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:-)

Muita reviravolta. Muita mudança na minha vida. Wink
Um destes dias, eu conto.
Hoje fica apenas uma música para todos aqueles que gostam de Jorge Palma.

Beijo doce
Sutra

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Provocação #21

Quero-te como sobremesa.
Para saborear. Adoçar-me a boca. Deslizar na minha língua e descer pelo meu corpo.
Sentir o teu gosto profundo. Deixar que deslizes por mim. Dentro e fora.
No fim… deixo que me olhes. A mim e ao teu prazer.
Sobremesa

Sutra 2014

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Provocação #20

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Há manhãs tão completas.
Tão doces e apaixonadas.
O sol que desponta e a chuva que bate na minha janela.
O frio da casa e o calor dentro de mim.
Para melhor acordar, só o teu beijo.
E o amor feito num vagar silencioso.
Depois o torpor. A preguiça.

Sutra 2014

Nota: quando chegar à Provocação 1000… vou surpreender-vos… Wink

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Provocação #19

Vou aguardar por ti assim.
Não demores. Está frio.
E eu só quero que [te] venhas e me aqueças.
70

Depois, compenso-te.

Sutra 2014

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De volta a…

22

Esperava-te. Pronta. Desejosa de mais uma noite como tantas a que me habituaste. Há tanto tempo que não me ligavas. Naquele dia foi tão inesperado o teu telefonema. Ainda por cima às oito da manhã, quando sabes que detesto acordar cedo ao fim de semana. Mas ouvir a tua voz fez-me recuar no tempo. Fez-me sentir. No fim do telefonema não pude conter uma lágrima. E a emoção que me invade sempre que penso em nós.
Daí a reencontrarmo-nos foi um passo rápido. Desse reencontro até este dia foi um salto. Apesar de achar que o tempo nunca mais passava.
E esperava-te. No mesmo lugar. Com emoção redobrada. Preparara-me para ti. Sabemos o que queremos e o que nos espera. O que desejamos um do outro e o que temos. O que tivemos e o que será nosso.
Por isso a minha escolha: a lingerie preta de renda que aprecias despir devagar, enquanto me olhas nos olhos e me provas a cada deslizar do tecido. Desconfiava que nem irias reparar nela pois, mal ultrapassasses o umbral da porta, não te deixaria pensar, nem dizer uma só palavra, que não fosse de vontade em termo-nos. E um beijo. Assolapado. Quente. Puro fogo líquido. E foi assim. Mais ainda do que recordava dos teus beijos. Do teu toque. Do teu beijo e do teu corpo.

158

De lábios colados senti que me puxavas para a sala e te sentavas. Numa das tuas posições favoritas. Comigo ao teu colo. De costas para ti.
Mantivemo-nos vestidos mas, o calor que emanava do desejo parecia lava que derretia qualquer barreira. A ânsia era de sentir-te dentro de mim. Forte. Duro. Longo. O teu desejo era de te veres enterrado no meu corpo até ao fundo, enchendo-me como só tu o fazes. Dando-nos prazer. Em movimentos ritmados, urgentes. Corpos batendo-me numa dança frenética, enquanto gemidos e uivos entoavam pelas paredes da sala.
Tivémo-nos. Ali mesmo. Em poucos minutos senti como me invadia o prazer líquido, no momento em que gritaste, depois de eu mesma já ter alcançado a loucura nas tuas mãos.
Ainda ofegantes, beijámo-nos suavemente e fomos para o quarto. O nosso quarto. Aí sim… despiste-me devagar, enquanto me rodeavas de novo de luxúria.

Sutra 2014

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Um conto de Natal

Querendo ou não, o Natal não deixa de ser a altura do ano mais consumista. Não fujo à regra. Todos os anos penso o mesmo: este ano só vou comprar algo mesmo para a família. Recordações, nada exuberante. Nunca faço nada disso. É escusado. Às vezes mais, outras menos, acabo sempre por distribuir uma série de presentes. Porque tenho prazer em os dar. Quando olho para algo e imagino a reacção da pessoa a receber aquele presente. E sorrio. E compro. Na verdade, acabo por oferecer presentes não apenas à família mas aos amigos, aos filhos dos amigos. A este. Àquela. O que recebo em troca vale tudo: sorrisos, espanto, gargalhadas, prazer.
Naquele ano em especial não sabia o que comprar para aquele que considerava o meu affair. Não se tratava de um namorado. Não era um amigo colorido. Mas era algo entre uma coisa e outra. O Rui.
Era início de Dezembro quando fiz a árvore de Natal. Estava ainda no apartamento em Lisboa. Indecisa entre comprar uma artificial ou arranjar um pinheiro natural, optei pelo segundo. E lá fomos os dois em busca de um. Não queria daqueles todos tortos, e com a proliferação de pinheiros artificiais, os melhores pinheiros, verdinhos, naturais e direitos, estavam bastante escassos. Sorte nossa o Rui ter uns amigos lá para os lados da Comporta que nos garantiram um de cerca de um metro de altura e lá fomos nós buscá-lo.
Era lindo. Parecia artificial de tão perfeito. Mal o colocámos na sala, o cheiro a pinho invadiu o apartamento. Sentia-se o cheiro a Natal. Enfeitar a árvore foi um jogo a dois, delicioso. Entre beijar, colocar as bolas, despir, distribuir as fitas, rolar no chão e fazer o presépio, passámos uma tarde deliciosa de sexo, paixão com agulhas de pinheiro à mistura. Verdes e pontiagudas.
Mas isso era apenas o início daquele Natal. A primeira dificuldade estava ultrapassada, a maior era o presente para ele. Eu escolho os presentes porque vejo o que é a ‘cara de cada um’. E para ele não tinha conseguido encontrar nada. Não sei se por não estar assim tão envolvida [romanticamente falando] ou por querer oferecer-lhe algo tão especial que nada me satisfazia. A verdade é que os dias passavam e nada.
Chegámos a dia 20 e eu sem ter comprado o presente do Rui. A ideia que tinha pensado antes de dormir, na noite anterior, foi-se tornando mais firme conforme caminhava pela baixa de Lisboa, entrando e saindo de lojas. Enfiei-me no metro e fui a uma loja que conhecera uns meses antes, onde eu sabia que iria encontrar o que precisava.
Duas horas depois, pus-me a caminho de casa, satisfeita. Não era que fosse algo muito original mas, decerto, tratava-se de uma experiência que ainda não tínhamos tido em comum. O dia para lhe entregar o presente era o mais complicado. Mas até isso se resolveu na véspera de Natal.
Fui para casa dos meus pais no dia 23, como era meu hábito, depois de me ter despedido do Rui ao almoço, desejando-lhe um feliz Natal. Ele tinha com ele o meu presente. Um livro e o meu perfume favorito.
- Desculpa, não tive mesmo tempo de comprar a tua prenda, mas dou-te a seguir ao Natal. Perdoas? – e dei-lhe um beijo para nem lhe dar tempo de me dizer… o que quer que fosse.
O presente de Natal… ele iria ter mais cedo do que imaginava.
Depois de passar a noite em família, com a casa cheia de tios e primos, pouco dormi, acordando cerca das 7h da manhã, pronta para colocar o meu plano em acção. Não tinha muito tempo para o executar pois à hora de almoço já tinha de estar de regresso a Setúbal. Enfiei um fato de treino e escapuli-me de casa sem que dessem conta, deixando um bilhete na cozinha para a minha mãe ‘fui a Lisboa levar um presente de Natal que esqueci, estou cá para o almoço’, enfiei-me no carro e lá fui. Viagem rápida, estrada quase sem carros. Era manhã do dia de Natal.
O Rui vivia sozinho há alguns anos e eu sabia que estava em casa, tinha apenas ido passar a ceia com os avós e tinha regressado cedo. Esperava encontrá-lo ainda a dormir.
Toquei à campainha e ele atendeu ao segundo toque. Estava a dormir, claro.
Tentei disfarçar a voz para me abrir a porta do prédio. Já nem recordo o que inventei. Mas fui tão estranha e óbvia que ele me reconheceu a voz e percebeu que havia ali alguma coisa [disse-me mais tarde]. Mas abriu e subi.
Antes tinha passado pelo meu apartamento, onde tinha deixado as coisas. Tomei um duche e… preparei-me para ele.
Quando cheguei à porta do apartamento e toquei a campainha, ele abriu de imediato. Estava do outro lado, à espera que eu subisse. Os olhos denunciavam o sono do qual eu o acordara. Vestia somente umas calças de fato de treino e estava descalço. Olhou para mim admirado, a boca meio aberta que se transformou com um sorriso divertido, devorando-me de alto a baixo só com o olhar, desde o barrete vermelho que cobria parte dos cabelos soltos, descendo pelo casaco comprido até às botas pretas de salto alto, apreciando o que via mas curioso para saber o que se escondia debaixo. Entrei com um sorriso a cantar Jingle Bells.
- Vieste trazer-me o presente, Mãe Natal? – perguntou ele.
- Vim.
E que presente.
- Mas tens de o desembrulhar – olhei-o e encostei-me à porta.
- É para já – disse, avançando para mim, depois de despir as calças, deixando a nu o membro já meio rígido. Excitado.
Segurou-me pela nuca e deu-me um dos seus beijos avassaladores, pressionando-me de encontro à porta. Em seguida agarrou-me pelos pulsos, elevou-os acima da minha cabeça e segurou-os com uma mão apenas, deixando a outra livre para desapertar o casaco, revelando então a surpresa. Tinha pensado ao pormenor no que havia de vestir. Ele adorava ver-me de vermelho e eu tinha feito a vontade. E nunca tinha vestido uma fantasia para ele. Era o presente. Uma mini-saia que batia abaixo das nádegas e que deixava a barriga à vista dos seus olhos. Meias e cinto de ligas. Um top vermelho que impedia o uso de soutien. E as botas pretas de cano alto, salto fino. Os seus dedos desceram de imediato pelo meu corpo, agarrando-me um seio, apertando o mamilo entre o indicador e o polegar. Fê-lo rodar entre os dedos. A sua perna encaixou entre as minhas e a coxa pressionava o meu sexo, no centro do prazer. Desejava-o e um pouco mais de pressão da sua perna seria o suficiente para sentir na pele como eu já estava molhada.
A sua boca continuou a fazer malabarismos, a língua enrolada na minha, explorando cada recanto. Deslizou as mãos pelo casaco, tirando-mo. Baixou a cabeça e abocanhou um dos seios, por cima do top. Os seus dedos desceram e enfiaram-se dentro do fio dental. Penetrou-me com um dedo. Entrava e saía de dentro de mim, enquanto o polegar girava no clítoris. Tirou-o e senti um vazio. Enfiou dois dedos e voltou ao mesmo ritmo. Enlouquecia-me. Tirou de novo. E devagar, fez entrar três. O meu orgasmo já se aproximava.
- Apetece-me comer-te aqui mesmo. Assim. – sussurrou no meu ouvido.
- Porque esperas? Vem – respondi-lhe, já sem conseguir discernir bem as palavras.
Virou-me e empurrou-me contra a madeira fria. Os meus seios inchados de desejo, esmagados na porta. Puxou-me pela cintura e, com os pés fez-me afastar as pernas, enfiando-se no meio delas. Levantou o pequeno pedaço de saia e, de um puxão, arrancou o fio dental.
A sua urgência deixava-me alucinada. Gosto deste sexo feito na pressa. No desejo que não espera. Na volúpia que só quer atravessar corpos e saciar-se no orgasmo eminente.
Entrou em mim de uma vez. Fundo. Desenfiou-se e tornou a entrar com uma estocada forte. Dura. E mais outra. Cada vez mais dentro. Até que o senti completamente enterrado no meu corpo. O seu peito de encontro às minhas costas. Puxou o top para cima, e agarrou os meus seios, apertando-os. A sua boca presa no meu ombro, os dentes resvalando na pele.
Não podendo mais aguentar aquele limite entre a urgência e a satisfação, pressionei-me de encontro a ele. Ele afastou o corpo, mantendo-se dentro de mim e deu-me uma palmada na nádega. E outra. Gemi. Sabia que me iria vir assim. Iniciou um ritmo alucinado de entrar e sair do meu corpo, intercalado com uma ou outra palmada no meu rabo. Cada vez mais rápido. Mais urgente. Os seus dedos enrolando-se no meu cabelo e puxando-me a cabeça para trás. O meu pescoço disponível para ele deslizar a língua por ele. Para me chupar a pele. Para me morder. E não parou mais até ao clímax. Meu primeiro. Dele, logo depois. Escorregámos para o chão, extenuados. O suor espalhado pela pele. Dele e minha.
- Obrigado pelo presente, não podia ter sido melhor.
- Eu sabia que ias gostar.
- Ainda temos tempo para mais uma? – perguntou enquanto me levava ao colo para o quarto.
E tivemos, sim.

