgasmos alucinantes para ambas e um intenso prazer que se repetia uma vez por mês.
Depois dela sair, ainda ficou alguns minutos a repousar, antes de se erguer, mudar a roupa da cama, tomar um duche e vestir-se, para receber o cliente seguinte, o Sr. U.
Em princípio, essa noite não traria surpresas.
Mas e o dia seguinte? As frases ‘Da próxima vez fodo-te, podes ter a certeza’ e ‘2ª feira vou passar pelo teu apartamento’ do Sr. Q faziam-na estremecer. O prazer da antecipação.


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15º Dia


Sábado.
02:45 horas.
A casa estava cheia, as conversas abafadas envolviam a sala e a música sensual, ritmada, ecoava em cada canto. Algumas das strippers faziam table dance, o ambiente estava ao rubro.
Shiva entrou na sala, depois de mudar de roupa. Tinha terminado o seu show não fazia nem meia hora e sabia que tinha trabalho para mais uma hora.
Olhou a mesa que fica estrategicamente recolhida num canto, suficientemente afastada para não ser notado quem se sentasse nela mas de uma proximidade que fugia a um olhar mais distraído. Na verdade, dela conseguia observar-se todos os movimentos da sala sem que se vissem com nitidez os seus ocupantes.
Estava agora ocupada por três homens com idades compreendidas entre os 40 e os 60. Nenhum deles era o vulto misterioso que a intrigara durante a noite.
Não era a primeira vez que o via no clube e, curiosamente, sempre escolhia aquela mesa. Parecia uma estátua, movimentando apenas de modo lânguido, o copo que levava à boca, a mão que segurava o que parecia ser uma cigarrilha. Enquanto dançava pelo palco e tirava cada peça de roupa, sentia sobre si um olhar fixo, penetrante. Mas não conseguiu nenhuma vez, descortinar as feições, a boca, as mãos. Apenas um vulto escuro, envolto em mistério.
À semelhança do que acontecera nas duas noites anteriores, ele saía sempre após o seu show e Shiva nunca o via sair.
Nunca observara qualquer aproximação com nenhuma das outras raparigas que trabalhavam no clube. Nem com ela.
O mistério seduzia-a.
- António, o senhor que costuma ocupar aquela mesa ali do lado esquerdo é cliente antigo da casa? – perguntou ao barman.
- Estás a falar de quem? – Aquele que estava ali durante o meu show. Só me recordo que tinha um chapéu que lhe cobria o rosto e que vestia de escuro. É a terceira noite que o vejo por cá. – Sim, já sei quem é. – E então? – Nada. Só me recordo dele destes dias, nunca o tinha visto antes, mas tem algo de peculiar. – O quê? – Um sotaque que não consegui identificar. Ficaste toda curiosa – riu o jovem, habituado ao movimento do clube e às reacções que algo novo causava.
- Não, apenas o achei sossegado demais para estar num sítio destes. – Também reparei que ele apenas fica durante o teu show e depois vai embora. – Foi? – E tu não reparaste, claro – riu de novo – e nem estás com esse bichinho inquieto devido a isso, nem nada. Toma lá, rapariga – continuou, estendendo uma margarita – e vai dar uma voltinha por aí.
Pegou no copo, virou-se sorrindo e caminhou por entre as mesas, até ser interrompida pelo físico masculino à sua frente.
- Tens um pequeno private show para dois casais – avisou o Sr. Q.
- Já estão no privado? – Vou pedir que os levem lá, dá uns 2 ou 3 minutos e vai lá ter. – Está bem – e começou a caminhar na direcção de uma mesa de onde lhe tinham acenado sorridentemente, mas sentiu-se presa suavemente por um cotovelo.
- Amanhã não que é Domingo, mas 2ª feira vou passar pelo teu apartamento. – Verei na minha agenda se terei disponibilidade. – Terás. Para mim, terás. – Como disse, verei a que horas te posso atender.
Sentiu um arrepio de antecipação percorrer-lhe o corpo todo, enquanto as palavras do Sr. Q lhe penetravam os ouvidos, mas marcou cada passo com a segurança que lhe era característica.
Não respondeu e seguiu o seu caminho. O seu trabalho. Sabendo que aquela promessa não a deixaria descansar até 2ª feira.



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14º Dia


6ª Feira.
11:37 horas.
Tinha acordado há cerca de dez minutos. Mensagem no telemóvel: ‘se estiveres livre, convido-te para almoçar. Portugália, na Almirante Reis. Às 13h. Q.’ – Prepotente – foi o segundo pensamento de Shiva. O primeiro foi a sensação de prazer que lhe causou o convite.
‘Estarei lá. S.’
Continuava a sentir-se atraída pelo homem que se mantinha a alguma distância dela.
Os outros dois sócios já tinham estado com ela no seu apartamento – um de cada vez – depois de ter começado a trabalhar para eles. Agindo como qualquer outro cliente, como se não fossem seus ‘patrões’, com o pagamento pelo tempo usufruído.
Mas não o Sr. Q. Apenas o seu olhar lhe queimava o corpo. Estranhava aquele convite. Seria a capitulação masculina? Mas o terreno era neutro, inócuo.
Tomou um banho demorado, colocou loção corporal por toda a sua pele, perfumou-se, vestiu lingerie branca, um vestido em tons de azul claro, apenas preso com uma tira ao pescoço, ajustando-se a cada curva do seu corpo, enaltecendo as suas formas. Completou com umas sandálias de tiras azuis, de salto não muito alto. Perfumou-se, agarrou na mala e olhou o relógio: 12h45m. Provavelmente chegaria atrasada. Sorriu. Gostava de o fazer esperar.
Estacionou o carro a cerca de 200 metros e encaminhou-se para a entrada da cervejaria. Quando passou a porta eram exactamente 13:10 horas. Dez minutos de atraso não era mau. Olhou pela sala e não o viu. Um empregado dirigiu-se-lhe:
- Uma pessoa? – Não, venho ter com alguém. – É com o Sr. Q? – perguntou outro empregado que se aproximou rapidamente.
- Sim. – Eu conduzo a menina. Ele telefonou a avisar que vai chegar um pouco atrasado, mas pediu para a levar à mesa habitual.
‘Este sacana vai deixar-me à espera’ – pensou ela, esquecendo que era precisamente isso que gostaria de ter feito e, devido ao atraso dele, fora impedida.
Chegou numa passada calma, sorriso no canto dos lábios, puxou a cadeira à frente dela, sentou-se e só então cumprimentou:
- Olá Shiva, como estás?
Uma pausa. Q chamou o empregado para lhe pedir um aperitivo.
Será que nem pediria desculpas pelo atraso?
- Olá. – Desculpa o atraso, uma reunião que demorou mais que o previsto. – Tudo bem – respondeu, enquanto pensava ‘tudo bem nada!’
Perto dele parecia que todo o poder que a caracterizava se sumia, diluído no olhar quente, no sorriso, na voz profunda que atingia cada um dos seus nervos de uma forma irreparável.
- Porque me convidou para almoçar? – Porque me apeteceu. Pensei que só falávamos dentro do clube e esta seria uma boa oportunidade de nos conhecermos melhor. Incomoda-te? – De modo nenhum. Agrada-me. – e olhou-o directamente no negro profundo como se lhe quisesse desvendar o verdadeiro motivo para estar ali com ela. Desejava-a? Sim. Viu esse cintilar num relance que logo ficou escondido pelo disfarçar de uma gargalhada.
O almoço foi um jogo de gato e rato. Sem se saber realmente qual era qual. Avanços e recuos. Seduções. Charme. Excitação à flor da pele.
Quando ele pediu os cafés, ela levantou-se do seu lugar sem dizer uma palavra. Sem o olhar. – Onde vais? – perguntou, segurando-lhe o pulso, quando ela passou por ele. – Ao wc, posso? – perguntou, sorrindo. – Claro, só pensei que não dizias nada. – Não me deste tempo – respondeu, tratando-o por tu como ele lhe tinha pedido.
Largou-lhe o pulso e passou as costas da mão pela coxa feminina, num gesto que não pretendia passar despercebido e que a fez prender a respiração.
Almoço terminado, saíram da cervejaria, parando no passeio. – Onde tens o carro? – perguntou-lhe Q. – Em frente ao jardim. E tu? – Também. Queres ir tomar alguma coisa? – Onde? – Sugere tu – disse ele, com um trejeito trocista. – Tens a certeza de que queres que seja eu a escolher? – Claro. – Está bem. Então vem atrás de mim.
E depois de uma hesitação: – Ah, lembrei-me agora que… afinal não pode ser. – O que não pode ser? – Acabou-se a bebida em minha casa e tenho de ir comprar mais logo – o sorriso era meio inocente, meio irónico, na intenção de que ele entendesse que por sua vontade levava-o para o apartamento para dar azo ao que o seu corpo pedia.
- Então escolhemos outro sítio. Território neutro. Vem no meu carro, depois deixo-te aqui. – Ok.
Seguiram no caminho do alto do Parque Eduardo VII. A esplanada convidava a tardes de lazer. Desta vez não se sentaram frente a frente, mas de cadeiras muito juntas. Braços que se roçavam a cada movimento. Os odores que se misturavam numa simbiose de paixão.
Shiva queria deixar-se levar pelo desejo e provocá-lo até ele lhe demonstrar, sem qualquer margem para dúvidas, que a queria tanto como ela a ele. Mas o receio pela relação profissional mantinha-a na indecisão.
Até que sentiu os dedos dele repousarem na coxa, perto do joelho, aquecendo-a por sobre o tecido fino do vestido. Ele apertou-lhe a carne macia e subiu um pouco mais a mão. Olhava o horizonte como se nada se passasse. Ela levou o copo do sumo aos lábios, com a maior naturalidade que conseguiu aparentar, enquanto afastava um pouco as pernas. Permitiu-lhe a ele subir um pouco mais, quase aflorando a carne macia do sexo, por cima da barreira dos tecidos.
Estremeceu um corpo feminino. Revelou-se o desejo no corpo masculino. Olharam-se profundamente e, segundos depois, ele retirou a mão. Ela voltou a cerrar as coxas.
O trajecto de regresso nada revelou e ele parou o carro junto do dela. Saiu, deu a volta, abriu-lhe a porta e ajudou-a a sair. Fechou a porta do próprio carro. Olhou em volta subtilmente, o corpo feminino ainda entre ele e o carro. Sem se tocarem. Olhou nos olhos de Shiva, sondando o seu pensamento. Ela retribuiu o olhar sem uma palavra.
Q prendeu-a de encontro ao carro, encaixou-se no meio das suas coxas, fazendo-a sentir o volume do pénis excitado. Levou uma mão a um seio e apertou-o, descendo para o vértice do sexo. Pressionou os dedos na vulva feminina, acariciou-a e aproximou a boca dos lábios rubros.
- Da próxima vez fodo-te, podes ter a certeza.
Largou-a, sorriu e despediu-se:
- Até logo, Shiva. Não esqueças de ir comprar as bebidas. Gosto de Gin e de Whisky.
Ela voltou as costas em silêncio, meteu-se no carro e arrancou furiosamente para o apartamento.


