Sessão de Cinema – 14º Capítulo

Posted by Sutra under Sessão de cinema on Wednesday Jan 28, 2009


(no capítulo anterior – Completo)

- O que vieram cá fazer? Recriminar-me? – Tem calma, cunhado. Nós só estamos preocupados e não vamos deixar que continues aqui fechado e nesta vida. – Vais para nossa casa por uns dias, até te meter um bocado mais de carne entre a pele e os ossos, senão um destes dias ficas transparente – decidiu a irmã, enquanto circulava pelo apartamento, apanhando roupa pelo chão, as garrafas vazias, pratos sujos. – Não me parece que seja boa ideia – ainda tentara argumentar. – Não nos interessa muito o que tu achas, mas antes o que precisas e não se discute mais isso – o cunhado fora peremptório.
Enquanto ele tomava um banho, a irmã arrumara o apartamento e fizera uma mala pequena com alguma roupa, colocando a outra num saco que levaria para lavar e engomar.
E assim permanecera em casa deles durante duas semanas, tempo que dedicou quase em exclusivo ao sobrinho, cuidando de si mesmo, desabafando com a irmã e o cunhado.
Quando se encontrou a si mesmo, regressou ao apartamento e ao recomeço.

14º Capítulo


Acenderam-se as luzes, levando-o a piscar os olhos, tentando situar-se. Esquecera-se que estava numa sala de cinema. Estava num impasse da sua vida. Os acontecimentos que recordava haviam ocorrido há cerca de três anos.
Tentou prestar atenção ao filme, por mais uma vez, mas não conseguia. Dividido entre as movimentações do casal que se perdia em carícias, suspiros e alguns gemidos, e, as cenas que se sucediam em luzes, cor, som e movimento, deixou-se embalar de novo pelas memórias de um livro há algum tempo largado na prateleira do esquecimento.
Recuou três anos, até ao momento em que regressou a casa.


Abriu a porta e estranhou o silêncio. Nunca imaginou que a dor no peito fosse ainda tão grande que o atingisse com a força de um punho fechado de encontro ao ventre, onde permaneciam intactas as feridas da traição. Pousou a chave no móvel do corredor e seguiu na direcção da cozinha, evitando olhar para a porta do quarto.
Na bancada ao lado do lava-loiça encontrava-se um cinzeiro sujo com uma ponta de cigarro, fazendo-o recordar Lena e do seu recente hábito de fumar.
Ao lado, dois pratos com restos de comida da última refeição que tentara ingerir. Sem resultados. Olhou em volta e pensou no quanto teria para arrumar, limpar, antes de ter a casa de novo em condições normais de habitabilidade.
Naquela manhã de Sábado, arrumou, limpou e jogou fora os restos de desespero que lhe apertavam o peito. Mais uma mudança na vida, mais uma fase que passava nos seus 35 anos de vida. Sentia-se melhor que há duas semanas atrás, mas não sentia que a sua vida tivesse melhorado. No entanto, tinha a perfeita consciência que algo dentro de si havia dado uma volta de 180º e o rosto que via reflectido no espelho, parecia o de um estranho. Um ser coberto de uma dura capa de mágoa, coração empedernido, traços mais vincados e um semblante que reclamava raiva.
Passou o dia a tentar colocar a casa na ordem que não conseguia impor na alma. Tornara-se num corpo sem emoções. Ou deixara-as encerradas na masmorra da dor. O seu caminho seria agora ladeado pelo trabalho e por relações que não lhe levassem nenhum pedaço do coração. Nem poderiam. Perdera-o naquelas semanas. Apenas a família lhe despertava sentimentos nobres.
A vida seria um palco de marionetas manobradas pelos seus dedos. Elas, as marionetas, os corpos femininos que serviriam de poiso ao seu buscador de prazer. Única e exclusivamente sexo.
Foi assim que se relacionou com Julieta, dois meses depois. Mulher de 42 anos, independente, solitária e de ar sério. Tinha vindo morar para o mesmo complexo havia menos de um mês. Vira-a descer do Rover, chamando-lhe a atenção as pernas longas envoltas em meias de seda negra. A saia erguera-se um pouco deixando antever a coxa elegante, sugerindo mais que mostrando os mil segredos que, debaixo do tecido, estariam por desvendar. Observou as feições atraentes, embora rígidas. Cabelo forçadamente preso atrás, parecendo querer atenuar o efeito das ondas vermelhas que atraíam como um íman. Atraiu-o o semblante sério e a postura rígida, num desejo de derrubar defesas.
Dias depois, já esquecido da nova vizinha, vira-a de novo, carregando algumas caixas para a entrada do prédio do lado. Sorriu e aproximou-se. – Quer ajuda? Parecem-me demasiado pesadas para si – oferecera, em jeito de cumprimento. – Obrigada, mas acho que consigo sozinha, já estou a terminar – recusara, educadamente. – Insisto.
E conseguira. A ajuda transformara-se num café, dias depois num jantar em casa dela e horas após, no meio dos lençóis alvos, invadindo aquele corpo que conseguira conquistar. Nada mais queria dela a não ser sexo e o prazer de a ter conseguido dobrar. Horas depois de sair do seu apartamento, esquecera-a. Fugiu a todas as tentativas de contacto dela com a diplomacia de que foi capaz. Sim, tinha agora consciência de que fora um bruto sem qualquer sensibilidade.
Na semana seguinte já se rebolava na cama de um motel com Filipa, uma jovem de 20 anos que conhecera no ginásio que frequentava. Feitas bem as contas, teria idade para ser pai dela, embora precoce, mas o prazer que sentira em enterrar-se naquele corpinho tenro e macio, fresco e perfumado, quase virginal, fizera-o esquecer qualquer diferença de idades. Até porque fora a jovem que o assediara com olhares ingenuamente sedutores. Por coincidência passara a encontrá-la sempre no horário a que ia fazer exercício. Não demorou uma semana para a arrastar para uma cama de lençóis de cetim, por onde tantos outros corpos haviam passado, sedentos de luxúria.
As luzes acenderam-se despertando-o do sonho real em que estava mergulhado. Intervalo. Seria agora que cederia à tentação de um cigarro? Ou deixar-se-ia ficar esparramado na cadeira à espera que o filme retomasse e a escuridão lhe permitisse regressar ao passado?
Fumar, não. Não tinha cigarros.

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Sessão de Cinema

Posted by Sutra under Sessão de cinema on Thursday Jan 22, 2009


Sessão de Cinema – iniciado em 01/10/2005, trata-se de um conto cuja acção decorre durante cerca de 100 minutos do filme que o nosso protagonista assiste e que o faz reviver toda a sua vida amorosa, recordando todas as mulheres que amou, desejou e fizeram parte da sua vida, em relações que variam da maior doçura à mais franca intensidade – já terminei de o escrever, falta apenas publicar aqui.
Artigo de 23/07/2007


(…WinkTinhas um conto em que encarnavas o papel de um homem, perdeste a pica de escrevê-lo?(…Wink
P.
– De modo algum! Estás a falar do ‘Sessão de Cinema’ que começou a ser escrito na mesma altura em que comecei a escrever a Shiva, logo no ano de início do site, em 2005.
Novidade: já se encontra terminado desde o início deste ano. Apenas pensei em publicar o resto só depois de avançar um pouco mais com o conto da Shiva. Além disso, na altura em que o terminei não estavam ainda registados os capítulos finais e, sabes como é isto no mundo da internet, plagiam-se textos, copiam-se ideias, e é preciso prevenir. Mas em breve ele voltará a ser conhecido de quem o acompanhava.
Artigo de 03/11/2008


Para quem não esteja familiarizado com este conto em que escrevo num papel masculino, aconselho uma leitura pelo conto. São apenas 13 Capítulos até agora e penso que poderão gostar, pois ele vai ser publicado até ao fim, desta vez. Tal como prometi quando elaborei o tal calendário.
Não é assim tão fácil entrar dentro de uma personagem masculina e tentar ver do lado ‘deles’ as reacções a uma mesma situação. Dizem que somos complicadas, mas a verdade é que somos nós, seres humanos, que colocamos complexidade onde ela não existe. Todos somos difíceis de entender se assim o quisermos, ou se não nos esforçarmos o suficiente para entender o outro.
Nelson cometeu erros que todos os homens e mulheres cometem. Amou, foi traído, traiu. Chorou, riu, foi cruel e sofreu.
Como experiência na interpretação de um papel masculino devo dizer que não ficarei por aqui. Mas espero demorar bem menos tempo para terminar um conto do que estes 3 anos que demorou a Sessão de Cinema.

Mais logo, aqui ficará o Capítulo 14 da Sessão de Cinema.

NotaShock atraso em relação ao Calendário deve-se ao facto de ainda não ter sido reaberto o blog Viciados no Sexo, podendo atrasar a publicação do restante por mais um dia – sobre isso, amanhã haverão novidades!