Sutra 2014

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Para me prender

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Para começar…

Hoje queria chegar aqui com tanta coisa para escrever. Desde o Conto de Natal [atrasado]. Ou os votos de um BOM ANO para todos. Mas se estas me pareceram muito vazias e demasiado repetitivas nesta época. Possivelmente porque muitos as dizem sem as sentir de verdade. As outras – do Conto – afiguraram-se-me demasiado extensas.
Não é o momento. Mas o conto existe. Está começado. Não acabado. Fala de alguém, ou de mim, quem sabe.
Mas é precisamente de mim que vou falar hoje. De algo pessoal, muito meu.
Talvez não corresponda exactamente ao que conhecem de mim, porque é um lado que raras vezes deixo vir à flor da pele. Só que, hoje é um desses dias. Pelo que se vê. Pelas cores nas entrelinhas. Não palavras, nem chegam a sê-lo. Mas é algo que se sente, sem se ver. Está presente, sem que lhe possamos tocar.
É como sou. Ou como sempre fui.
Quando existe algo que me interesse, eu insisto. Persisto. Não desisto. Tenho confiança e segurança para ir em frente e conseguir o que quero. Não é uma batalha. Não é uma luta. É a concretização. Realização de algo que anseio. E entusiasmo-me. É adrenalina que dança e pula nas veias. É uma excitação constante. Uma palpitação.
Céus… eu sempre fui assim. Uma força que encontro em mim, impulsionada por algo. Ou alguém. Essa força é a vontade. É o querer. Tanto que até eu me admiro o quanto e, encontro-me, por vezes, de olhos esbugalhados a olhar para dentro de mim, questionando-me se esta sou mesmo eu.
Mas sou.
Só que…
Não há rochas inabaláveis. Há pessoas. Que sentem, se emocionam, temem, se escondem. Que se encerram em si mesmas. Eu também sou uma dessas pessoas. Como qualquer outra.
E, por vezes, também há a insegurança. E é essa insegurança que me faz vacilar e dar um passo atrás. Não porque eu queira. Mas por achar que o adversário me derruba facilmente. Por ser melhor que eu.
Não falo por enigma. É fácil de entender. Vou dar um exemplo abstracto.
Curiosamente, apesar de me considerar desinibida em uma série de aspectos e situações, por vezes, sinto insegurança nas relações. Seja qual for o tipo de relação. Não posso dizer que é sempre. Nem que é raro. Acontece. Às vezes, só.
Interessa-me alguém. Dou-me. Trata-se de uma paixão. Só. Seduzo. Deixo-me envolver.
E, repentinamente, começo a aperceber-me que há alguém que também percorre o mesmo caminho que eu. Que deseja o mesmo que eu. Que faço?
Recuo?
Avanço?
Não faço nada?
Se não tenho a certeza de que vou ter sucesso, não busco mais. Porque, invariavelmente, acho que já não é para mim.
Por vezes, também aqui não me reconheço. Como se houvesse uma insegurança. Como se eu não me achasse com capacidade para… alcançar o que desejo, se houver alguma distracção… no caminho. O pior é que posso estar a desistir de algo que desejo. Que outra pessoa deseja… apenas por achar que… a sua atenção começa a concentrar-se noutro lado.
Será impressão minha? Mas se nem posso saber…

Consigo ser clara? Ou resolvi armar-me em confusa para começar o ano?

Que baralhação.
Acabei de ler e não me faz sentido nenhum.
Fica assim.
Espero que, para vocês, faça mais sentido que para mim.
E acabei por escrever tanto…

Nota: O conto vem esta semana ainda.

Ps: Já disse que não gosto de loiras?
Sutra 2014

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Feliz Natal

Hoje acordei toda entusiasmada e inspirada. Queria ter vindo aqui escrever um Conto de Natal… até está todo delineado no pensamento… mas não deu para cá vir antes e agora estou demasiado cansada.
Então, fiquem só com uma imagem.
Pode ser que o escreva na mesma e publique daqui a uns dias Wink
Beijos doces e Feliz Natal

natal

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Uhoh…

Bom. Bom. Bom.