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13º Dia


3ª Feira.
12:46 horas.
Rebolou na cama, relembrando ainda a noite anterior. Supostamente era o dia em que não recebia ninguém, mas o telemóvel tocara e o nome que aparecia no visor fizera-a mudar de planos. O Sr. I. Uma marcação para essa noite, para ele e para o seu amigo, o Sr. W. Não pudera recusar. Principalmente ao recordar-se da noite no Clube, três dias antes, dos olhares deles e das mãos do Sr. I.
Combinara com ele para daí a três horas, cerca das 20h, o que lhe permitiria sair para algumas compras e ainda preparar o ambiente adequadamente para mais uma noite de luxúrias.
Sentia ansiedade pelo que seria aquela noite, com aqueles dois homens charmosos. Shiva não vendia o corpo. Ela trocava prazeres. Dava prazer e recebia em troca prazer e dinheiro. O corpo era a sua moeda. A dos clientes, as notas chorudas que deixavam ficar, após aqueles momentos de luxúria.
Shiva sempre retirava prazer com o que fazia, com a forma como o fazia. Os detalhes, as escolhas, a decoração, a preparação para cada noite. Tudo era previamente pensado e realizado.
A música fazia lembrar o Oriente, acordes que entoavam languidamente pelas paredes do quarto, os lençóis em cores quentes do deserto, o incenso com perfume a canela e jasmim, junto da janela encoberta por uma cortina em tons quentes. Num canto uma mesa redonda com um Don Perignon Blanc de 1998 e algumas entradas de marisco, queijo e caviar que preparara. Tudo havia sido cuidado ao mínimo pormenor. Incluindo o modo como se vestir: um diáfano caftã em tons de amarelo, laranja e vermelho, num desenho que fazia lembrar murais de arte Latino-América. O cabelo solto em ondas avermelhadas pelas costas seminuas que o tecido meio caído do ombro permitia revelar. Os olhos acentuados pelo traço negro, tornando-os maiores e penetrantes. Os lábios cheios, brilhantes, gulosamente provocadores. O perfume era suave e quente. Sedutor. Como Shiva.
O soar da campainha na hora marcada, confirmou mais uma vez a pontualidade britânica: o Sr. W tinha origens londrinas. – Sinto-me a entrar no palácio secreto de uma princesa das Arábias – cumprimentou o Sr. I.
Shiva sorriu e fez um gesto para que entrassem. – Melhor que uma princesa das Arábias. Shiva a mais bela acompanhante de Lisboa – respondeu o Sr. W. – Cortesã – corrigiu o Sr. I – pressinto que a Shiva gosta de ser tratada por cortesã, fazendo recordar tempos memoriáveis da corte, dos favores aos homens da realeza. Tenho razão Shiva? – Apenas não gosto de seguir padrões, de que me enquadrem em grupos, mesmo sabendo que isso acontecerá sempre. – Um detalhe. – Um capricho, talvez. – Às belas mulheres esses caprichos são um acessório que as adorna. Belas como tu, Shiva.
Estava habituada aos galanteios. Às palavras sedutoras. Apesar de ser contratada para um serviço, ser paga para dar prazer aos seus clientes, a verdade é que eles sempre sentiam aquela necessidade da conquista, da sedução e do galanteio. E de a presentear com perfumes, flores, alguma lingerie, os mais ousados, e até ofertas de viagens e estadias.
O Sr. I e o Sr. W traziam-lhe um ramo de rosas em tons salmão.
Os primeiros instantes foram de diálogo, conhecimento, trocas de olhares, conhecimento do terreno por parte deles, apreciação do desejo masculino, por parte dela. Da sala, passaram ao quarto e as roupas eram agora o empecilho do aguçar do desejo. Shiva aproximou-se do Sr. W e ajudou-o a despir o casaco. Depois puxou-lhe pela gravata, olhando-o nos olhos fixamente, desafiando-o a desviar o seu. Encostou o corpo no dele, envolvendo-o com o seu perfume e sentindo a proeminência do sexo encostar-se-lhe na coxa. Ele baixou o rosto para a beijar. Shiva ofereceu-lhe o pescoço. A boca do homem deslizou pelo seu colo na direcção do vale entre os seios. Os seios redondos, cheios, de mamilos rosados que apreciara no show, não lhe saíam do pensamento e ansiava senti-los na sua boca. Chupá-los, lambê-los, morder-lhe a carne que imaginava suave como seda. Enquanto se deliciava na pele perfumada, ela tinha-lhe despido a camisa e desapertado as calças. Afastou-se enquanto ele terminava de se despir. O tecido de cores quentes que cobria o corpo feminino deslizara pelo ombro e deixava a descoberto um dos seios. A tentação para os olhos masculinos. Já despido, W puxou-a pela cintura e abarcou o seio desnudo com a mão quente, forte.
Atrás de Shiva o Sr. I já retirara todas as roupas e observava os movimentos entre o seu amigo e aquela deusa do sexo. Aproximou-se e ergueu-lhe os cabelos longos para encostar a boca à nuca, depositando beijos húmidos por toda a sua extensão. Deixou escorregar uma mão e tocou-lhe nas nádegas ainda cobertas pelo caftã, acariciando-as, apertando a carne rija entre os dedos longos. Encostou o baixo ventre no corpo feminino. Ouviu um suspiro. O Sr. I não soube identificar quem o teria soltado. Se Shiva, quando sentiu o seu sexo duro e latejante contra as nádegas, se o amigo W ao sentir os dedos da mulher a rodear-lhe o pénis latejante.
Dois homens excitados, dois corpos nús. Entre eles um corpo feminino tão excitado quando o deles, mas ainda coberto por aquele pedaço de tecido que rapidamente começou a ser despido, deslizando pelos ombros até à cintura, descendo pelos quadris, até cair nos tornozelos, para revelar o corpo de formas perfeitas de Shiva. Apenas uma minúscula transparência negra lhe cobria o sexo e se escondia entre as nádegas. Seria a última barreira. Prensada entre W e I, Shiva torturava-os rebolando o corpo, enquanto a boca se dividia nos beijos, ora a um ora a outro. As mãos femininas seguravam os pénis de ambos, acariciando-os, provocando. Sentia as mãos deles por todo o seu corpo, nos seios, nas nádegas, entre as suas coxas, alcançando o sexo húmido.
Empurrando W para se distanciar, Shiva começou a beijá-lo descendo pelo peito, barriga, lambendo a pele, soltando mordidas, aqui e além, que sentia deixá-lo louco de prazer. O seu objectivo era o sexo imponente do homem. Queria senti-lo na boca, queria chupá-lo como adorava fazer. Sentir aquele latejar na sua língua, entre os lábios, saborear aquele paladar que a excitava. Atrás de si, o Sr. I puxava pelo elástico do fio dental, despindo-lho. Para depois afundar o rosto entre as nádegas femininas, aspirando o seu odor.
Os gemidos intensificavam-se, a excitação subia a cada minuto. O primeiro a sentir as delícias do orgasmo foi o Sr. W, soltando o prazer quente nos seios de Shiva.
A cama veio em seguida. Com as duas bocas masculinas no seu corpo. As mãos irrequietas por cada recanto. O corpo de um enfiado no dela em movimentos alucinantes. O pénis de outro na sua boca ansiosa pela carne rígida e quente. A troca. O orgasmo dela. A invasão do seu corpo em todos os sentidos. As nádegas afastadas para receber a possessão do Sr. I. O regalo do Sr. W enquanto observava e aguardava a sua vez. A vulva quente a receber um pénis que deslizava impetuosamente, ora quase saindo, ora enterrando-se profundamente, com Shiva semi-deitada no corpo do Sr. I, os seios agarrados pelas suas mãos morenas de dedos longos que deram lugar à boca que parecia querer engoli-los. As mãos que desceram para agarrar-lhe o rabo, os dedos que se apertaram para afastar as nádegas preparando-a para a outra invasão masculina. A pausa. O toque. A entrada. A invasão. Os movimentos que a faziam gritar de prazer. O odor a sexo impregnado em todo a ambiente. Os corpos alucinados numa cavalgada de luxúria. A loucura do sexo a três. O prazer de ter dois homens proporcionando-lhe assim prazer. Os gritos. Os orgasmos. O suor deslizante pelos três corpos.
O descanso. Os suspiros.
A satisfação completa. – Extraordinária – despediu-se o Sr. W. – Ver-nos-emos mais vezes, talvez com outras fantasias – continuou o Sr. I. – Sempre que o desejem – sorriu Shiva.