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Sessão de Cinema – 13º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Wednesday May 30, 2007


(no capítulo anterior – Completo)
Sentira uma raiva e uma cegueira que quase o fizeram regressar ao quarto e acabar com os dois. Mas, sabia também que isso não passava de pensamento e era mais um grito de dor que vontade para praticar qualquer acto violento. De punhos cerrados, fizera um esforço para não gritar, nem esbofetear Lena, quando esta se prostrou à sua frente, de robe vestido, a fumar um cigarro, nervosamente. Em vez disso: – Também já fumas? Que outras novidades tens para mim? Não queres aproveitar para as apresentares todas agora? – questionava sem parar. – Nelson, eu não sei que te dizer. – Mas tu não precisas dizer nada, minha cara – a revolta transformava-se gradualmente em ironia e cinismo. – Não sei como isto aconteceu… – Sabes sim, Lena, sabes muito bem. Não precisas inventar nenhuma história, nem vir com desculpas esfarrapadas. O nosso casamento acabou há muito tempo e por culpa de ambos – fez uma pausa, olhando-a e continuou – Apenas não havia necessidade de termos chegado a este ponto. Infelizmente optaste pelo pior caminho para resolver os problemas entre nós.
Lena baixara a cabeça sem dizer uma palavra, num gesto de quem não deixa de discordar do que ouvira. – Volto daqui a uma hora, para dar tempo ao teu amante que saia sem que eu tenha de o voltar a ver. Depois farei a minha mala e estarei fora uns dias. – Vamos conversar, Nelson, por favor. – Já dissemos tudo o que tínhamos a dizer um ao outro neste último ano e meio. Já é tarde para qualquer conversa. Agora acabou, Lena.
E saíra.

13º Capítulo


Remexeu-se inquieto na cadeira. Os olhos acompanhavam a profusão de cores que se desenhava no grande ecrã, em trajes de festa e alegria, vestidos por gente de sorrisos colados na face, em oposição aos sentimentos confusos que o invadiam.
Sentira-se arrasado no dia em que encontrara Lena na cama com outro. Fora um rude golpe na sua vida, talvez o maior deles. Nem a perda do bebé o fizera sentir assim, pois ainda tinha esperança de serem pais. Mas, naquele dia haviam-se esfumado todos os sonhos de um futuro em conjunto.
Regressara a casa algumas horas depois para fazer a mala, mas Lena não estava. Saíra rapidamente antes que ela regressasse. Fora para um hotel, onde permanecera durante mais de uma semana: apenas até ela lhe ligar a dizer que arranjara apartamento e que já tinha completado as mudanças.
Com Lena aprendera a amar verdadeiramente e, também com ela, aprendera a sofrer pela perda de um amor. Mas foi devido a essa dor que tomou consciência do mal que fizera a outras mulheres. Mulheres que o amaram, como Lígia, que ele rejeitara, ou como Rosa.
O desespero levara-o a procurar soluções no fundo de um copo de whisky. Fizera o que criticara tantas vezes noutros sem saber que passaria pelo mesmo tormento: o vício e a loucura de achar que seria numa garrafa que estaria a solução. O problema é que nunca encontrara a garrafa certa.
Mas, tinha do seu lado a irmã, o cunhado e o sobrinho, nascido alguns meses antes. E foram eles que o ajudaram a não se tornar um alcoólatra. Metera baixa e, durante quase um mês não saíra de casa, alimentando-se com o que tinha no frigorífico e na despensa e, esvaziando o bar. Deixara de distinguir o dia da noite, reconhecendo apenas os fins-de-semana, pelos gritos das crianças dos vizinhos no parque junto ao prédio.
Três semanas após o início desses desvarios, ouvira a campainha tocar de forma insistente, seguida de batidas na porta, acordando-o de mais um desmaio alcoólico. Procurou o que vestir no meio da desarrumação do quarto e lá encontrou umas calças de fato de treino. As batidas e o toque de campainha continuavam sem parar. – Já vai! – gritara, irritado por tanta insistência.
E, quando abrira a porta: – Mas que se passa contigo, Nelson? Há quase uma semana que te ando a telefonar e sempre com o telemóvel desligado, ainda se tivesses um telefone fixo… – Lúcia interrompeu-se, ao ver a cara do irmão – Que cara a tua! Que andas a fazer? – Não me grites, por favor… – pedira, apertando as fontes com força, enquanto assistia aos movimentos indignados da irmã e via o olhar preocupado do cunhado – dói-me a cabeça. – Não me admira, a julgar pelas garrafas na mesa e no sofá – respondeu o cunhado, com ar reprovador. – Eu sei cuidar da minha vida – respondera mal-humorado. – Nota-se – Lúcia estava furiosa, mas conteve-se. – O que vieram cá fazer? Recriminar-me? – Tem calma, cunhado. Nós só estamos preocupados e não vamos deixar que continues aqui fechado e nesta vida. – Vais para nossa casa por uns dias, até te meter um bocado mais de carne entre a pele e os ossos, senão um destes dias ficas transparente – decidiu a irmã, enquanto circulava pelo apartamento, apanhando roupa pelo chão, as garrafas vazias, pratos sujos. – Não me parece que seja boa ideia – ainda tentara argumentar. – Não nos interessa muito o que tu achas, mas antes o que precisas e não se discute mais isso – o cunhado fora peremptório.
Enquanto ele tomava um banho, a irmã arrumara o apartamento e fizera uma mala pequena com alguma roupa, colocando a outra num saco que levaria para lavar e engomar.
E assim permanecera em casa deles durante duas semanas, tempo que dedicou quase em exclusivo ao sobrinho, cuidando de si mesmo, desabafando com a irmã e o cunhado.
Quando se encontrou a si mesmo, regressou ao apartamento e ao recomeço.

© Sutra 2007

Nota 1: amanhã é o vídeo!
Nota 2: mais logo actualizo mais links
Smile

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Sessão de Cinema – 12º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Saturday Mar 24, 2007


(no capítulo anterior – Completo)
Corpos que rebolavam na cama, junto com o seu, constituindo o abrigo que ele necessitava, sem ele mesmo se aperceber disso. Usara-as para se vingar do ser feminino, esquecendo que ninguém pode pagar pelos erros dos outros. Mas, sentira-se duplamente traído: primeiro pela sua mãe que o abandonara, depois Lena, com o que lhe fizera.
Concentrou-se de novo no filme e olhou em seu redor, para ver se alguém se apercebia do conflito que se desenrolava naquela cadeira da sala de cinema.
Apercebeu-se que já se encontrava mais um casal atrás de si e ainda dos sons provenientes do seu lado direito: gemidos, suspiros e o remexer nas cadeiras.
Sorriu, no meio da sua tristeza e olhou as horas no relógio de marca no pulso: dezoito horas e oito minutos – cerca de uma hora desde o início do filme.

12º Capítulo


Tentou, em vão, afastar o pensamento que o levava ao dia em que o seu casamento terminara de vez. Ou o que ainda restava dessa relação.
Com o passar dos dias, semanas, o afastamento entre ambos fora sendo cada vez maior. Sentia Lena distante e deixava-a em silêncio, sempre que sentia rejeição quando tentava tocar-lhe. Não tentara alterar o rumo dos acontecimentos, apenas aceitando essa atitude da mulher de forma passiva, ilusoriamente pensando que seria apenas uma fase temporária. Mas, os meses foram passando e, ao fim de um ano, deu por si a olhar para uma estranha deitada ao seu lado, com a qual não fazia amor há mais de seis meses. Sendo que a última vez tinha sido uma relação mecânica e rápida, sem prazer. A não ser o orgasmo sentido. O seu, claro. Porque dela, obtivera apenas um virar de costas quando tudo terminou. Nem as suas tentativas para a acariciar e recomeçar lhe haviam valido de alguma coisa, já que apenas conseguira um: – Estou cansada.
E, de repente, começou a notar diferenças em Lena: um brilho diferente no olhar, a cuidado com a aparência, as reportagens que a faziam chegar mais tarde a casa.
Até que, um dia, sem que o tivesse planeado, fora a casa logo após o almoço. A audiência que estava agendada para o dia inteiro, fora adiada para o mês seguinte e ficara com a tarde sem marcações. Pensara em passar por casa, mudar de roupa e ir até ao ginásio, onde não aparecia há mais de duas semanas.
Não estava à espera de encontrar Lena em casa, muito menos da forma como a encontrou. Entrou no apartamento, pousou a pasta no escritório e seguiu directamente para o quarto, cuja porta estava encostada. Quando a abriu não queria acreditar no que os seus olhos lhe revelavam: Lena, na cama, enrolada com um dos colegas de redacção. Estavam de tal forma envolvidos que nem se aperceberam da sua presença, até atirar, para cima da cadeira, o casaco que levava na mão. Ouviu ainda o grito abafado de Lena, mas já virava as costas e se dirigia para a sala.
Sentira uma raiva e uma cegueira que quase o fizeram regressar ao quarto e acabar com os dois. Mas, sabia também que isso não passava de pensamento e era mais um grito de dor que vontade para praticar qualquer acto violento. De punhos cerrados, fizera um esforço para não gritar, nem esbofetear Lena, quando esta se prostrou à sua frente, de robe vestido, a fumar um cigarro, nervosamente. Em vez disso: – Também já fumas? Que outras novidades tens para mim? Não queres aproveitar para as apresentares todas agora? – questionava sem parar. – Nelson, eu não sei que te dizer. – Mas tu não precisas dizer nada, minha cara – a revolta transformava-se gradualmente em ironia e cinismo. – Não sei como isto aconteceu… – Sabes sim, Lena, sabes muito bem. Não precisas inventar nenhuma história, nem vir com desculpas esfarrapadas. O nosso casamento acabou há muito tempo e por culpa de ambos – fez uma pausa, olhando-a e continuou – Apenas não havia necessidade de termos chegado a este ponto. Infelizmente optaste pelo pior caminho para resolver os problemas entre nós.
Lena baixara a cabeça sem dizer uma palavra, num gesto de quem não deixa de discordar do que ouvira. – Volto daqui a uma hora, para dar tempo ao teu amante que saia sem que eu tenha de o voltar a ver. Depois farei a minha mala e estarei fora uns dias. – Vamos conversar, Nelson, por favor. – Já dissemos tudo o que tínhamos a dizer um ao outro neste último ano e meio. Já é tarde para qualquer conversa. Agora acabou, Lena.
E saíra.