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Give me… a sign…

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Desassossegos.

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Há coisas que nunca mudam. Nem alguns estados de alma. Nem algumas emoções. Ou outros sentidos e sentimentos.
Há desassossegos que permanecem iguais a si mesmos. A tal inquietude. Ou aquela insatisfação constante. Como se o houvesse um desejo impossível de alcançar. Quando até está ao alcance de um toque de dedo. De uma chave na ignição.
E há os gestos. Aqueles que se fazem cons-tan-te-men-te. Contemplam uma rotina que se deseja e se sente como própria. O toque dos dedos como habitual vício. A boca húmida a escorrer musicalidade na pele suada. Os olhos que soltam notas silenciosas na melodia dos sentidos.
Os lábios. A língua que fala todos os idiomas que o corpo anseia. A paixão latente no dedo que percorre lábios e se aprofunda na caverna molhada de uma boca que soletra de-se-jo. Ao ritmo compassado do bater do coração.
O desejo do corpo que se encosta no recanto fracamente iluminado. Se acocora. Deixando que o curto vestido se deixe conduzir até à cintura estremecida de paixão. Sem saber que é essa postura desinibida e exposta que aquece mais o outro corpo que se desnuda e revela em todo o seu esplendor de voracidade luxuriosa.
Há toda uma chuva intensa que se acolhe nos corpos assim recolhidos e sedentos de satisfação. Que se escondem enquanto se revelam à volúpia dos sentidos.
Há todo um desassossego que se enrola nos dedos estendidos à latejante carne despida de pudores. E se derrama na boca cheia de paixão. Um prazer que termina com um adeus e permanece na promessa daquilo que não muda. Nem hoje. Nem amanhã.
Um desassossego permanente de desejo.

Sutra 2013

(Foto: Andrew Lucas)

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Caminhos Traçados (novo final)

couple

Acto VIII

Dois anos de vida a dois. Dois anos de felicidade. Poderia a relação sobreviver? Valeria a pena tentar lutar por uma relação na qual deixara de existir confiança?
Estes eram os pensamentos de Mariana, conforme se encaminhava para a sala, onde Jorge a esperava. Desconhecia o que lhe passava pela cabeça, quais os verdadeiros anseios dele. Qual a vontade iria prevalecer? De seguir em frente ou começar de novo?
Haveria ainda tempo para recomeços? O telefonema de Francisco abalara-a. O corpo vibrava ainda com o som da voz dele. Quase podia sentir o seu cheiro, a força do seu abraço.
Que resolução tomar?
Jorge estava de pé, virado para a janela, as mãos nos bolsos. Pensativo. Ficou parada no meio da sala, sem saber o que dizer. Os dedos entrelaçados, retorciam-se, revelando o nervosismo.
- Jorge…
Silêncio.
Mariana aproximou-se de Jorge e tocou-lhe no ombro.
- Tudo mudou, não foi, Mariana? – perguntou, sem se voltar.
- Não sei, Jorge… eu não sei o que pensar…
- Estiveste com este homem que te ligou agora?
Um profundo suspiro, saído do fundo do peito de Mariana, fê-lo virar-se e encará-la nos olhos. Viu o olhar fugidio, a boca trémula, as mãos nervosas.
- Não precisas responder. Mas quem sou eu para criticar?…
- Eu sei que devia ter confiado em ti – balbuciou ela – mas não consegui. Tu sabias as tentativas que eu fazia para conversarmos, para me contares o que se passava contigo, e às quais tu fugias sempre. Tentei várias vezes, fiquei tantas horas sem dormir a pensar no que se passaria contigo, no que estaria a correr mal entre nós e desde quando tínhamos deixado de dialogar. Não entendia como se cavava um fosso no nosso relacionamento. E comecei a desconfiar que tinhas alguém, e esta dúvida martirizava-me. Eu imaginava mulheres sem rosto com as quais te encontravas, jantares românticos nas noites em que te atrasavas e…
- Mariana, antes de prosseguires, deixa-me dizer-te uma coisa, agora que falas nas horas tardias a que eu comecei a chegar a casa. Eu evitava estar em casa, estar junto de ti, com medo de me deixar abater e contar-te de forma abrupta o que se passava comigo, o meu medo. Queria encontrar a melhor forma de to dizer e não sabia como. Então, refugiava-me na empresa, no meu gabinete, a trabalhar, a pensar e nada mais. Não existia ninguém.
- Mas eu não sabia de nada, Jorge. Não podia adivinhar. Mas, ainda assim, tentei afastar esses pensamentos, pensando que tudo não passava de uma fase e que as coisas se endireitariam entre nós.
- Eu sei Mariana, tens razão, mas… eu andava tão desnorteado… Desculpa a interrupção, continua.
- Então, há dois dias atrás, na noite do nosso aniversário, quando tu telefonaste a dizer para não esperar por ti que tinhas reunião – Mariana fez uma pausa, para recuperar a voz que se havia embargado, enquanto Jorge fechava os olhos para esconder a dor que sentia ao ver a mágoa da mulher – eu fui até um bar. Não consegui permanecer em casa, estava atordoada, dorida. Queria sair, tomar qualquer coisa, apanhar ar e voltar a casa. No bar, reencontrei alguém que não via há muito tempo, desde antes do nosso casamento, há mais de três anos. Alguém que foi muito importante para mim numa determinada época.
- O homem que te ligou agora.
- Sim. Não via o Francisco desde que a altura em que ele estava em fase de divórcio e com ideias de partir para Nova Iorque. O que fez uns meses depois de deixarmos de nos ver.
- Eram amigos? Não me recordo de teres falado alguma vez dele, mesmo antes de casarmos.
- Jorge, eu…- Mariana torcia nervosamente um pequeno lenço nas mãos. Como contar a Jorge que já o traíra com o Francisco ainda quando eram namorados?
- Diz, Mariana – pediu Jorge, virando-se de costas para Mariana, temendo o que ela ainda tinha por lhe revelar.
- Eu e o Francisco tivemos um caso que durou uma semana, um ano antes de eu e tu casarmos.
Assim. De chofre! Como um remédio que tem de ser tomado rapidamente para nem se tomar o gosto.
O silêncio na sala era denunciador do drama que se desenrolava no coração e na mente de ambos.
- Continua, Mariana. Já te disse que tem de ser tudo dito hoje, agora.
- Desculpa, Jorge, mas eu não sei como me envolvi, só que me senti de tal forma seduzida, acarinhada que… bem… eu senti vontade mesmo de estar com ele. Não sei que poder ele tem para me deixar sem controlo das minhas acções.
- Ora, Mariana, nem precisas explicar agora o porquê. Termina o que tens para me contar mas do presente.
- Então, conversámos naquela noite no bar, sobre o passado, sobre a mudança nas nossas vidas, o meu casamento, o sucesso dele nos EUA e combinámos encontrar no dia seguinte para almoçar, em nome dos velhos tempos, e apenas como amigos que se reencontram ao fim destes anos. Quando cheguei a casa, tu nem deste conta, já havias adormecido. Como se nem importasse o facto de eu ainda não estar em casa. Dormias calmo e sereno.
- Não dormia, Mariana. Eu estava acordado a pensar por onde tinhas andado, mas não me sentia em condições, conscientemente, para te cobrar fosse o que fosse.
- Mas… tu estavas a dormir…
- Fingia, apenas… Mas, diz-me. Almoçaram juntos ontem?
- Sim, fomos almoçar juntos e foi um almoço excelente, divertido, no qual falámos de tudo um pouco.
- Incluindo sobre as tuas dúvidas no nosso casamento? – Jorge virou o rosto para Mariana, olhando-a firmemente, obrigando-a a baixar os seus.
- Não posso negar, Jorge. Sim, acabei por lhe contar um pouco das minhas dúvidas, e do receio que tivesses alguém e… acabámos por trocar um beijo que pareceu acender a chama de outrora – aqui, Mariana fez uma pausa e aproximou-se de Jorge, encarando-o – eu fugi dele nesse momento, Jorge. Porque tu estavas em primeiro lugar, como sempre estiveste.
- E a noite passada, Mariana?
- Pois… o meu grande erro… Quando saí de junto do Francisco vim para casa e estava disposta a resolver tudo entre nós ontem à noite. Resolvi descansar um pouco, tomar um banho, preparar-me de forma caprichada, com a roupa que tu gostas de me ver, a lingerie que tu adoras ver-me vestida, e saí para ir ter contigo, fazer-te uma surpresa. O plano seria levar-te a jantar, num local romântico e levar-te a contar a verdade sobre o que se passava. Quando acabava de estacionar o carro, na rua lateral da empresa, vi-te no passeio com outra mulher. Ela chegou junto de ti, tu estavas alegre, cumprimentaste-a, agarraste-lhe num braço e seguiram pelo passeio. O teu ar tão feliz deixou-me arrasada.
- Mariana, eu tinha acabado de saber que…
- Eu sei, Jorge, agora já sei, mas ontem não sabia disso, entendes?
- Mas, se ao menos tivesses ido ter connosco, se tivesses chamado…
- Jorge, pensa bem, depois de tudo o que se passava na nossa relação, achas que eu seria capaz? O mais lógico foi pensar que ela era a razão de tu andares diferente comigo. Afinal, estavas alegre como eu não te via há muito tempo.
- Eu sei… ah, Mariana, tantos mal entendidos… Conta o resto, vá… eu já sei o que me vais contar. Adivinho-o.
- Furiosa, liguei para o Francisco e convidei-o para jantar. Não vou entrar em pormenores, Jorge, mas depois de jantarmos, fomos até um bar, no hotel dele, e acabei por passar a noite com ele. Saí de manhã, antes de ele acordar e fui andar de carro por aí, até que parei para lá do Guincho, no Cabo da Roca.
- Meu Deus, Mariana… que te hei-de dizer?… Já desconfiava que isso havia acontecido, mas dói demais sabê-lo.
- Desculpa, Jorge…
- Parece que temos ambos de nos pedir desculpa. Erros baseados em más interpretações.
- E na falta de diálogo, Jorge. Se tivéssemos conversado sempre. Tu quando tinhas as tuas dúvidas sobre a saúde e eu…
- … e tu com as tuas dúvidas sobre a minha fidelidade. E acabei por te ser infiel, com a noite que passei com a Cristina, claro que sim. O que sentes pelo Francisco?
- Sinceramente… não sei, Jorge… não sei…
-Disseste que almoçaste com uma amiga em Cascais! Alguém conhecido?
- Nem imaginas quem. Parecia que o passado escolheu estes dias para me aparecer ao virar da esquina.
- Então?
- Encontrei a Teresa no Cabo da Roca.
- Teresa?!
- Sim, Jorge, do tempo de Faculdade.
- Já sei. Encontraste-a? Não me digas que sentiste alguma coisa também…
- Não, nada disso. Tudo passou relativamente a ela. Pelo menos da minha parte. Conversámos imenso, e depois de lhe contar como me sentia.
- Também lhe contaste a ela?
- Não foi preciso, ela viu como eu não estava nada bem. Sabes que eu não consigo esconder as emoções. E acabei por lhe revelar um pouco do que se passava e confessei-lhe que não sabia qual seria o futuro do meu casamento.
- E não sabes? – Jorge baixou o rosto na expectativa.
- Sei… bem… mas, ela fez-me uma proposta para ir trabalhar para ela em Paris.
- Em quê? – perguntou o marido, olhando-a com ar incrédulo.
- Como gerente dos negócios dela em Paris, Roma e Lisboa. Disse-me que se eu quisesse sair de Portugal, neste momento, que seria a oportunidade ideal.
- E tu? – questionou ansioso.
- Eu preciso saber o que fazer da minha vida. Jorge… não tenho parado de pensar de ontem para hoje e… tomei uma decisão.
- Sobre nós?
- Acabou a confiança entre nós. Muitos poderão dizer que não sou forte o suficiente para resolver a nossa vida, para lutar para as coisas melhorarem. Mas, a verdade é que já não tenho certeza de nada. E… prefiro ficar sozinha. Provavelmente vou aceitar a oferta da Teresa, e trabalhar para Paris. Sair daqui.
- Vais deixar-me, então? Por um erro? Por uma traição?
- Pela traição dos dois. Mas, sobretudo, pela falta de confiança. Posso parecer cobarde. Podem dizer que se te amasse de verdade, não seria um erro que iria terminar uma relação. Mas a verdade é que não é bom para nenhum de nós continuar algo em que, pelo menos um de nós, já não acredita muito…
- Talvez tenhas razão – a voz de Jorge adquirira subitamente um toque de frieza – talvez não haja mesmo nada para recuperar.
- Quem sabe daqui a um tempo, as coisas se alterem…
- Não, Mariana, não acho que se alterem mais. Vamos, então, seguir com a nossa vida. Cada um para seu lado.
Os dias seguintes não foram fáceis. Nunca é fácil uma separação. A divisão do que pertencia a um e a outro. Embalar objectos. Partir. Procurar um novo lugar para morar.
Recomeçar.
Sozinha.