Tinha sido assim na noite passada e agora sentia-se repousada, plenamente satisfeita e tiraria o seu dia de descanso. Desligou o telemóvel.


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12º Dia


6ª Feira.
22:30 horas.
Fazia nesse dia dois meses que começara a trabalhar no clube. Nesse espaço de tempo, a trabalhar duas noites por semana, já ganhara mais do dobro do que ganharia no mesmo período de tempo na casa da Madame Ludmilla a trabalhar todos os dias. Não ganhava menos de quatro mil euros por mês, sem contar com o bónus que recebera no fim do primeiro mês. O que se justificava, pois a fluência de clientela do clube aumentara consideravelmente às sextas-feiras e sábados, os dias em que trabalhava. Os donos do clube tinham, inclusive, proposto na véspera, que trabalhasse também à quinta-feira. Já decidira que iria aceitar, passando para quase cinco mil euros/mês. Em breve teria o seu carro topo de gama, a pagar de nota batida.
Estava sentada no ‘camarim’ a maquilhar-se, em lingerie e com um robe vestido, quando bateram levemente à porta. – Entre.
O Sr. Q, o homem que não lhe saía do pensamento há cerca de um mês. Ele pouco tinha estado presente desde a noite do privado e, quando lá ia, era sempre de passagem, enfiando-se no escritório com os sócios e saindo logo de seguida. – Shiva, já temos dois privados para ti esta noite. Um deles para dois cavalheiros que estiveram cá na semana passada pela primeira vez. Outro para um grupo de despedida de solteiro. – Faço apenas esses hoje, ou pode surgir mais algum? – Se houver, será só depois, mas isso logo se vê. – Vai cá ficar hoje? – Sim, vou. Porquê? Tens sentido a minha falta? – perguntou, em tom jocoso – E já te disse uma vez para não me tratares por você. Não há necessidade desse formalismo. – Sim – respondeu. – Vou entender esse ‘sim’ como uma resposta à pergunta que te fiz.
Ela sorriu enigmaticamente. A verdade é que estava habituada a que os homens a desejassem e fizessem tudo para a ter. Notava interesse nos olhos dele, mas confundia-a o facto de ele a ignorar umas vezes e persegui-la com os olhos, quando achava que ela não estava a vê-lo.
Levantou-se e passou por ele, roçando-lhe o corpo ao dirigir-se para o local onde tinha o conjunto que iria vestir para o show. Sentiu como ele prendeu a respiração e pensou consigo: ‘estamos a ir no bom caminho’. – Bem, vou deixar-te sozinha para que termines de te vestir.
‘Ainda não’ – pensou ela. – Se não se importasse… – Shiva… – Desculpa, se não te importares, ajudavas-me a puxar o fecho nas costas – e tirou o robe que mandou para cima da cadeira, revelando o corpo que ele conhecia bem à distância, mas que nunca tocara.
Queria provocá-lo, seduzi-lo, mostrar-lhe que podia usufruir de cada pedaço de pele, de cada calor da carne, do perfume de cada recanto. – Claro que ajudo.
E esperou, apreciando o corpo feminino. Sabia que a podia ter quando quisesse. Também sabia que ela o desejava e que se intrigava por ele nunca ter tentado o mínimo gesto. Mas iria fazê-la esperar pelo momento certo. Seria mais proveitoso para ambos.
Depois de vestida, virou-se de costas para ele, olhando-o por cima do ombro. Ele fechou o fato e encaminhou-se para a porta. – Costumas pedir ajuda para o fecho ou foi das saudades? – sorriu maliciosamente, fechando a porta em seguida, sem lhe dar tempo de responder.
‘Presunçoso!’
Foi o pensamento que a ofuscou em resposta ao gesto masculino.
Saiu para o palco ainda com o calor dos dedos dele na pele das costas. Com o desejo fulminante a humedecer-lhe o vale entre as coxas. Guardou para si a vontade de o fazer implorar para a possuir. ‘Hás-de querer comer-me e eu dizer que não, sacana. Cabrão’. E dançou furiosamente. Os olhos dele pareciam lanternas ao fundo da sala, atrás de um dos balcões. ‘Vou fazer-te implorar para me foderes’. Começou a despir-se. O sorriso dele queimava-lhe as entranhas. ‘Vou fazer-te gritar de prazer, mas quando eu quiser’. Continuou a despir o corpo. A mente continuou a centrar-se no Sr. Q, no desejo que a fazia sentir.
O show público terminou. Deambulou pelas mesas, parando aqui e além para conversar até chegar a hora dos privados. Seguiu para o camarim e preparou-se para eles.
O primeiro, para os dois novos clientes, decorreu sem problemas. Homens experientes naquele tipo de ambiente, habituados ao contacto com strippers, aos shows privados, nos quais existem limites que não são ultrapassados. Como o toque. O beijo. Mas com Shiva nem sempre era assim. Desde que existisse um acordo prévio, poderia haver muito mais que isso. Poderia chegar inclusive, à própria relação sexual. Nada lhe era imposto. Era apenas a sua vontade e dos clientes. Principalmente da sua, que era quem ditava as regras. Quem tinha a última palavra.
O Sr. I era um homem que não teria mais do que 38 anos, moreno, de corpo cuidado. O Sr. W, parecia alguns mais velho, talvez 45 anos, cabelos acinzentados, e, apesar de ser alto também, já deixava notar a barriga ligeiramente proeminente. Ambos com um certo charme e olhares penetrantes. Cativou-a as mãos do Sr. I. Dedos compridos, finos, unhas bem cuidadas. Imaginou-o a masturbá-la. A penetrá-la com aqueles dedos e excitou-se.
Terminou com um beijo prolongado a cada um que os deixou com vontade de mais. A pedido deles, deu o seu contacto de telemóvel e recebeu a certeza de que contactá-la-iam em breve para uma noite no seu apartamento. Queriam dar continuidade ao que tinham iniciado ali. Shiva sorriu quando exprimiram essa vontade.
Vinte minutos depois entrou no outro privado. Não correu tão bem como o anterior, mas a sua profissão tinha dias bons e dias maus. Momentos melhores e piores. Se bem que ela sempre fazia por estes últimos serem em número reduzido. Por isso era muito criteriosa nos clientes que aceitava. Mas ainda não tinha o condão de adivinhar.
Já meio regados a álcool, tentaram cometer alguns abusos e, por mais que uma vez que os chamou a atenção. O ‘noivo’ era o mais sossegado deles todos. Eram oito ao todo, mas os três que aparentavam mais idade, um deles o irmão do jovem que casaria na semana seguinte, segundo se apercebera, incomodava-a. No fundo do seu olhar cintilava um brilho de malvadez, sempre que ela se aproximava do Sr. T [o noivo]. Por mais que uma vez que estendeu a mão para lhe tocar os seios, conseguindo numa delas, apertar-lhe e torcer-lhe o bico da mama direita, magoando-a. Foi o culminar daquilo que já a fartava. Ergueu-se e começou a recolher a roupa. – Então? – Já vais? – Mas como?...
Eram as vozes de protesto. – Calma lá, ainda não terminaste – rosnou a besta que a magoara. – Já terminei, sim.
E saiu, fechando a porta.
Avisou o segurança e refugiou-se no camarim, enquanto eles eram acompanhados à mesa com um aviso para não repetirem a façanha com mais nenhuma menina, ou seriam expulsos.
Deu por finda a noite pelas três da manhã. A caminho de casa tudo desapareceu da sua mente. Excepto o Sr. Q.