© Sutra 2007

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Sessão de Cinema – 11º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Saturday Feb 24, 2007


(no capítulo anterior – Completo)
      E, levantando-se, foi ao sofá da sala buscar um pequeno embrulho que colocou ao lado do seu prato. A emoção que sentira quando desembrulhou, nem agora a conseguia descrever, mas o coração batia-lhe da mesma forma, embora acompanhado de uma tristeza inigualável. – Lena, eu… – e chorara ao olhar a pequenina chupeta com o bilhete que dizia «Olá, pai». – Não digas nada, não precisas dizer nada – e abraçara-o, também chorando de emoção.
      Pegara nela ao colo e levara-a até ao sofá, onde se sentou com Lena no colo, sem deixar de a beijar. Os corpos eram invadidos pela paixão e desejo que sentiam, as almas, invadidas pela alegria, pelo sonho, felicidade. Quando fechava os olhos quase conseguia sentir os seios cheios nas suas mãos, acariciados pelos seus dedos, a boca feminina que acariciava o seu corpo, levando-o à loucura, a sua mão entre as coxas de Lena, invadindo a sua intimidade, fazendo-a gemer contra os seus lábios, a dança dos quadris arredondados em cima das suas coxas, apertando-se contra si, enquanto ele latejava dentro dela, os movimentos sincronizados que os levara ao delírio do orgasmo, do prazer único que era o amor que faziam.
      Nunca mais esquecera cada um dos detalhes daquela noite. Marcara-o para sempre.

11º Capítulo


      O filme continuava e as suas lembranças também.
      Lena estava com seis semanas de gestação quando descobriu que se encontrava grávida e com catorze semanas quando perdera o bebé. O tempo precedente à sua perda fora o mais feliz da sua vida, para entrar depois na fase mais dolorosa para ambos.
      Lena tinha sido destacada para fazer uma reportagem no norte do país, o que a fez permanecer por lá durante três dias, entrevistando as pessoas necessárias, alvo da reportagem. Começara por sentir algumas dores estranhas no início do segundo dia, mas não ligara, pensando que seria passageiro, e que iria ao seu médico, mal regressasse a Lisboa. Mas, queria terminar as entrevistas em primeiro lugar. Não esperava que as dores se agravassem, transformando a viagem de regresso nas horas mais dolorosas da sua vida, conforme ela mesma confessara.
      O resultado fora a perda da criança que estava para nascer e o início do fim do seu casamento, o que veio a acontecer ano e meio depois.
      Sentiu as faces húmidas e levou os dedos ao rosto, tacteando as lágrimas que escorriam pela face. A recordação desses momentos ainda o fazia sofrer, apesar de terem decorrido já cerca de três anos.
      Sentia-se demasiado sensível nos últimos dias, embora nem sempre tivesse sido assim. Passou mal e fez passar mal quem dele se aproximava. Não queria compromissos, mas também não se preocupou com os sentimentos de mulheres com quem teve relações nesse período. Julieta era a única da qual se lembrava o nome, mas apenas porque residia no mesmo complexo que ele. Das outras, apenas imagens difusas das suas feições, e os corpos. Corpos que rebolavam na cama, junto com o seu, constituindo o abrigo que ele necessitava, sem ele mesmo se aperceber disso. Usara-as para se vingar do ser feminino, esquecendo que ninguém pode pagar pelos erros dos outros. Mas, sentira-se duplamente traído: primeiro pela sua mãe que o abandonara, depois Lena, com o que lhe fizera.
      Concentrou-se de novo no filme e olhou em seu redor, para ver se alguém se apercebia do conflito que se desenrolava naquela cadeira da sala de cinema.
      Apercebeu-se que já se encontrava mais um casal atrás de si e ainda dos sons provenientes do seu lado direito: gemidos, suspiros e o remexer nas cadeiras.
      Sorriu, no meio da sua tristeza e olhou as horas no relógio de marca no pulso: dezoito horas e oito minutos – cerca de uma hora desde o início do filme.

© Sutra 2007

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Sessão de Cinema – 10º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Monday Jan 29, 2007


(no capítulo anterior – Completo)
      Durante o julgamento, os seus olhares haviam cruzado por várias vezes, desviando-se logo de seguida. Aconteceu tão amiúde que percebeu não ser um mero acaso. No final, procurara por ela nos corredores mas não a encontrara. No dia seguinte ela lá estava: na mesma sala, à mesma hora, para a continuação daquele julgamento. A troca de olhares intensificara-se, levando-o a um esforço maior para se manter atento ao que se desenrolava na sala.
      Dessa vez fora mais rápido e, quando a sessão terminou, encontrou-a no corredor junto à máquina do café. Também ela agira premeditadamente, contara-lhe depois, e ficara por perto na esperança de o ver passar.
      E esse foi o início de muitos cafés, que se haviam transformado em jantares e noites de paixão que terminavam com a ida de cada um para o seu trabalho – ele para o Tribunal ela para o jornal.

10º Capítulo


      Tinham decorrido 43 minutos desde que o filme começara. 43 minutos de retrocesso na vida, viajando por recordações que se impunham numa época de balanços. Estava numa altura em que necessitava de saber qual o caminho a seguir. Tinha poucos dias para decidir e uma vida inteira sobre a qual ponderar.
      Lena fora a mulher que mais o marcara, não apenas pela intensa paixão, pelo amor que haviam vivido como ainda pelo que sofrera com a ruptura do casamento.
      Três meses depois de se terem conhecido, estavam a viver no seu apartamento na zona alta de Lisboa. Não foram necessários mais do que seis meses para resolverem casar e formar a sua família. Fora no dia em que Lena completava 25 anos. Haviam comparecido apenas os pais dela e irmão, Lúcia e o noivo, actualmente marido, e mais alguns amigos e colegas mais chegados, optando por fazerem uma festa íntima.
      Dividiam a sua vida entre o trabalho e os momentos a dois, que partilhavam, isolando-se no apartamento aos fins-de-semana ou passando esses dias longe da cidade, percorrendo o país de lés-a-lés.
      Olhou o grande ecrã do cinema e sentiu uma dor profunda ao ver o recém-nascido que era colocado nos braços do pai.
      O dia em que Lena lhe tinha contado que esperava um filho de ambos, fora o mais feliz da sua vida. Chegara a casa, esgotado com mais um dia de trabalho que o arrasara. Tinha em mãos um processo complicado que envolvia maus-tratos a uma menor, alegadamente por parte do avô, e essas situações sempre mexiam com o seu íntimo, por mais imparcial que tentasse manter-se. Aliás, necessitava mesmo colocar de parte o que pensava e sentia relativamente a pessoas que eram capazes de tal atrocidade e centrar-se exclusivamente na apresentação de provas e na aplicação da lei.
      Sentia um prenúncio de uma dor de cabeça e pensava que iria tomar um banho de imersão e depois relaxar no sofá, para ver se amenizava. Talvez pedisse a Lena que lhe fizesse uma massagem nas têmporas, como ela tão bem sabia fazer. Mas, quando entrou, sentiu o perfume do incenso que se adensava à medida que se encaminhava para a sala, onde se deparou com uma mesa colocada para os dois: velas, uma jarra com uma rosa, a música suave, o ambiente romântico e envolvente. Da cozinha surgia-lhe o cantarolar alegre de Lena. – Nelson? – perguntara da cozinha. – Sim. Vou tomar um banho e já venho ter contigo – não tinha coragem de lhe dizer que só lhe apetecia deitar e fechar os olhos. Nem queria que ela visse a sua cara, que mostrava como se sentia, como pôde verificar quando se viu ao espelho. Não depois de ter visto como ela tinha preparado o ambiente. Não era normal durante a semana, mas nem se questionou sobre os «porquês» naquele momento. Pendurou o casaco, levou a mala para o escritório e dirigiu-se para a casa de banho.
      Meia hora depois estava junto de Lena, pronto para saborear o requintado jantar que ela havia preparado. – Hoje nem me deste um beijo quando chegaste – reclamara ela, docemente. – Estava a precisar de mergulhar logo no banho e relaxar. Foi por isso, amor. – Outro dia daqueles, não foi? – Nem me fales, hoje foi mesmo exasperante. Mas, agora quero esquecer isso e pensar em coisas boas. Comemoramos alguma data especial que eu tenha esquecido? – perguntara. E, sem dar tempo a que Lena respondesse, acrescentara: – Desculpa, amor, mas este julgamento anda a deixar-me mais cansado que o habitual. Deve ser também necessidade de férias que, felizmente, já não demoram… – Não, calma. Não esqueceste nada. Temos uma razão para comemorar, mas tu é que ainda não a sabes – e sorriu, daquela forma que só as mulheres que carregam uma nova vida dentro de sei, sabem sorrir: como se transportassem o maior segredo e o mais belo tesouro do mundo. – Não estou a entender – dando mais um gole no vinho branco que acompanhava o peixe assado no forno. – Isso porque ainda não tentaste adivinhar. – Ah, amor, pode ser qualquer coisa. Deixa ver… foste promovida? – Não… frio, muito frio – e sorria. – Então… recebeste uma proposta de outro jornal, bastante aliciante. – Estás gelado, querido. Não tem nada a ver com o jornal. – O aniversário do nosso casamento não pode ser, porque foi no mês passado. – É verdade, quatro anos, meu amor. – Quatro anos de felicidade. Mas, então… não sei… – Vou dar-te uma pista. Toma um pequeno presente.
      E, levantando-se, foi ao sofá da sala buscar um pequeno embrulho que colocou ao lado do seu prato. A emoção que sentira quando desembrulhou, nem agora a conseguia descrever, mas o coração batia-lhe da mesma forma, embora acompanhado de uma tristeza inigualável. – Lena, eu… – e chorara ao olhar a pequenina chupeta com o bilhete que dizia «Olá, pai». – Não digas nada, não precisas dizer nada – e abraçara-o, também chorando de emoção.
      Pegara nela ao colo e levara-a até ao sofá, onde se sentou com Lena no colo, sem deixar de a beijar. Os corpos eram invadidos pela paixão e desejo que sentiam, as almas, invadidas pela alegria, pelo sonho, felicidade. Quando fechava os olhos quase conseguia sentir os seios cheios nas suas mãos, acariciados pelos seus dedos, a boca feminina que acariciava o seu corpo, levando-o à loucura, a sua mão entre as coxas de Lena, invadindo a sua intimidade, fazendo-a gemer contra os seus lábios, a dança dos quadris arredondados em cima das suas coxas, apertando-se contra si, enquanto ele latejava dentro dela, os movimentos sincronizados que os levara ao delírio do orgasmo, do prazer único que era o amor que faziam.
      Nunca mais esquecera cada um dos detalhes daquela noite. Marcara-o para sempre.