Mas a vida gira e torna a girar. Tudo pode mudar num minuto. Num segundo, até.

Três meses depois.

Mariana fez o check in, pegou na bolsa de mão e encaminhou-se para a porta de embarque. Destino: Nova Iorque. Francisco continuara a aliciá-la nos últimos meses, convidando-a a ir ter com ele. A retomarem a paixão que os unira anos atrás e três meses antes. De cada vez que ouvia a sua voz, estremecia. Esta paixão nunca morrera. Cabia-lhe agora descobrir se era apenas uma paixão. Ou amor.
Fechou os olhos assim que ouviu o apito de aviso para desapertar o cinto de segurança. Nas horas que a separavam de Francisco, ainda podia descansar um pouco. E sonhar.
Adormeceu de sorriso nos lábios.
A felicidade podia estar do outro lado do oceano.

Fim

Sutra

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Interregno do conto

Queria publicar o final do conto mas… esqueci de trazer comigo. Assim, fica para Domingo ou 2ª Feira que este fim de semana vai ser difícil vir aqui Wink

Mas deixo aqui a Depilação Feminina para rir um pouco…
[Depois há a versão masculina...]

Depilação

A PRIMEIRA DEPILAÇÃO

[escrito em português do Brasil, texto encontrado pela web]

“Tenta sim. Vai ficar lindo.”
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve.
Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.
- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?
Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.
- Cavada mesmo.
- Amanhã, às… Deixa eu ver…13h?
- Ok. Marcado.
Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui.
Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona.
Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado.
Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas.
Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.
- Querida, pode deitar.
Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca.
Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas.
Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus, era
O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.
- Quer bem cavada?
- é… é, isso.
Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.
- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.
- Ah, sim, claro.
Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).
- Pode abrir as pernas.
- Assim?
- Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.
- Arreganhada, né?
Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha Virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar.
Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar.
Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural.
Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais.
- Tudo ótimo. E você?
Ela riu de novo como quem pensa “que garota estranha”. Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes. O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope.
Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer.
Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas.
- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha, bigode não.
- Não, querida, os lábios dela aqui ó.
Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.
- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.
Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail.
- Olha, tá ficando linda essa depilação.
- Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.
Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. “Me leva daqui, Deus, me teletransporta”.
Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.
- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?
- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.
Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la.
Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.
- Vamos ficar de lado agora?
- Hein?
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.
Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.
- Segura sua bunda aqui?
- Hein?
- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.
Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria:
- Tudo bem, Pê?
- Sim… sonhei de novo com o cú de uma cliente.
Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu Twin Peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cús por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá? Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera.
Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo.
Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto.
- Vira agora do outro lado.
Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A broaca da salinha do lado novamente abre a cortina.
- Penélope, empresta um chumaço de algodão?
Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem?
Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente.
- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Máquina de quê?!
- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.
- Dói?
- Dói nada.
- Tá, passa essa merda…
- Baixa a calcinha, por favor.
Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha, como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.
- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.
Namorar…namorar. .. eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais.
Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso.
Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.