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11º Dia


3ª Feira.
18:30 horas.
Para aquela noite tinha quatro clientes e o primeiro daí a meia hora. Fora o dia destinado às compras e chegara a casa há cerca de uma hora, tomara um duche e já arrumara o quarto. Agora só desejava beber um chá e relaxar até à hora do primeiro cliente chegar.
Sabia que não ia ser fácil o início da noite. Tinha como primeiro cliente o senhor Z, alguém com um feitio difícil, sendo que, para piorar a situação, tinha uma dificuldade enorme em atingir o orgasmo. Aliás, ela apenas o tinha conseguido fazer vir ainda uma vez, e já era seu cliente há dois meses, em encontros quinzenais.
Uma das vezes em que o atendera, vinha furioso com um negócio que lhe correra muito mal e no qual perdera bastante dinheiro. O resultado fora descarregar nela mesma parte da sua frustração e fúria. Começara por exigir que ela apenas desfilasse nua à sua frente, durante uma interminável meia hora, enquanto ele se masturbava, o corpo gordo e flácido, estendido na poltrona no meio do quarto. Ao fim desse tempo, o membro mantinha-se semi-erecto, o que o irritara ainda mais. – Anda cá e chupa-me – tinha sido a ordem cuspida entre dentes.
Baixou-se à frente dele, agarrando-o o pénis entre os dedos. – Ajoelha-te, puta – há muito que não ouvia chamarem-na assim. A última vez havia sido na casa da Madame Ludmilla, meses antes de sair.
Chupara, lambera, mas o membro não atingia a sua proporção, o orgasmo não vinha. Minutos depois ele ergueu-a, empurrou-a para cima da cama e, depois de colocar o preservativo desajeitadamente ele mesmo, tentara entrar nela, o que conseguiu com alguma dificuldade, devido à falta de rigidez do membro.
Rugia que nem um urso enquanto se movimentava, mas o cansaço acabou por o vencer, fazendo-o deitar-se para o lado. – Fode-me, caralho! Que raio de puta és tu que não me fazes vir? – outra vez a mesma palavra que quase a fez soltar uma gargalhada.
Montara-o, mas nada resultava naquela noite. Já passava de uma hora com ele, mas sabia que isso não seria preocupaçao para aquele bolso recheado que não se importava de gastar fortunas para seu próprio prazer. Continuara a esforçar-se. Agora com a boca.
Até que o ouviu gemer baixinho, de forma constante. Notou que o corpo se sacudia em pequenos soluços e apercebeu-se de que ele chorava. Parou. – Deixa-me – ouviu-o sussurrar e obedeceu.
Sentou-se na cama a observá-lo enquanto ele se encolhia em posição fetal, os dedos gordos a esconderem o rosto contorcido num esgar de dor.
Deixou-o acalmar-se um pouco e depois perguntou-lhe se queria falar o que o atormentava. Foi como que o soltar de uma torrente tempestuosa. Durante pouco menos de meia hora contou-lhe um pouco do que era a sua vida e do que se havia passado naquele dia. Além do negócio que correra mal, descobrira que a filha consumia drogas. Daí aquele estado de raiva, fúria, frustração. Perguntara-se sobre o que ele sentiria mais: a situação da filha ou a perda do dinheiro no negócio.


Nessa noite, ele seria o primeiro cliente e esperava que não estivesse com o mesmo espírito, pois seria um mau começo e ainda tinha mais três clientes logo de seguida.
A campainha tocou, respirou fundo e encaminhou-se para a porta. Abriu-a e deparou-se com o Sr. Z, de sorriso meio escondido atrás de um cesto de frutas e flores.
A noite começava bem.




Vídeo de autoria de Wolfheart, um dos visitantes do meu site, músico profissional e um expert nestas coisas.

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10º Dia


Sábado.
02:30 horas.
Fazia nesse dia um mês que se iniciara no clube privado de strip, propriedade do Sr. V, do Sr. J e de um terceiro sócio que ainda nunca lhe tocara com um dedo, mas que a atraía de uma forma intensa e alucinante.
Nessa noite sentira os olhos dele cravados em cada um dos seus movimentos, enquanto serpenteava pelo palco ao ritmo dos desejos que se reflectiam nos olhares do público presente. O suor gotejava pela sua pele e sentia vontade de o olhar directamente, mas sabia que não podia. Muito menos naquela noite em que a mulher dele resolvera aparecer com um grupo de casais amigos. Quando tirara a última peça de roupa, sentira uma vontade incontrolável de a atirar para cima da mesa deles, mas contivera esse ímpeto e brindara um grupo de homens numa despedida de solteiro com a sua peça mais íntima e perfumada com o seu calor.
Quando entrou no seu espaço privado para se vestir e se preparava para fechar a porta, uma mão impediu-a de o fazer. Não se tinha apercebido de que ele tinha vindo atrás de si. O Sr. Q. – Shiva – começara. Apesar de saberem o seu nome, sempre a tratavam por aquele com que era conhecida – Temos um serviço para ti. – Um privado? – Sim, para um grupo de amigos meus casais. Na verdade, eu também vou estar presente com a minha mulher. Espero que isso não te iniba. – De forma alguma – respondeu, estremecendo por dentro, mas sem o revelar, como tão bem havia aprendido em todos esses anos de experiência. Mas, esse homem mexia demasiado com ela. Talvez por nunca ter querido tocá-la. – Então prepara-te que eu vou levá-los para o privado agora. Estás pronta daqui a 15 minutos? – Sim, lá estarei. O que é permitido? – Tudo – e sorrira, enigmático.
Apesar do acordado no início, Shiva trabalhava duas vezes por semana e não apenas uma. Nas duas primeiras semanas fizera vários shows, apenas de apresentação, para se dar a conhecer, mas depois passara a fazer unicamente dois. No entanto, shows privados, fazia quantos houvesse para fazer, até às 4:00 horas da manhã. Naquela noite, seria o primeiro, e talvez o último, devido ao avançado da hora e ao grupo especial.
Entrou no privado e viu-o sentado a um canto, ao lado da esposa, o rosto na penumbra da sala mal iluminada. As sombras desenhavam-se nos rostos extasiados de 12 pessoas, incluindo-o a ele.
Dançou, tocou nos rostos de todos, acariciou-os a eles, a elas, sentindo como os corações batiam acelerados. Despiu-se. Fê-los ajudarem-na a despir. Tocou-lhes nos volumes pronunciados e revelados pelas calças. Enfiou dedos debaixo de saias, para encontrar coxas que se abriam ao seu toque, sexos húmidos de desejo. Sentou-se em colos excitados. Roçou os seios nas bocas gulosas que os abocanharam.
Mas sempre foi evitando tocá-lo a ele. E à esposa. Até que reparou como ela a olhava, como se se perguntasse a razão de os evitar. E aproximou-se, com um sorriso. Chegou o rosto junto do daquela mulher e observou como ela entreabriu os lábios. Beijou-a e sentiu o adocicado da boca feminina. Tocou-lhe nos seios avantajados e sentiu o estremecimento debaixo da palma da mão. Ergueu-lhe a saia e ajoelhou-se à sua frente. Afastou a tanga que a Srª Q tinha vestida e afundou o rosto entre as suas coxas, concedendo-lhe um minete que a fez gemer e gritar minutos depois, num orgasmo intenso. O olhar dele de espanto era indisfarçável. Pelo menos, para ela. Não dissera que tudo seria permitido? Mas a ele não se atrevia a fazer o mesmo e continuou a ronda pelos restantes presentes.
Respirava-se excitação, sentia-se a luxúria. Provocou, seduziu, beijou, tocou, acariciou e levou ao orgasmo qualquer um dos presentes, transformando um mero show em horas de orgia, que se traduziu no envolvimento entre si das pessoas presentes. Viu-o a ele a beijar a esposa, a acariciá-la, a penetrá-la e a fazê-la gemer, atingir o cume do prazer. Desejou estar no lugar dela um dia.
Como previra, a noite terminou ali. Quando tudo acabou, tomou um duche, vestiu-se, despediu-se de todos e rumou a sua casa. No caminho desligou o telemóvel. Não era hábito marcar com clientes no seu apartamento para aquelas noites. Mas costumava deixar o telemóvel ligado, caso algum dos melhores clientes lhe ligasse. Mas não daquela vez. Além de cansada, estava demasiado confusa com o que lhe passava pelo pensamento.
O melhor seria mesmo dormir.