© Sutra 2007

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Sessão de Cinema – 9º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Thursday Jan 4, 2007


(no capítulo anterior – Completo)
      (...)
      A doença do pai reunira-os de novo, mas agora nada mais os poderia separar e, para trás, ficaram os anos em que ele havia assistido à tristeza do pai por nunca mais ter sabido do paradeiro da filha.
      Tó Zé, o pequeno de três anos, era seu afilhado e carregava consigo o nome do avô paterno – António.
      Nelson pensava na alegria e orgulho que sentia da sua família e em como tinha sorte por os ter tão perto. Haviam sido eles a apoiarem-no quando o seu segundo casamento havia terminado, altura em que sofrera demasiado. Lena havia sido a sua segunda mulher. Aquela que lhe roubara o coração quando a conheceu e anos de vida, quando tudo terminou.

9º Capítulo


      Pensou se não seria melhor desistir de ver o filme e sair dali para um qualquer outro lugar, já que mal prestava atenção ao que se passava no desenrolar da fita. Mas, deixou-se ficar, a atenção desperta para uma cena que lhe provocou mais um tumulto de recordações. Apercebia-se que o filme contava a história de uma família que passara pela opressão do Antigo Regime, por sucessos, fracassos, casamentos desfeitos, amores perdidos. Por isso é que, em cada pedaço de filme se reencontrava a si mesmo. Como este agora, de um casal que passeava de mãos dadas, pelo passeio junto a um rio.
      No tempo de namoro com Lena, tinham por hábito passar tardes a percorrer a margem do Tejo, desde o Cais do Sodré até Belém. Eram horas em que perdiam a noção do tempo e se entregavam ao puro prazer da companhia um do outro. O que partilhavam era muito mais que apenas amizade, paixão e sexo. Era uma comunhão que nunca havia sentido com mais ninguém. Nenhuma mulher era como ela. Em áreas profissionais distintas, falavam sobre todo e qualquer assunto, pois ela denotava um saber que raramente encontrara em mulheres da sua idade.
      Tinha trinta anos quando a conhecera e ela vinte e quatro. Uma jovem recém saída da Universidade, com imensos sonhos e ilusões sobre o mundo do jornalismo. Conseguira um estágio num dos jornais diários mais conhecidos e empenhara-se com fervor na carreira, mas investindo também na relação de ambos que surgira de imprevisto.
      Ele com uma carreira promissora na área da justiça, contava já alguns anos, com um casamento fracassado e inúmeras relações que o haviam ensinado a ver o mundo de forma menos cor-de-rosa, sentia que renascera com este amor.
      Haviam-se conhecido no Tribunal, num dos casos mediáticos em que ele intervia, e ela assistira para fazer a reportagem para o jornal.
      Durante o julgamento, os seus olhares haviam cruzado por várias vezes, desviando-se logo de seguida. Aconteceu tão amiúde que percebeu não ser um mero acaso. No final, procurara por ela nos corredores mas não a encontrara. No dia seguinte ela lá estava: na mesma sala, à mesma hora, para a continuação daquele julgamento. A troca de olhares intensificara-se, levando-o a um esforço maior para se manter atento ao que se desenrolava na sala.
      Dessa vez fora mais rápido e, quando a sessão terminou, encontrou-a no corredor junto à máquina do café. Também ela agira premeditadamente, contara-lhe depois, e ficara por perto na esperança de o ver passar.
      E esse foi o início de muitos cafés, que se haviam transformado em jantares e noites de paixão que terminavam com a ida de cada um para o seu trabalho – ele para o Tribunal ela para o jornal.

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Sessão de Cinema – 8º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Saturday Nov 25, 2006


(no capítulo anterior – Completo)
      (...)
      Quatro meses depois estavam divorciados e raras vezes se haviam encontrado depois disso, tirando uma ou outra vez que se viram em lugares públicos. Sabia que ela tinha voltado a casar e era mãe de duas crianças.
      Ele casara de novo, também, julgando que esse seria o fim da linha quanto a relacionamentos. Foram necessários seis anos para descobrir o engano.
      Interrompeu os pensamentos, tomando atenção ao ecrã à sua frente no qual, cores se misturavam e sons se faziam ouvir. Qual era mesmo o nome do filme? Não se recordava!
      Na verdade, nem sabia se isso era mesmo importante.
      No fim, acabaria por lhe chamar de retrospectiva da sua vida.

8º Capítulo


      Isabel, Rosa, Ana, Clara, tinham sido apenas algumas das mulheres que recordara na última meia hora. Mas outras tinha conhecido, muitas das quais já nem se recordava o nome. Alguns casos de apenas uma noite, outros de alguns dias, semanas, meses.
      Umas haviam deixado a sua marca, outras haviam sido insignificantes no caminho que trilhara. Nelson pensava em como havia sido a sua vida – trinta e oito anos de bons e maus momentos, como o de todo o indivíduo.
      Um desses bons momentos havia sido o reencontro com a irmã, quase doze anos depois de a mãe ter saído de casa, levando-a consigo e de terem deixado de contactar. Lúcia tinha 24 anos quando se encontraram no hospital onde o pai se encontrava internado em estado grave. A mãe tinha-a deixado aos cuidados dos avós maternos e fora para França, deixando a filha que estudava na Universidade. Ao saber que o pai estava muito mal tinha finalmente ultrapassado todas as barreiras que tinha imposto a si mesma pelas circunstâncias e influência da mãe e havia feito as malas.
      A emoção do reencontro junto ao leito do moribundo ultrapassara o que ele imaginara sentir. Nos primeiros anos de afastamento sonhara vezes sem fim com aquele momento. Com o passar dos anos começara a acreditar que esse dia nunca chegaria. Ficou a saber que ela estava em Lisboa a viver e estudar, apenas a alguns minutos do seu apartamento, em casa dos avós.
      Infelizmente o pai já não recuperara e falecera dois dias depois, e, logo após a cerimónia fúnebre, haviam regressado juntos a Lisboa. Nunca mais se haviam separado e conhecera o namorado da irmã e actual marido. Fora o padrinho de casamento de Lúcia, levando-a ao altar, na falta do pai. A mãe não comparecera ao casamento da filha, demonstrando aquilo que sempre fora: desinteressada pelo futuro dos filhos, preocupando-se apenas consigo mesma. Na verdade, levar Lúcia consigo não tinha sido mais do que tentar dar um golpe no coração do marido que deixara, sem se importar que, com esse gesto de vingança apenas havia criado angústia, mágoa e tristeza em três seres, privando-os do contacto entre si.
      A doença do pai reunira-os de novo, mas agora nada mais os poderia separar e, para trás, ficaram os anos em que ele havia assistido à tristeza do pai por nunca mais ter sabido do paradeiro da filha.
      Tó Zé, o pequeno de três anos, era seu afilhado e carregava consigo o nome do avô paterno – António.
      Nelson pensava na alegria e orgulho que sentia da sua família e em como tinha sorte por os ter tão perto. Haviam sido eles a apoiarem-no quando o seu segundo casamento havia terminado, altura em que sofrera demasiado. Lena havia sido a sua segunda mulher. Aquela que lhe roubara o coração quando a conheceu e anos de vida, quando tudo terminou.

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Sessão de Cinema – 7º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Tuesday Nov 14, 2006


(no capítulo anterior – Completo)
(...)
      A vida ensinara-lhe que, mais do que a aparência, contava o carácter e o coração. E, nesse aspecto, Rosa era uma mulher belíssima. Mas na época em que a conhecera, ainda valorizava mais um corpo do que uma alma.
      Passou a mão pelo rosto e sentiu uma humidade na ponta dos dedos, que o fez recuperar do nevoeiro do passado, onde mergulhara naqueles minutos. Também isso a vida lhe ensinara: um homem também se emociona, também se arrepende e é sensível. E não tinha por que o esconder, parecendo forte como a sociedade assim convencionara.
      A acção do filme continuava e, meio perdido, voltou a tomar atenção ao que se desenrolava no ecrã.
      Um drama como o da sua vida.

