Sessão de Cinema – 14º Capítulo
Posted by Sutra under Sessão de cinema on Wednesday Jan 28, 2009(no capítulo anterior – Completo) 14º Capítulo
Enquanto ele tomava um banho, a irmã arrumara o apartamento e fizera uma mala pequena com alguma roupa, colocando a outra num saco que levaria para lavar e engomar.
E assim permanecera em casa deles durante duas semanas, tempo que dedicou quase em exclusivo ao sobrinho, cuidando de si mesmo, desabafando com a irmã e o cunhado.
Quando se encontrou a si mesmo, regressou ao apartamento e ao recomeço.
© Sutra 2009
Acenderam-se as luzes, levando-o a piscar os olhos, tentando situar-se. Esquecera-se que estava numa sala de cinema. Estava num impasse da sua vida. Os acontecimentos que recordava haviam ocorrido há cerca de três anos.
Tentou prestar atenção ao filme, por mais uma vez, mas não conseguia. Dividido entre as movimentações do casal que se perdia em carícias, suspiros e alguns gemidos, e, as cenas que se sucediam em luzes, cor, som e movimento, deixou-se embalar de novo pelas memórias de um livro há algum tempo largado na prateleira do esquecimento.
Recuou três anos, até ao momento em que regressou a casa.
Abriu a porta e estranhou o silêncio. Nunca imaginou que a dor no peito fosse ainda tão grande que o atingisse com a força de um punho fechado de encontro ao ventre, onde permaneciam intactas as feridas da traição. Pousou a chave no móvel do corredor e seguiu na direcção da cozinha, evitando olhar para a porta do quarto.
Na bancada ao lado do lava-loiça encontrava-se um cinzeiro sujo com uma ponta de cigarro, fazendo-o recordar Lena e do seu recente hábito de fumar.
Ao lado, dois pratos com restos de comida da última refeição que tentara ingerir. Sem resultados. Olhou em volta e pensou no quanto teria para arrumar, limpar, antes de ter a casa de novo em condições normais de habitabilidade.
Naquela manhã de Sábado, arrumou, limpou e jogou fora os restos de desespero que lhe apertavam o peito. Mais uma mudança na vida, mais uma fase que passava nos seus 35 anos de vida. Sentia-se melhor que há duas semanas atrás, mas não sentia que a sua vida tivesse melhorado. No entanto, tinha a perfeita consciência que algo dentro de si havia dado uma volta de 180º e o rosto que via reflectido no espelho, parecia o de um estranho. Um ser coberto de uma dura capa de mágoa, coração empedernido, traços mais vincados e um semblante que reclamava raiva.
Passou o dia a tentar colocar a casa na ordem que não conseguia impor na alma. Tornara-se num corpo sem emoções. Ou deixara-as encerradas na masmorra da dor. O seu caminho seria agora ladeado pelo trabalho e por relações que não lhe levassem nenhum pedaço do coração. Nem poderiam. Perdera-o naquelas semanas. Apenas a família lhe despertava sentimentos nobres.
A vida seria um palco de marionetas manobradas pelos seus dedos. Elas, as marionetas, os corpos femininos que serviriam de poiso ao seu buscador de prazer. Única e exclusivamente sexo.
Foi assim que se relacionou com Julieta, dois meses depois. Mulher de 42 anos, independente, solitária e de ar sério. Tinha vindo morar para o mesmo complexo havia menos de um mês. Vira-a descer do Rover, chamando-lhe a atenção as pernas longas envoltas em meias de seda negra. A saia erguera-se um pouco deixando antever a coxa elegante, sugerindo mais que mostrando os mil segredos que, debaixo do tecido, estariam por desvendar. Observou as feições atraentes, embora rígidas. Cabelo forçadamente preso atrás, parecendo querer atenuar o efeito das ondas vermelhas que atraíam como um íman. Atraiu-o o semblante sério e a postura rígida, num desejo de derrubar defesas.
Dias depois, já esquecido da nova vizinha, vira-a de novo, carregando algumas caixas para a entrada do prédio do lado. Sorriu e aproximou-se. – Quer ajuda? Parecem-me demasiado pesadas para si – oferecera, em jeito de cumprimento. – Obrigada, mas acho que consigo sozinha, já estou a terminar – recusara, educadamente. – Insisto.
E conseguira. A ajuda transformara-se num café, dias depois num jantar em casa dela e horas após, no meio dos lençóis alvos, invadindo aquele corpo que conseguira conquistar. Nada mais queria dela a não ser sexo e o prazer de a ter conseguido dobrar. Horas depois de sair do seu apartamento, esquecera-a. Fugiu a todas as tentativas de contacto dela com a diplomacia de que foi capaz. Sim, tinha agora consciência de que fora um bruto sem qualquer sensibilidade.
Na semana seguinte já se rebolava na cama de um motel com Filipa, uma jovem de 20 anos que conhecera no ginásio que frequentava. Feitas bem as contas, teria idade para ser pai dela, embora precoce, mas o prazer que sentira em enterrar-se naquele corpinho tenro e macio, fresco e perfumado, quase virginal, fizera-o esquecer qualquer diferença de idades. Até porque fora a jovem que o assediara com olhares ingenuamente sedutores. Por coincidência passara a encontrá-la sempre no horário a que ia fazer exercício. Não demorou uma semana para a arrastar para uma cama de lençóis de cetim, por onde tantos outros corpos haviam passado, sedentos de luxúria.
As luzes acenderam-se despertando-o do sonho real em que estava mergulhado. Intervalo. Seria agora que cederia à tentação de um cigarro? Ou deixar-se-ia ficar esparramado na cadeira à espera que o filme retomasse e a escuridão lhe permitisse regressar ao passado?
Fumar, não. Não tinha cigarros.
Tinhas um conto em que encarnavas o papel de um homem, perdeste a pica de escrevê-lo?(…
atraso em relação ao Calendário deve-se ao facto de ainda não ter sido reaberto o blog Viciados no Sexo, podendo atrasar a publicação do restante por mais um dia – sobre isso, amanhã haverão novidades!