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Shiva.
Uma mulher bastante vistosa e com uma beleza singular, de olhos grandes e rasgados, cor esverdeada, pestanas longas e enroladas e sobrancelhas bem delineadas. Os cabelos desciam-lhe pelas costas em cascatas arruivadas com uma ondulação bastante natural da qual cuidava com esmero. Nada que uma ou duas horas de cabeleireiro por semana não cuidassem.
No seu 1, 72m de altura, balanceava o corpo de formas perfeitas quando caminhava. Parecia uma deusa – dizia-se.
Até o nome que usava era o de uma Deusa – Shiva, deusa hindu. Não interessa revelar aqui o seu verdadeiro nome, basta ser ela – uma cortesã.
[...]
Não tinha falsos moralismos ao fazer-se rodear de todo o luxo que o dinheiro pago pelos seus clientes lhe permitia usufruir.
Era o seu corpo que servia de moeda de troca para obter o que queria, oferecendo-o a quem nele se queria saciar.
Não podia dizer que tinha sido por necessidade que abraçara aquela profissão. Crescera no seio de uma família que lhe pôde proporcionar a melhor educação, tendo chegado à Universidade na qual tirara o curso de História, apenas para que os pais pudessem mostrar aos amigos o diploma da filha única. Como se isso, para ela, tivesse algum significado.
[...]
Desprezava as convenções, o materialismo da sociedade podre, hipócrita e fatalista. Gozava a vida em todo o seu esplendor e adorava o sexo. Fora esse o motivo de ter enveredado por aquele caminho: aquele que lhe proporcionava prazer e dinheiro. O prazer que sentia por poder dominar o desejo e volúpia dos homens, eram como que a ginja em cima do bolo. Adorava a sensação de poder, nem que fosse em cima de lençóis de cetim negro.


Desde o Sr. M que adorava ser dominado por uma mulher, ao Sr. S, uma individualidade política, candidato a um dos cargos políticos de maior destaque, passando ainda pelo Casal L, ou o Sr. B, o cliente que a visitava todas as semanas, perdidamente apaixonado, ou ainda as dificuldade orgásmicas do Sr. A, de 60 anos Shiva guardava uma quantidade de experiências, episódios, alucinantes e interessante. Curiosos, alguns. Admiráveis, outros.
Trabalhou na casa da Madame Ludmilla durante bastante tempo, a par da actividade no seu próprio apartamento, um local de luxo, situado nuam zona distinta de Lisboa. Até ao dia em que recebeu um convite para trabalhar em exclusivo num clube de strip, com condições que nunca imaginaria. Aliciada, aceitou. Mas sem abandonar o que mais prazer lhe dava: o sexo. No seu apartamento. Os seus clientes, os seus prazeres. A sua luxúria que enebriava corpos, desejos e vontades.


Esta tem sido a vida de Shiva. Cuja publicação é retomada apenas agora, apesar de muito ter sido escrito nos últimos meses, como já disse algumas vezes.


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9º Dia


Sábado
20:30 horas
Esse seria o seu primeiro dia no novo local, propriedade do Sr. V. Faltavam menos de duas horas para entrar no clube e já sentia o arrepio excitante de antecipação. Pousou a chávena do café e recostou-se na cadeira, apreciando a paisagem ribeirinha daquele fim de tarde. Com um sorriso, pensou nas compras que fizera de manhã e no que preparara para ser a sua grande estreia.
Duas horas depois já estava no clube: tinha uma pequena divisão só para si, para trocar de roupa e na qual guardava as suas coisas pessoais. Enfim, onde se prepararia para cada noite de trabalho.
Ouviu o seu nome ‘de guerra’ e o início da sua música. Ajustou a máscara no rosto e seguiu pelo corredor até entrar no palco pelo lado direito. O fato negro colava-se-lhe ao corpo como uma segunda pele, desde a curva sensual do pescoço até aos tornozelos torneados. Revelava os seios erguidos, rijos, redondos, perfeitos, isentos de silicone. As nádegas firmes eram salientadas pelo tecido justo, a cada movimento que protagonizava ao ritmo da música. Apertava-se entre as coxas, insinuando o sexo quente de mulher. A graciosidade do balançar do corpo, era o suficiente para acender a chama do desejo de cada pessoa naquela sala, nessa noite – homens e mulheres.
Apenas o rosto se mantinha coberto pela máscara, envolvendo-a numa aura de mistério desconcertante: revelação do corpo, secretismo do rosto.
Como por mágica, o fato desapareceu e deu lugar à pele morena, coberta apenas por uns poucos centímetros de tecido que ainda mantinham a barreira entre os olhares de luxúria, o seus mamilos e a púbis, que se adivinhava sem uma só penugem.
A sensualidade inundava o palco e estendia-se pelo silêncio de vozes do clube. Só a música e o som de respirações entrecortadas. Olhos faiscaram quando os seios desnudos dançaram ao ritmo da sinuosidade do corpo. Minutos depois, a última resistência desapareceu e o show terminou. Um aplauso ensurdecedor deu-lhe as boas-vindas.
O secretismo do rosto iria manter-se por mais algum tempo. Haviam acordado que, nas primeiras noites, apenas faria o show e recolher-se-ia. Na 4ª, na 5ª e na 6ª seguintes, faria a mesma apresentação e no Sábado, começaria a fazer alguns privados para clientes VIP. Depois, entraria no ritmo normal do clube.
Shiva ansiava pelas noites em que poderia fazer os shows privados. E, a julgar pelos olhares de volúpia com que tinha sido brindada, não seriam poucos.
Agora, seguiria para casa. Aproximava-se a hora de receber de novo o casal N.

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8º Dia


Domingo
14:40 horas
Shiva olhava o tecto do quarto enquanto pensava na noite anterior. Ultrapassara em muito as suas expectativas de luxúria e prazer.
A Madame Ludmilla havia reservado o salão principal para a festa, permitindo maior privacidade e deixando que a noite decorresse de modo quase normal para os restantes clientes que desconheciam o que se desenrolava por trás da parede em tons púrpura.
Não atendeu um cliente, atendeu vários, todos quantos se encontravam naquela desta privada. Faziam parte dos melhores clientes da casa. Os que mais a frequentavam. Aqueles que deixavam grande parte do saldo dos seus cartões de crédito para poderem usufruir dos serviços privilegiados de Shiva e de mais duas das meninas da Madame Ludmilla.
Lá estavam o Sr. R que apreciava práticas de BDSM e gostava de a amarrar numa cama antes de lhe penetrar o corpo. O Sr. V, responsável por aquela despedida. – Sr. V, acho que nunca lhe vou perdoar levar daqui a melhor menina que alguma vez tive. – Compensá-la-ei, Madame – respondera ele sorrindo.
Estavam ainda o Sr. E, o Sr. J, o Sr. D, o Sr. G e outros mais.
Das meninas, estavam Malu, Erika e Laila.
Quatro mulheres entregues aos vícios de luxúria de doze homens sedentos de peles suaves, corpos curvilíneos e bocas húmidas, que sabiam como os levar ao máximo dos prazeres.
Em pequenas mesas colocadas estrategicamente, encontravam-se preservativos, charutos e alguns objectos eróticos, brinquedos, vendas, algemas. Ao centro, dois pequenos divãs dispostos lado a lado. A um canto uma cruz St. Andrews, a predilecção do Sr. H.
A entrada de Shiva no salão interrompera o curso do prazer que já se manifestava nos corpos desnudos, nas bocas entreabertas de paixão. Fora ela o centro de todos os prazeres.
Ergueu-se da cama e dirigiu-se para o duche. Sentiu a humidade do seu sexo enquanto caminhava nua e descalça.
No pensamento os pormenores daquela noite, causando-lhe excitação.