7º Capítulo


      As imagens no grande ecrã sucediam-se, mostrando o que parecia ser uma festa de aniversário de um adolescente. No seu peito, sentia ainda o aperto que a recordação de Rosa lhe trouxera. Não havia sido a única mulher que havia magoado com a sua impetuosidade e imperdoável falta de sensibilidade, originadas por um orgulho masculino exagerado e pela atracção das aparências. Mas havia sido esse o universo em que se movera desde que casara com Isabel.
      O som da música festiva, as conversas, o tilintar de copos, fez com que Nelson se visse a si mesmo, não naquela festa, mas numa das que se haviam tornado frequentes nos dois anos e meio de casamento.
      O namoro com Isabel havia começado quase por iniciativa dela e dos amigos. As saídas constantes com o mesmo grupo, praticamente formado por casais, haviam aproximado aqueles que ainda não tinham par – ele e ela. E, após alguns meses de convivência entre ambos e de piadinhas dos amigos que faziam de Cupido, acabaram por começar a namorar, após um convite dela para passar a noite em Cascais, na quinta onde vivia com os pais. Não recusara.
      Estariam sozinhos, já que os pais de Isabel estavam de férias no Brasil. Sabiam no que resultaria aquela noite, já não existiriam surpresas, nem mistérios. Ela queria-o, ele aceitava-a e seguiu o caminho que lhe estava predestinado, embarcando numa relação que escolhera apenas por acomodação.
      Não podia negar que Isabel o atraía fisicamente e isso, por si só, já constituía um bom começo, pensava nessa altura. No entanto, não era o suficiente para cimentar uma relação como descobriu mais tarde quando acordou para a realidade.
      Essa atracção fora por demais evidente quando se beijaram nessa noite e se encaminharam para o quarto. A fusão dos seus corpos fora enlouquecedora, urgente, quase selvagem e entrara nela como se fosse a última coisa que faria na vida. Não saberia dizer naquela altura, onde terminava o corpo feminino e se iniciava o seu. Fora uma noite de sexo, extraordinária.
      Aliás, o sexo sempre fora excelente entre eles, não o podia negar. Mesmo depois de separados haviam tido um tórrido encontro no escritório dela.
      Haviam combinado almoçar a fim de discutirem sobre o que fariam com a casa que tinham adquirido quando casaram e fora ter com ela à sucursal que Isabel geria. Do grupo de empresas da família. Entrara no gabinete dela e deparara-se com Isabel vestida com um tailleur azul-escuro, muito feminino, de saia justa, acima do joelho e casaco que deixava perceber os seus seios nus. Estava provocante, sensual. Ao cumprimentá-la com um beijo na face, sentindo a doce fragrância que a envolvia, acabara por a apertar contra si, beijando-a no pescoço.
      Não fora preciso mais para se envolverem num beijo abrasador, de línguas entrelaçadas, desejosas de dançarem juntas uma última vez.
      - Estás a tomar a pílula?
      - ...sim…
– a resposta ofegante.
      Subira-lhe a saia, debruçara-a sobre a secretária e, depois de desapertar as suas calças e afastar o tecido da sua tanga, entrara nela de forma vitoriosa, sentindo-a pronta, húmida, em sucessivos impulsos, que aumentaram de ritmo até culminar num orgasmo em poucos minutos. Ficara ainda alguns momentos inclinado sobre as costas femininas, até a respiração regularizar. Depois, olharam-se em silêncio enquanto ajeitavam as roupas e se preparavam para sair.
      Quatro meses depois estavam divorciados e raras vezes se haviam encontrado depois disso, tirando uma ou outra vez que se viram em lugares públicos. Sabia que ela tinha voltado a casar e era mãe de duas crianças.
Ele casara de novo, também, julgando que esse seria o fim da linha quanto a relacionamentos. Foram necessários seis anos para descobrir o engano.
      Interrompeu os pensamentos, tomando atenção ao ecrã à sua frente no qual, cores se misturavam e sons se faziam ouvir. Qual era mesmo o nome do filme? Não se recordava!
      Na verdade, nem sabia se isso era mesmo importante.
      No fim, acabaria por lhe chamar de retrospectiva da sua vida.

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Sessão de Cinema – 6º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Friday May 26, 2006


(no capítulo anterior – Completo)
      - Então, deixemos o jantar para depois.
      Recordou o sorriso insinuante que ela lhe lançou e a forma como fez deslizar os dedos pela coxa, até tocar o seu sexo excitado.
      Colocou o carro de novo a trabalhar e partiu para um local onde pudessem ficar a sós.
      Agora pensa como se sentira ansioso por penetrar aquele corpo roliço. Sempre havia preferido mulheres esguias, quase esqueléticas. Mas, aquela mulher conseguira tirá-lo do sério, mesmo sem ter um corpo dentro do que se havia convencionado como bem feito.
      Mas aquela relação não terminara por ali.

6º Capítulo


      Mergulhado nas profundezas da memória, recordou um dos grandes erros que cometera na sua vida. Fora duro, egoísta e insensível com Rosa.
      Inebriado pelo seu perfume e pela excitação que o cegava, apressara-se a possuir aquele corpo, sem pensar no que viria depois. Fora sexo simplesmente, sabia-o. Isso, para ele, não constituía problema algum, mas deveria ter pensado nos sentimentos daquela que se havia tornado, antes de mais, uma amiga, por quem tinha carinho. E aquela atracção que o torturava, oriunda das palavras que se escreviam e das horas que passavam ao telemóvel.
      Recordou como se dirigiram a um hotel próximo e pediram um quarto. Assim que fecharam a porta nas suas costas, envolveram-se num beijo sôfrego que os consumia e fez esquecer de tudo o resto. As roupas espalharam-se pelo chão e a cama sentiu o peso dos dois corpos abraçados.
      A delicadeza das feições dela transformara-se em desejo, brilhando de paixão, o olhar marcante que conversava com o seu. Corpos nus suados, rebolando entre gemidos de prazer. Palavras que ecoavam pelas quatro paredes e se despiam de qualquer timidez.
      Sexo. Puro sexo. Para ele assim havia sido. Para ela, nunca chegara a saber.
      Fora uma noite de uma luxúria avassaladora que os fizera tremer e investir uma e outra vez, mergulhando alucinados na volúpia dos sentidos, ultrapassando todos os limites do raciocínio. Descansaram nos braços um do outro, de corpos satisfeitos e mentes turvas pelo prazer.
      E foi na manhã seguinte, mal a claridade do dia despontara, que ele se consciencializou da noite que passara com a Rosa Vermelha. Olhando-a enquanto dormia, observara o corpo roliço, os seios semi-cobertos pelo lençol, o vulto do corpo que fora seu. E não gostara do que sentira. Aquele misto de vergonha e algo mais que não conseguira identificar de imediato. E Rosa escolheu esse momento para abrir os olhos e sorrir-lhe. Erguera o rosto e dera-lhe um suave beijo nos lábios, virando-se e adormecendo de novo. Mas ele não sentira desejo. Não sentira nada a não ser… a tal sensação de vergonha e… não podia ser, mas a verdade é que havia alguma repulsa à mistura. A boca feminina já não lhe parecia um fruto suculento no qual detivera o seu olhar enquanto conversavam na véspera. O perfume que o inebriava desaparecera, dando lugar ao aroma da realidade. O corpo já não era apenas roliço, era o que ele não desejava numa mulher para si.
      Erguera-se da cama, vestindo-se rapidamente e saindo do quarto sem olhar para trás. Quisera sair dali o quanto antes, sem que ela acordasse, fugindo de explicações e daquilo que sentira naquele momento. Pagara o quarto na recepção, deixando indicações para que acordassem Rosa às 8h30m, pois era dia de trabalho, e saíra apressadamente sem uma palavra de despedida.
      Mal chegara ao escritório, enviara-lhe um mail, onde dizia que tudo não passara de um engano, de uma noite apenas e que o melhor seria não falarem tão cedo, pois sentia que abalara a amizade entre eles. Apenas isto, em meia dúzia de linhas. De forma fria, brusca.
      Ela nem lhe dera resposta. E não voltara a entrar em nenhum chat durante mais de um ano, com receio de se cruzar com a Rosa Vermelha. Sabia que ela nunca lhe perdoaria tamanha cobardia e, hoje sabia como tinha sido um verdadeiro crápula, mas nada poderia fazer. Nunca mais soubera nada dela, mas se voltasse a encontrá-la algum dia, pedir-lhe-ia perdão por aquela atitude miserável.
      A vida ensinara-lhe que, mais do que a aparência, contava o carácter e o coração. E, nesse aspecto, Rosa era uma mulher belíssima. Mas na época em que a conhecera, ainda valorizava mais um corpo do que uma alma.
      Passou a mão pelo rosto e sentiu uma humidade na ponta dos dedos, que o fez recuperar do nevoeiro do passado, onde mergulhara naqueles minutos. Também isso a vida lhe ensinara: um homem também se emociona, também se arrepende e é sensível. E não tinha por que o esconder, parecendo forte como a sociedade assim convencionara.
      A acção do filme continuava e, meio perdido, voltou a tomar atenção ao que se desenrolava no ecrã.
      Um drama como o da sua vida.