Sutra

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Caminhos Traçados – VIII (Penúltimo)

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Acto VIII

O silêncio da casa quando abriu a porta parecia gritar-lhe que aquele acabaria por ser o pior dia da sua vida. Despiu o casaco, deixou a mala na mesa do hall e encaminhou-se para a sala, admirando-se de Jorge não ter aparecido ainda. Ao entrar naquela divisão viu-o sentado no sofá, de pijama vestido, cabeça inclinada para trás e olhos fechados. Dormia. Aproximou-se, indecisa se o deveria acordar quando ao tocar na mesa baixa, Jorge acordou sobressaltado.
- Mariana? Já chegaste.
- Olá Jorge.
- Até que enfim, Já não sabia que pensar. Desculpa estar a dormir. Eu…
- Adormeceste, eu entendi – adiantou-se Mariana, enquanto se sentava na cadeira de baloiço em frente dele.
- Por onde andaste? Estiveste sozinha? – perguntou de forma ansiosa.
- Andei por aí de carro, passeei, pensei, fui a Cascais, almocei por lá e estou aqui. E não estive sempre sozinha, não. Isso é preocupação pela minha segurança ou é desconfiança?
- Nunca tive razão para desconfiar de ti, fosse do que fosse, Mariana – disse Jorge, fazendo com que Mariana fosse percorrida por aquele sentimento de culpa, de traição –ou será que tenho? – acabou por perguntar, depois de uma leve hesitação.
- Não se trata disso, mas…
- Mas…?
- Precisamos conversar mesmo Jorge. Há muito que deveríamos ter tido esta conversa e, nunca o permitiste. Céus, Jorge, o que eu tentei ao longo destas semanas ao notar como tens andado diferente. Sempre evitaste dizer-me o que se passa, mas eu sei que algo está diferente. Tu mudaste comigo, em casa, com os amigos. O teu semblante perdeu aquela suavidade que tinha, como se algo te preocupasse. Eu…
- Mariana…
- Têm passado algumas ideias pela minha cabeça, mas sempre as afastei, e…
- Mariana…
- Sim?
- Deixa-me explicar-te agora. Sei que o deveria ter feito antes, mas nem eu sabia como enfrentar.
- Enfrentar o quê, Jorge?
- Aquilo que eu imaginava ser a pior coisa que me poderia acontecer.
- Estás a assustar-me…
- Do princípio, Mariana. Sabes que há sete meses atrás decidimos ter um filho e tu deixaste de tomar a pílula. Temos tentado ao longo deste meses e não temos conseguido de forma alguma. Podia ser devido ao stress do trabalho, ao cansaço, a preocupações, mas sabemos que não foi nada disso. Eu sabia que não era por isso, pois nunca estivemos tão bem como desde há meia dúzia de meses para cá, a esse nível. Não concordas comigo?
- Sim… Mas que tem isso a ver?
- Shiuu… espera, deixa-me terminar.
- Está bem.
Jorge inclinou-se para a frente no sofá e fixou o olhar em Mariana, continuando:
- Comecei a pensar se o problema poderia ser meu, mas nem tinha coragem de pensar que eu poderia não ser fértil e resolvi fazer uns exames. Fui ao consultório de médicos que fazem parte da assistência da empresa e iniciei uma série de exames, pedidos por um dos médicos, o Dr. Cunha Sousa. Um dos exames tinha qualquer coisa com a qual ele não estava muito satisfeito e pediu para o repetir e, foi nessa altura que comecei a ficar preocupado.
- Mas, Jorge…
- Não, ouve-me até ao fim. Repeti o exame, mas demorou a sair o resultado e, quando o fui levantar o Dr. Cunha Sousa estava num simpósio em Londres e só regressaria daí a uma semana. Não podia aguentar mais e telefonei-lhe a pedir urgência e se não havia forma de eu saber o significado daquele exame mais cedo. Então, ele disse-me para passar pelo consultório a fim de ser atendido pelo seu assistente estagiário, pois dar-lhe-ia instruções nesse sentido. E eu fui consultar-me com o assistente. E esse foi um dia terrível para mim, Mariana, com aquilo que o Dr. Paulo Cariz, um doutorzinho de meia tigela, me disse.
- Jorge…
- Mandou-me sentar, disse que eu tinha de ser forte, e que nem devia ser ele a dar-me aquela notícia, mas que o Dr. Cunha Sousa tinha insistido para ele me atender, e estoirou a bomba bem na minha cara – chegado a este ponto do relato, Jorge ficou com a voz embargada pela emoção.
- O que foi que ele te disse? – Mariana não aguentava de nervosismo, adivinhando já a resposta de Jorge.
- Que eu nunca poderia ser pai e, mais do que isso… que tinha cancro em fase muito avançada – e interrompeu-se, as lágrimas assomando os olhos masculinos.
– Meu Deus, Jorge… meu Deus… – sussurrou Mariana, erguendo-se, ajoelhando-se junto de Jorge, enquanto o envolvia nos seus braços.
- Acrescentou ainda – continuou Jorge – que eu não poderia esperar mais do que dois ou três anos de vida e que já teria muita sorte se assim fosse. Foi cruel, uma verdadeira besta…
- Esse homem nem devia ser médico, a falar assim com os doentes!! – retrucou Mariana, indignada.
- Andei uma semana desesperado sem saber o que fazer. Foi naquela semana que eu estive uns dias em Madrid. Aproveitei a viagem da empresa para me afastar de ti, tentando que não te desses conta do que se passava, enquanto eu pensava na melhor forma de to dizer.
- E eu que pensei que tu tinhas outra mulher, Jorge… Perdoa-me, perdoa-me…
- Espera, Mariana. Ainda não terminei. Esses quatro dias em Madrid sucederam há duas semanas e quando lá estava, na véspera de regressar, fui tomar uns copos com os colegas a um bar. Aí conhecemos um grupo mulheres que estavam lá para um congresso de medicina. Uma delas soube nessa noite que pertencia ao mesmo consultório onde estava o Dr. Cunha Sousa. Mais ainda, ela era sua sobrinha. Conversámos bastante e, sem me dar conta comecei a contar-lhe do meu problema. Ela ouviu e aconselhou-me a repetir todos os exames. Eu sabia que ela tinha razão e que não deveria ter aceite assim o diagnóstico, sem ter voltado ao consultório e conversado com o seu tio, o meu médico desde o início, mas fiquei tão… tão sem rumo… e sem razão para isso, afinal.
- E depois, Jorge? – Mariana sentia que Jorge estava prestes a revelar-lhe algo mais e que hesitava, talvez na procura da forma de lho dizer.
- Estava desesperado, Mariana e ela estava ali tão preocupada comigo, tão atenciosa, meiga, amiga, conversadora, que eu…. Depois, eu tinha bebido mais do que devia, e…
- Se estou a entender, Jorge, dormiste com ela!… Não, espera, não dormiste! Fizeste sexo com a jovem médica que tinhas acabado de conhecer – dizendo isto, levantou-se da cadeira, sentindo um misto de indignação e de alívio ao mesmo tempo.
- Sim… Saímos juntos do bar, as amigas já haviam ido embora e os meus colegas também. Ofereci-lhe boleia até ao hotel, pois tínhamos descoberto que estávamos hospedados no mesmo hotel…
- Que conveniente…
- … e, quando íamos no elevador abracei-a e… beijei-a. A partir dali, esqueci de onde estava e… até esqueci de quem era.
- E que eras casado comigo, também. E que deveria ter sido comigo que devias ter desabafado, contado o teu problema. Unidos na saúde e na doença, lembras?
- Eu sei, Mariana, eu sei. E só eu sei o quanto me torturei por isso.
- Mas e quanto aos exames, afinal? Isso é mais importante que a tua queca inconsequente.
- Quando regressei no dia seguinte, já tinha decidido que voltaria ao consultório do Dr. Cunha Sousa e repetiria os exames. Fui lá logo no dia a seguir, mas ele ainda não tinha regressado de Londres, pois resolvera estender a estadia por mais um tempo dias e só daí a dois dias é que regressaria. Entretanto, encontrei-me com a Cristina e falámos do que tinha acontecido entre nós e que não tinha sido mais do que uma noite intensa de duas pessoas que estavam sozinhas e buscavam companhia e conforto. Tornámo-nos amigos e ela apoiou-me naqueles dois dias de espera.
- O apoio que eu gostaria de te ter dado – Mariana abanava a cabeça, ao sentir que esses últimos dias não tinham sido mais do que sucessivos enganos.
- Estive com o Dr. Cunha Sousa ontem e, ao analisar o tal exame disse-me que eu estava de perfeita saúde, apesar de alguns indicadores mais invulgares nos exames, mas que isso não passava de algo benigno que não causava qualquer problema, nem a nível de saúde geral, nem me impedia de ser pai. Tudo não tinha passado de má interpretação do exame por parte do estagiário, que se tratava de um incompetente ao qual havia suspendido o estágio e que se pretendia fazer algo em relação a ele, que não se poderia opor. Naquele momento de raiva ainda pensei fazer uma participação à Ordem dos Médicos, mas o alívio que ao mesmo tempo sentia, era tão grande que eu resolvi não fazer nada. Saí do consultório tão feliz que te liguei, mas tinhas o telemóvel desligado. Ainda liguei para o banco, mas disseram-me que tinhas saído para um almoço e não tinhas regressado de tarde. Entretanto, apareceu a Cristina e fomos tomar alguma coisa antes de eu vir para casa. Quando aqui cheguei não estavas.
Mariana pensou na tarde de véspera e em Jorge no passeio, desligando o telemóvel depois de fazer uma chamada, e cumprimentando a mulher que chegara. Que engano…
- E todo este sofrimento viveste-lo sozinho… deixando-me a mim sem saber o que se passava – disse, enquanto ainda pensava nos enganos em que se tinham visto envolvidos.
- Desculpa-me Mariana…
- Eu… nem sei que te dizer… além de que estou tão aliviada por tudo não ter passado de um engano.
- E que se passou contigo, Mariana? Chegaste tarde na outra noite, passaste a noite passada fora, não sei em que lugar. Onde estiveste?… – perguntou, erguendo-se do sofá e, aproximando-se de onde estava Mariana, virada para a janela.
- Eu?…
- Conta-me, Mariana… seja o que for…
- Eu senti-me mal, Jorge, tão mal – e as lágrimas começaram a cair-lhe pela cara.
Nisto, o telefone tocou no hall e Jorge foi atender. Passados alguns segundos regressou:
- É para ti, Mariana. Um homem – disse, olhando-a com estranheza.
Mariana sentiu-se estremecer e, nervosa dirigiu-se para o telefone. «Não – pensava –não podia ser, ele não sabia o seu número de casa».
- Sim?
- Mari?
- Como soubeste o meu número de casa? – sussurrou.
- Tinha de descobrir, é tão tarde e não me disseste nada. Estava preocupado contigo, saíste sem dizer nada.
- Expliquei-te na mensagem.
- Eu sei, mas só te queria dizer uma coisa, Mari.
- Diz.
- Sei hoje que te amo e que sempre te amei. Nunca deveria ter ido para Nova Iorque e deixado que te casasses com esse homem e não te quero perder, agora que te reencontrei. Não fujas de mim, Mari, vem comigo para Nova Iorque. Sei que tu também não consegues esquecer-me e que me queres demasiado. Senti isso nesta noite.
- Pára! Pára! Não posso falar agora. Depois ligo-te!
- Amo-te, Mari!
E, Mariana desligou, pensando no quanto a vida podia ser injusta, por vezes.
Regressou à sala, sem saber ainda o que deveria dizer a Jorge.