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7º Dia



Sábado
15:20 horas.
Levantou-se estremunhada, com a sensação de que aquele dia seria diferente, mas o sono não a deixava raciocinar convenientemente. Entrou na casa de banho e molhou a cara com água fria, olhando o rosto no espelho. Claro! Era o último dia na casa da Madame Ludmilla! E haveria uma festa de despedida, para a qual haviam sido convidados os melhores clientes da casa. Nem sabia como iria aguentar uma noite movimentada e ainda duas marcações: com o casal L para a 1h30m da manhã e com o Sr. N para a as 3h30m.
Seria mais uma noite a consumir Red Bull em grandes quantidades. Habituara-se a beber disso nas últimas duas semanas, desde que fora anunciado que iria abandonar aquele lugar, pois os clientes queriam todos despedir-se dela, em privado.
Saiu do apartamento e dirigiu-se ao ginásio para uma sessão de sauna e massagens. Queria estar revigorada para a noite que se avizinhavam pois acreditava que se trataria de uma noite de muitos prazeres. A lista de convidados da pequena festa privada era aliciante e convidava-a a passar a língua pelos lábios, num gesto de gulodice pura atraído pela luxúria que imaginava se estenderia pelos sofás aconchegantes e pelos divãs estrategicamente colocados, num perfeito convite à volúpia e aos prazeres da carne.
Ainda sorria quando entrou no espaço quente da sauna. Sem se dar conta, passou os dedos levemente pelos seios, cobertos pela toalha, atraindo o olhar masculino do homem que repousava do outro lado do espaço exíguo. Se tivesse os olhos abertos, provavelmente tê-lo-ia provocado mais.
Faltavam apenas três horas para dar início a uma noite diferente.

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6º Dia



3ª feira
19:30 horas.
Shiva acaba de se vestir depois de ter tomado um duche. Terminara de atender um cliente e iria descer até à sala principal para conviver mais alguma horas antes de regressar ao seu apartamento. Teria o seu primeiro cliente particular da noite, cerca da uma da manhã e ainda teria algumas horas pela frente na casa de Madame Ludmilla.
Já não faltava muito para abandonar a boite onde trabalhara estes últimos anos, pois aceitara a proposta que lhe fizera o Sr. V dias antes. Não demorara muito a decidir-se, perante as condições que lhe haviam proposto.
Começaria daí a quinze dias, depois de tirar uma semana de férias numa estância balnear no Algarve.
Desconhecendo ainda que nessa noite conheceria um homem que viria a ser um dos seus melhores clientes durante os anos seguintes, Shiva desceu e foi conversar com Laila, com quem habitualmente partilhava algumas fantasias dos seus clientes, para combinar uma sessão para a noite seguinte.
O Sr. C, o tal cliente, chegou cerca das 20h00m e Shiva subiu com ele meia hora depois, após terem conversado um pouco, enquanto bebiam qualquer coisa.
O Sr. C tinha uma particularidade: aguentava uma erecção durante horas seguidas sem ejacular. Longe de ser uma vantagem, tornava-se doloroso fisicamente para o próprio, embora pudesse dar um prazer interminável à mulher com quem tivesse sexo. Pelo menos inicialmente, pois esse factor inibia que aprofundasse qualquer relação. Daí ter decidido que procuraria apenas profissionais do sexo, acompanhantes, até que um dia esta situação fosse ultrapassada, porque acreditava que o conseguiria alguma vez.
Quando o viu a primeira vez, nu, deitado na cama do quarto vermelho da casa da Madame Ludmilla, Shiva pensou para si que este não demoraria mais que meia hora para se vir, tal era o estado avançado de excitação. Pedira sexo oral e vaginal mas ela desconfiava que ele ficaria apenas por um deles, dado o nervosismo que notava em cada gesto.
Não esperava ficar mais de três horas seguidas, muito bem pagas, num sexo extraordinário que a levara ao orgasmo várias vezes, sem nunca diminuir o tesão. Notava o esgar no seu rosto já perto das três horas, que demonstrava que algo não estava bem, principalmente quando se enterrava nele, cavalgando-o alucinadamente, sentindo o membro duro entrando e saindo do seu sexo, deslizando nos fluidos dos orgasmos de Shiva.
Não lhe quisera perguntar o porquê, mas sabia que tinha de o fazer vir, fosse como fosse.
Então, depois de mais um orgasmo, saíra de cima das coxas masculinas e puxara-o para a beira da cama, ajoelhando-se em seguida entre as suas coxas, para lhe fazer o melhor broche que alguém lhe havia feito.
E, após longos minutos em que, lambeu, chupou, massajou, abocanhou e acariciou o pénis erectos, numa dedicação maior do que o broche que lhe tinha feito no início da sessão, o Sr. C veio-se num grito que entoou pelas paredes do quarto, fazendo-o estremecer, derramando o sémen contra os lábios de Shiva que sorria e lhe acariciava meigamente as coxas.
O Sr. C saiu do quarto, de sorriso largo, sentindo-se plenamente satisfeito e pensando que aquela não seria a última vez que estivera com aquela mulher. Talvez fosse ela a resposta que procurara durante tanto tempo; quem sabe se não seria ela quem o faria ultrapassar o seu problema.
Em cima da mesa-de-cabeceira deixara um pequeno maço de notas bem dobradas – a compensação apenas para ela: 400 euros.
Esta fora apenas a primeira vez do Sr. C com Shiva e a última na casa da Madame Ludmilla.
Shiva saiu em direcção ao seu apartamento vinte minutos depois, pensando que ainda teria tempo de se preparar para o Sr. P, que chegaria daí a pouco mais de meia hora, vestindo a fantasia que lhe pedira pelo telefone – de enfermeira.

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5º Dia



5ª feira
20:45 horas.
Primeiro as meias pretas, finas, que puxa até meio das coxas, deixando manter a percepção da pele branca, fruto do desejo. Depois o cinto de ligas em renda preta com pequenas fitas estreitas em vermelho sangue. O corpete justo a fazer conjunto, apertando o busto, fazendo com que os seios saltem majestosos aos olhos dos apreciadores.
As sandálias de salto alto, fino e o vestido vermelho escuro cobrindo o corpo, preso abaixo dos seios, realçando-os, solto pelo resto do corpo, evidenciando-o com discrição.
Um último olhar para o cabelo, suspenso do alto da cabeça por um travessão vermelho escuro, deixando apenas algumas pontas soltas. Pegar na pequena bolsa e sair do apartamento.
O táxi espera-a à porta do prédio, para a levar a casa do Sr. D.