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Sessão de Cinema – 5º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Sunday Jan 15, 2006

5º Capítulo


      A acção do filme parecia agora mais violenta. Era uma espécie de guerra ou revolução. Perdido nos seus pensamentos não se havia apercebido do desenrolar da história, mas fê-lo recordar que, quando houvera a única revolução a que assistira, tinha apenas 7 anos, feitos dois meses antes. Pouco entendera das vozes, gritos de alegria, palavras de amizade e companheirismo, sorrisos estampados nos rostos e um ar onde se respirava liberdade. Mesmo sem saber exactamente a que sabia isso naquela altura. Hoje, já sabia o perfume que a liberdade tinha e ele nem sempre o sentira.
      De olhar fixo no ecrã, tomou atenção à jovem que, de sorriso triste e lágrimas escorrendo dos olhos claros, recordava a vida de seu pai, preso pelas forças policiais de um regime ditatorial, retratado naquele filme, que nunca conhecera a liberdade. Ela fazia-o lembrar de alguém. Mais uma mulher que havia passado pela sua vida, com certeza. Afinal, nos 21 minutos de filme que haviam decorrido, várias figuras femininas do seu passado, surgiram na sua memória, como se fosse esse o filme a que estivesse a assistir.
      Mergulhou naquele rosto triste, nos olhos repletos de água, nas formas rechonchudas daquela mulher e recordou-se dela. Rosa.
      Tinha 28 anos quando a conheceu e fora um dos seus casos entre um casamento fracassado e outro. Rosa surgira na sua vida da forma mais inusitada: pela Internet. Hoje em dia sabia que era algo perfeitamente natural, mas naquela altura o desenvolvimento dessa via de conhecimento não tinha a mesma relevância que tem hoje, dez anos depois, em que os jovens se juntam em jantaradas, copos, saídas, flertes, namoros e sexo. Não fazia muito tempo que começara a frequentar um chat por piada, induzido por um colega de trabalho. No primeiro dia tudo havia sido muito estranho, ver pessoas a conversar sem se conhecerem e falarem tão abertamente sobre tantos assuntos e alguns mais íntimos. Paulo, seu colega, gozava com ele pela ignorância, ingenuidade e, quem sabe, por aquele atraso nas novas tecnologias. Mas uns três ou quatro dias depois, já tudo era muito natural e tinha alguns contactos com os quais conversava todos os dias.
      Cerca de um mês depois de se ter iniciado nessas andanças, entrara no chat uma mulher de nick Rosa Vermelha que pouco falava de si mesma, deixando um rasto de perfume-mistério no ar. Tinha um discurso inteligente sobre os mais variados assuntos e uma palavra de simpatia a todos os que entravam e saíam, ou a ela se dirigiam. Mas de si, pouco ou nada dizia. E aquela desconhecida mexera com seus sentidos de tal forma que não demorou muito a conversar com ela em privado. Dificilmente a levara a falar de si própria. Tinha o condão de fazê-lo desabafar da sua vida, os seus problemas, com uma naturalidade que o admirava, mas sempre que ele tentava aprofundar mais sobre a sua vida, o seu passado, as suas paixões, ela ria, dizia alguma piada e mudava habilmente de assunto, deixando-o confuso. Sabia driblar com as palavras como ninguém, fintando-o de forma a desarmá-lo em palavras, não lhe restando outra saída senão a de não insistir. Ela falaria de si quando bem entendesse e quando sentisse confiança suficiente nele. Chamava-a de «minha Rosa», sem saber que era mesmo esse o seu nome. Mas, o seu perfume, quase o sentia na pele, mesmo sem a conhecer.
      Um dia trocaram números de telemóvel e ouviram-se pela primeira vez. A voz feminina fê-lo tremer da sensualidade nela contida. O desejo tomou conta do seu corpo e ansiava conhecer aquela mulher e apertá-la entre os seus braços. Notava pela sua voz, por mais que ela o tentasse disfarçar, que não lhe era indiferente. E o encontro aconteceu, num final de tarde, em Lisboa, na esplanada da Avenida da Liberdade. Tratava-se de um local público, bastante movimentado, tal como ela havia sugerido.
      Estava um pouco nervoso e sentou-se numa mesa mais isolada das outras ocupadas, olhando em redor para confirmar que ela ainda não havia chegado. Minutos depois, ela chegou. Uma mulher de cabelos longos, escuros e ondulados, de corpo cheio, rechonchudo como ela dizia muita vez, de sorriso intenso e olhar penetrante. Cumprimentaram-se educadamente com dois beijos, mas de movimentos quase suspensos como se não fosse assim que desejavam. A conversa fluiu durante cerca de duas horas, como sabia que aconteceria. Como sempre ocorria entre eles. Esqueceram-se do vaivém de passos, pessoas e carros que passavam, concentrados apenas na companhia um do outro.
      A noite aproximava-se e nenhum dos dois apetecia levantar daquela mesa, ou terminar aqueles momentos.
      - Estás de carro – perguntou ele.
      - Sim, tenho-o no parque dos restauradores.
      - Eu também. Vamos andando até lá?

      E desceram a avenida até entrarem no parque subterrâneo. Ele acompanhou-a até ao carro dela e hesitava entre convidá-la para jantar ou não. Até que o fez e ela aceitou, com um sorriso doce. Saíram dali, cada um no seu carro e encaminharam-se para a zona de Belém. Antes disso, ela deixou o carro dela numa zona segura, sem ser em parque de estacionamento e seguiram no carro dele até mais perto do restaurante. Lembrava-se agora do que sentira quando desligara o carro. Um tremor pelo corpo que o fez olhá-la nos olhos e tocando-lhe o cabelo, debruçou-se sobre ela e depositou-lhe um beijo nos lábios, tacteando em busca da sua aprovação. Sentiu o corpo dela estremecer e viu como semicerrava os olhos, ocultando o que eles lhe revelariam. Beijou-a sofregamente, a língua delineando os seus lábios cheios e rosados, a respiração dela entrando na sua boca. Tinha uma boca quente, macia. Tão doce quanto mel. Tão perfumada como a mais bela rosa vermelha. Não se cansava dos seus lábios de fogo. Apertou-a em seus braços e sentiu como ela se entregava ao desejo. Tocou-lhe suavemente nos seios cheios, gostosos, sentindo como ela se excitava fortemente com as sensações provocadas. E o estado de excitação dele aumentava não apenas pelas carícias que ela lhe fazia na coxa, pelos lábios femininos em seu pescoço, a língua brincalhona em sua pele, como pelo facto de a saber tão excitada. Experimentou deslizar os dedos pelo interior da sua blusa, tacteando um seio e apercebeu-se como o bico estava duro; apertou-o entre os seus dedos, desejando ser antes a boca a fazê-lo.
      Até que ela riu baixinho e soprou no seu ouvido:
      - Não achas que estamos num local público demais?
      - Pois. Talvez tenhas razão.
      - Além disso, viemos para jantar num restaurante e não para nos jantarmos um ao outro
– continuou, rindo naquele tom rouco que lhe fazia tremuras no seu íntimo.
      - Então, deixemos o jantar para depois.
      Recordou o sorriso insinuante que ela lhe lançou e a forma como fez deslizar os dedos pela coxa, até tocar o seu sexo excitado.
      Colocou o carro de novo a trabalhar e partiu para um local onde pudessem ficar a sós.
      Agora pensa como se sentira ansioso por penetrar aquele corpo roliço. Sempre havia preferido mulheres esguias, quase esqueléticas. Mas, aquela mulher conseguira tirá-lo do sério, mesmo sem ter um corpo dentro do que se havia convencionado como bem feito.
      Mas aquela relação não terminara por ali.

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Sessão de Cinema – 4º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Monday Nov 21, 2005

