Shiva – 100 dias da vida de uma cortesã – 20º Dia
Posted by Sutra under Shiva - 100 dias da vida de uma cortesã on Tuesday May 18, 2010
20º Dia
4ª Feira
15:45 horas.
A promessa de telefonema não se cumpriu ainda. Já decorreu metade do dia. Teria sido promessa? Ou apenas o remexer dos sentidos, com o objectivo determinante de a desconcertar e fazer ansiar pela repetição da possessão desenfreada, quase a raiar a obsessão?
A verdade é que se era essa a sua intenção, conseguira.
Ainda deitada na cama, pegou num livro e tentou ler. Mudou a página sem recordar se havia lido alguma linha. Folheou de novo. Não. Nem a crónica de Mário zambujal, normalmente apreciada, a fazia perder a noção do tempo e da espera pelo telefonema do Sr. Q. Pousou o livro e pegou no comando da televisão. Um pouco de zapping e o resultado foi igual. Desporto, história, música ou cinema. Nada a distraía. Até que parou ali, naquele canal onde as imagens que se sucediam pareciam indiciar paixão, sexo. Deixou-se prender pelo desenrolar da acção. Filme ou reportagem? Não conseguira ainda descobrir pelas cenas que se sucediam. Mas agradava-lhe. Recostou-se melhor nas almofadas e embrenhou-se na ficção. A cena actual parecia decorrer num casarão quase abandonado, onde ainda se viam alguns móveis cobertos por lençóis, com pouca luz, excepto aquela que passava pelas frinchas das janelas encerradas por portadas de madeira, criando um ambiente entre o assustador e o apaixonante. Uma mulher procurava algo pelos cómodos da casa, subindo as escadas e caminhando de divisão em divisão até entrar num quarto onde apenas se encontrava um maple e um baú. Ajoelhou-se junto deste último e abriu-o. De lá começou a retirar roupas, livros, até se deparar com uma pequena caixa vermelha com tampa de veludo. No momento em que a abriu, foi puxada para trás por uma mão forte, de dedos ultrajados que a atiraram ao chão enquanto um rugido enfurecido sussurrava: ‘que queres daqui?’ E, sem lhe dar tempo para responder, ergueu-a com facilidade e atirou-a para cima do maple ao centro do quarto, acompanhando o movimento com o próprio corpo.
Shiva perdeu a noção do tempo naquele momento, expectante da continuação do que se iria passar entre a mulher de olhar assustado e o homem de rosto encoberto pela escuridão. O Sr. Q ficara esquecido na excitação que se avizinhava.
Escuro, movimento, acção, remexer de roupas e um som abafado de uma voz feminina: ‘tu?’ Um beijo agressivo calou a continuação do que ela poderia ainda dizer, enquanto o corpo masculino se encaixava entre as coxas semiabertas de uma mulher espantada e excitada. Dedos firmes fizeram subir a saia, e pressionaram o sexo feminino, iniciando uma carícia forte, invasora, possessiva. A língua continuava a invadir a boca feminina, interrompendo apenas para lhe dizer em voz forte: ‘quero foder-te agora’. Desapertar de calças, pénis descoberto, pequeno pedaço de renda afastado. Sexo dentro de sexo. Forte. Excitado. Penetrante. Invasor.
Shiva deixou-se seduzir pelas imagens e deslizou os dedos entre as coxas, enquanto outra mão se apertava de encontro a um seio, acariciando o mamilo. Estava sedenta. A ansiedade de sexo, da repetição do dia anterior, aliada às imagens que via criaram uma mistura explosiva que a fazia procurar a satisfação. Sentiu escorrer humidade entre dedos, o pulsar apressado do coração na aproximação do orgasmo. A explosão de sentidos. A respiração ofegante. O toque da campainha.
Como?
Toque de campainha? Não esperava ninguém. Levantou-se apressadamente, vestiu um robe por cima da lingerie e correu para a porta. Espreitou pelo olho-de-boi, mas estava escuro. Possivelmente o visitante impedia-a de ver quem tocava.
- Quem é?
– Abre, Shiva.
O corpo pareceu paralisar-se. Um suor frio desceu-lhe pelas costas.
O Sr. Q.
Sutra 2010
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