——//——


6ª Feira
13:20 horas.
O toque da campainha acorda-a do quase desmaio sonolento em que se encontra embrenhada desde as 5 horas e pouco da manhã. Não dá importância, pois deve ser apenas o rapazito da publicidade.
Que noite extraordinária havia sido. Nunca se tinha sentido tão desejada como nesta festa do Sr. D. Nem sequer nas anteriores a que tinha comparecido, embora não tivessem sido mais que três. À última delas levara consigo Laila, a qual nunca tinha participado em algo assim. Ela gostara principalmente do preço acordado.
O número de convidados elevara-se em relação à primeira festa, pois ganhava cada vez mais adeptos, a participação nestas orgias da alta sociedade. Naquela noite, haviam estado mais do dobro do que se esperava: para cima de quarenta pessoas. Sentia o corpo cansado mas satisfeito, pelas inúmeras vezes que havia sido possuída por homens e mulheres. Perdera-lhes a conta, no meio das sensações de que desfrutara.
Mal chegara a casa do Sr. D. fora recebida por este como uma rainha, sentindo que estava reservada para algo especial. Reconheceram figuras do meio político, assim como da televisão, revistas e jornais. Parecia que a fina flor da sociedade se havia concentrado naquela noite, na zona ribeirinha do Tejo. Algumas personalidades que nunca imaginaria ali encontrar. Mas sabia porque havia sido escolhida, além das suas qualidade como cortesã, e a resposta estava ali nos rostos conhecidos daquelas cerca de quarenta pessoas: a sua discrição.
O Sr. D levara-a a comer alguma coisa, servida numa sala só para o efeito, ao lado daquela onde se concentravam os convidados, formando pequenos grupos, conversando entre si, enquanto a música tocava de forma agradável.
Não tinha decorrido ainda nem uma hora após a sua chegada, quando dois empregados colocaram no centro da sala uma mesa redonda de tamanho médio, coberta por um pano negro. Fez-se silêncio e, o Sr. D, o anfitrião, mandou parar a música, chamando a atenção de todos os convivas, enquanto segurava Shiva por uma mão. – Meus amigos – iniciou – hoje temos connosco a Shiva, já conhecida de alguns de vocês. Mas esta noite ela será a melhor iguaria que poderão provar. É a minha oferta, principalmente aos que ainda não a conhecem.
E, fazendo um sinal aos dois empregados que se mantinham junto à mesa, afastou-se depois de dar um beijo nos lábios de Shiva. Os dois jovens, já instruídos sobre o que tinham a fazer, elevaram-na e colocaram-na em cima da mesa.
À semelhança do que havia acontecido outras vezes, havia dançado ao ritmo da música quente cujo volume havia aumentado. Sabia que, daquela vez, seria diferente, pois o seu corpo seria tomado por qualquer um dos convidados que ali se encontravam. Ela estaria à disposição de todos.
Um deles, subiu para cima da mesa e, dançando em seu redor, afastara o tecido dos seus ombros, expondo a pele até aí coberta, e beijando sei pescoço, nuca, ombros e colo, quase até tocar seus seios. Outro dos convidados não se fez rogado e subiu também para cima da mesa, erguendo-lhe o vestido e revelando as pernas cobertas pelas meias de vidro e as ligas que as seguravam. Acariciou-lhe a carne que se derretia por baixo dos seus dedos. Ajoelhou-se à sua frente, as mãos perdidas nas suas coxas, o rosto erguido, aspirando o seu perfume de mulher. Em poucos minutos ficou sem o vestido e os seios pareciam querer soltar-se do corpete.
Os Srs. R e E continuavam as suas carícias, e a maior parte dos convidados já se libertara de algumas peças de roupa. Entre eles, alguns que se entregavam a abraços, beijos e carícias íntimas.
O Sr. G subiu também para cima da mesa e agarrou-lhe os seios, apertando-os, enquanto os outros dois a iam acariciando nas pernas, costas e nádegas. Do meio da sala ouviu-se uma voz: – Queremos vê-la nua!
E, obedecendo ao desconhecido, despiram-na, deixando apenas as meias e as sandálias de salto alto, soltando-lhe o cabelo em seguida. Fizeram-na rodar mostrando a todos os seios cheios e erguidos, de mamilos erectos. A púbis completamente depilada, mostrando os lábios carnudos que se fechavam sobre o clítoris e a entrada da sua gruta de prazeres. O rabo bem delineado, redondo e de carnes rijas pelos cuidados que tinha com seu corpo. Era perfeitamente visível o olhar de volúpia que parecia querer soltar-se dos rostos que a apreciavam, masculinos e femininos.
Fizeram com que se deitasse e, quando o Sr. E se preparava para lhe penetrar o corpo, não aguentando mais o desejo, ouviu-se: – Primeiro eu! – a voz vinha do Sr. D, que pretendia fazer as honras da casa – e terminando de se despir já em cima da mesa, colocou um preservativo e enterrou o membro rijo na gruta húmida de Shiva, que, de coxas prontas para o receber, o acolheu num gemido. Como adorava sentir um membro quente e duro dentro de si. Como adorava aquela profissão.
Após algumas arremetidas rápidas, gritou e veio-se num estertor de volúpia. Seguiram-se o Sr. E, o Sr. G e o Sr. R. Deitada sobre a mesa, pernas afastadas, o seu corpo parecia um depósito de sémen, que apenas não o era pelo uso dos preservativos, o que ela sempre exigia em todas as relações. – Agora aqui, Shiva – era uma voz feminina que a chamava agora e, passando por entre as várias pessoas, chegou junto da Srª M, cujo corpo moreno, nu, se encontrava estendido sobre o um sofá, dos vários que se espalhavam pela sala, esperando pelo deleite da sua boca, língua e dedos. – Shiva, anda cá – a mulher do Sr. P que lhe segurava o membro erecto, à espera que a cortesã o metesse entre seus lábios e o chupasse.
E, enquanto o fazia, sentiu que lhe afastavam as coxas, lhe seguravam os quadris e se enfiavam no seu corpo, iniciando um vaivém que a levara de novo aos píncaros do prazer, enquanto recebia na boca a ejaculação do Sr. P que partilhou com a esposa deste.
Haviam sido horas de muito sexo. Homens e mulheres que haviam usufruído do seu corpo, obtendo e dando prazer. Fora possuída várias vezes e das mais diversas formas. Viera-se tantas vezes que nem as podia recordar a todas. Sentira-se invadida em simultâneo, numa penetração dupla que poucas vezes concedera e em que o Sr. E e o Sr. R foram uns privilegiados.
Fora a noite de todas as permissões.
E a noite em que mais recebera financeiramente desde que se havia iniciado naquela profissão.
Agora descansava.

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4º Dia



5ª Feira.
15:25 horas.
Abriu os olhos e viu que já havia passado largamente da hora de almoçar. Irritada consigo mesma, ergueu-se da cama e meteu-se rapidamente no duche. Não podia continuar naquele ritmo alucinante, a trabalhar mais de dez horas por dia. As suas habituais quatro horas na casa de Madame Ludmilla tinham vindo a aumentar de dia para dia e, actualmente, havia noites de não conseguir sair de lá antes das 2h da manhã. Sem contar que depois ainda tinha os seus clientes habituais e, aqueles que, não o sendo, vinham através de recomendações de outros habituais frequentadores do seu apartamento.
O que significava que não conseguia deitar-se para dormir antes das 6h da manhã.
E esse cansaço das noites mal dormidas já era visível nas olheiras profundas que marcavam sulcos no seu rosto. Observou-se no espelho, enquanto se limpava ao toalhão, e, desejou regressar à sua vida de dois meses atrás, quando ainda conseguia controlar o seu tempo. Deixara de ir ao ginásio diariamente, só aparecendo por lá duas vezes por semana; reduzira as idas ao massagista para quinzenais, em vez de semanais e, há mais de um mês que não tirava um dia de folga. Não podia continuar assim. Tinha de mudar antes que fosse tarde demais.
A noite anterior tinha sido o fim, principalmente depois de receber aquela proposta que a deixara tão vacilante. Aceitar, implicaria poder ter mais cedo a sua total independência, podendo deixar a casa da Madame Ludmilla e ficar apenas com o seu apartamento e esse trabalho que lhe daria imenso gozo pessoal. Tratava-se de uma proposta para fazer strip num clube privado, uma vez por noite, ganhando em troca uma quantia astronómica.
Seria a atracção principal do clube e, caso decidisse fazer algumas private dance em sala própria para o efeito, receberia 75% de comissão, relativamente a cada cliente. Fazendo as contas por alto, poderia começar a ter um rendimento equivalente ao triplo do que a Madame Ludmilla lha pagava.
Estava francamente interessada na proposta.
Havia sido feita por um dos frequentadores habituais do bordel, o Sr. J e por um sócio que o acompanhara na véspera. Este último, havia requisitado os seus serviços de cortesã e estivera com ele mais de três horas, o que na verdade nem era assim tanto, para tudo o que tinham feito.
O quarto vermelho da casa da madame Ludmilla era normalmente reservado para clientes especiais e havia sido para esse que se dirigira na companhia do Sr. V.
De cabelos já um pouco grisalhos, mas aparentando não ter mais de quarenta anos, o Sr. V era um homem alto, de olhar experiente e boca de quem seria um mestre na arte do sexo. E, se bem o aparentava, melhor o era. Dotado de uma resistência impressionante, fizera-a vir várias vezes antes de ele próprio se satisfazer. Perguntara-se a si mesma se era cortesã ou seduzida.
Mal entraram no quarto, despira o casaco, tirara a gravata e desabotoara os primeiros botões da camisa, deixando antever os pêlos escuros no peito moreno. Aproximara-se para lhe tirar o pequeno vestido simples de alças, que lhe cobria uma lingerie preta em renda, pedindo-lhe em seguida que caminhasse pelo quarto, enquanto ele se deitava na cama redonda, coberta com uma colcha de cetim negro, para a observar.
Quando lhe bastou, ordenara-lhe que se deitasse junto dele e obedecera. Aquele homem excitava-a só de a olhar e, a renda que cobria o seu sexo já estava húmida dos seus sucos, reveladores do prazer.
Ajoelhara-se na cama junto do corpo masculino e começara a beijar-lhe o peito, afastando a camisa, e ocupando-se depois a desapertar o cinto, abrindo o fecho das calças, sem interromper o percurso da língua curiosa que ía deixando um rasto húmido no corpo do Sr. V.
Tirou-lhe as calças e, em seguida, os boxers, puxando-os com suavidade pelas coxas másculas, continuando as carícias com a boca e a língua. Deliciando-se no corpo masculino, acariciara, lambera e chupara o membro túrgido daquele homem que vibrava, gemendo baixinho e pedindo para ela não parar, até que a deteve repentinamente e, deitando-se sobre o seu corpo, retirara-lhe a lingerie e começara a penetrar todos os trilhos do seu corpo, deixando um rasto de luxúria e prazer.
A boca mergulhada na humidade do seu sexo, absorvendo o néctar que inundava a carne, as mãos que massajavam os seus seios, os dedos que apertavam os seus mamilos, fazendo-os rolar entre eles, faziam-na vibrar e menear as ancas em busca de orgasmos. Um atrás de outro.
Virara-a e concedera mais carícias no seu corpo liquefeito pelo prazer. E, depois de colocar uma almofada debaixo dos seus quadris e afastar as suas coxas, é que lhe penetrara o corpo, com o membro rijo e vibrante, impulsionando o corpo contra o seu em arremetidas firmes e profundas. Viera-se assim a primeira vez.
A primeira de mais duas, numa alucinante viagem pelo Universo da luxúria e do sexo.
Sabia que ele havia ficado plenamente satisfeito com o seu desempenho sexual e a proposta viera um pouco mais tarde, já de regresso à sala e, após conversa com o Sr. J, o sócio.
Apesar de a proposta não abranger sexo, ficara com a sensação de que aquele havia sido um teste. E que passara.
Depois de conversar com ambos, ainda recebera o Sr. R e o Sr. A, mas a sua concentração deixara bastante a desejar.
O primeiro gostava de a amarrar à cama e dominá-la, obtendo prazer apenas pelo facto de a ter ali deitada de bruços, pernas e braços afastados e presos com tiras de cabedal aos cantos da cama, masturbando-se e vindo-se para cima do seu corpo nu.
O segundo, o Sr. A, gostava do sexo tradicional, era um homem com mais de sessenta anos, e, havia sido a segunda vez num espaço de dois meses, que visitara o bordel. Fora cansativo, pois demorara bastante para atingir o orgasmo, apesar das carícias que ela lhe fizera. Tinha sido uma das raras vezes em que ela não retirara prazer físico. E não gostava disso.
No seu apartamento ainda havia recebido o Sr. e a Srª L de novo. Tinham estado lá quinze dias antes, e não era normal virem duas vezes no mesmo mês, mas tinham marcado de véspera, e como clientes habituais, havia feito marcação para aquela noite.
Preparou-se para sair de casa, continuando imersa em pensamentos sobre o seu futuro. Passaria por casa de Madame Ludmilla para lhe dizer que não trabalharia nessa noite.
Precisava descansar e tomar decisões.
Além disso, já tinha reservado a noite para um serviço especial em casa do Sr. D, onde decorreria uma reunião com mais de vinte convidados, entre homens e mulheres.
Sabendo de antemão o que significavam aquelas reuniões em casa do Sr. D, não podia deixar de repousar, a fim de poder estar em pleno uso de todas as suas capacidades.