4º Capítulo


      Não demorou muito para mergulhar mais uma vez nos recônditos da memória; para isso, bastou surgir um grande plano de um rosto feminino no qual se destacavam uns olhos negros, de olhar profundo e sensual Foi o suficiente para o fazer recordar a sua primeira experiência sexual com uma mulher. Já sabia o que era ter um orgasmo, depois de ter descoberto aquelas revistas do pai numa caixa em cima do roupeiro e aquele vídeo pornô que ele guardava na mesma caixa de cartão. Começou a masturbar-se aos 12 anos, e também não esquece da primeira vez que teve um orgasmo e se perguntou – «mas que é isto?»
          Sorriu pela lembrança e sufocou uma gargalhada.
      Sentiu um movimento não muito longe de onde se encontrava sentado e reparou num casal que chegava e se acomodava, duas filas atrás da sua. Achou melhor conter-se, para não pensarem que era louco. A rir-se ao ver um filme dramático, não pareceria de alguém normal. Olhou o relógio e viu que tinham decorrido apenas doze minutos da sessão.
      No ecrã aquele rosto feminino sorria de forma sensual e acenava com a cabeça, enquanto ouvia atentamente o que o casal sentado na sua frente lhe contava. Era conselheira matrimonial, segundo tinha entendido pelo pouco que tinha lido das legendas. Aquele olhar penetrante continuava a fixá-lo através da tela e puxou-o para dentro da acção. Mas, de outra acção. A da noite em que experimentou pela primeira vez o toque macio de uns seios fartos e a sua carne ser envolvida na gruta quente a que chamavam vulgarmente de «cona». Ouvira aquele termo tantas vezes na escola e era uma das palavras ditas obscenas, proibidas que a miudagem tanto gostava de soletrar quando se encontravam livres dos olhares e ouvidos dos adultos.
      Clara era o seu nome. Não era uma mulher bonita e que se dissesse que todas as cabeças viravam na rua para a olhar. Mas tinha um olhar que dominava qualquer ser com sangue nas veias. Era como se dos seus olhos emanasse um qualquer podia que mantinha as pessoas em seu redor estáticas, presas de uma palavra ou um gesto seu.
      E ele não fora diferente, ainda por cima sendo apenas um jovem adolescente que mal havia explorado a sua sexualidade. Tinha 15 anos e ela 23. Se fosse hoje, chamar-lhe-iam pedofilia, mas naquele tempo mal se falava nisso, e ainda bem porque para ele havia sido uma experiência inesquecível.
      Era um jovem meio escanzelado, e aparentava ter mais idade do que aquela que tinha na realidade. E sabia que aquilo que a atraíra naquele dia em que lhe derrubara a moto que ele tinha adquirido há uma semana, fora aquele seu ar que parecia uma mistura de jovem rebelde com menino carente. Numa das suas lições de condução, ela derrubara a moto dele que se encontrava estacionada junto ao passeio, perante o olhar aflito do instrutor e do ar divertido de quem passava. Ele apenas ouvira o baque que a moto fez ao cair e saíra a correr do café onde havia entrado para comprar uma Coca-Cola. Depois de muitas desculpas da parte de Clara, e a garantia de que lhe pagaria qualquer arranjo que tivesse de fazer, ele ficara apenas a olhá-la, enquanto ela lhe sorria, aliviada por saber que ele não lhe iria causar problemas pela batida. Convidou-o para tomar um café num outro dia e deu-lhe o número de telefone num papel que retirou da sua mala. Aquele convite pareceu quase como que uma ordem, pela forma convincente como o disse, e pelo modo com que ele aceitou passivamente, apenas acenando com a cabeça, enquanto os seus olhos permaneciam presos aos dela, como se uma corrente os mantivesse assim, unidos.
      Uma semana depois não aguentou mais e telefonou-lhe e, entre algum gaguejar lembrou-a do convite que ela havia feito. Nem sabia se ela ainda se recordava dele. É claro que se lembrava, disse-lhe ela, e estava à espera que ele lhe ligasse há uma semana. Até pensava já como haveria de o encontrar. Sentiu-se inchar de orgulho e vaidade masculina ao ouvir aquelas palavras.
      Combinaram encontrar-se essa noite e esse foi o primeiro de vários encontros para tomarem café ou apenas andar de moto. Não conseguia entender o que fazia uma mulher de 23 anos com um rapaz como ele, ainda na adolescência. Mas sabia que ele se sentia bem com ela. Algumas semanas após a primeira noite, resolveram ir até junto da praia, perto do farol. A luz deste reflectida nas águas enquanto o mar se remexia da cor de prata era uma belo espectáculo a que assistiam algumas vezes, mas aquela noite tudo parecia diferente.
      Foi a noite do primeiro beijo. Não o primeiro beijo a uma rapariga, porque já havia namoriscado algumas miúdas do liceu, mas o primeiro beijo a uma mulher feita e que sabia levá-lo a um prazer maior. Ela sabia beijar como ele nunca tinha sido beijado. Sentiu naquele momento que estava perante uma mulher que tinha alguma experiência sexual. Notava-se em cada toque e cada movimento que ela fazia.
      Nessa noite ficaram apenas por alguns beijos e carícias. Não se atrevera a ir mais longe e tocar-lhe nos seios fartos que desejava desde o primeiro dia.
      Três noites depois, ela levou-o a sua casa. Vivia com uma avó, e esta havia ido visitar uma sobrinha que morava a 78 quilómetros dali e ficaria por lá. Mal entraram em casa, ela puxou por ele, beijando-o e levando-o para o quarto. E ali, entre aquelas quatro paredes de um quarto muito feminino, foi onde beijou uns seios pela primeira vez. Quase teve um orgasmo só de os sentir nas suas mãos, os mamilos rijos na sua língua, enquanto o corpo dela se movia debaixo do dele, apertando as coxas em redor das suas. Foi ali que ele sentiu a primeira vez uns dedos femininos a deslizarem pelo seu pénis, apertando-o ligeiramente e acariciando-o para cima e para baixo, fazendo-o gemer. Foi ela quem se despiu e o despiu a ele, mais uma vez demonstrando a sua experiência. E quando ela pegou na sua mão e a direccionou para a gruta quente e húmida, estremeceu de prazer, culminando num orgasmo quando sentiu a mão dele agarrar-lhe o pénis uma vez mais. Sentiu-se envergonhado, mas ela beijou-o com carinho e disse-lhe ser normal que isso acontecesse, por ser a primeira vez. O seu membro mantinha-se ainda erecto e, após mais alguns minutos, foi ela quem o conduziu para o seu interior. Quase se vinha de novo, ao penetrar na vulva molhada, mas aguentou-se e começou a movimentar-se dentro do corpo feminino em busca do prazer que tanto desejava, enquanto olhava o rosto feminino, que espelhava o mesmo prazer.
      Aquela noite mal dormiram, na ânsia da descoberta dele daquele mundo do sexo.
        Não pôde mais esquecer aquele seu olhar penetrante.
        Igual ao da mulher sensual do ecrã.

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Sessão de Cinema – 3º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Monday Nov 7, 2005

3º Capítulo


      E foi uma surpresa que a deixou de olhos brilhantes como ainda não tinha visto. Costumavam ver alguns filmes onde se viam casais dentro de carros em drive-in, assistindo a filmes, abraçados. Filmes dos anos 40, 50 e 60, esta última a década em que ele nasceu. Ana vibrara com o filme Grease e sonhava em ser uma Olívia Newton-John e ele um Travolta, mas nunca tinha sentido vontade de usar brilhantina nem ter aquele andar meio dançante da personagem Danny daquele filme.
      Naquela noite havia um drive-in a cerca de 15 km de onde ele residia e foi para lá que a levou. Lembrava-se tão bem do filme que haviam visto: Cocktail com o Tom Cruise, uma comédia romântica bem ao gosto de Ana, ainda para mais, ela adorava aquele actor.
      Abraçados no seu pequeno Renault 12, assistiam ao filme, enquanto iam trocando alguns beijos suaves, quase apenas um roçar de lábios. Já não era criança, nem um adolescente na sua primeira vez, mas Ana fazia-o sentir como se fosse perder o mundo naquele momento e ganhá-lo no segundo seguinte. As suas emoções pulavam desencontradas, desciam e subiam qual comboio em montanha russa. O seu sorriso, a forma de jogar os cabelos para o lado, ou de morder o polegar quando estava nervosa, todos os pequenos gestos ele guardava na memória e recordava-os agora.
      Depois de verem o filme, de corpos já bastante aquecidos pelas carícias que deslizavam entre ambos, cada vez mais ousadas, como uma antecipação para o resto da noite, levou-a até sua casa, onde tinha deixado preparado a continuação da surpresa daquela noite. Vivia apenas com o pai que estava a trabalhar no turno da noite nessa semana, já que a mãe os havia abandonado cinco anos antes, levando a sua irmã com ela.
      Entraram na habitação modesta e tapou-lhe os olhos com um lenço, levando-a depois pela mão até à sala. Pediu para ela esperar sem fazer nada e foi à cozinha buscar o espumante gelado e o isqueiro. Mais alguns segundos enquanto ela ria nervosamente, perguntando o que ele estava a preparar, até que nas suas costas, lhe retirou o lenço que a impedia de ver o ambiente criado. Uma mesa posta para dois, apenas com duas taças, dois pequenos pratos, um castiçal cuja luz borboleteando iluminava a sala, uma garrafa de espumante por abrir, num lado da mesa e uma rosa vermelha numa jarra de vidro que encontrara na despensa, dos tempos me que sua mão ainda se preocupava com o embelezamento da casa.
      Ana ficou emocionada pelo carinho com que ele se havia preocupado em proporcionar aquele momento. Na realidade, achou que ele nunca se lembraria que naquele dia comemoravam quatr meses de namoro.
      Sabia que não esqueceria aquele rosto de olhos brilhantes e de sorriso trémulo, mas a vida tinha acabado por fazer adormecer todos aqueles pequenos momentos sentidos que, agora recordava ao olhar aquele ecrã de cinema, onde passava um qualquer filme a que nem dava a merecida atenção.
      Apeteceu-lhe um cigarro. Lembrou-se que havia deixado de fumar há cerca de um mês. Mas, a necessidade de sentir a nicotina a invadi-lo, fazia com que remexesse nos bolsos em busca de algum cigarro perdido para segurar até o poder fumar no intervalo.
      Não encontrou e mergulhou de novo os olhos nas profundezas da cor da tela, regressando ao passado, à sala onde comemorava quatro meses de namoro com a Ana. Na noite em que ela havia sido sua pela primeira vez, inocente, nervosa, mas aquela doçura na entrega, característica de quem ama e é amada de corpo e alma pela primeira vez.
      Ele havia feito um bolo de chocolate para ela, com a sua pouca habilidade para doçaria, e comeram-no enquanto saboreavam o espumante e trocavam sorrisos e olhares repletos de promessas. No fim, estendeu-lhe a mão e levantando-se ambos dos seus lugares, aproximaram-se e, em silêncio, colaram lábios num beijo repleto de doçura e com o tremor do desejo. Olharam-se profundamente e, num assentimento, ele levou-a pela mão pelo corredor, até ao seu quarto, atrás da porta do fundo. Entraram naquele ambiente masculino e, em cima da cama, estava uma pequena caixinha, na qual pegou, oferecendo-lha a ela: dentro estava uma rosa em prata, onde se viam duas letras entrelaçadas: um ‘N’ e um ‘A’.
      Recorda-se de ter visto aquela lágrima deslizar pelo rosto dela, e de a apanhar com os seus lábios, deslizando depois a boca pelo pescoço feminino, trazendo o corpo franzino para junto do seu, ansioso.
      Entre carícias, foram tirando a roupa um do outro, com calma, doçura e com o cuidado de quem sabe que será um momento único.
E foi entre paixão, dor, e muito carinho, que ele a fez sua, e ela sentiu pela primeira vez o que era um corpo dentro do seu e a loucura da escalada pela montanha do prazer, até ao orgasmo.
      Ficaram algum tempo a conversar e sentindo a emoção daquele momento, até que se levantaram, vestiram e saíram. Ela tinha de estar em casa antes da 1h da manhã.
      Quando a deixou à sua porta, ela apertava entre as mãos a caixinha com o presente que ele lhe havia oferecido e no rosto o brilho de uma mulher que se sabe amada.
      Ele guardara na memória o presente que ela lhe tinha oferecido: a sua virgindade.
      Foi mais uma relação que não tinha resultado na sua vida, como tantas outras que se lhe seguiram.
      Acordou daquele sonho do passado e voltou a prestar atenção ao filme no cinema, enquanto guardava por mais alguns momentos, o filme do seu passado, da sua vida.