Fim do Acto VIII

Nota: Falta o último… o novo.

Na altura em que foi escrito, as possibilidades eram:

1 – Mariana fica com Jorge
2 – Mariana fica com Francisco
3 – Mariana aceita proposta de Teresa
4 – Mariana fica sozinha

A maioria escolheu a primeira.
Qual acham que escrevi agora? Wink

Sutra

Caminhos Traçados – V, VI e VII

couple

Acto V

Oito anos haviam decorrido desde que se haviam encontrado pela última vez e, não se haviam despedido da melhor forma, pelo contrário. Lágrimas e muita mágoa ficara entre ambas.
- Não estava à espera de te ver aqui, Teresa. Aliás, nem contava ver-te.
- Também não esperava encontrar-te agora. Aqui. Mas deixaste-me assustada quando te debruçaste no muro. Só vi uma mulher que parecia querer deixar cair o corpo para lá das pedras que a seguravam – Teresa tremia, notava-se pelas suas mãos cujos dedos seguravam um cigarro a meio.
- Estava apenas a olhar o mar a bater nas rochas, mas não estava a querer atirar-me. A minha vida pode estar uma tremenda confusão, mas não quero deixar de a viver – respondeu Mariana sorrindo.
- Sei que sempre te casaste. Era o que desejavas. Foi com alguém da Faculdade?
- Não, conheci-o logo depois de a ter terminado, mas só começámos a namorar uns meses depois.
- E filhos, já tens? – perguntou Teresa.
- Ainda não. Eu e o Jorge decidimos só agora ter um filho, este ano. Temos as condições ideais para a chegada de uma criança. Mas, já não sei… – e baixou o rosto, as lágrimas querendo assomar aos olhos.
- Estás com problemas?
- Alguns, mas prefiro não falar sobre isso agora. Conta-me tu, que tens feito?
- Terminei o curso, trabalhei com um ou outro estilista e tenho o meu próprio atelier desde Maio de 2004. Recebi um convite há dois meses para ir para Paris abrir um atelier em sociedade com um casal de franceses que conheci no ano passado.
– Mas isso é óptimo para ti! Estás, então, a tornar-te uma estilista de sucesso que vai para Paris e tudo – Mariana sentia-se verdadeiramente feliz por Teresa.
Apesar de tudo o que se passara entre elas, nunca deixara de lhe querer bem. Fora uma das pessoas mais importantes da sua vida. A amiga que a apoiara quando veio para Lisboa, que lhe dera o carinho e força quando a sua avó que a havia criado, falecera. E, depois, todo o relacionamento que se desenvolvera entre elas.
Nisto, Teresa acenou a um casal que se encontrava junto de um carro escuro, perto da casa de turismo.
- Mariana, tenho de ir. O Jean-Paul e a Michelle estão à minha espera e eu fiquei de os levar ao hotel. Vais ficar por aqui? Podemos encontrar-nos mais tarde? – o olhar ansioso de Teresa denunciava a vontade que ela sentia de estar com Mariana.
- Sim, claro que sim. Toma o meu número de telemóvel, liga-me. – e tirou um cartão da bolsinha da mala – Vou ficar mais alguns minutos e depois ir até Cascais e almoçar por lá mesmo.
- Posso ir a Lisboa deixá-los e voltar. Podíamos almoçar juntas, se quisesses. Quer dizer, não sei se tens planos para a tarde. E o teu marido?
- Não sei… Olha, está bem. Há muito que não nos vemos e acho que ambas precisamos de conversar. Estamos ambas mais maduras, com outras vidas – e sorriu para Teresa.
- Eu ligo-te quando chegar a Cascais, então – e afastou-se sorrindo.
- Teresa? – chamou Mariana num impulso.
- Sim? – Teresa estacou e virou-se.
- Nem te perguntei… Tens alguém? – perguntou Mariana de forma hesitante.
- Não. Continuo só, tirando uma ou outra paixão. Nunca encontrei ninguém como tu, Mariana.
E, acenando, apressou o passo até chegar junto ao casal de franceses.