© Sutra 2006

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3º Dia



Domingo.
16:18 horas.
Sentada numa das esplanadas da zona mais badalada da cidade, observava o rio calmo, de águas meio turvas, enquanto ía trincando uma tosta mista, bebericava um sumo de laranja natural e folheava o jornal, em busca de notícias dos últimos dois dias.
Fez uma pausa e perdeu-se em pensamentos. Observando a Torre cujo cimo terminava num restaurante paisagístico, pensou que um dia haveria de lá ir jantar. Sabia que já não demoraria muito, para se rir interiormente ao entrar num local onde muitas das senhoras da sociedade não o fariam nunca. Aquelas que se consideravam acima de qualquer outra, principalmente de uma vulgar prostituta.
Pois seria ela, prostituta – Shiva, a Cortesã – que entraria naquele restaurante e se deliciaria com as melhores iguarias.
Um dia. E esse seria apenas uma das suas metas.
Domingo era sempre o dia em que se encontrava mais cansada, já que as noites de Sábado sempre se prolongavam até depois do nascer do Sol.
Na véspera havia feito um strip tease em privado para um grupo de clientes da casa da D. Ludmilla, e havia saído mais cedo que o habitual, cerca da uma da manhã, para continuar em seu apartamento mais uma noite de trabalho.
Tinha recebido três clientes entre as 2 e as 7 horas, sendo um deles já antigo, outro conhecera há pouco mais de dois meses e um outro foi a primeira vez que viera em busca dos seus serviços, recomendado por um dos mais assíduos clientes – e dos que pagava melhor também. Se ele tinha enviado o Sr. Y, contava que viesse deste cliente um bom pagamento. E assim havia sido.
Preferira marcar o Sr. Y para as 2 horas, início da noite.
Era estrangeiro, com cerca de 50 anos. Não lhe perguntou de que país, nem ele lho disse, mas tinha traços nipónicos; um olhar profundo, sorriso rasgado numa boca de lábios carnudos; era ligeiramente mais baixo que ela e com uma barriga ligeiramente proeminente, aparentando, no entanto, ser alguém que zelava pela boa forma física.
O Sr. Y não esteve com grandes rodeios quando chegou e, enquanto bebericava uma bebida que Shiva lhe havia servido, explicou detalhadamente o que pretendia dela naquela noite – um serviço completo – já que lhe haviam dado excelentes referências.
Shiva, que vestia apenas um negligé preto de seda, aproximara-se, despindo-lhe o casaco, a camisa, e deslizando em seguida as mãos ao cinto das calças que desabotoara, enquanto lhe beijava o peito coberto de uma penugem escura.
Tocara no seu membro e acariciara-o, descobrindo aquela carne quente e macia, enquanto as calças caíam ao chão.
Ajoelhara-se para o acariciar com os lábios e, enquanto o beijava e fazia deslizar a língua pela pele quente, foi sentindo como ele enrijecia com as suas carícias.
Tal como havia anunciado que pretendia, dessa forma fora o seu primeiro orgasmo, derramando o seu néctar nos seios erguidos dela, cujo corpo ele havia despido durante aqueles minutos de prazer, para lhe tocar nos seios. E como a acariciara, como havia gostado de sentir aqueles dedos a apertar-lhe o bico dos seios, deixando-os erectos de desejo.
Tinha colegas que não apreciavam, fazendo-o como frete, que os homens derramassem a sua seiva pelo corpo feminino.
Mas não ela, Shiva. Ela fazia-o com prazer. Adorava sentir o sexo masculino crescer na sua boca, passar a língua ao longo da carne intumescida, devido às carícias que lhes fazia, e por fim, sentir o líquido morno derramar-se pelo seu corpo, banhando-a com o perfume do sexo.
Depois desse primeiro orgasmo do Sr. Y, haviam descansado alguns minutos e reiniciaram já na cama, prolongando por hora e meia.
Quando ele saiu, deixou um cartão de contacto dele onde constava o nome e um telefone internacional. Haveria depois de ver a que país pertencia. Aquele gesto fora um convite para o procurar, um dia que lá fosse.
Em pouco tempo, procedera ao ritual habitual: um duche quente, um pouco de aroma pelo ar e copos preparados para o cliente seguinte.
Na verdade, tratara-se não de um cliente, mas dois – um casal.
Já se conheciam há cerca de um ano e tinha por hábito atendê-los uma vez por mês.
As quase duas horas que passavam juntos nunca variavam muito e naquela noite não havia sido diferente.
Começavam por ter sexo com a Srª L, obtendo ambas sempre orgasmos bastante intensos, enquanto o Sr. L se masturbava, sentado num cadeirão em frente da cama larga, de forma a não perder um único movimento, nem uma carícia, nem uma lambidela, mordida ou toque de dedos.
Em seguida, enquanto a Srª L se mantinha recostada na cabeceira da cama, observando-os, ele colocava-se atrás do seu corpo, de quatro, agarrava-a pelas ancas e introduzia-se profundamente no seu corpo com golpes fortes e espaçados, enterrando-se nela com facilidade após o orgasmo anteriormente sentido, que lhe deixara a gruta inundada. Ele adorava misturar os seus fluidos com os da sua mulher, dentro dela, como se ela não passasse de um depósito de orgasmos do casal. E ela adorava o prazer que lhe davam desse modo.
E, quando os movimentos se aceleravam, a Srª L colocava-se por baixo do seu corpo e fazia-a sentir o céu com os seus dedos suaves e a língua quente.
Ah… como adorava aquela profissão.
E a noite deles terminara numa sessão intensa de sexo entre o casal, como sempre, ficando ela como mera espectadora.
Também gostava de ver, é verdade. Aprendera a gozar o voyeurismo com aquele casal.
Eram quase 6 horas quando chegara o último cliente da noite. Tratava-se de um jovem com 28 anos que a procurava todas as semanas, ora à 6ª feira, ora ao Sábado.
Desconfiava que o Sr. B se havia apaixonado por ela e, esse era o único pormenor que não lhe agradava. O sexo com ele era sempre de muito prazer, mas via nele a constante preocupação em que ela também gozasse com o acto. Mas ela sempre gozava e os seus orgasmos eram genuínos, sentidos e intensos. Nessa noite ele estava mais calmo e cansado e só haviam feito sexo uma vez, de pé junto à janela cuja varanda estava virada para um prédio alto e habitado. Ele afastara as cortinas e havia entrado nela, olhando as janelas do prédio em frente, como se desejasse que fossem observados.
No fim, haviam ficado por mais de meia hora deitados na cama, cobertos com o lençol, apenas conversando. Sentira que nessa noite ele preferia conversar, mais do que o sexo.
E assim havia passado mais uma noite de Sábado, que a deixara naquela letargia e cansaço. Acordara cerca das 15 horas e estava ali em plena tarde de relaxamento. Ía tirar esse dia e noite para recuperar as forças da última semana e aproveitar, quem sabe, para algumas compras.

© Sutra 2006

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