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Sessão de Cinema – 2º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Friday Oct 14, 2005

2º Capítulo


    Na tela começaram a passar as primeiras imagens, acompanhadas de uma música suave que mexia com os seus sentidos. Misturavam-se cores, no meio de flashes com os nomes dos actores. Desconhecia os seus nomes, não se lembrava de alguma vez os ter visto, mas naquele momento a sua atenção centrava-se na música. Nem do título se lembrava já, mas quando as luzes acendessem, olharia o bilhete que havia machucado e jogado displicentemente no bolso das calças. Apenas lhe interessava a música, como se nos recônditos da sua memória um beep de alerta lhe dissesse que ela fazia parte da sua vida.
    O filme começou, mostrando um parque, aproximando uma cena onde um casal dialogava, aparentemente discutindo. Reparou que ela trazia um vestido branco com pequenas flores que pareciam margaridas. E, aquela música de fundo continuava. Já não sabia se era do filme, ou apenas o eco dentro da sua memória. O vestido branco com margaridas nele desenhadas, e a melodia encantada no seu cérebro, fizeram-no mergulhar no passado.
    E, já não era o casal no jardim que ele via na tela do cinema. Era um rapazinho, com apenas doze anos, que subia as escadas do liceu duas a duas, entrando atrasado na sala de aula, com o rosto afogueado pela corrida e pela vergonha, pedindo desculpas à «stora» pelo atraso. Era apenas mais um dia como tantos outros em que se atrasava por ter de dar o leite à irmã mais nova, enquanto a mãe dormia despreocupadamente. Chamava-se Nelson. Ele mesmo, há 26 anos atrás.
    Na segunda fila do lado esquerdo, encostada à parede, estava Carolina, a menina de cachos loiros que lhe guardara o lugar ao seu lado. Fazia-o sentir-se ainda mais acanhado que a sua natureza normalmente evidenciava. O seu coração palpitava sempre que via aqueles olhos que lhe sorriam com doçura. Sentou-se ao seu lado e de, olhos baixos, numa voz que mal se ouviu, agradeceu a Carolina. Duas horas depois, estavam já no intervalo das aulas e, foi nesses minutos, daquele dia que havia começado tristemente como tantos outros, que se apercebeu pela primeira vez que aquele sentimento que nutria por Carolina, era algo mais que apenas o companheirismo de colegas de carteira.
    O tremor nas pernas que transparecia na voz, fazendo-o aclará-la sempre que lhe dizia algo, não podia significar menos que um sentimento maior que se queria soltar do peito. Enquanto lhe contava porque se tinha atrasado, ela ouvia-o atentamente, de rosto delicado, inclinado sobre o ombro direito. E, foi ela quem lhe agarrou na mão e a apertou contra o seu rosto, depositando um beijo suave, daqueles lábios que pareciam um botão de rosa a desabrochar. Nelson sentiu um arrepio na espinha, como nunca havia sentido. Corou, ficou mudo, e sem saber como, viu-se a aproximar dela. Tremendo, tocou-lhe a pele suave da face, com a mão que tinha livre e, aproximando o rosto do dela, sentiu pela primeira vez o que significava um beijo nos lábios, que se prolongou por segundos, sem que ela se afastasse.
    Esse dia transformou-se num dia especial e ela foi a sua primeira namorada. Nunca mais esqueceu o vestido branco com margaridas desenhadas que ela trazia nesse dia.
    Acordando daquele que parecia ter sido um sonho, voltou a concentrar-se no filme.
    Continuava a ouvir aquela música.
    O casal estava a despedir-se com um beijo apaixonado. Já haviam feito as pazes e cada um seguiu o caminho de sua casa.
    A cena seguinte mostrava a rapariga em casa, sentada à mesa no que parecia ser a refeição familiar, com o pai, a mãe, dois irmãos mais novos e a avó. Falavam de tudo um pouco, discutiam a dificuldade económica das famílias, o desemprego, a educação, o problema da saúde. Minutos depois, tocou o telefone. Era uma amiga da jovem, avisando que estava pronta para irem ao teatro, onde estreava uma peça protagonizada por um amigo comum e, para a qual, haviam recebido convites. Foi mudar de roupa, beijou cada um dos elementos da família e, pegando num casaco de malha, saiu, descendo as escadas apressadamente.
    A amiga esperava-a dentro do carro que conduzia, à porta do prédio. Morena, de cabelos longos, olhos verdes, tinha um sorriso contagiante. No rádio do carro, tocava aquela música baixinho.
    A imagem do filme começou a dissipar-se aos olhos de Nelson, e, em vez daquele carro, viu outro, conduzido por si mesmo, enquanto esperava pela morena, de olhos verdes com quem namorava há quatro meses. No rádio do carro, tocava a mesma música. Sabia agora de onde a conhecia. Tinha 21 anos.
    Ana entrou no carro, deu-lhe um beijo e perguntou para onde iriam naquela noite. Nelson apenas lhe respondeu «surpresa».

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Sessão de Cinema – 1º Capítulo

Posted by Sutra under Diário, Sessão de cinema on Saturday Oct 1, 2005

1º Capítulo


    Descia a avenida com o pensamento em nada. Não sabia o que seria melhor: se entrar num qualquer autocarro e andar sem rumo nas horas seguintes, se sentar-se num qualquer banco de jardim e deixar que o tempo por si passasse. Acabou por adiar de novo a vontade de fazer aquilo que nem sabia querer.
    E, foi quando passava em frente ao velho edifício, palco de grande espectáculos, sala onde viu tantos filmes que jamais esqueceria, entre outros, cujo título já nem se lembrava, que lhe deu uma vontade inexplicável de ir ao cinema. A porta tinha umas barras de madeira seguras com pregos, ferrugentos pelas marcas do tempo. Na vitrina exterior onde antigamente se colocavam os cartazes dos filmes e teatros, o pó acumulava, e pedaços de papel amarelecido, mostravam o quanto haviam deixado aquele conjunto de memórias perder-se no tempo, e desmoronar sem piedade pelo passado.
    Depois de vários minutos parado no passeio em contemplação do velho edifício de quatro andares, enquanto os transeuntes passavam apressados, seguindo a rotina de mais um dia em que o sustento era quase a única preocupação, dando-lhe empurrões como se ele fosse invisível, decidiu que não iria sentar-se em nenhum banco de jardim, nem tampouco apanhar um autocarro e andar sem rumo pela cidade. Iria ao cinema. Não num dos velhos edifícios, pois esses haviam sido abandonados como velhos inúteis em lares de terceira idade, por família sem tempo nem espaço para deles cuidar. Mas, entrando num dos novos mausoléus, onde as lojas eram cubículos encostados uns aos outros, e o comércio era a maior atracção para gente ávida de viver de aparências.
    Entrou no Metro e desceu umas paragens depois. Entrou naquele centro comercial e dirigiu-se directamente ao piso das salas de cinema, fugindo dos rostos cansados de mais um dia de trabalho, e dos risos de adolescentes que iam segredando novos amores. Parou junto dos cartazes para escolher um qualquer filme que começasse em poucos minutos. Não porque tinha pressa. Logo ele, que tinha todo o tempo do mundo. Mas, porque sentia um prazer antecipado por se sentar na cadeira de uma sala de cinema e saborear a imagem, a cor e o movimento que se iria desprender daquela tela gigante.
    Faltavam dez minutos para o início de um dos filmes e dirigindo-se à bilheteira, comprou o bilhete. Procurou em vão pela letra da fila e número da cadeira, mas isso já não se usava. Sentar-se-ia onde desejasse, disseram-lhe quando perguntou qual era o seu lugar. Entrou na sala 4, onde ía passar um filme qualquer musical. Escolhera esse porque o fazia lembrar ainda mais da sua adolescência, os filmes do Grease, o Flashdance e outros mais. Que saudades tinha da sua juventude. Não porque se considerasse velho de idade: tinha 38 anos e considerava que estava – ou deveria estar – na flor da idade. Mas, carregava o peso dos erros cometidos ao longo da sua vida. A busca por algo que não tinha sabido definir e que sempre havia estado ao seu lado. Tentou afastar o pensamento do passado quando as luzes se apagaram. A sala estava praticamente vazia, tirando um ou outro casal, parecendo ter escolhido aquele lugar, mais para namorar do que para ver o filme. Umas filas mais atrás, um grupo de jovens comia pipocas de grandes baldes de papelão, fazendo barulho, rindo e conversando. Teve vontade de se levantar e mandá-los calar. E quando estava quase a fazê-lo, terminaram as apresentações dos filmes que viriam brevemente e eles resolveram calar-se.
    E o filme começou.

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