Fim do Acto V

Acto VI

Mariana desceu a pequena rampa na direcção do snack-bar, pediu um café e sentou-se junto à janela virada para a serra, apreciando o verde que se estendia e, ao fundo, num pequeno recorte, o azul do mar.
Viajou no tempo e recordou a sua amizade com Teresa. Mariana havia sido criada por sua avó, já que sua mãe falecera dias após do seu nascimento e o pai, apenas quatro anos depois, num acidente de automóvel. Aos dezanove deixara a vila que a vira crescer, situada no Ribatejo, e viera para Lisboa, a fim de tirar o curso de Gestão de Empresas. No primeiro ano, ficara em casa de D. Luísa, uma senhora que alugava quartos a jovens estudantes, estando limitada ao uso partilhado de uma cozinha e da casa de banho, situação a que se sujeitava, mas que não era muito do seu agrado.
Mas, os seus avós, não podiam suportar uma renda superior e tinha de se aguentar até começar a trabalhar.
Até que surgiu Teresa. Conheceu-a numa tarde de amena cavaqueira num café, com alguns amigos e ela chegou na companhia de uma das suas colegas de turma. Teresa frequentava o curso de línguas e vivia em Lisboa. Tornaram-se amigas e, depois de ouvir as queixas de Mariana sobre o quarto onde residia, Teresa convidou-a para ir morar no seu apartamento, já que vivia sozinha e seria uma forma de partilhar despesas e, em simultâneo, ter companhia. Não era porque necessitasse do dinheiro que Mariana pagaria, mas mais para poder dividir o espaço com alguém e ajudá-la a sair de onde estava. E Mariana aceitara, fazendo a mudança no fim-de-semana seguinte.
A amizade entre as duas tornara-se cada vez mais profunda e quase não andavam uma sem a outra. Começaram a surgir algumas conversas, aqueles «diz-que-disse», olhares de outros colegas, mas a sua amizade parecia inabalável.
No dia em que recebera a notícia do falecimento de sua avó, Teresa levara Mariana à pequena vila, respeitando o seu silêncio, a sua dor. Ajudara-a a tratar de tudo o que dizia respeito ao funeral e trouxera-a de regresso, apoiando-a com a sua presença. O vínculo entre as duas estreitava-se cada vez mais.
Até que um dia, cerca de dois anos e meio depois de se terem conhecido, numa noite em que Mariana desabafava sobre o fim de um namoro de alguns meses, a proximidade das duas, o abraço de Teresa, acabou por terminar num beijo nos lábios, sem que Mariana se tivesse apercebido de como tinha acontecido. Mas gostara de sentir os lábios macios e quentes de Teresa pousados sobre os seus de uma forma tão delicada que quase nem os sentira.
Teresa pedira desculpa, mas perante o olhar sério e interrogativo de Mariana, dissera:
- Há muito que me apetecia fazer isso. Não entendo como te podes prender só a tipos que só te magoam – e aproximara-se de novo para beijar Mariana, ainda em silêncio.
Dessa vez, entreabrira os lábios e deixara que Teresa explorasse os recantos da sua boca com a língua adocicada. E, envolta numa névoa de doçura e carinho, Mariana correspondera, envolvendo a sua língua na de Teresa.
E aquele havia sido o início de tudo.
Apesar de se sentir de alguma forma estranha, Mariana não recuara perante o que o seu corpo pedia e envolvera-se com Teresa de uma forma bela e profunda. Era o culminar da relação que tinham até aí.
Faziam amor com meiguice e carinho, explorando-se mutuamente, esfregando pele com pele, boca na boca, dedos deslizando no encontro da carne feminina, reflexo uma da outra, sabendo em que ponto tocar para proporcionar maior prazer. Lábios que deslizavam pela carne macia de ventres expostos às bocas gulosas e línguas que buscavam o gosto do néctar que se derramava como lava ardente saída do vulcão entre as suas pernas.
E Mariana não procurou mais qualquer envolvimento. Encontrara em Teresa tudo o que necessitava. E Teresa tinha nela uma companheira, amiga, amante.
Apenas um sonho de Mariana marcava a diferença entre o que ambas queriam para o seu futuro pessoal. Mariana sonhava ser mãe e Teresa não gostava de crianças. Esse era o seu ponto de discórdia, mas também sabiam que, mesmo que Teresa quisesse um filho, não seria fácil para ambas realizarem esse sonho, a não ser que uma delas fosse a mãe geradora, pois, se nessa altura, falar em homossexualidade, apesar de já não ser tão tabu, ainda haviam demasiadas reticências, pior seria se se falasse em adopção por homossexuais.
Mas, a verdade é que Mariana nunca se sentira verdadeiramente lésbica, apesar de viver como tal. Teresa havia sido a sua única mulher. Além disso, ela sentia-se muitas vezes atraída por homens, mesmo quando mantinha a relação com Teresa.
A sua paixão não chegara a completar dois anos. E foi por causa de um homem que elas terminaram, mas principalmente devido ao sonho de ser mãe que Mariana sempre acalentara. Foi Jorge que surgiu na sua vida e a fez terminar a relação com Teresa.
Haviam sofrido ambas com a ruptura. Ambas tinham perdido uma amizade, o companheirismo, o apoio que tinham uma na outra. Mas Teresa ficara sozinha e Mariana tivera Jorge.
Foi no final do último ano de curso de Mariana. Teresa interrompera o curso de Línguas e preferira optar por uma carreira de esteticista um ano antes. Mariana mudara-se para um quarto, que já podia suportar devido ao emprego que arranjara e às economias que a sua avó lhe havia deixado. O namoro com Jorge evoluíra, foram viver juntos e uns meses depois casaram.
Nesses últimos oito anos, Mariana nada mais soubera de Teresa. E encontraram-se naquele lugar que tinha sido o palco do princípio do fim e ao qual nunca mais voltara. A vida tem surpresas inimagináveis. E aquela havia sido uma delas.
Mariana olhou o relógio e verificou que já era mais de meio-dia, e, erguendo-se, saiu do café, apressou-se a entrar no carro e seguiu na direcção de Cascais.
Estacionou o carro no centro e foi até à galeria comercial, enquanto Teresa não lhe telefonava. Era preferível esperar que ela chegasse para decidirem onde almoçariam.
Passeou pelas lojas e acabou por fazer algumas compras, enquanto esperava. Seguiu depois na direcção do carro, para as guardar e optou por esperar dentro do carro.
E o seu pensamento fugiu para as recordações que tinha evitado em toda a manhã – Francisco. Sentiu-se estremecer com a recordação daquela noite, de todas as carícias que haviam partilhado, o prazer espelhado no rosto masculino, o brilho nos seus olhos.
Fizeram amor várias vezes, e de cada vez uma sensação diferente, uma emoção arrebatadora.
Sentiu a excitação invadi-la e a carne amolecer, ao recordar como ele a levara ao colo para a casa de banho a fim de tomarem um duche juntos. Haviam entrado na banheira, trocando beijos enquanto a água escorria pelos seus corpos e as mãos ensaboavam a pele, massajando as zonas mais escondidas do corpo de cada um. Os dedos que acompanhavam a água, guiando-a a todos os recantos, retirando a espuma e acariciando em simultâneo.
Até que, ainda na banheira, ele a agarrara pela cintura e a erguera, encostando-a à parede, enquanto ela cruzara as pernas na sua cintura, as bocas encostadas, entregando-se a um beijo voluptuoso, as dedos femininos no membro erguido, as mãos masculinas a pressionar as nádegas femininas de encontro a si, os quadris que balouçavam numa busca frenética de prazer.
- Mari, desejo-te tanto outra vez – a voz rouca fazia malabarismos com os seus sentidos.
- Eu também te quero, Francisco. E como estás excitado… quero-te agora.
- Espera – sussurrou ao ouvido feminino enquanto a envolvia e a si num toalhão e levava assim, na sua cintura, para o quarto.
Pousou-a no chão e apanhou de cima da mesa-de-cabeceira o preservativo. Muito havia apreciado Mariana o cuidado de Francisco com a protecção.
Depois pegara nela e fizera com que se debruçasse na cama, de barriga encostada ao colchão e beijara todo o seu corpo, enquanto ía roçando o membro excitado pelas suas coxas, nádegas. Sentira a sua boca deslizar pelas nádegas, lambendo a pele macia, mordendo a carne tenra, e o desejo de o sentir dentro de si era cada vez mais urgente, o que a fazia menear as ancas, suplicando que ele a penetrasse. Mas Francisco pretendia receber o orgasmo feminino na sua boca, antes de a invadir com a sua carne quente, e ajoelhando-se atrás de Mariana, afastou mais as suas coxas e começou a beijá-la nos lábios, no clitóris, afastando a carne macia e húmida, para penetrar a língua e açoitando o clitóris inchado de desejo, até colher o néctar doce que lhe escorria do ventre, enquanto da boca feminina saiam gemidos de prazer orgásmico.
E, enquanto Mariana ainda sentia o corpo vibrar do orgasmo, Francisco penetrou-a de uma só estocada, deslizando pelo seu interior com a facilidade originada pelos fluidos libertados. Agarrara nos seus quadris e puxara-se de encontro a ele, num vaivém alucinante, enquanto os seios roçavam as roupas da cama, excitando-a ainda mais.
Levara uma mão ao seu sexo e massajara o clitóris, enquanto o membro de Francisco a preenchia e a fazia sentia as ondas do prazer num crescendo que culminaria em mais um orgasmo.
- Mari… posso?… – perguntara ele no seu ouvido, enquanto deslizava um dedo pelas suas nádegas, afastando-as – deixa-me… entrar…
- Sim, Francisco… sim…
E massajara a sua carne macia, quente, introduzindo um dedo levemente, apenas tacteando, penetrando um pouco e deixando ficar assim, apenas acariciando e pressionando levemente.
O membro que investia dentro do seu corpo, o dedo masculino que a acariciava, a boca de Francisco na sua nuca, e os seus próprios dedos no clitóris, levaram-na a um estado de loucura completo, fazendo com que tivesse obtido um dos maiores orgasmos da sua vida, enquanto ele lançava um grito de prazer que entoara pelo quarto.
- Trimm…
Mariana deu um salto, parecendo acordar de um sonho, e pegou no telemóvel que tocava. Era Teresa que já estava em Cascais. Combinaram encontrar-se num restaurante que ficava a dez minutos de onde estava. Precisava apressar-se.
Saiu do carro e, enquanto caminhava, sorriu ao sentir a humidade entre as pernas.

Fim do Acto VI

Acto VII

O restaurante escolhido ficava numa das ruas estreitas perto da estação de Cascais, pequeno e sossegado. A inibição inicial foi-se desfazendo à medida que foram falando do que tinham feito naqueles últimos anos, dos sonhos que haviam realizado, das metas que haviam atingido e de tudo que ainda pretendiam alcançar.
- Vais instalar-te mesmo em Paris? – perguntou Mariana, quando falavam da abertura do novo atelier de Teresa.
- Não sei bem ainda. Numa fase inicial, sim. Até porque o Jean-Paul e a Michelle pouco entendem de gestão de um negócio e a ideia seria abrir duas lojas em Paris e depois tentar expandir para Itália.
- Para Itália? Mas que sucesso, Teresa. E isso a médio ou longo prazo?
- A curto – respondeu Teresa, soltando uma gargalhada – de certa forma, estou a brincar, mas gostaria de ter as duas lojas de Paris e uma em Roma ou Milão no prazo máximo de dois anos. Se o conseguirei? Não sei, por enquanto são sonhos apenas, mas concretizáveis.
- Achas que em tão pouco tempo o conseguirás?
- Depende de alguns factores. Eu já vendo em Paris há mais de um ano, por intermédio do Jean-Paul e da Michelle, os meus sócios, já tenho algumas clientes que procuram os meus vestidos e recomendam a outras. Ter uma loja em Paris é quase certo que vai ter sucesso, desde que exista uma boa campanha de publicidade e marketing, para chegar a outro tipo de clientes, aqueles que ainda não me conhecem. Além disso, necessito de um bom gestor de empresas, para dar conta da gestão dessa loja, para que eu me possa virar para a abertura da segunda.
- Mas porque abres duas em Paris em pouco tempo? Poderias concentrar a tua atenção toda numa única loja, maior.
- A ideia é abrir uma espécie de galeria com outro tipo de serviços, além dos meus vestidos, que incluiria «un coiffeur», um pequeno bar, um espaço para criação de modelos e para provas devido a alterações solicitadas por clientes e algumas coisas mais das quais se encarregariam os meus sócios. Eles apenas querem investir capital e dedicarem-se mais aos cabelos das «Madames et Mademoiselles».
- Rendo-me à evidência: isso é uma ideia excelente e pode ser mesmo um óptimo negócio. E um verdadeiro desafio, convenhamos – sorriu Mariana.
- Se não fosses casada e com a tua vida estável, convidava-te para seres a minha gestora de lojas. Podias viver entre Lisboa, Paris e Milão ou Roma. Sozinha, claro. Não estou a.. ora, tu sabes a que me refiro – terminou, baixando o olhar.
- A minha vida não está tão estável como parece. Não a familiar, porque profissionalmente estou muito bem neste banco e, quem sabe dentro de um ou dois anos posso passar a gerente de sucursal.
- Então que se passa?… – e perante o silêncio de Mariana – Desculpa, se não quiseres falar sobre isso…
- Não, tudo bem. Acho que preciso mesmo contar o que se tem passado desde há algum tempo, mas para isso preciso de recuar algum tempo, para que possas entender.
E contou a Teresa como tinha sido o seu namoro com Jorge, a forma como Francisco havia surgido na sua vida um ano antes de casar, como tinha sido o casamento nestes últimos dois anos e, principalmente os problemas das últimas semanas e o reaparecimento de Francisco que mexera com todas as suas emoções.
- Mas em que embrulhada de sentimentos tu estás metida – sussurrou Teresa, depois de ouvir o relato – mas sempre tiveste uma certa atracção por envolvimentos complicados.
- Ou são as complicações que se sentem atraídas por mim, só pode – sorriu ironicamente Mariana.
- Mas se ainda nem conversaste com o Jorge para apurar o que se passou. Já pensaste que pode não passar de um tremendo engano teu?
- Já sim, já pensei. Mas… fico a pensar se ele me contará a verdade.
- Já alguma vez tiveste razão para não confiar nele?
- Não, nunca.
- Estás a ver?… Então, porque não lhe dás o benefício da dúvida?
- Eu dou. Assim que sair daqui vou para casa, porque sei que ele me espera para conversarmos. Deixou-me uma mensagem no telemóvel a dizer que sabia que tínhamos de conversar.
- Mais razão me dás. Mariana…
- Sim?
- E o que sentes pelo Francisco? Diz a verdade. Ou melhor: não precisas de me dizer a mim. Pensa bem em tudo o que me contaste, naquilo que sentes e no que pretendes do teu futuro.
- Apenas sei que o Francisco mexe muito comigo. Sempre teve esse condão: de me deixar de pernas bambas e a tremer. Depois… o prazer que sinto com ele é… diferente, é descomunal. Não sei como explicar, mas nunca senti nada assim com o Jorge.
- Mas tu sabes que…
- Já sei o que vais dizer e sim, o sexo não é tudo numa relação. Olha, não sei… vou conversar com o Jorge e… depois se vê.
- Tens sempre a possibilidade de… vires para Paris, a capital do amor – gracejou Teresa – viver sozinha, num belo apartamento perto de «les Champs Elysées».
- Não me fales em amor que nem quero pensar nisso.
- Dizes tu agora – disse Teresa, soltando uma gargalhada.
E, com aquele desanuviar de conversa, saíram do restaurante e desceram a rua estreita até chegarem à avenida principal.
- Bem, lá vou eu saber do meu futuro.
- Céus, rapariga, parece que vais para a forca.
- Não sei, Teresa, isso é o que vou ver. O meu problema é a reacção de Jorge quando lhe contar sobre o Francisco, pois acho que não vou poder esconder, não me sentiria bem.
- Diz-me depois alguma coisa, para eu saber se estás bem.
- Prometido. Ligo-te logo à noite ou amanhã.
- Até logo, Mariana.
- Até mais ver, Teresa.
E afastaram-se, cada uma na direcção do seu carro, estacionados a alguns minutos dali.
Chegando ao carro, Mariana tirou o telemóvel da mala e ligou-o. Mal tinha colocado o carro a trabalhar, quando ouviu o sinal de que tinha mensagens de voz. Ouviu a primeira de Jorge:
«- Mariana, por onde andas? Estou a ficar louco de preocupação. Não me chega dizeres que estás bem, diz-me onde estás e o que se está a passar. Liga-me, por favor. Amo-te muito»
A outra era de Francisco:
«- Mari, porque saíste sem me acordar e sem nada dizer? Já tentei ligar várias vezes e tens sempre o telemóvel desligado. Diz-me alguma coisa. Queres jantar hoje? Vou confessar-te uma coisa: não consigo parar de pensar na nossa noite. Sabes o que sinto? Como se tivesse regressado finalmente a casa. És tu quem me faz sentir assim. Por isso nunca te esqueci. Logo que oiças a mensagem, liga-me. Adoro-te, querida. Beijos.»
Jogou o telemóvel para o assento do lado com vontade de dar um grito brutal. Mas, porque raios estava metida neste problema? O que é que poderia fazer? Como resolver esta situação?
Cascais já ficara para trás, quando, já de auricular colocado, resolveu ligar para Jorge que atendeu ao primeiro toque, como se tivesse o telemóvel na mão.
- Mariana?
- Olá Jorge.
- Onde estás, amor? Por favor, vem para casa. Estou doido de preocupação, sem nem saber o que fazer.
- Não te preocupes, eu já estou a caminho, chego a casa daqui a uns vinte minutos.
- Mas estás em que sítio?
- Cascais. Almocei aqui com uma amiga. A sério, eu não demoro a chegar.
- Está bem, estou à tua espera. Um beijo
- Beijo e até já.
E, agora deveria ligar para Francisco, mas hesitou. Não sabia se o deveria fazer.
Resolveu que ligaria para ele mais tarde, preferindo optar por lhe enviar uma sms:«Francisco, precisei sair e estar um pouco sozinha com os meus pensamentos. A noite passada foi uma loucura e eu não sei ainda o que pensar. Foi bom demais, mas não me sinto bem por causa do Jorge. Vou para casa descansar. Ligo-te mais logo. Beijo.»
E desligou o telemóvel.
O importante agora seria o diálogo com Jorge, o seu marido.

Fim do Acto VII

Sutra

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